Frei Carlos Mesters fez uma longa
entrevista com o Apóstolo Paulo
Antes
da entrevista Frei Mesters faz uma introdução. Diz ele:
O objetivo deste subsídio é
abrir uma porta de entrada para a vida do apóstolo Paulo e, assim, oferecer uma
chave de leitura para as cartas que ele escreveu.
É uma
porta em forma de entrevista que procura fornecer a ficha completa do apóstolo.
Serve como exercício. Formulamos uma série de 40 perguntas e procuramos as
respostas na própria Bíblia e nas informações que temos do contexto daquele
tempo, tanto judaico como helenista-romano.
As
perguntas que fizemos revelam apenas alguns aspectos da vida de Paulo. Outras
perguntas poderão revelar outros aspectos da sua vida e da vida das comunidades
daquele tempo.
As
respostas são dadas na terceira pessoa e não na primeira pessoa de ``Eu,
Paulo'', como se esperaria numa entrevista. É por dois motivos: 1. Não tive
coragem; 2. Respondendo na primeira pessoa, fica mais difícil relativizar as
conclusões ainda incertas da pesquisa histórica em torno da vida de Paulo. Pois
nem tudo é certo e claro. Há vários pontos obscuros que não passam de
hipóteses.
Existe
uma discussão entre os exegetas sobre a autenticidade de várias cartas que a
Bíblia atribui ao apóstolo Paulo. Elas não seriam de Paulo, mas de um discípulo
de Paulo. Para a finalidade desta breve entrevista achamos não ser necessário
discutir esta questão difícil.
Tomamos
as cartas da maneira como aparecem na Bíblia. Um estudo mais aprofundado,
porém, não poderá ignorar a questão da autenticidade. A dúvida se alguma carta
é ou não é de Paulo não diminui em nada o seu valor como palavra inspirada de
Deus.
A
entrevista imaginária é feita depois da primeira prisão de Paulo em Roma, pouco
antes da sua morte, quando ele estava com mais ou menos 63 anos de idade.
Uma entrevista com o Apóstolo Paulo
I
Parte
1.
Qual é o seu nome?
O
primeiro nome é Shaúl ou Saulo (At 7,58), o que significa, ``implorado'',
``desejado''. Naquele tempo, além do primeiro nome em hebraico ou aramaico, era
costume ter um segundo nome latinizado ou helenista. O segundo nome era Paulo
(At 13,9). É este o nome que ele prefere e usa em todas as suas cartas. Outros
exemplos de nome duplo: João Marcos (At 12,12; 15,37), José Barsabas Justo (At
1,23), Simeão Niger (At 13,1), Tabita Dorcas (At 9,36).
2.
Quando você nasceu?
Paulo
deve ter nascido em torno do ano 5 da nossa era. Pois, quando escreveu a carta
para o amigo Filemon, ele já se considerava ``velho'' (Fm 9). Velho, conforme
os padrões daquele tempo, era a pessoa que tinha além dos 55 anos de idade. A
carta para Filemon foi escrita quando Paulo estava na prisão (Fm 9),
provavelmente na primeira prisão romana que durou dois anos, de 58 até 60.
Deduzindo os 55 anos de 60, se obtém o ano 5. Como se vê, o cálculo da idade e
da cronologia de Paulo depende de muitas conjeturas.
3.
Você nasceu aonde?
Paulo
nasceu em Tarso na Cilícia da Ásia Menor (At 9,11; 21,39; 22,3; cf. 9,30;
11,25). Tarso ficava a uns quinze quilômetros do Mar Mediterrâneo, perto da
embocadura do Rio Cidno que, pouco antes de entrar no mar, formava um grande
lago. Tarso era uma cidade enorme. Conforme os cálculos feitos por alguns
historiadores, tinha cerca de 300 mil habitantes. Ela possuía um porto muito
ativo, de grande movimento. A estrada romana que fazia a ligação entre o
Oriente e o Ocidente passava por lá. Tarso era também um importante centro de
cultura. Foi ainda em Tarso que o imperador Marco Antônio viu pela primeira vez
a Cleópatra (
4.
Sendo judeu, como é que você foi nascer numa cidade helenista? A sua família é
de lá ou migrou para lá?
São Jerônimo
(séc. IV) conservou uma tradição antiga conforme a qual Paulo teria nascido em
Giscala, na Galiléia. Esta tradição não pode ser verdadeira, pois contradiz a
afirmação de Lucas nos Atos dos Apóstolos, onde Paulo diz: ``Nasci em Tarso''
(At 22,3). Mas ela pode ter um fundo de verdade. É provável que a família de
Paulo tenha a sua origem na Galiléia e tenha migrado de lá para Tarso bem antes
do nascimento de Paulo. Naquele tempo, a migração de Judeus da Palestina para
as cidades costeiras do Mar Mediterrâneo era muito comum, desde o quinto século
antes de Cristo. Em todas elas havia comunidades judaicas bem organizadas que,
juntas, formavam a assim chamada diáspora. Havia uma comunicação muito intensa
entre as comunidades da diáspora e a cidade de Jerusalém que era o centro
espiritual de todos os judeus.
Assim
se entende como Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusalém (At 22,3;
26,4-5) e como ele tinha uma irmã casada que morava em Jerusalém (At 23,16).
Ele mesmo diz: ``O que foi minha vida desde minha juventude e como desde o
início vivi no meio da minha nação, em Jerusalém mesmo, sabem-no todos os
judeus'' (At 26,4).
5.
Quais os estudos que você fez, aonde e com quem?
Conforme
os costumes judeus da época, Paulo deve ter recebido a sua formação básica como
judeu, primeiro, na casa dos pais e, em seguida, na sinagoga local de Tarso e
na escola ligada à sinagoga. A formação básica comum dos judeus compreendia:
aprender a ler e escrever; o estudo da lei e da história povo''; a transmissão
da sabedoria da vida e das tradições religiosas; aprendizagem das orações. O
método era: pergunta e resposta; repetir e decorar; insistência na disciplina e
na convivência. Além disso, ainda em Tarso, ele deve ter aprendido a cultura
grega que ele conhecia e usava (cf. At 17,28).Além desta formação básica, Paulo
recebeu uma formação superior
6.
Você se formou como rabino, doutor da lei?
Quais
os cursos?Naquele tempo, não havia cursos como hoje. Havia os grandes mestres
que reuniam ao seu redor um grupo de discípulos. Na época de Paulo, isto é, no
primeiro século, ainda não havia uma graduação oficial para alguém poder usar o
título de rabino ou doutor da lei. Isto só aconteceu a partir da reunião de
Yabne, realizada em torno do ano 90 d.C. Naquela assembléia, os rabinos da
linha dos fariseus estabeleceram as condições para alguém poder ser admitido e
reconhecido como rabino. Paulo nunca usou o título de Rabino, e nunca foi
chamado como tal. Por isso, é pouco provável que ele tenha estudado para se
formar como rabino ou doutor da lei. No entanto, o conhecimento de que ele dá
provas nas suas cartas, mostra que, mesmo não sendo rabino oficial, possuía uma
sólida formação teológica, igual à dos rabinos.
O
estudo superior abrangia as seguintes matérias: 1. Estudo da Lei, a Tora,
através de leituras freqüentes, até conhecê-la de cor. 2. Estudo da Halaká,
isto é, da Tradição dos Antigos. A Halaká procurava regulamentar a vida do povo
de acordo com a Lei. Era a assim chamada Tradição Oral que tinha tanto valor e
autoridade quanto o texto escrito da Lei. Paulo estudou a Halaká dos fariseus e
não a dos saduceus (cf. Fm 3,5; At 23,6-8). 3. Estudo da Hagadá, isto é, das
histórias do passado, descritas na Bíblia. A maneira que se usava para lembrar
e contar as histórias do passado capacitava o aluno a ler os fatos do seu tempo
à luz da fé. 4. As regras do Midrash, isto é, da interpretação da Bíblia.
Midrash significa busca, do verbo darash - buscar. Indica a busca do sentido
que a Sagrada Escritura tem para a vida do povo e das pessoas.
7.
Quais as suas leituras preferidas?
Qual o
significado que a Bíblia tem para você?A leitura preferida de Paulo era, sem
dúvida, a ``Sagrada Escritura'', aprendida ``desde criança'', conforme o
costume do povo judeu da época (2Tm 3,15). Da Sagrada Escritura ele tirava ``a
sabedoria que conduz à salvação pela fé
Naquele
tempo, a Sagrada Escritura compreendia só os livros que hoje pertencem ao
Antigo Testamento, pois o Novo Testamento ainda não existia como escrito. Por
ora, existia só como comunidade nova, que comunicava vida nova e olhar novo. O
escrito do Novo Testamento estava sendo feito.
A
expressão Antigo Testamento vem do próprio Paulo (2Cor 3,14). Era uma maneira
nova de indicar a Bíblia, que deve ter desagradado aos irmãos judeus. Para
Paulo, o Antigo se tornava Novo através da vida nova e do olhar novo, nascidos
da conversão para Cristo na comunidade (cf. 2Cor 3,16). Paulo lia e
interpretava os livros do Antigo Testamento a partir deste novo olhar. Não
parava na ``letra que mata'', mas buscava o ``Espírito que comunica vida''
(2Cor 3,6). Procurava descobrir (darash - midrash) como toda a história antiga
estava orientada por Deus para encontrar em Cristo e na comunidade o seu
verdadeiro e definitivo sentido: ``Todas as promessas de Deus encontram nele o
seu SIM!'' (2Cor 1,20) ``Tudo foi escrito para nós que tocamos o fim dos
tempos'' (1Cor 10,11).
8.
Você tem alguma obra escrita?
Qual?Paulo
não escreveu nenhum livro, nenhum tratado, nenhuma ``epístola'' (entendida como
obra literária em forma de carta, dirigida a um público anônimo), mas escreveu
algumas cartas para as comunidades e para os companheiros de caminhada. As
cartas tratam de assuntos e problemas bem concretos da vida das comunidades e
das pessoas.
No
geral, Paulo segue o esquena normal das cartas daquela época: apresentação do
autor e dos destinatários, saudação inicial, etc. Geralmente ele ditava as
cartas a um secretário (cf. Rm 16,22) e, no fim, as assinava de próprio punho
(2Ts 3,17; Gl 6,11; 1Cor 16,21; Cl 4,18; Fm 19). Parece que só a carta para
Filemon foi escrita inteiramente pelo próprio Paulo, sem a ajuda de um
secretário.
Na
maioria das vezes, Paulo não escrevia sozinho, mas junto com os companheiros de
missão que aparecem ao lado dele na saudação inicial ou nas lembranças finais
das cartas (Rm 16,21-23: 1Cor 1,1; 16,19; 2Cor 1,1; Gl 1,2; Fm 1,1; 4,21; Cl
1,1; 4,10-13; 2Ts 1,1; 3Ts 1,1; 2Tm 4,21; Fm 1 e 23).
