FORUM SOCIAL
MUNDIAL
A construção de um Outro Mundo Possível de Justiça
e Paz por e para todos os povos
Frei Gilvander Moreira
1) Visão panorâmica
-----E
eis que as palavras do Fórum Social Mundial (FSM) se tornam
carne: projetos concretos semeados e que estão semeando e cultivando,
por todos os cantos e recantos, um outro mundo possível, necessário
e urgente. Estamos grávidos de um outro mundo: justo, solidário,
com vida e liberdade para todos e para tudo.
-----Já de início, soa
como uma profecia a experiência vivida na 5ª edição
do FSM, em Porto Alegre, de 26 a 31 de janeiro de 2005. É impossível
descrever a beleza e a grandeza experimentada pelos 155.000 cidadãos
e cidadãs de todas as partes do mundo, que participaram entusiasmadamente.
Foram mais de 2.500 atividades promovidas por mais 5.000 organizações.
Os assuntos, que envolveram a construção de um outro
mundo, foram aprofundados em seminários e oficinas, aglutinados
em onze espaços temáticos, ao longo de uns 10 kms da
orla do Rio Guaíba, em circos e tendas. Mesmo sem estar planejado,
acabou acontecendo, também, grandes conferências com
os chamados intelectuais orgânicos e outras personalidades,
tais como: José Saramago, Ignacio Ramonet, Leonardo Boff, Adolfo
Peres Esquivel, Aleida Guevara, Emyr Sader, Hebe Bonafini, Tomás
Balduíno, Letícia Sabatela, José Arbex, Sebastião
Salgado, Plínio de Arruda Sampaio, Raul Ponte e Marta Harneck.
-----O 5º FSM foi contundente na
crítica ao imperialismo, à guerra, ao bushismo, à
política econômica neoliberal, a todos os sistemas opressores,
mas foi eminentemente propositivo, socializando ações
concretas que estão se ramificando pelo mundo afora. Por exemplo,
como alternativa ao monopólio da Microsoft, o FSM propõe
o uso do software livre, que é democrático e viabiliza
uma comunicação que liberta e integra uma rede de saberes
e sabores libertários. Bioconstrução, reciclagem
do lixo, Economia Popular Solidária, democratização
dos Meios de Comunicação Social - MCS -, Reforma Agrária,
cuidado com a terra e as águas, dentre outros pontos imprescindíveis
para um OUTRO MUNDO POSSÍVEL e que estão em baila mundo
afora. Partilhamos, abaixo, um pouquinho do que vivenciamos no 5º
FSM.
-----Ao lado de Che Guevara, Marx, Jesus
Cristo, Bolívar, Rosa Luxemburgo e de outros “144.000”
(número simbólico do Apocalipse que indica a multidão
salva, vinda da grande tribulação), o Deus da vida e
da esperança chorou, chorou e chorou muito no dia que os Estados
Unidos invadiram o Iraque; no dia 17/04/1996, em que os sem-terra
em Eldorado dos Carajás foram massacrados; no dia 20/11/2004,
em que novamente são massacrados os sem-terra em Felisburbo/MG;
no dia do Tsunami, que deixou mortos mais de 250.000 pessoas e em
tantos outros dias dos últimos 500 anos em que a morte venceu
a vida. Porém entre os dias 26 e 31 de janeiro de 2005, o Deus
solidário e libertador se alegrou muito, fez festa, cantou
e sorriu, pois viu que o Fórum Social Mundial se transformou
em um grande Evangelho: ótima notícia para os empobrecidos
da terra e péssima notícia para o sistema capitalista
e todos os sistemas (e pessoas) opressoras.
-----Centenas e até milhares de
Grupos de Geração de Trabalho e Renda da Economia Popular
- EPS - Solidária alimentaram os 155.000 participantes do 5º
FSM com alimentos orgânicos, naturais, ecológicos, sem
nenhuma grama de agrotóxicos nem transgênicos. Em cada
um dos onze espaços temáticos havia uma grande Praça
da Alimentação, onde, em stands, uma alimentação
alternativa era oferecida a preços mais em conta do que os
produtos do mercado neoliberal idolatrado. Assim se comprova a viabilidade
da EPS como alternativa à produção transgênica,
recheada de agrotóxicos, da idolatria do mercado.
