Belezas e gritos do 12º intereclesial
das CEBs
Delze dos Santos Laureano[1]
e Gilvander Luís Moreira[2]
“Vi, então, um novo céu e uma nova terra ...
um rio de água viva ... No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas
árvores da vida; elas dão fruto doze vezes por ano; todo mês elas frutificam;
suas folhas servem para curar as nações.” (Ap 21,1; 22,1-2).
“Gente simples, fazendo coisas pequenas, em
lugares não importantes, conquistam coisas extraordinárias.” Essa frase,
proferida por Dom Moacyr Grechi, arcebispo da arquidiocese de Porto Velho, com
gostinho de profecia, mas ao mesmo tempo dando-nos a certeza de que somente a
partir dos pequenos, com os pequenos, na base da Igreja e da sociedade,
poderemos criar em uma vida melhor, mais justa e mais fraterna, porquanto
verdadeiramente cristã, deu o tom e se tornou uma das bandeiras do 12º intereclesial
das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base. O 12º Encontro Nacional das CEBs
aconteceu, de
Se
participar das CEBs já é bom, imagine o encontro de mais de cinco mil pessoas entusiasmadas
que acreditam em uma “Terra sem males” e em “Um novo céu e uma nova terra”,
reunidas em um verdadeiro paraíso terrestre que é a vida em comunidade e pela
primeira vez tendo como palco a Amazônia. Somente visitantes éramos mais de
três mil pessoas, entre delegados das CEBs, assessores, coordenadores/ras, bispos,
padres, freiras e convidados de mais de vinte países. Tivemos a graça de ver
caminhando com o povo, participando da maioria dos eventos, como simples
mortais, e sendo acolhidos nas mesmas famílias e alojamentos, 55 bispos, além
do presidente da CNBB[3],
Dom Geraldo Lírio Rocha, que, ao final, legitimados pela 5ª Conferência
Episcopal da América Latina e Caribe, no Documento de Aparecida, demonstraram o
compromisso de fortalecer a caminhada das CEBs no Brasil e na América Latina.
A
escolha do lugar do encontro não poderia ter sido melhor. A viagem de quatro ou
cinco dias, de ônibus por terra ou de barco por água, não desanimou os
participantes das mais remotas comunidades espalhadas pelo interior do Brasil. CEBs
de todas as Dioceses da Igreja Católica do Brasil estavam lá representadas. A
acolhida foi fraterna e não deixou dúvidas acerca do que é ser verdadeiramente
cristão. Mais de dois mil voluntários/as de Porto Velho e cidades vizinhas integraram
as dez equipes de serviço. Não faltava nada, porque a partilha permeou todas as
ações. Se o clima era quente, o calor humano foi bem maior. Imagine se fôssemos
por na ponta do lápis o custo desse 12º intereclesial, não fosse a
solidariedade de tantos? O milagre da partilha aconteceu. Houve fartura de
tudo: mais de três mil famílias abriram corações e residências para acolher
graciosamente os quase três mil delegados das CEBs, comida preparada com muito
carinho e cuidado, gente disposta a dar informações, disponibilizar carros,
computadores e dons para o embelezamento dos espaços e preparação dos presentes/lembrancinhas
que todos puderam levar para casa. Mais de sessenta ônibus transportaram o povo
do Ginásio do SESI, transformado em “porto”, para os 12 “rios”, plenárias de
270 pessoas mais ou menos, que se subdividiam em 12 “canoas”, grupos de
Fomos
recebidos como irmãos/ãs desde o aeroporto, ou porto ou na descida dos ônibus
que levaram os participantes do norte, do sul, do sudeste, do leste, do
centroeste e do oeste do Brasil. Equipes de acolhida recebiam os participantes
cantando as músicas que animam as CEBs. Um largo sorriso e um abraço de boas-vindas
davam o tom da hospitalidade experimentada por todos. Já no primeiro dia, tiveram
início as diversas atividades preparadas ao longo dos quatro anos que
precederam o 12º intereclesial. A passagem do trem das CEBs por Rondônia foi
decidida em Ipatinga, Minas Gerais, em julho de 2005, no 11º intereclesial. Seguindo
a metodologia tradicional das Comunidades - ver, julgar, agir e celebrar -, os
milhares de participantes saíram e chegaram do “porto”, seguindo para os 12 “rios”
e depois para as 144 “canoas”. O porto,
situado na sede do SESI de Rondônia - foi o local das grandes plenárias, onde
aconteceram as grandes celebrações, conferências, testemunhos de pessoas
proféticas[4]
e os momentos culturais para o maior número de pessoas.