9.
Além dos estudos que fez, você aprendeu alguma profissão?
Qual e
por quê?Paulo tinha a profissão de fabricante de tendas e de outros objetos de
couro (At 18,3). Alguns exegetas acham que ele tenha aprendido esta profissão
durante a sua estadia em Jerusalém, enquanto estudava aos pés de Gamaliel.
Pois, assim dizem, o ideal do bom rabino era ter uma profissão e viver do
próprio trabalho. Neste caso, a profissão e o trabalho teriam um papel apenas
secundário na vida de Paulo. O importante seria o fato de ele ser rabino ou
doutor. Mas, como já vimos, ao que tudo indica, Paulo não estudou para ser
rabino ou doutor. Nem é certo que este ideal de rabino já existisse assim no
primeiro século. E como ainda veremos, a profissão e o trabalho tinham um papel
não secundário, mas central na vida de Paulo.
O mais
provável é que ele, como todo menino daquele tempo, tanto do mundo grego como
do mundo judeu, tenha aprendido a profissão do próprio pai, isto é, lá mesmo
10.
Seu pai era rico?
Tinha
grandes negócios?Paulo fazia questão de dizer que era ``Cidadão de Tarso'' (At
21,39) e ``Cidadão de Roma'' (At 16,37; 22,25) e que tinha este direito não
porque o comprou, mas por nascimento (At 22,28). Com outras palavras, recebeu-o
do pai. Isto quer dizer que o pai de Paulo não era pobre. Pelo contrário, era
da elite da cidade, pois chegou a apropriar-se do direito de ``Cidadão de
Roma'' a ponto de poder passá-lo para os filhos!
Alguns
intérpretes acham que o pai de Paulo, sendo fabricante de tendas, tenha
produzido tendas para o exército romano que precisava delas para as suas
numerosas expedições militares. Assim eles explicam como ele, sendo judeu,
possa ter recebido o título de ``Cidadão de Roma'' como um direito hereditário.
Deste
modo, é provável que Paulo tenha aprendido a profissão de fabricante de tendas,
não tanto para ter um meio de sobrevivência através do trabalho, mas muito mais
para poder suceder o pai na condução dos negócios. A conversão para Cristo,
porém modificou todos estes planos!
II
Parte
11.
Paulo, de que maneira a conversão para Cristo modificou seus planos?
Como Cidadão de Tarso, Cidadão de Roma, aluno de Gamaliel com formação
superior, criado e formado muito provavelmente para tomar conta da oficina do
pai, Paulo pertencia à elite da sociedade daquele tempo. Tinha diante de si um
grande futuro e a possibilidade real de uma brilhante carreira. Mas a entrada
de Cristo na sua vida modificou tudo isto!
Ele mesmo diz: ``Por causa dele perdi tudo e tenho tudo como esterco para poder
ganhar a Cristo e ser achado nele!' (Fil 3,8) ``O que era lucro, eu o tive como
perda, por amor a Cristo!'' (Fil 3,7).
Perdeu tudo! Qual o tudo que ele perdeu?Uma parte do tudo que perdeu era o
seguinte: a entrada de Cristo na sua vida o tirou de uma posição na sociedade e
o colocou em outra, bem inferior. Paulo mudou de classe. Em vez de empregador,
dono de uma oficina com seus empregados e escravos, acabou sendo ele mesmo um
empregado, um trabalhador assalariado com aspecto de escravo, que mal e mal
ganhava o suficiente para poder sobreviver e que dependia da solidariedade dos
amigos para não morrer de fome (2Cor 11,9; 2Ts 3,8).
A conversão para Cristo era um lado da medalha. O outro lado era a sua
identificação cada vez maior com os pobres, os assalariados, os escravos.
12. Explique-se melhor: depois de convertido para Cristo, o que foi que
você fez da profissão que aprendeu? Chegou a exercê-la? Como arrumava emprego?
A entrada de Cristo na sua vida
criou para Paulo uma situação nova e diferente, em que ele foi obrigado a
buscar uma outra maneira de sobreviver. De um lado, como que de repente, Paulo
foi cortado da comunidade judaica, perdeu o círculo de amizades que tinha e
deve ter perdido também sua clientela no meio dos judeus, pois eles chegaram ao
ponto de querer matá-lo (At 9,23). De outro lado, vivendo na nova comunidade
dos cristãos, Paulo foi enviado para a missão (At 13,2-3) e, durante mais de 14
anos, levou uma vida de missionário ambulante, sem domicílio, sem oficina e sem
clientela fixa. Como sobreviver nestas condições?
Como missionário ambulante, havia várias alternativas de sobrevivência, de
acordo com o costume dos professores, filósofos e missionários ambulantes da
época: havia alguns destes professores que impunham um preço pelo ensino que
davam; outros, mas bem poucos, viviam de esmolas que eles pediam nas praças; a
maioria, porém, se instalava em alguma casa de família de gente mais rica, como
professor particular dos filhos, e lá eles viviam, sem trabalhar com as mãos,
como filhos da casa, dependendo em tudo da família e recebendo dela até alguma
ajuda em dinheiro.
Ora,
Paulo, por uma questão de princípio, não aceitou nenhuma destas três
alternativas: embora reconhecesse aos outros o direito de receber um salário
(1Cor 9,14-15), ele mesmo fazia questão de não aceitar um salário pelo ensino
que dava, pois queria anunciar o evangelho de graça (1Cor 9,17-18); não
aceitava esmola nem ajuda para si, a não ser de uma única comunidade (Fil
4,15); não queria depender da comunidade nem ser peso para ela (1Ts 2,9; 2Ts
3,7-9; 2Cor 12,13-14).
Paulo
escolheu uma quarta alternativa: trabalhar com as próprias mãos (1Cor 4,12). E
neste ponto lhe foi de muito proveito a profissão que aprendeu, mas com uma
grande diferença: aprendeu a profissão como filho de pai influente e rico, e
acabou por exercê-la como operário necessitado, obrigado pelas circunstâncias
duras da vida a procurar um emprego nas oficinas perto do mercado das grandes
cidadesCícero, célebre orador e senador romano, dizia: ``Uma oficina não tem
nada que possa beneficiar um homem livre''. Por isso, para um homem livre como
Paulo, não era fácil conseguir um emprego. Em geral, as grandes oficinas
empregavam só escravos por serem mais baratos. Quando um homem livre procurava
trabalho em alguma oficina, ele fazia algo que o humilhava. Foi o que aconteceu
com Paulo. Ele escreve com certa ironia: ``Terá sido falta minha anunciar-vos
gratuitamente o evangelho, humilhando-me a mim mesmo para vos exaltar?'' (2Cor
11,7). Procurando emprego nestas condições, Paulo assumia a condição de um
escravo: ``Mesmo sendo livre, fiz-me escravo de todos'' (1Cor 9,19).
13. Por que você insiste tanto no valor do ``trabalho com as próprias
mãos''?
Na sociedade helenista,
trabalhar com as próprias mãos era visto como um trabalho próprio de escravo e
impróprio para um homem livre. O ideal dos gregos era uma vida intelectual sem
trabalho manual. Daí que os outros missionários, filósofos e professores
ambulantes, cultivando o ideal da época, não trabalhavam com as mãos e eram
sustentados pela comunidade. A comunidade, por sua vez, os acolhia de bom
grado, pois via neles um símbolo do ideal que todos queriam atingir. Embora
alimentado por todos e para todos, este ideal era viável apenas para uma pequena
elite.
Paulo
rompe com o ideal cultivado pela sociedade e pela cultura helenista. Pois ele
insiste em querer sustentar-se através do trabalho manual: “Vocês sabem como
devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada quando estivemos entre vocês,
nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga
e esforço, noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vocês. Não
porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo
para vocês imitarem'' (2Ts 3,7-10).
Apresentando-se
ao povo como um missionário que vive do trabalho de suas próprias mãos, ele faz
com que o evangelho entre por uma porta diferente, provoque uma ruptura na vida
do povo e lhe apresente um novo ideal de vida. Ele diz: ``Empenhem a sua honra
em levar uma vida tranqüila, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando
com as próprias mãos. Assim levarão uma vida honrada aos olhos dos de fora e
não passarão mais necessidade de coisa alguma'' (1Ts 4,11-12). Como entender o
alcance deste texto?
Apresentando-se
ao povo como um missionário que vive do trabalho de suas próprias mãos, ele faz
com que o evangelho entre por uma porta diferente, provoque uma ruptura na vida
do povo e lhe apresente um novo ideal de vida. Ele diz: ``Empenhem a sua honra
em levar uma vida tranqüila, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando
com as próprias mãos. Assim levarão uma vida honrada aos olhos dos de fora e
não passarão mais necessidade de coisa alguma'' (1Ts 4,11-12). Como entender o
alcance deste texto?
Paulo
deu o exemplo (1Ts 2,9; 2Ts 3,7-9; At 20,34-35; 1Cor 4,12). Ele era um homem
livre que não precisava trabalhar como um escravo. Como missionário ambulante,
ele podia ser sustentado pela comunidade, e a comunidade o aceitaria de bom
grado. Mas ele recusou este direito (1Cor 9,15). Fez questão de trabalhar com
as próprias mãos. Deste modo, ajudava os irmãos pobres a quebrar a ideologia
dominante e a perceber onde estava a fonte da verdadeira honradez. E foi
exatamente neste ponto que Paulo recebeu os maiores ataques dos outros
missionários que não chegavam a entender a sua atitude e que pensavam mais de
acordo com a ideologia dominante (1Cor 9,1-18; 2Cor 11,7-15).
Resumindo:
o trabalho ocupa um lugar central na vida de Paulo. Através do trabalho, ele se
tornou um exemplo vivo e ajudava as comunidades a compreender que era
precisamente na sua condição de trabalhadores e escravos que estava a base para
se poder criar uma situação nova em que o povo já não passasse necessidade.
14.
Qual o seu salário? Dá para viver? Tem outra fonte de renda?
Ao que
tudo indica, o salário de Paulo não deve ter sido alto, pois ele tinha que
trabalhar ``dia e noite'' para poder viver sem depender dos outros (1Ts 2,9;
2Ts 3,8). Ele fala de cansaço, provocado pelo trabalho manual (1Cor 4,12), e de
``vigílias'', (isto é, horas-extras) (2Cor 6,5; 11,27). Mas mesmo fazendo
vigílias, ele passava necessidade (2Cor 11,9). Não tinha dinheiro nem para
comprar comida e roupa, pois ele fala de fome e nudez (2Cor 11,27). Vivia como
um ``indigente'' (2Cor 6,10).