2) UMA PROMESSA DE PAZ CONTRA O IMPERIALISMO
-----Adolfo
Peres Esquivel, argentino, Prêmio Nobel da Paz, em 1992, alertou:
“É possível a paz no mundo conflituoso como o
nosso? Que é a paz? Não é ausência de conflito
e nem passividade. A paz é uma dinâmica de relações
humanas e entre os povos, na unidade, não na uniformidade.
As palavras são energias para libertar o pensamento. O que
se está globalizando é a concentração
do poder e das riquezas. A FAO nos recorda que 35.000 crianças
morrem de fome a cada dia, no mundo. São dez World Trady Centers
todos os dias, verdadeiras bombas atômicas que implodem crianças
todos os dias. O mundo não reagiu contra os bombardeios dos
Estados Unidos contra o Iraque durante 10 anos, antes da invasão.
O único caminho que temos é o da cultura da solidariedade
e da luta por justiça. Este caminho se faz pela participação
nos movimentos populares e sociais. Temos que passar pela vida com
as mãos vazias, com o coração cheio de esperança
e com os pés solidários.”
-----Irmã Rosa, uma angolana recordou-nos:
“É difícil falar de paz para quem nasceu e cresceu
no meio da guerra. O povo africano é alegre, solidário
e cheio de esperança. O país de Angola, com 14 milhões
de habitantes, enfrentou 40 anos de guerra, um verdadeiro deserto.
Hoje está em processo de reconstrução. Angola
produz 1.000.000 de barris de petróleo por dia, é o
4º maior produtor de diamante do mundo, no entanto, é
2º país em mortalidade infantil e, muitas vezes, os estudantes
das escolas públicas têm que pagar aos professores para
serem aprovados, pois o Estado não paga aos professores.”
-----Frei Sérgio Gorgen, da CPT
- Comissão Pastoral da Terra, do MST – Movimento Sem-Terra
- e do MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, com um testemunho
profético, deixou marcas indeléveis nas 5.000 pessoas
que o ouviam. Em palavras de fogo, ele nos incomodou dizendo: “Não
somos nós que somos solidários com os Sem-Terra. Eles
é que são solidários conosco. De que lado está
a violência? Quem a gera? Quem são os bem-aventurados
construstores/ras da Paz no mundo de hoje (Mt 5,9)? O latifúndio
é o grande promotor da violência. O presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, está certíssimo ao declarar guerra
ao latifúndio. É doloroso enterrar crianças que
morreram de fome em um mundo com tanta produção. Na
Fazenda Anoni, em 1986, a polícia desmontou uma marcha dos
sem-terra do MST, mas eles voltaram para o acampamento e se organizaram.
Vieram 600 soldados para expulsar os humildes herdeiros da terra (Mt
5,3). Para enfrentar a polícia, na frente estavam as crianças,
depois as mulheres e por último, os homens. Uma mulher voltou
e me perguntou: ‘Frei Sérgio, você não vai
fazer nada?’ Senti a maior vergonha da minha vida, pois estava
me escondendo atrás das crianças e das mulheres. Naquela
hora, eu me perguntei: para que eu sou frei? Por que não tenho
filhos? Irrompeu em mim uma coragem, fui à frente e levantei
os dois braços. Os policiais pararam. Assim vencemos uma batalha.
Outra vez a mesma tática não deu certo. Fui parar no
hospital todo quebrado pela polícia. Por que há sentido
estarmos entre os pobres que lutam? Primeiro, para legitimar suas
lutas. Segundo, para aconselhar a continuar a luta. Maldito quem desanima
os pobres. Triste de quem não entra na luta ao lado deles.
Terceiro, devemos estar junto com os pobres para evitar mais violência.
