Melhor Visualização em 800x600
Travessias na De$ordem Global
Marcelo Barros

--------Este é o lema de um fórum social que está se preparando no mundo inteiro para tratar do grave problema das migrações. No Brasil, desde 1985, na última semana de junho, o Serviço Pastoral dos Migrantes organiza a Semana dos Migrantes.
--------Dois milhões de brasileiros vivem e trabalham fora do país e mais de 40 milhões não vivem no lugar em que nasceram. Dentro desta realidade, você que está lendo estas linhas pode sentir-se migrante. Mas, do ponto de vista estrito, mesmo se, assim como eu, você também nasceu no nordeste e mora em Goiás, ou se é gaúcho/a vivendo no Centro-oeste, não somos pessoas exiladas, refugiadas ou obrigadas a viver como nômades para sobreviver. Entretanto, mesmo sem sofrer na pele o peso desta condição, solidarize-se com as vítimas deste grave problema que toda a humanidade precisa assumir como responsabilidade para ter paz e justiça.
--------Há mais de 50 anos, em 1948, no artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a assembléia geral da ONU reconheceu o direito de qualquer pessoa deixar o seu país e de, livremente, estabelecer-se em outro e ali viver e trabalhar. Como nenhum país do mundo respeita esta lei e todos criam dificuldades para os migrantes, a comunidade internacional assinou convenções e protocolos para a proteção dos migrantes, desde 1951 até o acordo contra o tráfico de vidas humanas, assinado no ano 2000.
--------O planeta Terra deveria ser para todos os seres humanos. As migrações são quase sempre provocadas por guerras e pelo modo injusto de organizar o mundo. Os migrantes são forçados a deixar o seu país de origem, o fazem em condições desumanas. Não podemos esperar deles que venham organizados ou preparados para dialogar com outras culturas ou para revelar na terra em que chegam a riqueza de suas raízes. ----------------Entretanto, seja como for, as migrações podem sempre representar para a humanidade uma oportunidade de convívio de culturas, enriquecimento humano, oportunidade de acolhimento e, mesmo no ponto de vista econômico, os movimentos migratórios trazem benefícios para os migrantes e para os países que os recebem. Entretanto, o racismo e a xenofobia fazem com que os poderosos do mundo finjam não perceber isso. Os migrantes são sempre vistos como indesejáveis.
--------No mundo, conforme dados da ONU, há mais de 175 milhões de migrantes, sendo que em 1990 eram 90 milhões. Só os refugiados políticos são mais de 16 milhões e com a política norte-americana no Iraque, no Afeganistão e em outras partes do mundo, tendem a crescer mais.
--------O Brasil, ao mesmo tempo que vê dois milhões de seus filhos obrigados a viver no estrangeiro, acolhe outros tantos milhões de latino-americanos vizinhos que vêm para cá tentar uma vida mais digna. Só em São Paulo, vivem 150 mil bolivianos/as, a maioria em condição ilegal, explorados/as por pequenas indústrias de confecções, em condições injustas de trabalho e de vida.
--------Todo mundo sabe que se os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental não tivessem explorado econômica e socialmente os nossos povos e o Banco Mundial não continuasse a ser o braço novo do colonialismo para dominar a África e a América Latina, as populações do sul seriam autônomas e não seriam obrigadas a deixar seus países de origem. Depois de, durante séculos, escravizarem os povos e explorarem as riquezas do solo e do sub-solo da África e da América Latina, agora, os europeus e norte-americanos nem precisam mais ir buscar escravos nos mares do sul. Estes batem à porta de suas casas. Os patrões fingem que não os desejam, mas deixam a vassoura, o balde e o avental atrás da porta.
--------Quem visita, hoje, centros históricos de cidades européias e norte-americanas encontra mais africanos, asiáticos e latino-americanos do que pessoas ali nascidas. Os migrantes vivem em antigos prédios deteriorados e fazem para as famílias brancas os trabalhos humildes que o europeu médio e o norte-americano não aceita fazer. Só na região de Nova York, vivem mais de 300 mil brasileiros, a maioria em situação ilegal.
--------Mesmo não amados e indesejados pelas populações dos países ricos, os migrantes são, acima de tudo, necessários. Geram muitas riquezas para os seus países de origem, mas também para a pátria que os acolhe. Segundo as cifras norte-americanas, no ano de 2003, os imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos, remeteram para seus países de origem mais de 30 bilhões de dólares. Para nós, isso é muito. Para os Estados Unidos, representa apenas 6,6% da riqueza que estes migrantes produziram para os seus patrões. Estes, norte-americanos que continuam a olhar os migrantes com maus olhos, ganharam com a exploração do trabalho destes estrangeiros pobres, a soma de 450 bilhões de dólares em um ano. Este montante representa o 3º PIB das Américas, inferior apenas ao do Brasil e México e deixando de lado, é claro, as economias do Canadá e EUA. No âmbito da micro-economia familiar, a média do que cada família latino-americana recebe de membros que estão nos EUA chega a 200 dólares por mês. Por isso, é difícil convencer um brasileiro pobre, formado na escola das tele-novelas e ganhando o salário mínimo de 260 reais, que a esperança de sua vida não está em migrar para os Estados Unidos ou para algum país da Europa. Pelos dólares a mais que podem ganhar, aceitam acordar cada dia com medo de ser deportados ou presos, não se incomodam de saber que, muitas vezes, sofrerão humilhações e serão tratados como se pertencessem a uma sub-humanidade e não tivessem os mesmos sentimentos e necessidades de qualquer ser humano.
--------Calculam-se em mais de 900 mil pessoas, a maioria jovens, vendidas, de um país para outro, como mercadoria para a prostituição e para trabalhos ilegais. A maioria é escravizada por máfias e quadrilhas que exploram e quando percebem alguma ameaça, matam as vítimas como os navios negreiros do século XIX jogavam ao mar a sua carga humana antes de ser detidos.
--------As pessoas que crêem em Deus são chamadas a ver, na figura de cada migrante o rosto de Deus. Seja na mitologia grega, seja na história dos Orixás africanos, seja na Bíblia, Deus assume a condição de migrante e vem nos encontrar para ser reconhecido e respeitado na pele de toda pessoa humana, principalmente daquela que sofre e está fora de sua cultura de origem. Aos cristãos, o Evangelho lembra que, um dia, todos seremos confrontados com a justiça misericordiosa de Deus e ali Jesus, seu Filho, nos dirá: “Fui estrangeiro em teu país e tu me acolheste e me trataste bem” (Mt 25, 35).

Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 26 livros, dos quais o mais recente é
"O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003.
Email: mosteirodegoias@cultura.com.br