Um dos
motivos do salário insuficiente é o fato de Paulo estar sempre viajando e não
ter um domicílio fixo. Por isso, não conseguia montar uma oficina própria com
clientela estável, nem criar um nome de bom profissional que pudesse atrair os
compradores de tendas e de outros artigos de couro. Na maioria dos lugares por
onde passou, ele deve ter vivido de algum emprego, conseguido numa das oficinas
que costumavam ficar perto do mercado.
Em Corinto, teve a sorte de ter encontrado Áquila e Priscila, em cuja oficina
conseguiu um emprego (At 18,3). Em Éfeso, onde passou três anos, ao que parece,
não teve tanta sorte, pois de lá escrevia aos coríntios: ``Fatigamo-nos
trabalhando com as próprias mãos'' (1Cor 4,12). Ainda em Éfeso, Paulo ``ensinava
diariamente na escola de um tal Tiranos'' (At 19,9). Um texto variante,
conservado no assim chamado ``textus occidentalis'', diz que o ensinamento
diário era feito ``entre a quinta e a décima hora'', isto é, entre 11 da manhã
e 4 da tarde, ou seja, durante a hora do almoço e do descanso. O resto do
tempo, ele tinha que trabalhar na oficina, desde cedo da manhã até tarde da
noite (1Ts 2,9; 2Ts 3,8).
Outras
fontes de renda ele não tinha, a não ser uma ajuda que recebia só da comunidade
de Filipos (Fil 4,15; 2Cor 11,8-9). Quando necessário, ele sabia fazer coleta e
pedir dinheiro, não para si, mas para os outros, os pobres de Jerusalém.
Realizava, assim, a partilha (1Cor 16,1-4).
15. E o que você fez com o seu direito de cidadão? Como você participa da
vida pública da sua cidade? Como exerce os seus direitos?
Como
Cidadão de Roma, Paulo gozava de alguns privilégios: não podia ser flagelado,
não podia ser crucificado, podia apelar para o Supremo Tribunal em Roma, para
César. De vez em quando, ele recorria a estes privilégios: em Filipos, quando
foi preso e flagelado sem forma de processo (At 16,37); em Jerusalém, quando o
centurião romano quis flagelá-lo (At 22,25); em Ce saréia, quando corria perigo
de ser entregue na mão dos judeus e por eles ser assassinado (At 25,3.11).
Como
Cidadão de Tarso, Paulo fazia parte da elite da cidade. Cidadão era todo aquele
que era reconhecido oficialmente como membro da Cidade. Só os Cidadãos de uma
cidade eram considerados povo (dèmos) daquela cidade, e só os cidadãos é que
podiam participar dasassembléias, onde se tomavam as decisões com relação ao
destino da cidade. Este tipo de organização se chamava demo (povo) - cracia
(governo). Mas por mais que dissessem que era ``governo do povo'', o povo mesmo
não participava, pois não participavam os escravos e os libertos, nem os assim
chamados ``peregrinos'', isto é, moradores, estrangeiros, gente que veio de
fora. Participava só uma pequena elite.
Não
temos notícia da participação efetiva e direta de Paulo na vida política ou
pública da sua cidade. Mas o que sabemos é que ele participava ativamente na
vida e na organização da comunidade a que pertencia. Por exemplo, antes da
conversão, ele chegou a ser delegado oficial do Sinédrio para Damasco (At
9,1-2). O exegeta J. Murphy O'Connor acha que Paulo foi membro do Sinédrio,
isto é, do Supremo Tribunal da comunidade judaica. Depois da sua conversão,
Paulo participava intensamente da vida das comunidades cristãs a ponto de ser
indicado como responsável pela evangelização entre os pagãos (Gl 2,7-9).
16. Quais as funções e tarefas que você já exerceu na sua vida?
Sendo homem de participação
ativa, Paulo recebeu e exerceu muitas tarefas e funções. Sinal de que era uma
pessoa com qualidades de liderança. Percorrendo rapidamente os Atos dos
Apóstolos e as cartas, consegui encontrar dez tarefas ou funções de que Paulo
foi incumbido.
Uma
leitura mais atenta poderá descobrir outras. Eis a lista:
1. Testemunha auxiliar no apedrejamento de Estêvão (At 7,58; 8,1); 2.
Provavelmente, membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal de Jerusalém; 3.
Emissário do Sinédrio para Damasco em vista da perseguição aos cristãos (At
9,2; 22,5; 26,12); 4. Delegado da comunidade de Antioquia para Jerusalém (At
11,30); 5. Delegado da mesma comunidade de Antioquia para a missão em Chipre e
na Ásia Menor (At 13,2-3); 6. Delegado dos cristãos convertidos do paganismo
para o Concílio Ecumênico de Jerusalém (At 15,2); 7. Delegado oficial do
Concílio junto às comunidades cristãs do mundo pagão (At 15,22.25); 8.
Responsável oficial pela evangelização dos pagãos (Gl 2,7-9); 9. Organizador e
portador da grande coleta, feita nas comunidades cristãs do mundo pagão em
benefício dos pobres de Jerusalém, imitando assim o costume judeu dos dízimos e
da ligação estreita com a Igreja-Mãe (Gl 2,10; Rm 15,25-28; 2Cor 8-9; 1Cor
16,1-4; At 24,17);
17. Você que viajou tanto, quais os países que visitou e qual o seu
domicílio atual?
Naquele tempo não havia países como hoje. Havia o grande império romano
que era como um mosaico enorme, feito de reinos, povos, cidades, tribos. Cada
pedrinha do mosaico mantinha a sua autonomia relativa e suas próprias leis, mas
todas juntas estavam integradas e organizadas dentro dos interesses comuns do
grande império, a saber: pagar os impostos e as taxas; não fazer guerras entre
si; fornecer soldados para o exército romano; reconhecer a autoridade divina do
imperador.
Por
este império imenso Paulo andou, viajando por mar e por terra. Andou pelas
estradas imperiais, a pé, ao todo mais de 15 mil quilômetros!Pelo que se sabe,
de todas as épocas da antigüidade, a época
Ora, os
cristãos souberam utilizar esta rede de estradas para a difusão do Evangelho.
Eles viajavam muito entre as várias cidades. Estabeleceu-se uma rede de
comunicação entre as comunidades. Vale a pena você passar o pente pelos Atos
dos Apóstolos e pelas Cartas de Paulo e fazer um levantamento minucioso das
viagens dos primeiros cristãos: quem viajava; de onde para onde; com que meios;
por que estradas; com que finalidade; etc.
Paulo nasceu em Tarso na Cilícia da Ásia Menor, criou-se em Jerusalém na
Palestina, foi enviado a Damasco na Síria. Depois da sua conversão andou pela
Arábia. Passando por Jerusalém, voltou para Tarso e, alguns anos depois, veio
morar na comunidade de Antioquia na Síria. De lá foi enviado para a missão e,
junto com os companheiros, andou por muitas regiões, sem parar: Chipre,
Panfília, Pisídia, Licaônia, Galácia, Mísia, Macedônia, Acáia, Grécia, etc.
Passou pela Ásia e entrou para a Europa. Andou de navio pelo Mar Mediterrâneo e
foi até Malta e Roma. Tinha projeto de viajar até a Espanha.
O domicílio
natural de Paulo era Tarso. Mas depois que tomou consciência da sua missão, não
teve mais domicílio fixo. Era um peregrino sem repouso. Vivia em canto nenhum,
e se sentia em casa em todo canto (1Cor 4,11).
18.
Como é que você faz para se comunicar com tanta gente difrente? Quantas línguas
você fala e onde as aprendeu?
Paulo
falava o grego (At 21,37), aprendido em Tarso, sua cidade natal, e escrevia
corretamente, como o comprovam as suas cartas. O grego era a língua comum
(koinè) do comércio e do império, como o inglês hoje
Paulo
falava também o hebraico (At 21,40; 26,14), língua na qual foi escrita a maior
parte do Antigo Testamento e que se usava quase exclusivamente na celebração da
palavra nas sinagogas. Falava ainda o aramaico que era a língua falada pelo
povo da Palestina. Não se sabe se ele falava também o latim dos romanos de
Roma.
19.
Você tem algum problema de comunicação? Como o resolve?
Paulo
deve ter tido muitos problemas de comunicação por causa da grande variedade de
línguas faladas pelos diferentes povos do império romano. Ele falava em grego,
mas nem todos os ouvintes entendiam o grego. Seria como falar em português aos
índios do interior de Roraima. Nem todos os índios entendem o português.
Assim,
na região dos gálatas, no centro da Ásia Menor, a língua materna do povo era o
dialeto gálico, língua parecida com o francês. Fazia pouco tempo que os gálatas
tinham migrado da Europa para aquela região da Ásia Menor. Muitos deles não
entendiam nada do grego de Paulo. Paulo resolvia o problema da falta de
comunicação com gestos e desenhos. Pois ele lembra na carta: ``Diante de vocês
foi desenhada a imagem de Jesus crucificado'' (Gl 3,1).
Mas nem
sempre resolvia o problema com tanta facilidade. Certa vez, em Listra na
Licaônia da Ásia Menor, depois da cura de um paralítico por Paulo e Barnabé, o
povo exclamou: ``Deuses em forma humana vieram até nós!'' (At 14,11) O povo
falava em língua licaônica que Paulo não entendia. Por isso não percebeu que o
povo estava querendo prestar-lhe um culto divino e oferecer-lhe um bezerro como
sacrifício de louvor e ação de graças. Foi um equívoco muito desagradável.
Provavelmente, foi por meio de um intérprete que conseguiram desfazer o
equívoco. (At 14,14.18).
III
Parte
20.
Qual a sua nacionalidade? Mudou alguma vez?
Naquele
tempo não era como hoje. Hoje em dia, a nacionalidade de alguém tem a ver com a
sua pertença a uma nação-estado que concede ou nega cidadania e passaporte aos
seus membros. Naquele tempo, a nacionalidade tinha a ver com a pertença da
pessoa a uma nação-raça. Ou seja, Paulo, apesar de ser natural de uma cidade
helenista na Ásia Menor, conservava a consciência muito clara de ser da raça de
Israel (Fm 3,5), descendente de Abraão (2Cor 11,22), da tribo de Benjamim (Rm
11,1), hebreu (2Cor 11,22), judeu (At 22,3). Ele dizia: ``Vivi no meio da minha
nação aqui em Jerusalém'' (At 26,4). E neste ponto, apesar de tantas viagens e
mudanças, mesmo apesar da sua conversão para Cristo, ele nunca mudou de nacionalidade,
isto é, nunca deixou de ser judeu. Nunca esqueceu a sua origem. No entanto, a
experiência de Cristo ressuscitado na sua vida fez com que ele, sem deixar de
ser judeu, percebesse os limites da sua nacionalidade. Para ele, ser da raça de
Israel já não era título de privilégio diante de Deus, pois, ``tanto os judeus
como os gregos, estão todos debaixo do pecado'' (Rm 3,9). Todos,
indistintamente, necessitam da graça que vem por Jesus Cristo (Rm 3,23-24). Já
não há mais distinção entre judeu e grego (Rm 10,12). Paulo se fez judeu com os
judeus, sem lei com os sem lei, para ganhar todos para Cristo (1Cor 9,20-23).