Quarto, para testemunhar a luta pela paz. Participei de três
greves de fome. Tentações que os militantes devem enfrentar
na luta: 1º) Medo. Uma quota é normal, mas para construir
a paz precisamos superar o medo, pois este é a internalização
do inimigo. 2º) pensar que somos heróis. Os pobres que
lutam é que são heróis. 3º) O ódio.
Raiva, temos o direito de sentir, mas ódio, não. Recordemos
sempre da ira santa dos profetas, da indignação de Jesus
ao “chutar o pau da barraca” no templo. Enfim, não
haverá paz no Brasil sem Reforma Agrária.”
-----Após este profético
testemunho, a assembléia disparou a seguinte palavra de ordem:
“Mais um passo à frente, nem um passo atrás, a
Reforma Agrária é o povo quem faz.”
-----Uma palestina disse que o governo
Sharom, apoiado pelo (des)governo dos Estados Unidos, envia aviões
de guerra, com mísseis, para enfrentar as crianças palestinas.
-----Leonardo Boff destacou: “Antes
de falar de paz, temos de ser, decididamente, contra a guerra. Urge
cultivar uma mística da paz, uma semente que está dentro
de cada um/a de nós. Mas também as sementes da violência
estão dentro de nós. Ou comecemos a paz em nós
mesmos, ou a paz não terá futuro. Qual a lição
da oração de Francisco de Assis? Potencializar as luzes
existentes em nós. A paz tem pai, o cuidado, e tem mãe,
a justiça. Relações justas nos humanizam, transformam
um distante em um próximo/a e este em um companheiro/a. Urge
superar a bifurcação da humanidade: 1,6 bilhões
de incluídos e 4,4 bilhões de excluídos. O medo
chama agressão. Pelo cuidado se exorciza o medo. A cada 13
minutos desaparece uma espécie de ser vivo do planeta Terra.
Já ocupamos 83% da Terra, depredando. Não somos os únicos
filhos/as da terra.”
3) LULA NO FSM: saia
justa
-----O
Presidente Lula esteve no FSM e, entre aplausos e vaias, elencou os
avanços do governo. Recordou as vitórias de partidos
de esquerda no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Panamá,
Sinal de que a América Afrolatíndia está resistindo
ao neoliberalismo. Está em curso uma integração
latino-americana a partir do Mercosul. O Brasil, segunda maior nação
negra, após a Nigéria, está se voltando para
a África. Dentre as iniciativas de integração,
o presidente anunciou que o Brasil anistiou as dívidas externas
de Gabão, Moçambique, Bolívia e, em breve, perdoará
a dívida do Suriname. O Brasil está estimulando relações
da América Latina com os árabes, no Oriente Médio.
Em breve, haverá um encontro dos presidentes latino-americanos
com aqueles governos. O Brasil liderou a criação do
G3 e do G20. Integram o G3 o Brasil, a Índia e a África
do Sul. Integram o G20 os 20 países mais pobres do mundo que
estão se unindo para resistir às ofensivas do capitalismo
transnacional. O Brasil questionou, na OMC, os subsídios do
algodão e do açúcar e está buscando acordos
entre o Mercosul e a União Européia.
-----Reconhece o nosso presidente que
a fome não é só um problema social, mas também
político e econômico. Como início de atendimento
às reivindicações dos povos indígenas,
47 áreas indígenas foram demarcadas nos últimos
dois anos. Foram criadas reservas ecológicas na ordem de 5
milhões de hectares. O programa bolsa família já
beneficia 6,5 milhões de pessoas. O risco Brasil diminuiu para
abaixo de 500 pontos. Novos empregos em 2003 e 2004 somam dois milhões.
-----Porém, Lula não explicou
os limites, ambigüidades e contradições do seu
governo, entre as quais podemos citar: liberação dos
transgênicos, se colocando de joelhos diante do lobby da Monsanto
que tenta abocanhar o controle das sementes que deve continuar sendo
um patrimônio da humanidade e de toda a criação.
