Santa a Aracruz?
Malditas as Mulheres?
Frei Gilvander Moreira
----------No
dia 20 de janeiro deste ano (2006), a Aracruz Celulose mobilizou helicópteros,
bombas, armas, tratores e 120 agentes da Polícia Federal, para
destruir duas aldeias e expulsar 50 pessoas dos povos indígenas
Tupiniquim e Guarani de sua terra tradicional, no município
de Aracruz, Espírito Santo. Na mídia, não se
viu nenhuma mãe Tupiniquim ou Guarani com seus filhos chorando,
nenhum ministro do Governo condenando a ação, ou mesmo
o dono da empresa lamentando a violência.
----------No
dia 08 de março último, Dia Internacional da Mulher,
mais de mil mulheres da Via Campesina ocuparam um centro de pesquisa
da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul. Destruíram 1.000.000
de mudas de eucalipto e danificaram pesquisas que fortaleceria a monocultura
do eucalipto, pau reto que entorta a vida do povo.
----------A
mídia, latifúndio da comunicação, esbravejou
contra as Mulheres condenando-as. Mostrou dezenas de vezes uma pesquisadora
da Aracruz chorando. Lideranças se posicionaram. Vandalismo?
Violência? Arruaça? Atentado à democracia? (Que
tipo de democracia?) Antipetismo? (Petismo do início do PT
ou o de agora?). As expressões acima foram bombardeadas contras
as Mulheres, mas é necessário perguntar: Quem, de fato,
praticou vandalismo, violência, arruaça? Quem atentou
contra a democracia? As Mulheres ou a Aracruz? Diga o que tu fazes,
que direi quem tu és.
----------A
Aracruz Celulose S/A é uma multinacional controlada por 4 acionistas
majoritários que detém o direito a voto: Grupo Lorens
(28%), Banco Safra (28%), Votorantin (28%) e BNDES (12,5%). Com a
monocultura do eucalipto, já transformou o Espírito
Santo em um “deserto verde” e foi “laboratório”
para treinar os 300 mil homens que, com 300 mil motos-serras, podem
desmatar 40% da floresta Amazônica até 2050, 76% do Mato
Grosso e 97% do Maranhão. (cf. MEDEIROS, Rogério, Ruschi,
o agitador ecológico, Ed. Record, Rio de Janeiro, 1995; e FSP,
23/03/2006, p. A17).
Nos últimos três anos só a Aracruz Celulose, que
tem cerca de 250 mil hectares de eucalipto no Brasil, recebeu do governo
brasileiro quase 2 bilhões de reais. Em dezembro de 2005, foi
aprovado empréstimo de quase 300 milhões de reais pelo
BNDES à Aracruz que, entre outros, servirá para modernização
da sua fábrica de celulose no Rio Grande do Sul. O prazo de
carência desses créditos do BNDES é de 21 meses,
só a partir daí começam as amortizações
do empréstimo, cujos prazos chegam a 84 meses. Tudo isso a
juros de 2% ao ano, enquanto as taxas de juros praticadas no Programa
Nacional da Agricultura Familiar (PRONAF) vão até 8,75%
ao ano! O BNDES também emprestou US$ 318 milhões para
a construção da fábrica da Veracel (empresa da
Aracruz Celulose e Stora Enso, sueco-filandesa – são
concorrentes, mas ao mesmo tempo sócias, alguém entende?),
na Bahia.
----------A
Aracruz teve lucro líquido de R$ 1,2 bilhão em 2005.
Suas más ações vão desde a expropriação
de terras indígenas até a desertificação
“produtiva” que solapa a natureza para gerar lucros para
uns poucos. E isso com a participação ativa de instituições
do governo como BNDES tendo a polícia federal como guardiã
e o judiciário como cúmplice.
----------Mais
de 90% da celulose produzida pela Aracruz é exportada, principalmente
para os Estados Unidos, que consomem 9 vezes mais papel que os brasileiros.
Já são 5 milhões de hectares de monocultura de
eucalipto no Brasil, 52,6% em Minas Gerais (cf. INDI 2003). O eucalipto,
originário da Austrália, é um vampiro das águas.
Tem raiz vertical do tamanho da árvore. Chupa as águas
superficiais e as mais profundas. Com tronco reto, cascas e folhas
finas, suga a água com facilidade e não a retém.
No cerrado, onde as árvores são retorcidas, com cascas
e folhas grossas, a água é retida e forma a conhecida
“caixa d’água do Brasil. “As plantas do cerrado
dispensam as folhas na época da seca. Assim economizam água
e fertilizam o chão”, diz dona Ermelinda, uma geraizeira.