Em Cristo, todos são iguais (1Cor 12,13; Gl 3,28; Cl 3,11).
21.
Você é judeu e cidadão romano. Como é que consegue combinar estas duas coisas?
Não era
fácil combinar estas duas coisas. O cidadão romano tinha a obrigação de
participar do culto ao imperador, coisa que era absolutamente proibida aos
judeus em nome da sua fé
Desde
os tempos de Júlio César, entre 47 e
22.
Como cidadão romano, você chegou a prestar serviço militar?
Um
cidadão romano era obrigado a prestar serviço militar nas legiões romanas. Mas
é provável que Paulo tenha ficado isento, pois, como já vimos, os judeus
conseguiram o privilégio da isenção do serviço militar por vários motivos,
todos religiosos: 1. o serviço militar dificultava a observância do sábado; 2.
impedia a observância da lei da pureza e dos costumes alimentares próprios; 3.
exigia dos soldados o culto ao imperador, proibido aos judeus em nome da sua fé
em Deus.
23. Você já teve problema com a polícia? Sofreu alguma perseguição?
Muitas
vezes! Desde a sua primeira viagem missionária, ou melhor, desde o dia da sua
conversão, Paulo encontrou resistência, era perseguido e molestado. Para
impedir ou dificultar a ação de Paulo, os seus adversários recorriam à força da
polícia, ao poder das autoridades ou a outros meios de pressão: em Damasco (At
9,23-24), em Jerusalém (At 9,29), em Chipre (At 13,8), em Antioquia da Pisídia
(At 13,50), em Icônio (At 14,5), em Licaônia (At 14,19), em Filipos (At 16,22),
em Tessalônica (At 17,5-9), em Beréia (At 17,13), em Corinto (At 18,12), em
Éfeso (At 19,23-40), em Jerusalém (At 21,27-30). Ele mesmo informa que, ``foi
flagelado três vezes. Cinco vezes recebeu 40 golpes menos um'' (2Cor 11,25).
Uma vez, a polícia salvou a vida de Paulo. Foi em Jerusalém, quando ele corria
perigo de ser linchado pela multidão na praça do templo. (At 21,31-32).
24. Você já teve problema com a justiça? Já teve que comparecer diante
do tribunal?
Em
Corinto, pressionado pelos judeus, Paulo teve que comparecer diante do tribunal
romano, onde Gallio, irmão de Sêneca, era pro-consul. Este deu ganho de causa a
Paulo contra os judeus (At 18,12-16).
Em
Jerusalém, a pedido do centurião romano, Paulo teve que comparecer diante do
tribunal dos judeus, o sinédrio (At 22,30). Foi nesta ocasião que ele provocou
um conflito entre os membros do próprio tribunal ao dizer que estava sendo
julgado pela sua fé na ressurreição (At 23,6-7). Deste modo, jogou os fariseus
contra os saduceus e conseguiu impedir que fosse condenado. Nem houve
julgamento (At 23,8-10).
Levado
para Cesaréia, Paulo teve que comparecer diante de Félix, o governador romano,
que protelou o assunto e o deixou preso, sem julgamento, durante dois anos (At
24,22-27). Festo, o novo governador, quis que Paulo fosse julgado no tribunal
de Jerusalém (At 25,9). Foi nesta ocasião que Paulo apelou para o tribunal de
César em Roma (At 25,10-11). Ele sabia que a proposta de se fazer o julgamento
em Jerusalém era apenas um pretexto para poder assassiná-lo numa emboscada
durante a viagem para lá (At 25,3).Em Roma, ele continuou preso, por mais dois
anos, aguardando o julgamento que, ao que tudo indica, não aconteceu por falta
de provas (At 28,30-31).
25.
Quantas vezes já esteve preso, aonde e por quê?
Paulo
foi preso várias vezes: em Filipos (At 16,23), em Jerusalém (At 21,33), em
Cesaréia (At 23,23), em Roma (At 28,20). Além disso, ele deve ter sofrido uma
prisão muito pesada em Éfeso, de onde mandou cartas para os Filipenses (Fil
1,13), para os Colossenses (Co 4,18) e, talvez, para Filemon (9 e 13). A prisão
em Éfeso foi tão pesada, que ele chegou a perder a esperança de sobreviver
(2Cor 1,8-9). Foi como ``uma luta contra animais selvagens'' (1Cor 15,32). Ele
mesmo, fazendo um resumo da sua vida, sugere que passou por muitas prisões
(2Cor 11,23).
O
motivo aduzido pelos adversários para prendê-lo nem sempre era o mesmo. Em
Filipos, a acusação diz a propósito de Paulo e Silas: ``Estes homens estão
provocando desordem em nossa cidade; são judeus e pregam costumes que a nós,
romanos, não é permitido aceitar nem seguir'' (At 16,20-21). Em Jerusalém, os
judeus gritavam ao povo contra Paulo: ``Israelitas, socorro! Este é o homem que
anda ensinando a todos e por toda a parte contra o nosso povo, contra a lei e
contra este lugar. Além disso, ele trouxe gregos para dentro do ``Templo,
profanando este santo Lugar'' (At 21,28). Em Cesaréia, o governador recebeu a
seguinte escrita do oficial romano de Jerusalém a respeito de Paulo:
``Verifiquei que ele era incriminado por questões referentes à lei que os rege,
não havendo nenhum crime que justificasse morte ou prisão'' (At 23,29). E
diante do tribunal a acusação dos próprios judeus dizia: ``Verificamos que este
homem é uma peste: ele promove conflitos entre os judeus do mundo inteiro e é
também um dos líderes da seita dos nazareus. Ele tentou inclusive profanar o
templo; por isso, o prendemos'' (At 24,5-6).
Apesar
de preso, Paulo continuava livre: escrevia cartas e anunciava o Evangelho ``com
firmeza e sem impedimento'' (At 28,31).
26.
Dizem que você é uma pessoa doente. É verdade? Como vai de saúde?
Paulo
deve ter tido uma saúde de ferro para poder levar a vida que levou. Dos 40 aos
60 anos de idade, viajava a pé pelo mundo, percorrendo ao todo mais de 15 mil
quilômetros, suportando canseiras, prisões, açoites, perigos de morte,
flagelações, apedrejamento, naufrágios, perigos nas estradas, nos rios, nas
serras, perigos por parte dos judeus e por parte dos falsos irmãos, a
preocupação constante pelas comunidades, sem contar o trabalho profissional
como fabricante de tendas de manhã até à noite, com salário minguado que o
deixava com fome e sede e o obrigava a fazer vigílias e horas-extras (cf. 2Cor 11,23-28).
Só mesmo com muita saúde!
Mesmo assim, durante a segunda viagem missionária, a doença apareceu na vida de
Paulo e o obrigou a fazer uma parada forçada na Galácia da Ásia Menor (Gl
4,13). Ele aproveitou da ocasião para anunciar o Evangelho aos habitantes da
região e, assim, contribuiu para que surgisse a comunidade dos Gálatas.
Tratava-se, provavelmente, de uma doença nos olhos, pois os Gálatas queriam até
``arrancar os próprios olhos para dá-los a Paulo'' (Gl 4,15).
Alguns exegetas acham que o misterioso ``aguilhão na carne'', de que ele fala
na Carta aos Coríntios (2Cor 12,7), também tenha sido uma doença. É difícil
saber o que era na verdade, pois Paulo não o explica.
O fato
de Paulo mostrar-se preocupado com a saúde dos companheiros e de recomendar a
Timóteo que bebesse um pouco de vinho por causa do estômago e das freqüentes
fraquezas (1Tm 5,23), revela uma pessoa realista que sabia apreciar o imenso
dom de uma boa saúde.
27. Como você se distrai e se diverte? Tem algum passa-tempo? É
admirador de algum esporte?
É
difícil saber o que o divertia e distraía. Durante toda a sua vida, sobretudo
depois da sua conversão, aquilo que o ocupava e o dilatava por dentro era o que
ele chamava a agapè, o amor (1Cor 13,1-13). Por este amor, permitia que o outro,
a comunidade, entrasse dentro dele, ocupasse todo o espaço, morasse aí dentro
como o dono real da casa e o distraísse de si mesmo, do seu próprio centro,
para o bem-estar dos outros.
No fim
da vida, já depois dos 50 anos de idade, aquilo que mais o
ocupava e preocupava por dentro era ``a solicitude por todas as comunidades''
(2Cor 11,28). Ele não deve ter tido muito tempo nem ocasião para se divertir. É
difícil saber se tinha algum passatempo. Nas horas livres e nas horas de
trabalho na oficina ou no mercado, ele discutia o assunto da Boa Nova de Jesus
com o pessoal (At 17,11.17).
Mesmo
assim, tem alguma coisa nas cartas que nos revela o gosto e a preferência de
Paulo. Quando menino, ele deve ter gostado muito de assistir às corridas no
estádio da cidade, pois delas ele continua falando, até depois de velho, mesmo
para comparar a mensagem do Evangelho e as suas exigências para a vida (Gl 2,2;
5,7; 1Cor 9,24-26; Fil 2,16; 3,12-14; 2Tm 4,7; Hb 12,1).
Paulo é
nascido e criado em cidade grande. Tarso tinha mais ou menos 300 mil
habitantes. Uma cidade assim tinha o seu estádio de esportes e organizava os
seus jogos de atletismo, cada quatro anos: corridas, lutas, lançamento de
disco, acertar no alvo, etc. Paulo pode não saber muito de roça e de plantas,
mas ele entende de jogos urbanos. As comparações que ele usa são quase todas
tiradas dos jogos e ele supõe que os seus leitores as entendam: ganhar a coroa
(1Cor 9,25), prosseguir o alvo (Fil 3,14), alcançar o prêmio (Fil 3,14), lutar
sem soltar soco no ar (1Cor 9,26), correr na direção certa (1Cor 9,26). Ele
fala em ``luta'' e ``combate'' (2Tm 4,7), em ``pugilato'' (1Cor 9,26). Conhece
o esforço e a disciplina dos atletas (1Cor 9,25). Provavelmente, mesmo depois
de velho, ele acompanhava o resultado dos jogos e, quem sabe, torcia por algum
time!
28.
O que lhe causou mais tristeza na vida?