Nos
rios, ocorreram os momentos de preparação para ver a realidade e para a troca
de experiências. Esses espaços, cedidos por escolas e igrejas, foram batizados
de rio Araguaia, rio Tapajós, rio Tocantins, rio Guamá, rio Juruá, rio Gurupi, rio
Itacaiúnas, rio Madeira, rio Guaporá, rio Jari, rio Purus e rio Oiapoque. Nesses espaços ocorreram o estudo, debates,
mística e leitura orante da Bíblia, tudo temperado com muito canto e alegria. Foram,
sobretudo, momentos únicos de encontro com pessoas que jamais poderíamos imaginar
ter um dia essa oportunidade de encontrar. Gente nova, de lugares tão distantes
do Brasil e de outros países, muitos da América Latina, que trouxeram consigo tanta
riqueza espiritual e profética para partilhar. Conhecemos melhor, assim, a
nossa própria realidade e a realidade do outro.
Foi
nesses “rios” que aprendemos sobre os gritos e lutas que vêm da Amazônia e
também os gritos e lutas que vêm dos outros biomas brasileiros - Caatinga,
Cerrado, Mata Atlântica, Pampas - e da América Latina e Caribe. Finalmente, conhecemos,
em mutirão, quais são os sinais existentes na construção da tão sonhada “Terra
sem males” e de “Um novo céu e uma nova terra”. Em apertada síntese, podemos dizer que os
gritos e lutas partilhadas no 12º Encontro Nacional das CEBs podem ser
agrupados em cinco grandes gritos: o grito da terra, o grito das águas, o grito
das cidades, o grito das florestas, o grito das comunidades tradicionais.
O grito da terra
O
grito da terra ocorre em vista da constatação de que permanece concentrada a
terra no Brasil. A exploração capitalista somente dá lugar à monocultura,
impedindo que os trabalhadores do campo possam produzir o seu próprio alimento.
A falta de reforma agrária fomenta a violência, inibe a oportunidade de renda
para milhares de famílias de trabalhadores rurais e aumenta a tensão sobre os
territórios das comunidades tradicionais. Esses trabalhadores continuam sendo
explorados como bóias-frias ou são expulsos para as cidades para engrossar a
massa dos sem teto, sem emprego e dos marginalizados das periferias de todas as
cidades, pequenas, médias e grandes. No governo Lula não há o menor compromisso
em realizar a política de reforma agrária inscrita na Constituição.
O grito das águas
O
grito das águas vem dos rios poluídos, verdadeiros depósitos de lixo. Sobram os
metais pesados, resíduo da mineração, como o mercúrio, enxofre, cobre, zinco - sacolas
plásticas e garrafas pet. Faltam peixes, microfauna, água limpa e mata ciliar
para oxigenar os nossos rios. Não são somente os povos do sul do Brasil que
sentem na pele, nos olhos, no nariz e na alma a morte de seus rios,
transformados em canais de esgoto urbano e industrial. Também na Amazônia
constata-se a agressão irresponsável aos rios, patrocinada pelo governo federal - como é no sudeste/nordeste o caso da
Transposição do rio São Francisco - e para atender somente aos interesses
capitalistas. A construção de grandes obras do IIRSA – Iniciativa de Integração
da Infraestrutura Regional Sul Americana (era Plano; agora, já é programa em
implantação.) – ocorre à revelia de estudos consistentes dos impactos
ambientais que ocorrerão com o represamento de grandes rios como o Madeira,
principal afluente do rio Amazonas, onde ocorre a construção das hidroelétricas
de Girau e Santo Antônio. O curso do rio Madeira já foi desviado por meio de
barragem. Constatamos na Caminhada dos Mártires[5]
o imenso estrago ambiental provocado com a retirada da cobertura vegetal e com
a movimentação de toneladas de terra. Poderíamos enumerar em muitas linhas
todos os riscos da agressão irresponsável no Rio Madeira, que vai desde a mortandade
de peixes até as ameaças às comunidades ribeirinhas, provocadas pelas mudanças
no ambiente inclusive com o deslocamento de um enorme contingente de trabalhadores
do sul para a região, normalmente homens sem mulheres. Isso ocorre sem nenhum
cuidado em vista do rápido e massivo crescimento populacional. Outro projeto
ameaçador é a barragem/hidrelétrica do Rio Xingu. A luta contra este insano
projeto fez com que Dom Erwin Krautler, bispo da Prelazia de Xingu, Pará, e presidente
do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), chegasse atrasado ao 12º intereclesial.
