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Esperança
no crisol
“A hora mais escura é quando vai amanhecer".
(Provérbio sefardita)
Por Frei Gilvander Moreira
----------Diante
do tsunami de corrupção alardeada no Brasil, muitos cantam:
“Se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão”.
Fica sim! Tem muita gente honesta, trabalhadora, com sensibilidade ética,
que se comove com a dor dos pobres, se indigna contra toda e qualquer
injustiça e, de forma organizada, participa de lutas libertárias.
Outros lamentam: “Que decepção! A esperança
construída com tanto suor e sangue está indo para o ralo.”
----------Nem todo mundo é corrupto
e não está indo tudo para o ralo. A esperança está
sendo filtrada, purificada e passada no crisol. É chegada a hora
de percebermos que a esperança genuína vem das planícies
e não mais do planalto, vem dos porões da humanidade onde
os pobres gemem e, de forma organizada, clamam por direitos e empreendem
marchas libertárias, como a 2a Marcha da Reforma agrária,
de Goiânia a Brasília, de 1 a 17 de maio último, com
mais de 12 mil sem-terra.
----------É hora de discernimento.
Não dá para acreditar ingenuamente em tudo o que a mídia
trombeteia, pois a mídia brasileira é um latifúndio
controlado por poucas famílias que deixa milhões de sem-comunicação
sob efeito de calmante. Entretenimento, em circos televisivos, é
a regra da programação da TV do Brasil, salvo exceções.
Há jornalistas sérios, mas há também grandes
interesses dos donos dos meios de Comunicação.
----------Existe muita corrupção,
mas há também uma verdadeira e séria luta para descobrir
quem é corrupto ou corruptor e responsabilizá-los. É
preciso perceber que, neste momento, estão atuando também
fariseus interessados em desmoralizar o governo de Lula. Há interesses
do imperialismo estadunidense em fragilizar o processo de soerguimento
da América Afrolatíndia. Os povos da Venezuela e da Bolívia
estão se levantando e lutando por soberania. Interessa ao império
do tio Sam encabrestar novamente o Brasil nas próximas eleições
presidenciais. E para isso, no Brasil, o governo norte-americano conta
com uma elite vassala dos seus interesses imperiais. É muito provável
que se comprove que, no exercício do poder, líderes do PT
se corromperam. Tudo precisa ser apurado com o máximo de rigor.
A crise política do Brasil é complexa, exige discernimento.
----------A corrupção é
uma chaga grave existente no Brasil, mas não é o problema
do Brasil. Ela faz parte da engrenagem capitalista. Lutar contra a corrupção
implica lutar contra os pseudo-valores do sistema capitalista: a concorrência,
a competição, o acumular, lucrar e lucrar cada vez mais,
passar a perna nos enfraquecidos e, enfim, seguir a Lei de Gerson. Onde
reina o capitalismo, sempre haverá alguma corrupção.
----------A reação dos segmentos
organizados da sociedade está sendo muito positiva e constitui
uma chance de provocar uma mudança de rumo. Esta reação
se articulou de uma postura unitária de uma boa representação
da sociedade civil e dos movimentos sociais “contra a corrupção
e a desestabilização política do governo. Por mudanças
na política econômica, pela prioridade dos direitos sociais
e por reformas políticas democráticas”. É extremamente
significativa esta formulação, porque vincula, o que não
faz de modo geral a mídia, a luta contra a corrupção
com a luta por uma outra política econômica e pela reforma
política democrática. Portanto, sinaliza uma mudança
de rumos que pode fazer o governo retornar ao ideário em função
do qual foi eleito.
----------Não precisamos apenas de
ética, mas acima de tudo de pessoas éticas, pessoas sensíveis
que sentem o sofrimento dos outros. Eis um imperativo necessário
para passar o Brasil a limpo: Quem souber de alguma corrupção
deve denunciar. Não pode se omitir! Deixar de denunciar a corrupção
é um desserviço aos pobres. As práticas dos corruptos
e corruptores devem ser trazidas à luz do dia. É hora de
seguirmos o exemplo de Eriberto, o motorista de Collor que teve a coragem
de denunciar a malandragem do presidente collorido. Assim puxou o tapete
que escondia a sujeita da era da caça aos marajás. Eriberto
e o povo, exercendo sua cidadania, cortaram o tendão de Aquiles
de um Golias que imponentemente foi vendido ao povo como um salvador da
pátria.
