Lula e a Reforma
Agrária: versões e realidade
Gilvander Luís
Moreira ,
Delze dos Santos Laureano ,
e José Luiz Quadros de Magalhães
----------Neste
ano de eleições devemos ter uma atenção
redobrada com os diversos números que serão apresentados
pelos Governos. Os números da Reforma Agrária já
foram noticiados. O que não existe aparece agora, como num
passe de mágica, entabulado nas estatísticas fabricadas
para fins eleitoreiros. Vamos às notícias.
----------O
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária - de Minas Gerais afirmava ter uma meta de assentar
3.000 famílias em 2005. Agora, afirma ter assentado 3.366 famílias.
Verdade? Claro que não. Vejam a forma como são fabricadas
as estatísticas. Em projetos novos de assentamento, o INCRA/MG
assentou apenas 1.966 famílias. Outras 180 famílias
são de projetos criados em anos anteriores, cujas homologações
ocorreram somente em 2005. Estas mesmas famílias, bem provável,
devem ter sido contadas duas vezes como beneficiárias do Programa
de Reforma Agrária; uma vez na homologação, outra
quando houve o efetivo assentamento.
----------Outro
dado que deve ser questionado são os reassentamentos. Afirma
o INCRA/MG ter reassentado 356 famílias em projetos antigos.
No jargão camponês podemos dizer que isso é “apenas
trocar cebola”, trocar “6” por meia dúzia.
Cabe dizer que se 356 famílias desistiram de assentamentos
antigos é porque não tiveram infra-estrutura e créditos
para progredirem na terra. Fazer reforma agrária não
é apenas dar um pedaço de terra, é democratizar
o acesso a terra de modo a mexer na perversa estrutura fundiária
brasileira, criando efetivas oportunidades de trabalho e renda para
que os próprios trabalhadores possam construir seus projetos
de vida. Para isso são necessários infra-estrutura e
créditos. É preciso política agrícola
que priorize a agricultura familiar e a produção de
alimentos para o consumo interno.
----------Também
deve ser refutado o assentamento das famílias atingidas por
barragem. Essas famílias feitas sem-terra pelo próprio
governo do Estado de Minas, agora entram na estatística do
INCRA/MG como assentados da reforma agrária. O que houve foi
apenas um aumento dos demandantes por terra em vista das hidrelétricas
com grandes barragens como a de Irapé onde 864 famílias
ficaram sem terra. Incluir estas 864 famílias no balanço
da reforma agrária em Minas é brincadeira de mal gosto.
Foram reassentadas, pela CEMIG (concessionária da Usina), em
situação precária. Faltam ser assentadas milhares
de outras atingidas por dezenas de barragens em MG. No reassentamento
de Irapé, falta infra-estrutura, escola, posto de saúde
e parte das terras é pouco fértil. Veja o absurdo: O
governo Aécio Neves desassenta os atingidos por barragens,
mais de 40 mil famílias em Minas Gerais; a CEMIG reassenta
somente 50% das famílias e o governo Lula contabiliza como
reforma agrária. Em Irapé, centenas de crianças
perderam escola. Foram três anos sem poder plantar. E agora
as famílias têm que pagar conta cara de energia, sem
estar ainda produzindo.
----------Quanto
ao Governo do Estado de Minas, através do Instituto de Terras
– ITER – não tomou as devidas medidas para arrecadar
os presumíveis 11 milhões de hectares de terras devolutas,
existentes em Minas, que continuam nas mãos de empresas eucaliptadoras,
causando depredação ambiental sem tamanho. Nota zero
para a reforma agrária do Governador Aécio Neves em
Minas. Em Minas há 415 mil famílias sem-terra, dessas,
em mais de 100 acampamentos, mais de 11 mil famílias continuam
debaixo da lona preta.
----------Outra
contradição do Governo Lula é que ao invés
de onerar a contribuição dos latifundiários por
meio do ITR – Imposto Territorial Rural - para financiar a reforma
agrária, como prevê o Estatuto da Terra, Lei 4.504/64
- e aumentá-lo progressivamente, ano a ano, para exigir o cumprimento
da função social da propriedade e financiar as desapropriações,
contrariamente, no último dia de 2005, o presidente sancionou
uma lei municipalizando a cobrança e o destino do ITR. Assim
a Receita Federal perderá o controle do cadastro e a oportunidade
de cruzar os dados com os do Imposto de Renda. Os latifundiários
já pagavam pouco e, agora, contanto com o apoio dos prefeitos
e a falta de estrutura dos municípios para a cobrança
de tributos pagarão menos ainda.
----------O
Governo Lula deveria era divulgar quanto investiu no agronegócio
em 2005, quanto gastou para indenizar os fazendeiros irresponsáveis
que não vacinaram o gado contra a febre aftosa e assim tiveram
suas reses abatidas e enterradas para não atrapalhar os negócios
dos exportadores de carne.
----------No
balanço final, o governo Lula afirma que o total de famílias
assentadas em 2005, em todo o Brasil, foi de 127 mil famílias.