Paulo
teve muitas tristezas e problemas na vida. Ele as enumera na segunda carta aos
Coríntios (2Cor 11,23-29). Teve tristezas nas comunidades, sobretudo
Outro sofrimento muito grande de Paulo vinha dos ``falsos irmãos'' (2Cor
11,26), ou ``falsos apóstolos'' (2Cor 11,13). Os ``falsos irmãos'' eram judeus
convertidos que não concordavam com a abertura de Paulo com relação à entrada
dos pagãos na Igreja. Eles achavam que os pagãos, ao entrarem na comunidade,
deviam observar toda a lei e praticar a circuncisão (At 15,1.10; Gl 6,12-13).
Por
isso, procuravam solapar a base do trabalho de Paulo, dizendo que a sua
pregação não tinha a aprovação dos grandes apóstolos (Gl 2,1-10). Obrigaram
Paulo a fazer a sua defesa (cf. 2Cor 11 e 12). Se Paulo se defende, não é por
causa dele mesmo, mas por causa das comunidades por ele fundadas.
29.
Paulo, qual o lugar que a religião ocupa em sua vida?
Paulo
sempre foi profundamente religioso, tanto antes como depois da sua conversão
para Cristo. Antes da conversão, ele vivia conforme a lei e a esperança do seu
povo (At 24,14-15; 22,3; 26,6-7), identificado com o ideal da religião de seus
pais. Na prática da religião, ele seguia o grupo mais observante que era o
grupo dos fariseus (At 26,5). Ele mesmo confessa que era irrepreensível na mais
estrita observância da lei (Fil 3,6). Paulo era um homem de zelo (Fil 3,6; At
22,3), ``zelo pelas tradições paternas'' (Gl 1,14). Para defender a tradição
dos pais chegou a perseguir os cristãos (At 26,9; 22,4; Gl 1,13).
Era na
vivência fiel desta religião dos pais, que Paulo procurava a sua segurança
junto de Deus. O testemunho de Estêvão, porém, abalou-o profundamente. Foi o
começo da mudança!A conversão para Cristo significou uma mudança profunda na
vida de Paulo, mas não significou uma mudança ou troca de Deus. Pelo contrário!
Paulo continuou fiel ao mesmo Deus dos pais, pois em Jesus reencontrou e
reconheceu o mesmo Deus de sempre, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus
de Jacó. A diferença profunda entre antes e depois é que, agora, ele já não
coloca a sua segurança na observância da lei, mas no amor gratuito de Deus por
ele, manifestado e experimentado em Jesus (Gl 2,20-21). É na certeza absoluta
deste amor, que está o fundamento último da nova segurança que encontrou junto
de Deus (Rm 8,31-39).
30.
Explique melhor porque você aprovou a morte de Estêvão e perseguiu os cristãos.
Paulo procurava atingir a justiça através da observância da lei (Fil 3,5-6). A
sua vida e a vida do seu povo estava organizada e estruturada, desde séculos,
em torno do cumprimento das exigências da Aliança, que Deus tinha feito com seu
povo. Observando plenamente as cláusulas da Aliança, o povo teria alcançado a
justiça, seria justo. Esta era a teoria, a doutrina ensinada ao povo. A
prática, porém, era outra.
Na
prática, Paulo experimentava dolorosamente que ele, apesar de todo o esforço,
não era capaz de cumprir tudo o que a lei mandava. O seu esforço não bastava
para alcançar a justiça. Paulo continuava em falta com Deus e não alcançava a
paz da consciência. Queria fazer o bem e não o conseguia (Rm 7,14-24). Mesmo
assim, apesar da prática deficiente, ninguém duvidava da exatidão da doutrina
ensinada pelos fariseus.
O testemunho
de Estêvão, porém, abalou na raiz este mundo de Paulo e questionou radicalmente
a exatidão do caminho que ele seguia para alcançar a justiça e a paz com Deus.
Na hora de morrer apedrejado, Estêvão disse: ``Vejo os céus abertos e o Filho
do Homem de pé à direita de Deus'' (At 7,56). Neste testemunho, Estêvão dava
prova de estar na presença de Deus e de ser acolhido por Ele, tranqüilo, em paz
com a própria consciência, e, portanto, de possuir a justiça que Paulo
procurava e não alcançava. E mais: Estêvão possuía a justiça não como resultado
da observância da lei, mas como um dom gratuito de Deus através de Jesus, vivo,
de pé, à direita de Deus; o mesmo Jesus que, alguns anos atrás, tinha sido
condenado como herético e blasfemo pela suprema autoridade dos judeus e morrera
vergonhosamente numa cruz!Este testemunho tão breve e tão simples era a negação
radical do ideal de justiça de Paulo. Ou Estêvão, ou Paulo! Os dois não podiam
ser verdadeiros ao mesmo tempo. Eram dois caminhos totalmente diferentes, dois
mundos opostos! Ou um, ou outro!Paulo estava convencido de que o seu caminho
era o caminho certo.
Para
ele, o caminho de Estêvão era falso e corruptor dos bons costumes. Por isso,
aprovou a morte de Estêvão e começou a perseguir os cristãos. Agia por ignorância
(1Tm 1,13). Pensava estar prestando um serviço a Deus em defesa da tradição dos
pais. Mas no fundo, quem sabe, se Paulo procurava calar a voz de Estêvão e dos
cristãos, era porque queria abafar a voz da própria consciência que começava a
incomodá-lo. Paulo estava fugindo de si mesmo e de Deus, até que Deus interveio
e o derrubou na estrada de Damasco.
31.
Como foi a entrada de Jesus na sua vida? Qual o significado e o alcance que a
experiência na estrada de Damasco teve para você?
A
entrada de Jesus foi o divisor das águas. A vida de Paulo se divide em antes e
depois da experiência na estrada de Damasco. Os fenômenos externos que
acompanharam o processo interno da conversão e os termos e comparações usados
para descrevê-la sugerem que a entrada de Jesus na vida de Paulo não foi uma
brisa leve e tranqüila, mas uma tempestade violenta, repentina. Ela sacudiu
tudo e atingiu as fundações da sua existência. Fez desmoronar todo um mundo,
uma tradição antiga, montada desde séculos, e fez aparecer um novo começo.
Deus não pediu licença. Entrou sem mais e jogou Paulo no chão (At 9,4; 22,7;
26,14). Quando levantou, estava cego, e cego ficou durante três dias (At
9,8-9). Apesar de ser o guia do grupo, Paulo teve que ser guiado pelos próprios
súditos (At 9,8). Ele mesmo diz que o nascimento dele para Cristo não foi
normal. Deus o fez nascer de maneira forçada e violenta, através de um aborto
(1Cor 15,8).
Paulo
não estava esperando: ``Fui apanhado!'' (Fil 3,12). Mesmo assim, depois que
tudo aconteceu, teve que reconhecer que era isto que ele estava esperando desde
sempre. Foi para isto que Deus o separou e o colocou à parte, desde o seio
materno (Gl 1,15). Ele o viveu como sendo o seu destino, a sua vocação, a sua
missão. Uma quase fatalidade, da qual já não podia escapar: o seu destino,
agora, é anunciar o Filho de Deus entre os pagãos (Gl 1,16). É uma necessidade
para ele: ``Ai de mim se não anunciar o Evangelho!'' (1Cor 9,16). Ao mesmo
tempo, ele viveu aquela hora como um momento de misericórdia por parte de Deus.
Deus o acolheu, quando ele mesmo era insolente e perseguidor (1Tm 1,13). Foi o
momento em que superabundou nele a graça de Deus (1Tm 1,14). Foi assim que
Cristo o formou para o seu serviço. (1Tm 1,12).
Agora, para Paulo, o viver é Cristo (Fil 1,21). Já não é ele que vive, mas é
Cristo que vive nele (Gl 2,20). Paulo sabe que é amado: ``Ele me amou e se
entregou por mim!'' (Gl 2,20). Daqui para a frente, ele já não quer saber outra
coisa a não ser Jesus crucificado (1Cor 2,2). Quer completar na sua própria carne
o que falta na paixão de Cristo (Cl 1,24). Por amor a Jesus largou tudo para
poder possuí-lo a ele e ser encontrado nele (Fil 3,8-9). Participa da paixão de
Cristo para poder experimentar a sua ressurreição (Fil 3,10-11). Traz a agonia
de Jesus no corpo, para que se manifeste nele a vida (2Cor 4,10-12; Gl 6,17).
Paulo vive uma total identificação com Jesus morto e ressuscitado.
Por
causa desta experiência de Cristo morto e ressuscitado, tudo mudou na vida de
Paulo: de elite virou periferia, de livre virou escravo, de honrado virou
expulso, de rico virou pobre! (Veja respostas às perguntas
32. Qual foi a última razão que levou você a aceitar Jesus como
Messias?
Houve o
encontro na estrada de Damasco que derrubou Paulo e o deixou cego durante três
dias. Foi a experiência mais forte e mais duradoura da sua vida. No entanto,
não foi só isto que o levou a aceitar Jesus e a reconhecê-lo como Messias.
Dentro desta experiência, única e avassaladora, alumiou para Paulo a certeza de
que Jesus é o SIM de Deus às promessas feitas ao povo no passado (2Cor 1,20).
Com
outras palavras, aceitando Jesus como Messias, Paulo não estava sendo infiel ao
seu povo, nem estava deixando de ser judeu, mas se tornava mais judeu ainda. No
fundo, foi a vontade de ser fiel ao seu povo e às suas esperanças, suscitadas
pelas promesas de Deus, que o obrigava a aceitar Jesus como Messias. A sua
fidelidade a Cristo e a sua experiência de Cristo de um lado, e a sua
fidelidade ao seu povo e a sua experiência de povo de outro lado, eram como
dois lados da mesma medalha.
Paulo
nunca se sentiu traidor do seu povo, por mais que o acusassem disso. Ao
contrário, vivendo em Cristo, sentia-se mais judeu do que antes, possuidor da
esperança do seu povo. Era a fidelidade ao Antigo Testamento que o levou a
aceitar o Novo Testamento.
33. Você brigou com Barnabé no começo da segunda viagem missionária.
Por quê?
João
Marcos, sobrinho de Barnabé, acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem, mas
o abandonou na metade (At 13,13). Quando Paulo convidou Barnabé para uma
segunda viagem, este quis que João Marcos fosse junto outra vez (At 15,37).
``Mas Paulo era de opinião que não se devia levar junto aquele que os havia
abandonado na Panfília e não os acompanhara no trabalho'' (At 15,38). Foi aí
que os dois brigaram e se separaram, um do outro, por causa de Marcos (At
15,38-40).
Mais
tarde houve a reconciliação. Paulo tornou-se, novamente, amigo de Marcos e
reconheceu o valor dele para o anúncio do Evangelho, pois ele escreve a
Timóteo: ``Procure Marcos e traga-o com você, porque ele pode ajudar-me no
ministério'' (2Tm 4,11). E na Carta aos Coríntios, Barnabé é lembrado como
companheiro fiel e exemplar de Paulo (1Cor 9,6).