Numa última e desesperada oportunidade, o bispo do Xingu tentou sensibilizar o Presidente
Lula procurando chamá-lo à realidade, para que não cometa na Amazônia os mesmos
crimes que os militares cometeram nos anos de 1970, quando começou em Altamira,
no Pará, na conhecida Terra do Meio, a construção da Rodovia Transamazônica.
Vem
da água também o grito contra a venda em garrafas pet do líquido da vida. Não
bastasse a mercantilização da água, que deveria ser um crime, já que é um bem essencial
à vida de todos os seres, os milhões de garrafas pet, descartadas diariamente
apenas para o consumo de água para a desedentação humana, acelera a poluição
irreversível de todo o ambiente, gerando enriquecimento para as mesmas empresas
transnacionais representantes do capitalismo financeiro especulativo:
Coca-cola, Pepsi, Nestlé. O comércio de água relega para segundo plano a
qualidade da água canalizada destinada à maioria da população e é, na maioria
das vezes, imprópria para o consumo humano.
O grito das cidades
O
grito das cidades já é realidade também na Amazônia. O avanço do agronegócio, a
retirada da floresta, e outras intervenções irresponsáveis no território
amazônico continuam expulsando de forma crescente milhares de famílias de
trabalhadores rurais, ribeirinhos, indígenas e quilombolas para as periferias
das cidades médias e grandes. O crescimento das atividades minerárias também
fez dobrar ou até triplicar a população em diversos municípios em menos de uma
década, como foi o caso de Paraupebas, no Pará, onde está localizada a
mineradora Vale. Além de continuar devastando as Minas Gerais, a Vale, e as
dezenas de mineradoras coligadas a ela, avança sobre a Amazônia, especialmente no
Pará. Há também o afavelamento em pequenas cidades próximas às obras
patrocinadas ou autorizadas pelo governo federal. As cidades não têm como responder ao
crescimento desordenado. A falta de infraestrutura multiplica os problemas de
saúde pública, de falta de moradia, de precariedade dos serviços de educação e
transporte, de acúmulo de lixo. A corrupção assola os espaços públicos, cuja
população, sem laços comunitários, não tem como articular mudanças para ocupar os
cargos públicos, eletivos ou não. Os políticos são os mesmos apadrinhados da
velha oligarquia das capitais dos estados.
O grito da floresta amazônica
Da
floresta amazônica vem o grito em vista do avanço da pecuária de corte e do
agronegócio capitaneado pela soja. A retirada da madeira e as queimadas têm
como principais mandantes os agropecuaristas, agora presenteados com um projeto
de lei que transfere para o Congresso Nacional a competência para estabelecer
os índices de produtividade, defasados desde a década de 1970, para a
exploração agropecuária no Brasil. Esses índices indicam se a propriedade
cumpre ou não a função social no aspecto do aproveitamento racional e adequado
do imóvel. A retirada dessa competência das mãos do governo federal significa a
manutenção de uma política agrária fundada na concentração de terras, cujos
proprietários são beneficiados com baixa tributação, mesmo com o uso inadequado
das terras subutilizadas. Enquanto no sul do país, em um hectare de terra são
criadas cinco cabeças de gado para o corte, na Amazônia são necessários cinco
hectares de terra para uma cabeça de gado. O preço irrisório da terra incentiva
a criação extensiva do gado, sem nenhum investimento para melhorar a técnica de
produção. Com isso perde a floresta amazônica, que é destruída em nome da
exportação de carne e grãos para a geração do chamado superavit primário, perde a humanidade, que assiste inerte ao
desaparecimento da única reserva florestal úmida do planeta.
