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A R T E-- DE-- V I V E R

--------Desequilíbrio emocional e enfermidade resultam de fatores múltiplos, sendo o ser humano uma realidade complexa. Para reconquistar o equilíbrio nas relações e alcançar a cura do corpo, podemos dispor de um auxílio pessoal interior. Sem essa ajuda, ficamos joguete de meias verdades, tornando-se quase impossível modificar a nós mesmos, criando condições para uma vida de qualidade melhor.

--------Parece que há um esconderijo à nossa disposição, no qual nos refugiamos a fim de não nos confrontar com a enfermidade maior: o jogo de “faz-de-conta”, afastando-nos da própria verdade. Parece que temos necessidade de um escapismo a nos proteger na fuga de nós mesmos, de nossas ocultas motivações. Tal fuga se faz recompensa ilusória e desastrosa.

--------Na disposição desequilibrada e doentia de viver, fazemos o jogo de agentes de uma funerária, depositando na morte a promessa maior de vida. O que mais nos prejudica é o medo da vida. Este camufla a morte como expressão de nossa recusa de sermos verdadeiros. A fuga dessa vida “terrível” teria, na morte, sua maior recompensa para nós. Falta-nos, então, auto-possessão com sentido de vida.

--------É um fato bastante freqüente que, em enfermidades, a ameaça da morte provoca nas pessoas um processo de mudança que a vida foi incapaz de suscitar. Ali, a morte faz valorizar o que realmente é importante – fruição nas relações. Constatação: na vida se consegue o que se busca, sobretudo uma doença. E a doença pode servir de meio para buscar o que vale a pena.

--------O preço é caro, embora objetivos sem sentido, interesses sem valor sejam identificados e abandonados. Mas o ideal há de ser: morrer todo dia um pouco para os dias serem novos. Nova, a vida só pode ser na medida em que aprendemos a morrer ao que sufoca o amor, desqualifica a vida e perturba as relações. Faz sentido : ”Um velho dia em vista de uma nova melodia”. Assumir a realidade abre perspectivas.

--------De fato, abandonar velhos hábitos, pseudo-valores e gozar uma vida de sentido com bons recursos tem tudo a ver com bem-estar e alegria. Se, nessa condição, a enfermidade nos surpreende, temos muito mais energia à disposição para uma verdadeira transformação. Mente sã- psiquismo em harmonia - produz efeitos físicos que nos beneficiam bem mais que a doença.

--------Estar bem com a vida, consigo e com os outros, estar em harmonia com o passado, o presente e o futuro, nos faz sentir - dentro de nós - uma plenitude com paz que - solidários - desejamos irradiar ao redor de nós. Mas a realidade, dentro e fora de nós, permanece ameaçadora. Há um caos que rege a ordem. Em compensação, uma “Nova” - puro caos - tem átomos em perfeita ordem. Há promessa

--------De 50 trilhões de células com 3 bilhões de partículas genéticas não se pode esperar perfeição. Aberrações acontecem. Algum problema nos espreita. A incerteza assusta. Não somos um pacote fixo, mas um processo que surpreende. Mutação ameaça, sobretudo quando nos falta um ponto focal que cimenta as partes em um todo. Qual é o centro que nos mantém inteiros?
--------Ou será que, na maioria das vezes, vivemos mais para fora que para dentro? Mal integrados, fugimos para fora. Mal direcionados, cultivamos o caos interior. O essencial fica abandonado. Valores como referências são o tecido por onde navega a afetividade a serviço da integração. Toda enfermidade tem muito de distúrbio - caótico ou relacional - como a saúde é sempre ordem, integração, equilíbrio.

--------A doença se move entre o físico e o simbólico. Um câncer pode estar ligado a uma fibra de amianto como a uma dor na viuvez, etc. Falta de confiança, de compromisso e satisfação pode funcionar como um veneno. Em meio a privações, desafios e frustrações, vontade firme, identificação com um ideal, solidariedade gentil podem estar a serviço de uma saúde de ferro.
--------Por outro lado, a pretensão de ser “diferente”, de estar acima das fragilidades humanas, suscita o mecanismo de transferência. Fragilidade, medo, in-autenticidade, em vez de serem problemas pessoais, se devem, pretensamente, a situações, fatos, problemas, coisas e pessoas, alheias à nossa pessoa. Motivos para nos desculpar não faltam. Daí é só um passo para nos escravizar. E portas se fecham.

--------Passamos a ser vítimas e não agentes de nosso destino. Inimigos de nós mesmos. A partir deste ponto de vista, fica difícil cuidar bem da vida. Emoções descontroladas passam a condicionar. Erigimos barreiras em relações e escolhemos a dor. Urge voltar para dentro de nós e nos desmascarar. Este é o único caminho de retornar à paz e ter êxito em um processo de cura.
--------Ao redor de nós, a natureza conspira a favor da vida e de sua renovação. Damo-nos ao trabalho de enxergar? Dispomo-nos a colaborar ou preferimos apostar em uma cura de fora? A mente alerta e sagaz – libertadora - vale mais que uma química energizante e subjugadora. O empurrão de uma pílula vale bem menos que o esforço organizador de nosso cérebro. É preciso apostar em nossa força criadora.

--------A vida requer luta, mas a confiança vale mais que tudo. Ao confiar simplesmente, a pessoa deixa de alimentar sofrimento e redobra sua capacidade de remover medo e dor, tendo ainda bom êxito em superar obstáculos. Uma vitória como a cura - para acontecer - precisa de nossa licença. Nosso compromisso com a gratuidade é caminho seguro para vida de qualidade.
------- Por mais condicionados que sejamos, podemos ser campeões em criatividade, co-autores da realidade de nosso dia-a-dia, moldando nossa existência como um todo integrado. Mais que ficar preso ao que nos habita e cerca, somos desafiados para nos soltar de cadeias interiores e exteriores. Decisivo é essa capacidade criadora em nós que, antes de tudo, permite que vida boa possa acontecer. Haverá vitória.

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frei Cláudio van Balen
(cf: Deepak CHOPRA, VIDA Incondicional, ed. Best Seller, São Paulo, pp.9-35)