34. Você brigou também com Pedro. Foi pelo mesmo motivo?
A crise
mais profunda das primeiras comunidades surgiu por ocasião da entrada dos
pagãos na igreja. No começo, ninguém pensava em converter os pagãos. Só se
anunciava o Evangelho aos judeus (At 11,19). Caso um pagão quisesse entrar na
igreja, aplicava-se o costume antigo. Desde séculos, quando um pagão se convertia
para o Deus de Israel, ele devia assumir também todos os compromissos da
Aliança que este Deus tinha concluído com o seu povo, a saber, a observância da
lei de Moisés, a circuncisão, os costumes, etc. Esta era a teoria antiga que
continuava em vigor, aceita por todos. Mas a prática dos cristãos correu na
frente da teoria e modificou o quadro.
Em
Antioquia, os cristãos, todos eles judeus convertidos, fugidos de Jerusalém na
época da grande perseguição, começaram a falar de Jesus também aos pagãos (At
11,19-20). ``A mão do Senhor estava com eles, e bom número abraçou a fé e
converteu-se ao Senhor'' (At 11,21). Fato consumado! Os pagãos entraram, sem
passar pelas observâncias judaicas! Aí surgiu o problema teórico: Não pode!
``Se não forem circuncidados como ordena a lei de Moisés, vocês não poderão
salvar-se!'' (At 15,1).
Dividiu-se
a igreja! Um grupo, concentrado em Antioquia, tomou a defesa da entrada direta
dos pagãos, sem passar pela observância da lei de Moisés. Paulo e Barnabé
faziam parte deste grupo. Um outro grupo, concentrado em Jerusalém, dizia o
contrário: ``É preciso circuncidar os pagãos e impor-lhes a observância da lei
de Moisés'' (At 15,5). Alguns deste grupo eram fariseus convertidos (At 15,5).
Convocou-se
uma reunião, um Concílio, para resolver o problema e decidir a questão (At
15,6).
O
Concílio decidiu em favor da entrada dos pagãos, sem a imposição da lei de
Moisés e da circunsição. A decisão estava baseada na prática, nos fatos e na
experiência. A prática: tudo aquilo que acontecera nas viagens de Paulo e
Bamabé (At 15,3-4.12); os fatos: a conversão de Cornélio e o seu batismo por
Pedro (At 15,7-9); a experiência: a incapacidade sentida pelos judeus de
conseguirem a justiça através da observância da lei (At 15,10). Foi deste modo
que o Concílio releu e atualizou a teoria antiga e chegou à conclusão: ``É pela
graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos'' (At 15,11).A decisão do
Concílio foi um marco importante na história das primeiras comunidades. Mas nem
todos entenderam o seu alcance.
Alguns se apegavam à letra do documento conciliar (At 15,23-29) e negavam o seu
espírito. Ora, é dentro deste contexto das tensões pós-conciliares, que vai
aparecer a briga de Paulo com Pedro.Certa vez, Pedro chegou de visita na
comunidade de Antioquia. Fiel ao espírito do Concílio, convivia com todo mundo,
sem fazer distinção entre pagão e judeu (Gl 2,12). A essa altura chegou de
Jerusalém um grupo de gente mais conservadora que não se misturava com os
pagãos. Com medo das críticas deste grupo, Pedro se afastou dos pagãos (Gl
2,12). A mudança no comportamento de Pedro levou muita gente a fazer o mesmo.
``Até Barnabé se deixou levar pela hipocrisia'' (Gl 2,13). Foi um impacto muito
grande na comunidade.
Por causa de Pedro, os pagãos ficavam com a impressão de serem cristãos de
segunda categoria. Cristão mesmo, cem por cento, de primeira categoria, seria
só o judeu convertido que observava toda a lei de Moisés! Fiel à letra do
Concílio, Pedro, sem se dar conta, negava o seu espírito na prática. O seu comportamento
era, ``digno de censura'' (Gl 2,11).Quando Paulo percebeu a gravidade da
situação, reagiu fortemente e brigou com Pedro. Ele mesmo descreve o fato:
``Quando vi que eles não estavam agindo direito conforme a verdade do
Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos: ``Você é judeu, mas já viveu
como os pagãos e não como os judeus. Como então pode, agora, obrigar os pagãos
a viverem como judeus?'' (Gl 2,14).
A reação de Paulo revela a profundidade da experiência que ele teve no caminho
de Damasco. Foi lá que ele experimentou, de um lado, a própria incapacidade de
atingir a justiça pela observância da lei e, do outro lado, a misericórdia de
Deus que o acolhia de graça e lhe comunicava a justiça pela fé
35.
Por que você não casou? É contra o casamento?
Paulo
não era casado (1Cor 7,8). Alguns exegetas acham que ele era viúvo. Não sei
qual o argumento que eles têm para fazer tal afirmação. Paulo não se casou, não
porque era contra o casamento, mas porque não quis casar. Era a maneira como
ele via a sua vocação pessoal e procurava ser fiel a ela. O não querer casar
tinha a ver com a sua experiência pessoal de Cristo (1Cor 7,32) e com o fato de
que em Cristo o fim dos tempos já tinha chegado (1Cor 7,29-31; cf. Mc 12,25).
Mesmo
não casando, Paulo defendia o direito que ele tinha de casar (1Cor 9,5). Não
era contra o casamento. Pelo contrário, considerava como ``doutrina
demoníaca'', ``hipocrisia de mentirosos'' e ``fábulas ímpias de gente caduca''
a teoria daqueles que proibiam o casamento (1Tm 4,1-7).
36.
Muita gente não gosta de você por causa da sua atitude negativa para com as
mulheres. É verdade que você é contra a participação da mulher na comunidade?
Alguns
textos de Paulo causam real dificuldade. Neles, a mulher aparece em posição
inferior, não devidamente valorizada. Não é possível clarear toda esta questão
numa resposta breve como esta.
Vou
enumerar só alguns fatores a serem levados em conta num eventual estudo mais
aprofundado.
Em
primeiro lugar, não se pode esquecer que a cultura e a consciência daquele
tempo não eram as mesmas de hoje na questão da participação da mulher na vida
da comunidade. Aqueles mesmos textos de Paulo que quando comparados com hoje,
representam um retrocesso, podem representar um avanço, quando devidamente
situados dentro do contexto da cultura e da sociedade daquela época.
Em
segundo lugar, convém ver o contexto mais amplo da vida e da atividade do
próprio Paulo: a sua maneira de se relacionar com as mulheres; o papel que ele
reservava para as mulheres na vida e na organização das comunidades por ele
fundadas; quais e quantas mulheres que aparecem nas cartas, nas lembranças
finais e no relato das viagens.
Em terceiro lugar, convém lembrar que aqueles textos mais difíceis não expõem
uma doutrina universal a ser aplicada tal qual em todos os tempos, mas, na
maioria das vezes, querem resolver problemas concretos que estavam perturbando
a vida da comunidade. Por isso, além do contexto da cultura, da sociedade e da
vida de Paulo, deve ser examinado o contexto conflitivo da comunidade que levou
Paulo a escrever daquela maneira negativa sobre a participação da mulher.
Vejamos
como exemplo o texto de 1Tm 2,8-15, escrito para Timóteo, coordenador da
comunidade de Éfeso (1Tm 1,3). O que vou dizer tirei de um artigo de Alan
Padgett, Mulheres ricas em Éfeso; 1Tm 2,8-15 colocado dentro do seu contexto
social; publicado em inglês em 1987 na revista Interpretation, páginas
Na
comunidade de Éfeso infiltrou-se um grupo de falsos doutores (1Tm 1,3.6). Eles
inventavam doutrinas fabulosas (1Tm 1,3-4), interpretavam mal a Escritura (1Tm
1,7), não aceitavam a ressurreição (2Tm 2,18), proibiam o casamento (1Tm 4,3) e
declaravam más as coisas boas que Deus criou (1Tm 4,3-5). Faziam questão de
guardar as aparências de piedade (2Tm 3,5), mas na realidade fizeram da piedade
uma fonte de lucro (1Tm 6,5.9-10).
Como professores
ambulantes, de acordo com o costume da época, procuravam ser acolhidos nas
casas de famílias mais ricas (2Tm 3,6).
Era o
começo do gnosticismo penetrando nas comunidades.Ligado a este grupo dos falsos
doutores aparece o grupo de algumas mulheres. Pois, para realizar o seu
objetivo, aqueles doutores conseguiram influenciar e cativar algumas mulheres,
desejosas de aprender coisas novas (2Tm 3,6-7), sobretudo algumas viúvas bem
jovens ainda (1Tm 5,6-7.11). Provavelmente, eram mulheres recém-convertidas,
pois participavam ainda das ``instruções'' (1Tm 2,11; cf. 3,6). Eram ricas,
pois usavam objetos de ouro, pérolas e vestidos suntuosos (1Tm 2,9). Em todo
caso, não eram pobres. Por serem mulheres de certa posse eram visadas pelos
falsos doutores, pois, sendo ricas, elas podiam acolhê-los e sustentá-los, além
de oferecer outras vantagens e prazeres (1Tm 5,6.11; 2Tm 3,6).
Aquelas
mulheres tinham uma sede muito grande de saber: estudavam sempre (2Tm 3,7),
rodeavam-se de professores para aquilo que lhes convinha (2Tm 4,3), sem jamais
atingir o conhecimento da verdade (2Tm 3,7). Muito provavelmente, elas
procuravam o conhecimento em vista de uma liderança maior dentro da comunidade;
queriam ``ensinar e dominar'' (1Tm 2,12).
Influenciadas pelos falsos doutores, aceitavam qualquer doutrina estranha (1Tm
4,1-2), rejeitavam o casamento (1Tm 4,3; cf. 5,14), andavam de casa em casa,
(provavelmente, de comunidade em comunidade) (1Tm 5,13) e já não cuidavam da
própria família (1Tm 5,8), provocando brigas, discussões, raiva e fofocas (1Tm
1,4; 2,8; 5,13; 6,4-5). Destruíam a paz na comunidade.
Ora,
lendo o texto de 1Tm 2,8-15 contra este pano de fundo, fica claro o seguinte:
Paulo não fala sobre a mulher em geral, mas está pensando naquele grupo de
senhoras da comunidade de Éfeso. Ele não é contra que a mulher estude, mas pede
que aquelas senhoras estudem com calma e humildade enquanto ainda estiverem na
instrução inicial (2Tm 2,11). Não é contra a participação e a liderança da
mulher na comunidade, mas questiona as pretensões daquele grupo de viúvas ricas
que, por serem ricas, eram visadas pelos falsos doutores e deixavam
manipular-se ingenuamente por eles. Por isso pede que sejam mais modestas, para
não provocar ainda mais aqueles doutores (2Tm 2,9-10). Não quer ensinar que o
homem é superior à mulher, mas quer que, durante a fase da instrução inicial,
os responsáveis pelo ensino na igreja tenham precedência sobre os alunos,
sobretudo naquela época de tantas doutrinas variadas e estranhas (1Tm 2,11-12).