----------Não precisamos de apenas
ética na política partidária, mas de pessoas éticas
na sociedade. Temos que continuar organizando o povo a partir de lutas
concretas. É por aí que cultivamos uma esperança
orgânica. É ilusão acreditar em salvadores da pátria.
Só transformaremos o Brasil de baixo pra cima e de dentro pra fora.
----------É hora de ouvir o grupo
Capital Inicial, e antes Caetano Veloso, cantarem em Podres Poderes, de
autoria desconhecida “enquanto os homens exercem seus podres poderes,
motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes somos
uns boçais (...) Será que nunca faremos senão confirmar
a incompetência da América católica que sempre precisará
de ridículos tiranos?” Não basta pegar pela orelha
os corruptos e corruptores do mundo da política e do empresariado,
em uma atitude farisaica. É preciso também fazer autocrítica
a partir do questionamento de Jesus: “Quem não tiver pecado,
atire a primeira pedra.” (João 8,7).
----------O governo de Minas Gerais, por
exemplo, acolitando a elite do agronegócio, se vangloria ao anunciar
que Minas exportou 10 bilhões de reais em 2004 (14% da exportação
nacional). Foram 2 bilhões em minério, 1,2 bilhão
em café e na centésima posição 34 milhões
em produtos eletro-eletrônicos. Devíamos nos envergonhar
disso! A política do “exportar é o que importa”
diz, nas entrelinhas assim: “Somos colônia. Estamos colocando
nos grandes cargueiros transatlânticos os nossos recursos naturais.
Exportamos muita água ao exportar cereais. Estamos muito felizes
com isso. Queremos continuar sendo colônia. Queremos continuar de
joelhos diante dos impérios do mundo.” Em nome do progresso
e de um falacioso desenvolvimento sustentável, a elite do Brasil
impõe um projeto bárbaro para a sociedade que é,
na prática, futuricídio.
----------Para enfrentar a aridez e o cinismo
no deserto do real, devemos descobrir razões mais profundas para
se amar a verdade e defender o bem-comum. Para isto faz bem levar sempre
no coração e na memória Diógenes, o cínico
que, com uma lanterna acesa ao meio dia, procurava um Homem. É
bom inspirar-se em Jesus Cristo que teve a grandeza de consolar os aflitos
e incomodar os acomodados. Devemos honrar Gandhi que lutou contra o imperialismo
com coerência fazendo boicote dos produtos do império, construindo
uma resistência com métodos de paz. Gandhi animava os pobres
dizendo: “Quando me desespero lembro-me de que em toda a história
a verdade e o amor sempre venceram. Houve tiranos e assassinos e, por
um tempo, eles pareciam invencíveis mas, no final, sempre caíam.
Pense nisto. Sempre.”
----------É hora de militar no time
de Chico Mendes que, por amor aos pobres e à floresta, aliou as
lutas sociais à defesa da floresta, se transformando no pai da
florestania.
----------É hora de ser ético
no varejo, como o menor de rua que, no final de um casamento chique, entregou
ao padre, dentro da igreja, a chave de um Honda Civic dizendo: “O
carro está lá na rua com as portas destrancadas e a chave
estava caída ao lado do carro. Tranquei o carrão e a trouxe
a chave. Veja aí quem é o dono.”
----------É hora de continuar a luta
de Dorcelina Folador, mártir da política com ética,
que disse: “Assumi um compromisso com o povo da cidade de Mundo
Novo/MS, com a ética, e com a moralidade, compromisso de não
desviar nenhum centavo dos cofres públicos, para me beneficiar
ou beneficiar parentes ou amigos particulares. Esse propósito,
graças a Deus, quero continuar com ele até o fim de minha
vida''.
----------É hora de colaborar com
a Polícia Federal que em 77 operações de combate
à corrupção, prendeu 1.360 pessoas entre políticos,
juízes, empresários, policiais federais e servidores públicos.