A pífia Reforma Agrária, tão necessária,
mas que ainda anda no passo da tartaruga, enquanto o agronegócio,
apoiado pelo governo federal, se desenvolve em alta velocidade, deixando
atrás de si grandes rastros de destruição ambiental..
A insistência na Transposição do Rio São
Francisco, uma obra faraônica e estúpida. O Velho Chico
clama para ser revitalizado e não transposto. O povo do FSM
pergunta: Por que manter a política econômica neoliberal?
Política que coloca o povo brasileiro ajoelhado frente aos
ditamos do FMI, dos EUA e das multinacionais. Por isso, Lula teve
que ouvir vaias e palavras de ordem, tais como: “O povo tá
na rua, a luta continua.” “Há de ver este governo;
há de ver a volta que se dá, quando o povo anda pra
frente e o governo anda pra trás”.
4) JORNAL BRASIL DE FATO – uma alternativa ao
monopólio da comunicação de massas
-----No
ginásio Araújo Viana, mais de 4.000 pessoas participaram
da celebração dos dois anos do JORNAL BRASIL DE FATO
(JBF). Este é uma arma para enfrentar a guerra das comunicações.
O Jornal BRASIL DE FATO tem sido um evangelho para os pobres que lutam
no Brasil. A mídia é, por natureza, antievangélica,
pois ao divulgar prioritariamente as desgraças e ao mostrar
a versão da elite sobre os acontecimentos, injeta na sociedade
a idéia de que “tudo está piorando” e que
não adianta lutar.
-----O JBF fala a verdade que liberta
e revela as lutas populares em curso Brasil afora. Não dá
para mudar o mundo estando de joelhos diante do FMI, fechando os olhos
para o sofrimento dos pobres. Quando políticos de centro-esquerda
dizem que não se pode mudar o mundo, estão falando mentira.
Palestina, Iraque e América Latina, na luta contra o imperialismo,
estão demonstrando que é possível resistir às
investidas imperiais e empreender um caminho revolucionário.
Devemos conferir o que ocorre na Venezuela. Todas as lutas estão
sendo ganhas com o apoio do povo pobre que está se unindo,
se organizando. Quando o povo se levanta, nunca perde. O povo venezuelano
votou em Hugo Chaves cinco vezes. Os Estados Unidos não querem
que o exemplo da Venezuela se espalhe pela América Latina,
pois será como riscar um palito em um palheiro. As mães
da Praça de Maio, na Argentina, vão à praça,
há 30 anos, clamar por justiça. Hebe Bonafini segue
firme na luta. Cadê os generais que coordenaram as ditaduras
militares? Ou estão nas prisões, ou mortos, ou esquecidos.
A informação é a arma mais poderosa que os poderosos
controlam. A Revolução é o único caminho
para o povo da América Latina, que pode superar o capitalismo
e levar-nos a um socialismo com justiça social, ecológica
e liberdade para todos e tudo.
-----Plínio de Arruda Sampaio
afirma: “O Jornal BRASIL DE FATO é uma pedrinha. Com
pedras, as crianças palestinas seguem resistindo às
agressões do imperialismo de Sharom e de Bush. A CIA cantou
vitória quando assassinou o Che Guevara na Bolívia,
em 1968. Mas ninguém sabe os nomes dos assassinos do Che, enquanto
este está muito vivo, sendo inspiração, nos corações
de milhões de pessoas que lutam contra os sistemas de morte.
A Bíblia diz que o pequeno Davi, com uma pedrinha, venceu o
grande Golias, general dos filisteus. O povo cubano resiste com pedras
boas. O povo russo está acordando, após a anestesia
capitalista a que foi submetido. A correlação de forças
que estamos construindo passa pelos movimentos populares e sociais.”
5) RECADO DOS QUE SEMPRE
ACREDITARAM NA REVOLUÇÃO
– Frei Betto e Aleida Guevara
-----Presente
no FSM, Frei Betto falou sobre diversos assuntos, entre os quais,
valores de um/a militante: “O MST, ao lado das CEBs, é
um exemplo de formação de base. A única forma
de reproduzir a militância é através da formação
de base, fazendo com outros o que fizeram conosco. A esquerda política,
sem formação de base, corre o risco de se elitizar.