Não quer ensinar que toda mulher deva tornar-se mãe para poder salvar-se, mas
acha que, no caso daquelas viúvas jovens que desprezavam o casamento, só havia
um único jeito para elas se recuperarem, a saber, casar de novo e ser mãe (1Tm
2,15; 5,14-15).
Comparado com o contexto daquela época, este texto de 1Tm 2,8-15 representa um
avanço. Apesar de todas as reservas contra aquele grupo de senhoras de Éfeso,
Paulo supõe como sendo a coisa mais normal que a mulher receba instrução, coisa
que não era tão comum na sinagoga.
37.
Por que você não levantou a voz contra a escravidão e contra a exploração de
tanta gente pelo sistema do império romano? É verdade que você é amigo ou
simpatizante do império romano?
Aqui
também são vários os fatores que devem ser levados em conta para se poder
chegar a uma resposta mais ou menos completa, pois trata-se de um assunto
complexo e difícil. Como na resposta anterior, vou apenas indicar alguns destes
fatores a serem aprofundados num eventual estudo que alguém queira fazer do
assunto.
Em
primeiro lugar, a consciência a respeito da problemática social era diferente.
A situação dos cristãos no império romano era diferente da situação dos
cristãos hoje na América Latina. Hoje, na América Latina, nós cristãos temos
quase 500 anos de idade, somos mais ou menos 90% da população do continente e
temos uma tremenda responsabilidade histórica na origem da estrutura
anti-evangélica que existe por aqui. Nos tempos de Paulo, os cristãos não
tinham nem 30 anos de idade, não chegavam nem sequer a meio por cento da população
do império e, como cristãos, não estiveram presentes na origem quando foi
criado o sistema explorador do império romano.
Em
segundo lugar, o tipo de análise que hoje fazemos da sociedade não existia
naquele tempo. Havia consciência do problema social, mas este não era percebido
de maneira tão clara como hoje. A pergunta que fizemos a Paulo é legítima, mas
é uma pergunta a partir das nossas preocupações e a partir de nosso nível de
consciência e da nossa análise do problema social. Uma resposta mais completa
exigiria um uso maior das ciências sociais no estudo do texto de Paulo, o que
já está começando a acontecer na América Latina.
Em
terceiro lugar, convém lembrar que os judeus, desde a destruição de Jerusalém
em
Em
quarto lugar, Paulo teve uma experiência profunda de Deus. Uma experiência
assim relativiza todo o resto, tanto a riqueza como a pobreza, tanto o possuir
como o não possuir. Eis alguns textos: ``Vivemos como indigentes e, não
obstante, enriquecemos a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos'' (2Cor
6,10). ``Aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei
também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer
situação: viver saciado e passar fome; ter abundância e sofrer necessidade.
Tudo posso naquele que me fortalece!'' (Fil 4,11-13). ``Se temos comida e
roupa, contentemo-nos com isso'' (1Tm 6,8). ``O tempo se fez curto. Aqueles que
compram, sejam como se não comprassem; os que usam deste mundo, como se não
usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo'' (1Cor 7,29.30-31).
Em
quinto lugar, havia em Paulo uma consciência bem clara do novo tipo de
fraternidade a ser vivida na comunidade cristã. Nela devia estar superado todo
relacionamento de dominação proveniente da religião (judeu-grego), da classe
(livre-escravo), do sexo (homem-mulher) ou da raça (grego-bárbaro). Pois nela
não podia haver mais diferença entre ``judeu e grego, escravo e livre, homem e
mulher, grego e bárbaro'' (cf. Gl 3,28; Cl 3,11; 1Cor 12,13). Uma comunidade
assim não deixa de ser um fator profundamente revolucionário, uma semente
explosiva, mesmo que os seus membros não tenham plena consciência deste
aspecto.
Em
sexto lugar, comparando os conflitos da primeira viagem missionária (At
13,1-14,28) com os da segunda viagem missionária (At 15,36-18,22), percebe-se o
seguinte: 1. Um envolvimento progressivo do império e das suas instituições
nestes conflitos; 2. O império pode ter pessoas boas e simpáticas ao
cristianismo, como o procônsul Sérgio Paulo de Chipre (At 13,6-12), mas tem
leis e instituições que são usadas contra os cristãos (At 13,50; 14,5;
16,19-24.35-37; 17,5-9; 18,12-16); 3. Na primeira viagem, o conflito com o
mundo pagão era mais no nível religioso (At 14,8-18), enquanto na segunda
viagem já se situava mais no nível econômico (At 16,16-40) e no nível cultural
e ideológico (At 17,16-34); 4. Nestes conflitos, os cristãos aparecem como
gente sem poder: não conseguem que a opinião pública esteja a seu favor, nem
conseguem movimentar a classe alta a seu favor; 5. As instituições do império e
a classe alta conseguem ser usadas contra os cristãos por gente que se sente
prejudicada pela mensagem cristã, mas não conseguem ser usadas pelos cristãos
para defender a justiça e a verdade contra a injustiça e a falsidade. Tudo isto
revela uma incompatibilidade crescente entre o império e o evangelho.
Em
sétimo lugar, é possível que Paulo, como judeu da diáspora, tenha tido uma
certa simpatia para com o império romano. O mesmo se diga de Lucas que escreveu
os Atos dos Apóstolos. Mas mesmo tendo uma possível simpatia, Paulo não adaptou
o evangelho às suas simpatias, caso contrário, não teria provocado aquela escalada
progressiva do império contra as comunidades. E não convém esquecer que Paulo
morreu condenado pelo império romano por causa do amor que ele tinha ao
evangelho.
38.
Por que você ficou tão desanimado e enfraquecido depois daquele discurso
fracassado em Atenas? Você não é homem de ficar desanimado. Havia alguma razão
mais profunda?
Paulo
vinha vindo de uma maratona ao longo das cidades da Ásia Menor e da Grécia. Era
a sua segunda viagem missionária (At 15,36ss.). Tinha fundado várias
comunidades na Galácia, em Filipos, Tessalônica e Beréia. Em quase todas estas
cidades, ele foi perseguido e torturado. Teve que fugir várias vezes. Nada,
porém, era capaz de amedrontá-lo ou de desanimá-lo. Finalmente, ele chegou em
Atenas, capital da cultura helenista (At 17,15).
Convidado pelo pessoal que o escutava na praça do mercado, teve que expor suas
idéias no areópago (At 17,16-21). Preparou um discurso, no qual tentou
comunicar a Boa Nova de Jesus (At 17,22-31). O discurso não teve muito efeito.
Quando falou da ressurreição, os ouvintes se desinteressaram, zombaram dele e
suspenderam a sessão (At 17,32). Pouca gente acreditou (At 17,34). Ora, Paulo,
que parecia ter força e coragem para enfrentar qualquer contratempo, inclusive
perseguição, prisão e tortura, este mesmo Paulo perdeu o ânimo após o fracasso
da sua ação
Certos
defeitos escondidos só aparecem no decorrer da caminhada.
Aos poucos, os próprios fatos da vida vão tirando a casca, revelando quem somos,
de fato, frente a Deus e frente aos outros. A conversão é um processo
permanente, também para Paulo! Apesar de ter experimentado a gratuidade da ação
de Deus, dentro dele continuava ainda um resto da mentalidade das ``obras''.
Ele pensava poder derrubar e converter os pagãos com a força e a lógica dos
seus argumentos. Em vista disso montou um discurso bem feito (At 17,22-31),
baseado nas leis da lógica e da oratória. Mas teve que experimentar a total
inutilidade dos seus argumentos. Em vez de derrubar, foi derrubado na sua
pretensão de vencer o inimigo. O sistema da cultura helenista não se abalou,
nem se alterou. Pouca gente se converteu. A maioria do pessoal nem se
interessou. Não era nem a favor nem contra. Não quis nem discutir o assunto:
Até logo! ``Fica para outra vez!'' (At 17,32).
Paulo
descobriu e experimentou a fraqueza e os limites da sua pretensão. O nascimento
doloroso para Cristo, iniciado no caminho de Damasco, continuava. Mas ele soube
tirar a lição dos fatos. Na carta aos Coríntios, ele descreve como chegou por
lá, após o fracasso em Atenas: ``Irmãos, eu mesmo, quando fui ao encontro de
vocês, não me apresentei com o prestígio da oratória ou da sabedoria, para
anunciar-lhes o mistério de Deus. Entre vocês, eu não quis saber outra coisa a
não ser Jesus Cristo, e Jesus Crucificado. Estive no meio de vocês cheio de
fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação não tinham brilho nem
artifícios para seduzir os ouvintes, mas a demonstração residia no poder do
Espírito, para que vocês acreditassem, não por causa da sabedoria dos homens,
mas por causa do poder de Deus'' (1Cor 2,1-5). Parece um outro Paulo, diferente
do Paulo que discursava no areópago com oratória e lógica.
Aprendeu
a lição! Ficou mais humilde. Soube dar a Deus o lugar que Ele merece, sem que
isto o levasse a uma passividade. Sendo judeu, teve que aprender da prática
como lidar com o pessoal da cultura helenista e com o próprio Deus. Aprendeu
apanhando e sofrendo!Depois da queda na estrada de Damasco, foi a chegada de
Ananias que o reanimou e o tirou da cegueira (At 9,17-19). Agora, depois da
queda em Atenas, foi a chegada de Timóteo com boas notícias da comunidade recém
fundada de Tessalônica, que o ajudou a superar o desânimo e reencontrar a fonte
da força e da coragem: ``Agora estamos reanimados!'' (1Ts 3,8). A partir
daquele momento, Paulo teve novamente disposição para dedicar-se inteiramente
ao anúncio da Palavra (At 18,5).
39.
Quando nós, hoje, falamos das comunidades que você andou fundando por aí,
imaginamos comunidades perfeitas de gente santa. É verdade? Diante de tanta
santidade, ficamos até desanimados, pois hoje é tão difícil viver
O que
Paulo nos tem a dizer é aquilo que ele mesmo viveu e conheceu, tanto da sua
própria experiência, como da experiência da comunidade dos primeiros cristãos
O livro
dos Atos dos Apóstolos apresenta a primeira comunidade de Jerusalém como o
ideal para as comunidades de todos os tempos. Lucas caprichou naqueles pequenos
resumos que ele fez da vida dos primeiros cristãos (At 2,42-47; 4,32-35;
5,12-16). Neles, descreve não tanto o que existiu de fato, mas sim o que
deveria existir sempre em toda e qualquer comunidade. O ideal da comunidade,
ele o colocou bem perto da fonte, que é a ressurreição de Jesus.