----------É hora de abrir os olhos
para ver os clamores que vem dos porões da sociedade, abrir o coração
para ter compaixão cristã e abrir as mãos para partilhar
e organizar. “Já não temos onde plantar e colher;
nosso sítio foi inundado. Até o cemitério onde estão
enterrados nossos avós foi encoberto pelo lago da usina”,
desabafa um dos atingidos pela barragem de Candonga em Minas Gerais. “A
gente não tem para onde fugir. Viemos parar aqui neste barranco,
porque não encontramos onde morar”, diz soluçando
um sobrevivente de desmoronamento, com lágrimas nos olhos. “A
nossa vila está morrendo, pois aqui dá-se um tiro em um
e acerta dez, pois instaura o medo. Sob o império dos traficantes,
ninguém vê, nem ouve nada. Se falar, morre logo em seguida”,
denuncia Raquel, uma favelada.
----------É hora de apoiar o projeto
de convivência com o semi-árido que está construindo
um milhão de cisternas. Uma mulher do semi-árido, com os
olhos brilhando de alegria, disse: “A melhor coisa que aconteceu
em 50 anos foi construir uma cisterna para segurar a água da chuva”.
----------É hora de seguir o exemplo
de luta dos povos indígenas, tais como os Tupiniquim e Guarani
do Espírito Santo que não se ajoelharam diante do poderio
da Aracruz Celulose. Considerando-se espoliados por um acordo forçado
com os antigos caciques, em 1998, as jovens lideranças indígenas
decidiram resgatar sua cultura e sua dignidade, fazendo a auto-demarcação
de suas terras e reorganizando uma aldeia que havia sido destruída
para a plantação de uma monocultura de eucaliptos.
----------É hora de continuar denunciando
os políticos corruptos, corruptores, clientelistas e fisiológicos,
pois pela Lei 9840 – lei que proíbe o abuso econômico
nas campanhas eleitorais - já foram cassados 164 prefeitos, vereadores
e deputados, condenados por abuso de poder econômico ou por clientelismo.
----------É hora de seguir o rumo
indicado pelo povo boliviano que se levantou mais uma vez para defender
a soberana do país, como o fez também outras vezes, inclusive
para impedir a privatização da água. No final de
maio, depois de três semanas, a paralisação do país
era quase total. A mobilização popular reclamava: "nem
30%, nem 50%: nacionalização!". Luta bonita pela soberania
sobre os recursos naturais, exemplo que deve ser seguido pelo povo brasileiro.
----------É hora de seguirmos um taxista
de Araxá que disse: "Doutor, a primeira vez que calcei um
sapato foi aos dezesseis anos. Quando garoto, na roça, eu ouvia
a campainha de uma bicicleta e ficava imaginando se um dia teria uma.
Pois saí da roça e fui cuidar da vida, com uma mão
na frente e outra atrás. Trabalhei muito, honestamente. Hoje tenho
três carros e este celular. Cada vez que o celular toca, eu choro.
Ao lembrar de onde vim e até onde cheguei".
----------É hora de dizermos com Rubem
Alves: “A política, como vocação, é
a mais nobre das atividades do ser humano; como profissão, a mais
vil.” Não podemos jogar todos os políticos na lata
de lixo. Há políticos com vocação para lutar
pelo bem comum. Esses merecem respeito.
----------É hora de perceber que da
elite não vem salvação, só exploração,
pois o historiador José Honório Rodrigues alerta: "A
elite brasileira nunca se reconciliou com o povo, negou seus direitos,
arrasou sua vida e, logo que o viu crescer, negou-lhe pouco a pouco sua
aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia,
no lugar que continua achando que lhe pertence."
----------É hora de ouvirmos o conselho
de Martin Luther King: "É melhor tentar e falhar do que preocupar-se
e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão,
do que sentar-se sem fazer nada. Eu prefiro caminhar na chuva do que,
nos dias tristes, me esconder em casa. Prefiro ser feliz, embora louco
do que viver na conformidade. Acredito que um dia homens e mulheres vão
descobrir que foram criados para a convivência fraterna e seguirão
líderes que vivem esta realidade. Temos de aprender a viver juntos
como irmãos ou perecemos juntos como loucos. Se soubesse que o
mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira.
O que me assusta não é a violência de poucos, mas
a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros,
a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte
de viver como irmãos".
----------O filósofo Platão,
em meio à crise da cultura grega, alertava: "as coisas grandes
só acontecem no turbilhão da krisis".
Frei Gilvander Moreira, email: gilvander@igrejadocarmo.com.br
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