Vem
da floresta também o grito contra o loteamento de terras públicas na Amazônia,
seja com a titulação, seja com o direito de manejo de florestas públicas. A
aprovação da Medida Provisória 458/09, convertida na Lei 11.952/09 pelo
Congresso Nacional, e sancionada pelo Presidente Lula, mostrou mais uma vez que
o crime compensa no Brasil. Por meio dessa lei foi legalizada a grilagem de
terra na Amazônia, favorecendo diretamente o agronegócio, que agora pode lançar
mão dos recursos públicos para a exploração nessas áreas. Como os agentes
financeiros, por força do Código Florestal, só podem financiar atividades
agropecuárias em imóveis que tenham averbadas as áreas de reserva legal, e como
a averbação da reserva legal depende de registro no Cartório, estavam os
agropecuaristas da Amazônia impedidos de ter acesso ao crédito. Agora, como
mero verniz de legalidade, está tudo
Quanto ao manejo de floresta, é “coisa para inglês ver”, já que, mesmo dispondo a lei – Lei 11.284/06 - que as áreas de florestas públicas deverão ser preferencialmente exploradas pelas comunidades tradicionais, na prática, em vista das dificuldades para a elaboração dos projetos e das exigências para comprovar a viabilidade econômica, somente empresas conseguirão participar das licitações. Resultado, o governo federal fornece agora os selos para a exportação de madeiras brasileiras e para o tráfico de plantas medicinais e outras riquezas essenciais para a vida dos povos da floresta. Aumenta assim as ameaças à vida das comunidades naqueles territórios.
Roberto
Malvezzi, da CPT, alerta: “A Floresta Amazônica ajuda o planeta a fazer seu
metabolismo. As florestas absorvem 20% do gás carbônico emitido na atmosfera.
Derrubada, não só deixa de cumprir seu papel na respiração de Gaia, como também
contribuir com a emissão de CO2 hoje fixado pela Floresta. Cumpre também papel
essencial no regime das chuvas. Hoje se fala em "oceano verde".
Sabe-se que o rio aéreo que vem da floresta para a região sul do Brasil,
inclusive outras países, é maior que o volume de água do próprio rio Amazonas.
Portanto, a derrubada da floresta terá conseqüências imediatas também para a região
sul e sudeste.”
O grito das comunidades tradicionais
As
comunidades tradicionais - povos indígenas, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, etc. - gritam diante do descaso dos diversos
governantes para com a sua existência. Gritam em face dos crimes praticados
pelos grileiros, pessoas e empresas, que vão para a Amazônia pensando em ganhar
muito dinheiro e com pouco esforço. Pessoas e empresas que enxergam nos rios
apenas recursos hídricos a serem explorados, que veem na Amazônia o eldorado
dos filmes de Far West, lugar de
matar índio e derrubar matas e enfrentar os mistérios de rios e natureza como
se isso fosse ato heróico. Ignoram-se os saberes, as culturas autóctones, a
mística e espiritualidade indígenas, a riqueza das formas como ocorrem as atividades
econômicas entre os diversos integrantes dessas comunidades simples. É absurda
a afirmação de que a manutenção de comunidades tradicionais atrapalha o
progresso (para quem?) porque não geram riquezas (para quem?). Não existe
nenhum estudo científico que tenha feito um levantamento sério acerca da
riqueza produzida nessas comunidades. Se somarmos o que o governo gasta com as
políticas de segurança pública – polícia, hospitais para atender vítimas da
violência, grandes obras viárias para escoar diariamente os automóveis
individuais nas cidades, ou o quanto seria gasto em transporte público e toda a
parafernália demandada para se sobreviver nas grandes cidades, veriam os
governantes que, além de estarem protegendo território e cultura, as
comunidades tradicionais são o que há de mais viável hoje no Brasil em vista da
crise financeira mundial e da crise ecológica.
O que aprendemos com tudo isso
Infelizmente
a Amazônia ainda é vista como uma enorme reserva de matéria-prima para a
exploração. Os povos amazônidas vivem naquela terra desde milhares de anos sem
que fosse preciso destruir o ambiente. Ainda existem 35 povos indígenas que
continuam vivendo dentro da floresta em profunda harmonia com a biodiversidade amazônica
sem nenhum contato com o mundo ocidental capitalista. Isso porque os povos
amazônidas sabem que não existe essa separação, seres humanos/ambiente. Os
seres amazônicos, todos, são ambiente. Sabiamente creem que da água é que nasce
a vida. Por isso, ensina Dom Moacyr Grechi, é preciso amazonizar o Brasil!
Um
jovem indígena, de 21 anos, filho de mãe cacique da tribo, em um dos “rios” do
12º intereclesial comoveu a todos ao testemunhar: “Nós, povos indígenas, não
queremos apenas terra para nossa gente sobreviver; queremos que a terra
sobreviva para que todos nós, todos os povos, inclusive os brancos, possamos
continuar vivendo juntos”.