Mas Lucas não escondeu a realidade dura da caminhada. Lendo nas linhas e nas
entrelinhas, a gente percebe que havia muitos problemas e dificuldades. Não era
gente tão santa e tão diferente de nós, como, às vezes imaginamos. Eis a lista
de alguns destes problemas da primeira comunidade:1. Tentativa de Ananias e
Safira de usar a comunidade para se promover (At 5,1-11); 2. Briga entre os
``hebreus'' (judeus convertidos da Palestina) e os ``helenistas'' (judeus
convertidos da diáspora) por causa da assistência diferente dada às viúvas (At
6,1); 3. Tensão interna por causa da liderança nova de Estêvão: o grupo dos
helenistas, ligado a Estêvão, é perseguido e deve fugir, enquanto os apóstolos,
(provavelmente, o grupo dos hebreus), continuam em Jerusalém (At 8,1); 4.
Tentativa de alguns de comprarem o carisma e o dom do Espírito Santo por meio
de dinheiro (At 8,19); 5. Falta de gente para anunciar o evangelho (At 8,31);
6. Perseguição dos cristãos por parte dos sacerdotes (At 4,1-3) e, mais tarde,
por parte dos fariseus (At 8,1-3: Saulo é fariseu); 7. Conflito entre os
cristãos vindos do judaísmo e os que tinham vindo do paganismo (At 15,1); 8.
Incerteza e dúvida de Pedro: não sabe como se comportar nem como enfrentar o
problema (Gl 2,11-12); 9. Cobrança feita a Pedro por parte de um grupo mais
conservador que não concordava com ele (At 11,2-3.18); 10. Falta de coordenação
geral, pois as coisas vão acontecendo e os apóstolos só ficam sabendo depois
(At 11,19-22).
Mesmo
assim, apesar de todas estas dificuldades, a animação do pessoal era muito
grande. Eles não desanimavam, e as comunidades cresciam (At 2,41.47; 4,4; 5,14;
6,1.7; 9,31; 11,21.24; 16,5; etc.).
As
comunidades eram um novo modo de ser Povo de Deus!Ora, o mesmo vale para as
comunidades fundadas por Paulo nas grandes cidades do império romano. Só que
nelas os conflitos e os problemas eram bem maiores. Algumas destas dificuldades
já foram vistas nesta entrevista. Vou tentar lembrá-las aqui, acrescentando
algumas outras. Indico apenas o fato. Não é aqui o lugar de aprofundar este
assunto. Eis a lista provisória:1. Falta de instrução até por parte de líderes
como Apolo que nada entendia do batismo (At 18,25-26); 2. Continuava a
influência de João Batista, a ponto de várias pessoas só conhecerem o batismo
dele; nada sabiam do Espírito Santo (At 19,1-3); 3. Divisões internas por causa
das linhas diferentes de Paulo, de Apolo e de Pedro (1Cor 1,12; 4,6); 4.
Mentalidade grega em choque com a mentalidade judaica: o conceito de autoridade
do grego é mais ``democrático'' (vem por discussão aberta), e o do judeu é mais
``tradicional'' (vem por tradição), o que foi uma das causas do conflito que
havia entre Paulo e a comunidade de Corinto (2Cor 10,8-11; 12,11-18; 13,2-4);
5. Os cristãos vindos do judaísmo tinham chegado ao ponto de tentar destruir o
trabalho dos cristãos vindos do paganismo: eram os ``falsos irmãos'' (Gl 2,4-5;
6,12-13; 1Ts 2,14-16); 6. Brigas pessoais de Paulo com Barnabé por causa de
Marcos (At 15,37-39), e de Paulo com Pedro por causa da linha diferente (Gl
2,11-14); 7.
Mentalidade
grega que não conseguia aceitar a ressurreição (At 17,32; 1Cor 15,12); 8.
Falsos doutores espalhando confusão nas comunidades (1Tm 4,1-7); 9. Problemas
com a religiosidade popular dos povos da Ásia Menor (At 14,11-18); 10. O
problema do lugar da mulher nas comunidades: nem tudo estava claro (1Cor 11,3-12;
14,34-35; 1Tm 2,9-15); 11. O problema dos carismas, usados por alguns para se
promover a si mesmos e não para construir a comunidade (1Cor 14,1-32); 12.
Falta de respeito de uns para com a fragilidade da consciência dos outros (1Cor
8,7-13; Rm 14,1-15);
Os
problemas eram muitos e o povo das comunidades não era santo nem perfeito. Era
espelho do que acontece hoje, onde gente bem intencionada de diferentes origens
e mentalidades decide caminhar juntos. A fraternidade é um desafio!Grande parte
destes problemas eram problemas de transição. As comunidades eram o novo modo
de ser Povo de Deus. A transição do modo antigo para o modo novo não foi fácil.
Paulo foi o instrumento para ajudar nesta transição sem a qual a igreja teria
naufragado e jamais teria chegado até nós.
Foi a
transição do mundo judaico para o mundo grego; do mundo rural da Palestina para
o mundo urbano da Ásia Menor e da Grécia; do mundo mais ou menos harmonioso e
coerente do judaísmo para o mundo pluralista das grandes cidades do império,
cheias de conflitos; de uma situação de comunidades soltas, quase sem
organização, para uma situação de comunidades bem organizadas; de uma igreja
fechada, feita só de judeus convertidos, para uma igreja aberta, que acolhe a
todos; do período dos apóstolos, ou seja, da primeira geração de líderes, para
a igreja pós-apostólica da segunda geração de líderes que já não tinham tido
contato com Jesus pessoalmente; de uma igreja, cuja doutrina e disciplina
vinham em grande parte do judaísmo, para uma igreja que começava a elaborar e
organizar a sua própria liturgia, doutrina e disciplina; de uma religião ligada
às comunidades bem situadas dos judeus da diáspora, para uma religião mais
ligada ao povo pobre das periferias urbanas das grandes cidades do império
romano; de uma religião que cultivava o ideal da classe dominante, para uma
religião que tinha a coragem de apresentar um novo ideal de vida ao povo trabalhador:
``ocupar-se das suas próprias coisas e trabalhar com as próprias mãos: assim
não passarão mais necessidade de coisa alguma'' (1Ts 4,11-12).
40.
Olhando para trás, como é que você agora enxerga a sua vida?
A vida
de Paulo tem quatro períodos bem distintos. O primeiro vai do nascimento até
aos 28 anos de idade. É o período antes da conversão, em que ele vive como
israelita fiel e observante. O segundo vai desde a conversão aos 28 anos até o
envio para a missão aos 41 anos. Período pouco conhecido. O terceiro vai dos 41
anos até aos 53 anos. É o período das viagens missionárias. O último vai dos 53
até à morte aos 63 anos de idade. É o período das prisões e da organização das
comunidades.
Apesar
de diferentes, estes quatro períodos tem algo em comum: é sempre o mesmo Paulo,
a fé no mesmo Deus, a pertença ao mesmo povo de Deus; é a mesma vontade de ser
fiel a Deus e à sua aliança, e de chegar à justiça e à paz com Deus.
Muitas coisas da vida de Paulo já foram vistas nesta entrevista, outras jamais
poderão ser vistas, pois são para sempre o segredo só dele. Pouco sabemos do
primeiro período. Quase nada sabemos do que se passou entre o momento da
conversão aos 28 anos e o envio para a missão aos 41 anos. São 13 anos de
silêncio! Provavelmente, foi neste período que ele teve as grandes experiências
místicas de que fala numa das suas cartas (2Cor 12,1-10). Pouco ou nada sabemos
do que aconteceu depois da primeira prisão em Roma até à sua morte. O período
mais conhecido é o das viagens missionárias. Por aí se deduz que o interesse da
Bíblia na pessoa de Paulo não é tanto por causa de Paulo enquanto Paulo, mas
enquanto ele é o grande animador das comunidades.
A
grande novidade que marcou a vida de Paulo foi a sua experiência de Jesus
ressuscitado no caminho de Damasco: experiência profundamente pessoal e, ao
mesmo tempo, essencialmente comunitária, pois ela só se tornou clara e
manifesta no momento
A experiência no caminho de Damasco foi como um diamante lapidado que recebe a
luz do sol. Através das suas muitas facetas, ele fraciona a luz em múltiplas
cores e dela revela, assim, as diferentes qualidades. A luz do sol é Deus que
se fez presente na vida de Paulo.
O diamante é a experiência de Jesus ressuscitado. As suas inúmeras facetas
fracionam a luz e dela revela as infinitas qualidades: experiência da
fidelidade de Deus (2Cor 1,20); experiência da vitória sobre a morte (Cl
2,12-13; Ef 1,19-20; Rm 6,1-4); experiência do próprio nada (Rm 7,24);
experiência da própria vocação e missão (Gl 1,15-16); experiência da paixão,
morte e ressurreição de Cristo (Fil 3,10-11); experiência da sua pertença ao
povo (Rm 9,1-5); identificação mística com Cristo (Gl 2,20); experiência
profunda do amor gratuito de Deus (Rm 8,31-39)... Vale a pena fazer um
levantamento e classificar todos os aspectos da experiência de Deus em Cristo,
vivida por Paulo.
CONCLUSÃO:
Qual a sua maior esperança?
Aqui
desisto de responder. Teria que copiar a maior parte das cartas, pois tudo
nelas fala de esperança. Para Paulo, Jesus é a esperança prometida e realizada
do seu povo, após longos séculos de espera.
Em
Jesus ressuscitado, ele encontrou a razão de ser do seu povo. Através da vida,
morte e ressurreição de Jesus, o grande mistério do amor de Deus, confiado ao
povo de Israel, se abriu para todos os povos. Foi esta a grande Boa Nova que
Paulo descobriu em Jesus e que ele começou a transmitir no mundo inteiro.
Aquilo
que apontou no horizonte do povo na época do exílio, o universalismo; aquilo
que se esboçou timidamente na pequena comunidade pós-exílica e que foi
retardado (mas conservado e protegido) por Esdras e Neemias; aquilo que os
helenistas do tempo de Antíoco quiseram realizar por imposição autoritária e,
em vez de realizar, estragaram mais ainda, provocando a reação justa e violenta
dos Macabeus; aquilo que, desde o começo estava no chão do chamado, na semente
do apelo, no rumo da vocação, tudo isto apareceu
Em Jesus desabrochou a esperança do povo judeu e, nela, se revelou a grande
esperança da humanidade, o SIM de Deus às promessas e esperanças que estão no
coração de todo ser humano, de todos os povos, sobretudo dos pobres.
Paulo,
por uma graça especial de Deus, percebeu este mistério, esta imensa Boa Nova
para toda a humanidade. Ela se instalou nele, e ele sofreu por ela. Foi a sua
razão de ser! ``Pela graça de Deus sou o que sou; e sua graça dada a mim não
foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a
graça de Deus que está comigo!'' (1Cor 15,10).