O “deserto verde” da monocultura do eucalipto tem causado
um êxodo rural violento, a expulsão familiar do campo,
além de incontáveis impactos ambientais: a biodiversidade
destruída, os solos empobrecidos, rios secos, sem contar a
enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose
que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde
humana.
----------Há
506 anos "ciclos" históricos de monoculturas mantêm
o povo do Brasil em situações análogas à
escravidão (pau Brasil, borracha, cana-de-açúcar,
ouro, café, minério, soja, eucalipto). Pressionado por
ONGs ambientalistas, o Ministério Público instaurou
inquérito contra três grandes indústrias de celulose
que estão se instalando no Rio Grande do Sul, a Votorantin,
a Aracruz e a Stora Enso. Isso porque elas estão plantando
sem licenciamento ambiental.
----------“As
Mulheres camponesas, pela sua ação disseram que o agronegócio
de papel e celulose é espinheiro e abrolhos que não
garantem uso social e ecológico da terra e da água.
A expansão da monocultura da celulose quer inviabilizar a necessidade
da reforma agrária e agrícola no Brasil. Não
produz alimento. Ninguém come eucalipto. Não gera emprego
proporcional à quantidade de terra utilizada. Não garante
uma relação responsável com o ambiente inteiro.
Não distribui riqueza, fazendo do Brasil um ponto subordinado
- também na área da pesquisa! - no quadro internacional
do capital papeleiro. As necessidades infindáveis e insustentáveis
de consumo de papel e derivados no capitalismo têm como referência
os padrões de uma burguesia mundial que precisa demais do papel
porque escreve demais! Embrulha demais! Empacota demais! Compra demais!
Gasta demais! Faz propaganda demais! Este modelo absurdo de consumo
não vai ser imposto ao campesinato mundial”, profetisa
a pastora Nancy Cardoso Pereira.
----------O
papel higiênico, as fraldas, os jornais, os livros, o material
de propaganda e as embalagens das milhares de mercadorias do Primeiro
Mundo dependem da nossa terra, da nossa água e do nosso clima
para existir. Expandir a produção de celulose alimenta
este padrão insustentável de consumo que depende da
exploração da natureza de uma região do planeta,
o sul pobre, para manter o padrão de vida de outro, o norte
rico. As plantações de eucalipto alimentam as carvoarias,
onde há trabalho escravo, e saciam a fome das caldeiras das
siderúrgicas que exigem mineração que detonam
com as nascentes e lençóis freáticos.
----------Os
evangelhos da Bíblia (Mateus 21,12-13; Marcos 11,15-19; Lucas
19,45-46 e João 2,13-17) relatam que Jesus, próximo
à maior festa judaico-cristã, a Páscoa, impulsionado
por uma ira santa, invadiu o templo de Jerusalém, lugar mais
sagrado do que o laboratório da Aracruz que tem a cruz no seu
nome, mas uma cruz de sangue e dor que ela impõe aos pobres.
Furioso como todo profeta, ao descobrir que a instituição
tinha transformado o templo em uma espécie de Banco Central
do país + sistema bancário + bolsa de valores, Jesus
“fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo, bem como
as ovelhas e bois, destinados aos sacrifícios. Derramou pelo
chão as moedas dos cambistas e virou suas mesas. Aos que vendiam
pombas (eram os que diretamente negociavam com os mais pobres porque
os pobres só conseguiam comprar pombos e não bois),
Jesus ordenou: ‘Tirem estas coisas daqui e não façam
da casa do meu Pai uma casa de negócio.” Essa ação
de Jesus foi o estopim para sua condenação à
pena de morte, mas Jesus ressuscitou e vive também em milhões
de Mulheres guerreiras que não aceitam mais nenhuma opressão.
----------As
mulheres parteiras do Egito – a Bíblia registra os nomes
de duas: Séfora e Fuá (Êxodo 1,8-22) -, diante
de uma medida provisória (= “Decreto Lei”) que
mandava matar as crianças do sexo masculino, se organizaram
e fizeram greve e desobediência civil. “Não vamos
respeitar uma lei autoritária do império dos faraós.
O Deus da vida quer respeito à pessoa e não concorda
com a matança de crianças e com nenhuma opressão”,
dizia em seus corações as Mulheres do “sistema
de saúde” do Egito. Diz a Bíblia: “Deus
estava com as parteiras. O povo se tornou numeroso e muito poderoso.”