Na verdade foram apenas 26.951. As restantes foram assentadas em terras
públicas: 13.726 famílias no Pará, 10.862 no
Maranhão, 16.796 na Região de Santarém, 4.884
no Amazonas, 3.716 em Marabá e etc, garantindo assim o "assentamento"
de 69.182 famílias sem ter de fazer desapropriações
o que poupou os latifundiários. Só no município
de Santarém/PA, o INCRA diz ter assentado 12 mil famílias,
seis vezes mais do que em todo o estado de Minas Gerais. No balanço
do INCRA foram assentadas apenas 29 mil famílias em áreas
desapropriadas. Se a maioria dos assentados advém de regularização
fundiária ou de compra de terras ou de recolocação
em lotes vagos, logo, reforma agrária que priorize o instituto
da desapropriação não está sendo feita,
mas apenas um programa de assentamentos.
----------Somente
pode-se considerar como assentada uma família sem-terra quando
a mesma já estiver em seu lote e, no mínimo, com créditos
de habitação e de produção liberados,
com as obras de infra-estrutura de estrada, água e luz elétrica
feitas, e com o projeto de desenvolvimento agrário em execução.
Isso não tem acontecido nem para a metade das famílias
assentadas.
----------No
entanto, a atual política econômica é aliada das
transnacionais e do agronegócio e penaliza cada vez mais a
agricultura familiar e camponesa e, conseqüentemente, a reforma
agrária. Não dá para servir ao agronegócio
e à reforma agrária ao mesmo tempo. Na prática,
Lula tem optado pelo agronegócio. Está paralisada a
reforma agrária, como um conjunto de medidas para atacar a
concentração da propriedade da terra, valorizar e multiplicar
a agricultura familiar e camponesa.
----------Uma
outra crítica que deve ser feita ao Governo Lula refere-se
à falta de atualização dos índices de
produtividade. Muitas propriedades improdutivas não são
desapropriáveis em vista do impedimento da produtividade inscrito
no Art. 185 da Constituição Federal. A exigência
é muito baixa. A legislação que atualiza esses
índices está engavetada há muito tempo.
----------Assim,
não podemos, às vésperas das eleições
presidenciais acreditar em números fabricados apenas para dar
a impressão de que a reforma agrária está sendo
cumprida pelo Governo. A promessa de Lula de que se pudesse fazer
apenas uma coisa em seu governo, essa única coisa seria a reforma
agrária, como tantas outras, foi “esquecida” pelo
presidente operário, até mesmo o fato de que sempre
foi contra a reeleição.
----------Em
uma democracia representativa o mecanismo de que dispõe a população
para fazer com que o governo faça o que o povo deseja é
a organização, mobilização, pressão
e o diálogo permanente. É fundamental que resgatemos
este mandato conferido ao presidente Lula para o povo, tirando o governo
das mãos do capital financeiro e dos latifundiários
conservadores. Qualquer governo só fará as mudanças
que o país necessita amparado por forte mobilização
popular. A capacidade de pressão legítima e democrática
por parte dos movimentos sociais e da opinião pública
é determinante para resgatar as promessas de campanha e efetivá-las.
E diga-se, não apenas as promessas de campanha, precisamos
ir muito além e os ventos que sopram na América Latina
são favoráveis às mudanças em busca da
justiça social e econômica. A crença em uma democracia
representativa sem sociedade civil organizada e mobilizada; a crença
na possibilidade de governos poderem sozinhos realizar mudanças
contra os interesses do capital, que domina parte expressiva da mídia
e do parlamento, pertence a um inocente passado. Não há
mudança possível sem a organização e mobilização
que permita que os poderes do Estado respeitem a Constituição
e sejam resgatados das mãos do capital conservador. Para relações
sociais justas no campo toda a sociedade precisa se mobilizar. Para
relações justas no trabalho, na cidade, em casa, toda
a sociedade precisa atuar. Não há lideres carismáticos
capazes de realizar sozinhos as mudanças que possam gerar justiça,
igualdade e segurança social. É a vez da sociedade civil.
As coisas nos dizem respeito. Tudo neste planeta nos diz respeito.
----------Enfim,
faz bem cultivar, diariamente, a prática democrática
e primar pela verdade dos fatos como um mínimo ético
para a legitimidade de qualquer pretensão política.
Frei Gilvander Luís Moreira – email:
gilvander@igrejadocarmo.com.br
Delze dos Santos Laureano - email: delzesantos@hotmail.com
Prof. Dr. José Luiz Quadros de Magalhães – email:
ceede@uol.com.br
1) Frei carmelita, assessor, em Minas
Gerais, da CPT - Comissão Pastoral da Terra.
2) Mestranda em Direito Constitucional, professora de Direito Agrário
na Faculdade Dom Hélder Câmara, em Belo Horizonte/MG,
e integrante da RENAP – Rede Nacional dos Advogados Populares.
3) Professor, Dr. da UFMG e da PUC Minas.