Sem aprimoramento do trabalho de base, corremos o risco de sermos
mordidos pelo veneno do eleitorismo. Sem povo na base social, tem
que se negociar com alianças escusas. Nas lutas de guerrilhas
no Brasil faltou apoio popular. Sem apoio popular, a esquerda fala
para si mesma. Temos que nos entender com as massas, o povão.
Há ‘militontos’ que mais assustam os pobres, ao
invés de atrai-los. Três aspectos são importantes:
-----1º) Formar militantes, não
‘militontos’, e nem ‘tranquilitontos’, acrescento
eu. A bateria dos ‘militontos’ pifa cedo.
-----2º) Militância se faz
com ética. É a única forma de ser respeitado.
Fidel Castro gosta de dizer: “Um revolucionário pode
perder tudo, até a vida, menos a moral.” Em Sierra Maestra
se tratava bem os prisioneiros.” Guevara dizia: “Os prisioneiros
um dia serão soltos e vão falar bem de nós.”
-----3º) Não se faz luta
só com compromisso efetivo, mas é necessário
compromisso afetivo também. Cuidar de si, do amor, amar e ser
amado, é vital na luta.Unir luta com festa, fé, prazer,
eis um tempero indispensável.
-----Duas atitudes são fundamentais:
1ª) Fazermos pressão para que Lula cumpra as promessas
de campanha. Governo é como feijão: só cozinha
bem na panela de pressão. Os lobbies de pressão são
muito poderosos na praça dos Três Poderes. 2ª) Engravidar
o presente com o outro mundo possível.
-----As esferas importantes são
cinco: 1ª) Movimentos populares; 2ª) Pastorais Sociais;
3ª) Sindicatos; 4ª) Partidos políticos; 5ª)
ONGs. Todas se complementam e não podem se excluir e nem estabelecer
concorrência entre si. Enfim, para entender o Governo Lula é
preciso recordar que ganhamos uma Eleição (governo)
e não uma Revolução (poder). João Goulart,
Aliende e os Sandinistas ganharam eleições e pensaram
que tinham ganhado uma revolução. Isso explica porque
foram destituídos do governo. Agora, trata-se de continuar
conquistando parcelas de poder. O MST ocupa os latifúndios
e as elites invadem a Esplanada dos Ministérios.”
-----Aleida Guevara, médica pediatra,
filha de Ernesto Che Guevara, ensinou “Temos que lutar para
qualificar e elevar o nível de nossas culturas. Meu pai aprendeu
muito ao viajar pela América Latina, percebeu que os pobres
sentem necessidade de, em primeiro lugar, se alimentar; depois ter
saúde e em terceiro lugar, educação. Não
podemos copiar o modelo de Cuba. Devemos aprender com os avanços
e erros. A primeira tarefa que uma revolução deve fazer
é a Reforma Agrária. Perguntaram-me: “Se você
tiver que escolher entre seus filhos e a Revolução,
o que escolhe?” “A revolução, respondi tempestivamente,
pois devemos ser conseqüentes com o que estamos dizendo e estar
dispostos a nos doar para conquistarmos vida e liberdade para todos.
Nunca devemos pedir aos outros o que não somos capaz de fazer.
Sermos íntegros, eis o perfil de um revolucionário.
Uma vez, uma mulher foi pedir um conselho a Gandhi. Disse que o filho
dela estava comendo todo o açúcar que colocava em casa.
Gandhi disse: “Volte daqui a 15 dias.” A mulher voltou.
Gandhi disse para o menino: “Meu querido, pare de comer açúcar
desnecessariamente.” A mulher objetou: “Por que você
não disse isso há 15 dias atrás?” Gandhi
afirmou: “Porque há quinze dias atrás eu também
comia muito açúcar. Tive de parar antes, pois só
podemos dar conselhos sobre o que estamos vivenciando.”