(Ex 1,20), isto é, crescia em quantidade e em qualidade. O
Movimento das Mulheres campesinas é legítimo herdeiro
do Movimento das parteiras do Egito. O mesmo Deus que impulsionou
as parteiras está com as Mulheres que assustaram a Aracruz.
Ontem, lutavam contra o império dos faraós; hoje, lutam
contra o império das multinacionais.
----------No
Dia Internacional da Mulher, as Mulheres camponesas, com um espírito
profético, usaram a força simbólica contra a
violência estrutural de uma empresa que pensa poder, impunemente,
comprar a vida das pessoas e transformar a terra em mercadoria. O
gesto das companheiras do MST e Via Campesina convida a todos, homens
e mulheres, comprometidos com a justiça e a defesa da Terra
a continuar esta marcha profética e aprofundar a invasão
simbólica de tudo o que pertence ao povo e dele foi roubado,
em nome do dinheiro e do progresso mentiroso.
----------“A
ação das Mulheres da Via Campesina, na Aracruz, está
em consonância com as ações de Gandhi e Martin
Luther King Jr., mártires dos oprimidos. Elas e eles fizeram
desobediência civil: desafio a leis injustas sem agredir pessoas.
Como gesto extremo, querem acordar consciências anestesiadas
que são cúmplices de sistemas opressivos. A não-violência
de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas,
mas, sim, às pessoas humanas”, pontua Plínio de
Arruda Sampaio (FSP, 24/03/2006, p. A3). O boicote do sal e do tecido
inglês na Índia, o dos ônibus segregacionistas
no Sul dos Estados Unidos e tantos outros movimentos de desobediência
civil em todo o mundo causaram grandes prejuízos materiais
aos capitalistas, mas trouxeram conquistas para a humanidade.
----------As
Mulheres camponesas foram compelidas a realizar um gesto extremo pois
não estão sendo ouvidas, por isso vivem um drama há
muito tempo. Se a Reforma Agrária fosse feita pra valer e o
ambiente estivesse sendo preservado, se as cartas e os documentos
por elas, cuidadosamente, elaborados e apresentados, tivessem sido
acolhidos, não existiria Aracruz destruindo como está.
Não precisaria das mulheres destruírem um milhão
de mudas de eucalipto. Todo o povo brasileiro viveria mais feliz.
----------Para
os capitalistas, a terra, as águas, as sementes, o ar, as matas
são recursos que devem ser explorados conforme seus interesses
econômicos. Para as Mulheres camponesas, estes elementos da
natureza são dádivas e base da vida, não tem
preço e jamais podem ser mercantilizados. Para as Mulheres
camponesas a terra deve cumprir função social não
comercial, deve alimentar a vida, não os lucros. Defendem a
agricultura familiar que produz 70% dos alimentos da mesa do povo
brasileiro; é a que mais emprega no campo; fixa o homem ao
campo; desenvolve agricultura ecológica; preserva a biodiversidade;
respeita a pluralidade cultural das populações; gera
trabalho, renda e dignidade para a população.
----------“O
que fere a consciência democrática de todos os brasileiros”
é a redução violenta da biodiversidade, a exterminação
da fauna e da flora brasileiras, a diminuição do volume
de água nos locais do plantio, a contaminação
do solo, da água dos rios e córregos pelo uso exagerado
de herbicidas e outras substâncias tóxicas, provocando
um grande desequilíbrio biológico com a infestação
de pragas que atingem as residências e as produções
agropecuárias da população vizinha ao eucaliptal;
----------O
conflito está estabelecido: De um lado, um Movimento de Mulheres
que estão grávidas de Um Outro Brasil, justo e solidário;
De outro, uma transnacional que explora, expulsa e destrói
a saúde de trabalhadores (as), acaba com o ambiente, concentra
terra, renda e riquezas em nome da tecnologia e da modernidade. De
que lado vamos ficar?
----------As
Mulheres foram, não às mudas, mas à raiz do problema.
O que fascina no gesto simbólico delas é a lição
de que não precisamos e não devemos tolerar o desterro
produzido em nosso próprio país. É preciso olhar
toda a criação como um bem comum e do qual a humanidade
é apenas um dos parceiros, não sua proprietária.
As Mulheres nos dão impressionante recado de que a sobrevivência
da espécie não pode ocorrer às custas de tantas
vidas e tanta destruição.
----------Deus
está nas Mulheres em movimento e no Movimento das mulheres.
Frei Gilvander Luís Moreira,
biblista, assessor da CPT/MG, CEBs, CEBI e SAB. e-mail:
gilvander@igrejadocarmo.com.br