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Tributo a Dom Luciano Mendes

Frei Gilvander Moreira

----------Sentindo já uma grande saudade de dom Luciano Mendes, tenho a ousadia de quebrar o silêncio, respeitoso e reverente, para recordar alguns momentos inesquecíveis que partilhei da convivência deste amigo e companheiro, pastor e profeta, semeador de esperança, de fraternidade, de justiça e de amor. Dom Luciano tinha como lema: “Quem não dá tudo de si não dá nada.” Era um mestre por causa do amor e do serviço.
----------Dom Luciano participou em tempo integral do 11o Intereclesial, em julho de 2005, em Ipatinga/MG. Com um sorriso inebriante, sempre de mão estendida, cumprimentava a todos. Quando falava, sempre animava os militantes do Reino de Deus a continuarem firmes organizando as CEBs – Comunidades Eclesiais de Base. Na equipe de redação da carta-mensagem do Intereclesial das CEBs às comunidades do Brasil, o pastor profético fazia questão de alertar: “Não podemos jamais esquecer o compromisso com os pobres. Lutar pela inclusão de todos os excluídos: sem terra, indígenas, negros, mulheres, mãe terra, a natureza, as águas. Na ciranda da vida deve haver espaço para todos e tudo.”
----------Dia 1º de abril último, dom Luciano participou da Marcha os Movimentos Sociais em Belo Horizonte. A PM e a tropa de choque impediram a passagem pela Praça da Liberdade para acolher 10 pessoas que estavam em greve de fome há três dias protestando contra as políticas neoliberais, contra a censura à imprensa em Minas e contra o “tapete vermelho para o encontro do BID” e polícia para os pobres dos movimentos sociais. Dom Luciano caminhou muito, dialogou com os chefes das polícias, subiu e desceu diversas vezes no caminhão de som posicionando-se sempre a favor dos pobres que se manifestavam de forma pacífica e legítima. No dia 03 de abril, após a Polícia Militar Mineira mostrar sua verdadeira face: a truculência ao prender dez trabalhadores e ferir muitos, enquanto o povo se reunia na praça da Assembléia Legislativa, eis que dom Luciano reaparece, quase que caindo do céu, para consolar os feridos, dizer uma palavra de ânimo e para visitar os presos no porão de uma delegacia, resquício da ditadura civil-militar de 64.
----------No início de agosto de 2005, dom Luciano, na missa de abertura do curso de teologia da Arquidiocese de Mariana, na homilia, disse incisivamente: “Caros seminaristas, vocês são bem vindos ao seminário, desde que assumam compromisso com a causa dos pobres. Seminarista que não quiser se doar e ser servidor dos pobres, que quiser vida cômoda, não deve permanecer no seminário. Que saia logo e não espere ser mandado embora.”
----------Com a partida de Dom Hélder Câmara, de Dom Antônio Fragoso, de Dom Luciano (e tantos outros), a igreja fica cada vez mais pobre dos pobres? Ficaremos órfãos? Acredito que não, pois a força ética, a retidão, a força espiritual, a energia profética e a doce ternura desses pastores profetas continuarão movendo tantos discípulos e discípulas.
----------Dom Luciano, imagem humana de Deus, não apenas repousa na glória, mas vive plenamente. Você partiu, mas ficará para sempre entre nós. Sua luz e força continuarão nos guiando e nos inspirando. Obrigado, dom Luciano, luz dos pobres na luta por libertação integral. Dom Luciano, luz dos anos pós-vaticano II, intercedei por nós! Ouviremos sempre seu último pedido: “Não esqueçam dos pobres.”

----------Ele passou a vida fazendo o bem.

João e Chriselda Kandler, austríacos que trabalhavam em Barbacena, como voluntários internacionais: “Quando organizamos a primeira ocupação dos “Sem Casa” em Barbacena foi ele quem ajudou e encorajou o povo na defesa pelo direito de um pedaco de chao. Devemos muito à esse bispo carinhoso e corajoso. Deus o tem com ele e rezemos que a semente que ele semeou traga muitos frutos.

----------É grande o sentimento de todos nós pela perda desse homem de Deus, homem da Vida. Que sejamos dignos e merecedores de partilhar da grande herança que ele nos deixou, dando tudo de nós mesmos nessa caminhada junto aos pobres-indígenas-negros-negras-mulheres-semterra-mãe terra/irmã natureza-crianças-jovens-idosos... e assim segue a corrente de excluídos, essa corrente de irmãos. Que a memória de Dom Luciano nos irmane sempre mais.

----------Foi d. Luciano quem soube condensar os trabalhos de maneira terna e sábia. Já não havia esperança e S. Domingo só conseguiu o que conseguiu, graças à pessoa de d. Luciano.

Frei Gilvander Luís Moreira
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br