6) HUGO CHÁVEZ: a grande estrela do FSM
-----Um
dos pontos altos do V FSM foi a presença do presidente da Venezuela,
Hugo Chavez. Dia 30/01, pela manhã, Hugo Chavez visitou um
assentamento do MST, em Tapes/RS, onde 32 famílias assentadas,
em cooperativa, produzem arroz ecológico (sem nenhum agrotóxico),
em um sistema de rizopsicultura (= arroz e peixe em várzeas
bastante úmidas e até alagadas). Lá foi assinado
um acordo entre os governos venezuelano e brasileiro, por meio das
Universidades Federais do Paraná e do Maranhão visando
a criação de uma Universidade latino-americana de Agro-ecologia.
O MST se comprometeu a enviar para os camponeses da Venezuela sementes
orgânicas de diversos alimentos para alavancar a Reforma Agrária
em curso na Venezuela.
-----À noite, no estádio
Gigantinho, Hugo Chávez fez um discurso, de 2 horas e meia,
para milhares de pessoas que o ouviam entusiasmadamente. Recordou
grandes revolucionários da História, a começar
de Jesus Cristo. José Marti, Bolívar, José Inácio
Abreu de Lima (um pernambucano discípulo de Bolívar),
Guevara, Marx, Fidel, ... Enumerou as conquistas do povo pobre venezuelano:
1) Controle da companhia petrolífera, principal fonte de renda
da Venezuela; 2) Reforma Agrária, que está sendo feita.
Na Venezuela está agora declarada guerra ao latifúndio;
3) Lei de Responsabilidade Social e Ética dos Meios de Comunicação
Social; 4) Campanha massiva de alfabetização. Em Breve,
a Venezuela será declarada zona livre de analfabetismo; 5)
Reforma do Poder Judiciário; 6) Devolução do
poder aos pobres: as comunidades escolhem democraticamente seus líderes
e assim o poder vai sendo descentralizado; 7) Programas sociais de
transferência de renda; 8) Programa de resgate da saúde
do povo. Em 2004, foram 50 milhões de consultas grátis.
Os pobres têm acesso aos remédios gratuitamente. Mais
de 20.000 médicos cubanos estão melhorando o sistema
de saúde venezuelano; 9) Política externa audaciosa,
buscando a integração latino-americana, luta contra
a ALCA; 10) Política econômica soberana, com controle
de câmbio, sem privatizações e com freios para
o capital especulativo.
7) E agora, José?
Qual é o nosso papel?
-----Não
tivemos a pretensão de relatar tudo o que ocorreu no 5o FSM,
o que é impossível. Estamos certos que esse relato representa
apenas uma gota no oceano das tantas atividades ocorridas no FSM e
que seria impossível para uma mesma pessoa participar de todas
elas. O mais importante é termos certo que, milhares de pessoas,
no mundo inteiro, estão pensando e construindo um Outro Mundo
Possível. Não dá mais para continuarmos imaginando
uma fórmula capaz de tornar o projeto neoliberal viável
através de novas estratégias localizadas. Ai dos acordos
que mantenham o estado das coisas, da realidade política mundial.
A experiência mostra que o fim visado pelo capitalismo é
um só, no mundo inteiro: o lucro e não as pessoas. Devemos
aprender com a experiência dos que fizeram e que acreditam na
revolução e acompanhar as ações dos jovens,
que não perdem o sonho e a utopia, é o caminho para
a justiça e a paz no mundo.
-----O nosso papel e pensar e construir
um mundo onde a destruição do meio ambiente não
seja o caminho necessário para a melhoria da qualidade de vida
das pessoas. O acesso à educação seja viável
sem a condenação de muitos ao analfabetismo, à
miséria e à fome. O compromisso de todos com a Reforma
Agrária. A construção cotidiana da Justiça
e da Paz!
Frei Gilvander Moreira.
Padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de Exegese
e Teologia Bíblica, sobre Lc e At; assessor de CEBs, CPT, MST,
SAB, CEBI e PO.
email: gilvander@igrejadocarmo.com.br