--------Este
é o lema de um fórum social que está se preparando
no mundo inteiro para tratar do grave problema das migrações.
No Brasil, desde 1985, na última semana de junho, o Serviço
Pastoral dos Migrantes organiza a Semana dos Migrantes.
--------Dois
milhões de brasileiros vivem e trabalham fora do país
e mais de 40 milhões não vivem no lugar em que nasceram.
Dentro desta realidade, você que está lendo estas linhas
pode sentir-se migrante. Mas, do ponto de vista estrito, mesmo se,
assim como eu, você também nasceu no nordeste e mora
em Goiás, ou se é gaúcho/a vivendo no Centro-oeste,
não somos pessoas exiladas, refugiadas ou obrigadas a viver
como nômades para sobreviver. Entretanto, mesmo sem sofrer na
pele o peso desta condição, solidarize-se com as vítimas
deste grave problema que toda a humanidade precisa assumir como responsabilidade
para ter paz e justiça.
--------Há
mais de 50 anos, em 1948, no artigo 13 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, a assembléia geral da ONU reconheceu
o direito de qualquer pessoa deixar o seu país e de, livremente,
estabelecer-se em outro e ali viver e trabalhar. Como nenhum país
do mundo respeita esta lei e todos criam dificuldades para os migrantes,
a comunidade internacional assinou convenções e protocolos
para a proteção dos migrantes, desde 1951 até
o acordo contra o tráfico de vidas humanas, assinado no ano
2000.
--------O
planeta Terra deveria ser para todos os seres humanos. As migrações
são quase sempre provocadas por guerras e pelo modo injusto
de organizar o mundo. Os migrantes são forçados a deixar
o seu país de origem, o fazem em condições desumanas.
Não podemos esperar deles que venham organizados ou preparados
para dialogar com outras culturas ou para revelar na terra em que
chegam a riqueza de suas raízes. ----------------Entretanto,
seja como for, as migrações podem sempre representar
para a humanidade uma oportunidade de convívio de culturas,
enriquecimento humano, oportunidade de acolhimento e, mesmo no ponto
de vista econômico, os movimentos migratórios trazem
benefícios para os migrantes e para os países que os
recebem. Entretanto, o racismo e a xenofobia fazem com que os poderosos
do mundo finjam não perceber isso. Os migrantes são
sempre vistos como indesejáveis.
--------No
mundo, conforme dados da ONU, há mais de 175 milhões
de migrantes, sendo que em 1990 eram 90 milhões. Só
os refugiados políticos são mais de 16 milhões
e com a política norte-americana no Iraque, no Afeganistão
e em outras partes do mundo, tendem a crescer mais.
--------O
Brasil, ao mesmo tempo que vê dois milhões de seus filhos
obrigados a viver no estrangeiro, acolhe outros tantos milhões
de latino-americanos vizinhos que vêm para cá tentar
uma vida mais digna. Só em São Paulo, vivem 150 mil
bolivianos/as, a maioria em condição ilegal, explorados/as
por pequenas indústrias de confecções, em condições
injustas de trabalho e de vida.
--------Todo
mundo sabe que se os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental
não tivessem explorado econômica e socialmente os nossos
povos e o Banco Mundial não continuasse a ser o braço
novo do colonialismo para dominar a África e a América
Latina, as populações do sul seriam autônomas
e não seriam obrigadas a deixar seus países de origem.
Depois de, durante séculos, escravizarem os povos e explorarem
as riquezas do solo e do sub-solo da África e da América
Latina, agora, os europeus e norte-americanos nem precisam mais ir
buscar escravos nos mares do sul. Estes batem à porta de suas
casas. Os patrões fingem que não os desejam, mas deixam
a vassoura, o balde e o avental atrás da porta.
--------Quem
visita, hoje, centros históricos de cidades européias
e norte-americanas encontra mais africanos, asiáticos e latino-americanos
do que pessoas ali nascidas. Os migrantes vivem em antigos prédios
deteriorados e fazem para as famílias brancas os trabalhos
humildes que o europeu médio e o norte-americano não
aceita fazer. Só na região de Nova York, vivem mais
de 300 mil brasileiros, a maioria em situação ilegal.
--------Mesmo
não amados e indesejados pelas populações dos
países ricos, os migrantes são, acima de tudo, necessários.
Geram muitas riquezas para os seus países de origem, mas também
para a pátria que os acolhe. Segundo as cifras norte-americanas,
no ano de 2003, os imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos,
remeteram para seus países de origem mais de 30 bilhões
de dólares. Para nós, isso é muito. Para os Estados
Unidos, representa apenas 6,6% da riqueza que estes migrantes produziram
para os seus patrões. Estes, norte-americanos que continuam
a olhar os migrantes com maus olhos, ganharam com a exploração
do trabalho destes estrangeiros pobres, a soma de 450 bilhões
de dólares em um ano. Este montante representa o 3º PIB
das Américas, inferior apenas ao do Brasil e México
e deixando de lado, é claro, as economias do Canadá
e EUA. No âmbito da micro-economia familiar, a média
do que cada família latino-americana recebe de membros que
estão nos EUA chega a 200 dólares por mês. Por
isso, é difícil convencer um brasileiro pobre, formado
na escola das tele-novelas e ganhando o salário mínimo
de 260 reais, que a esperança de sua vida não está
em migrar para os Estados Unidos ou para algum país da Europa.
Pelos dólares a mais que podem ganhar, aceitam acordar cada
dia com medo de ser deportados ou presos, não se incomodam
de saber que, muitas vezes, sofrerão humilhações
e serão tratados como se pertencessem a uma sub-humanidade
e não tivessem os mesmos sentimentos e necessidades de qualquer
ser humano.
--------Calculam-se
em mais de 900 mil pessoas, a maioria jovens, vendidas, de um país
para outro, como mercadoria para a prostituição e para
trabalhos ilegais. A maioria é escravizada por máfias
e quadrilhas que exploram e quando percebem alguma ameaça,
matam as vítimas como os navios negreiros do século
XIX jogavam ao mar a sua carga humana antes de ser detidos.
--------As
pessoas que crêem em Deus são chamadas a ver, na figura
de cada migrante o rosto de Deus. Seja na mitologia grega, seja na
história dos Orixás africanos, seja na Bíblia,
Deus assume a condição de migrante e vem nos encontrar
para ser reconhecido e respeitado na pele de toda pessoa humana, principalmente
daquela que sofre e está fora de sua cultura de origem. Aos
cristãos, o Evangelho lembra que, um dia, todos seremos confrontados
com a justiça misericordiosa de Deus e ali Jesus, seu Filho,
nos dirá: “Fui estrangeiro em teu país e tu
me acolheste e me trataste bem” (Mt 25, 35).
Marcelo Barros, monge beneditino e
autor de 26 livros, dos quais o mais recente é
"O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola,
2003.
Email: mosteirodegoias@cultura.com.br