A
Carta Final do 12º Intereclesial das CEBs às Comunidades celebrou vários
compromissos, entre os quais: “Comprometemo-nos a fortalecer as lutas dos
movimentos sociais populares: as dos povos indígenas, pela demarcação e
homologação de suas terras e respeito por suas culturas; as dos
afro-descendentes, pelo reconhecimento e demarcação das terras quilombolas; as
das mulheres, por sua dignidade e igualdade e avanço em suas articulações
locais, nacionais e internacionais; as dos ribeirinhos, pela legalização de
suas posses; as dos atingidos pelas barragens, pelo direito à terra
equivalente, pela restituição de seus meios de sobrevivência perdidos e
indenização por suas benfeitorias; as dos sem terra, apoiando-os em suas
ocupações e em sua e nossa luta pela reforma agrária, contra o latifúndio e os
grileiros; as dos Movimentos Ecológicos, contra a devastação da natureza, pela
defesa das águas e dos animais”.
No
último dia do 12º Intereclesial, líderes de oito religiões rezaram juntos e
assumiram conjuntamente vários compromissos, entre os quais: “Que nenhum ódio
nem nenhum conflito, que nenhuma guerra encontre um incentivo nas religiões. A
guerra não pode ser motivada pelas religiões. Que as palavras das religiões
sejam sempre palavras de Paz! Que as religiões guiem os corações na pacificação
da terra!”
Enfim,
na sua 12ª estação, o trem das CEBs, após 11 intereclesiais, ancorou no porto
de Porto Velho, onde realizou um verdadeiro Fórum Social Brasileiro das CEBs,
elevando as CEBs a Comunidades Eclesiais e Ecológicas de Base. Deu para sentir
que o Espírito de vida pulsa forte em toda biodiversidade amazônica, clama e
resiste. Sentimos também o axé, uma força de vida, que irrompe do bioma
amazônico. É apaixonante! Quem conhece a Amazônia e os amazônidas passa a amar
e a defender a vida e toda a biodiversidade.
Indicamos para aprofundamento
sobre CEBs:
O
livro texto-base do 12º Intereclesial das CEBs: Valdecir Luiz Cordeiro (org.), CEBs/ECOLOGIA
E MISSÃO - Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia, Ed. Paulus, São
Paulo, 2008.
Belo
Horizonte, 31 de julho de 2009.
[1]
Professora de Direito Agrário na
Escola Superior Dom Hélder Câmara,
[2] Frei e Padre Carmelita, mestre
[3] Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil.
[4] Dom José Maria Pires, o dom Zumbi,
arcebispo emérito da Paraíba, no alto dos seus 90 anos de idade, marcou
indelevelmente a todos com seu testemunho. Fez uma retrospectiva da luta do
povo negro desde quando foram desterrados da mãe África, jogados nos navios
negreiros e transformados em mercadoria, em “peça”, no Brasil. Condenou a
escravidão de ontem e a de hoje. Conclamou: “O negro e o branco são diferentes,
um não é superior ao outro. Devem conviver como irmãos”.
Dom
Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix da Araguaia, mesmo na
ausência física, esteve presente espiritualmente. Através de uma entrevista
gravada com ele, foi visto e ouvido no telão e, convivendo com o irmão
Parkinson, revelou estar ainda muito bem de cabeça. Exortou as CEBs a continuarem
na caminhada profética com espiritualidade libertadora. “A Igreja precisa
condenar o capitalismo, pois é um pecado social e mesmo assim não foi condenado
ainda”, bradou Pedro, o bispo pastor e profeta, cofundador da CPT – Comissão
Pastoral da Terra – e do CIMI – Conselho Indigenista Missionário.
[5] À tardezinha, realizamos a Caminhada dos
Mártires, em direção ao local onde está sendo construída a Usina Hidreloétrica
de Santo Antônio no rio Madeira. Vimos com nossos olhos o rio já desviado e em
cujo leito seco, ao som dos estampidos das rochas dinamitadas, está sendo
concretada a barragem da hidroelétrica. Celebramos ali Ato Penitencial por
todas as agressões contra a natureza e a vida humana. Defronte às pedreiras que
acolhiam as águas das cachoeiras de Santo Antônio, agora totalmente secas, ao
lado da primeira capela construída na região, no alto de uma grande pedra,
foram proclamadas as Bem-aventuranças evangélicas (Mt 5,1-12), sinal da teimosa
esperança dos pequenos, os preferidos do Deus da vida.