EM MEMÓRIA DE DOM JOSÉ MAURO,
Bispo bom samaritano e profeta.
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De 12/09/1955
a 14/09/2006!
Dom José Mauro Pereira
Bastos:
“Nossa missão é semear e nem sempre colher.”
Artigo publicado na Revista CONVERGÊNCIA,
Ano XLI, n. 397, nov/2006, pp 572-576. |
"Pela cruz à luz"
----------Dois
dias após completar 51 anos de idade, dom José Mauro
Pereira Bastos passou “da cruz à luz”, no dia 14/09/2006,
em um acidente rodoviário. Foi pároco de várias
igrejas, professor de Teologia no Instituto de Filosofia e Teologia
da Arquidiocese de Vitória. Ele era Vice-presidente Nacional
da Comissão Pastoral da Terra – CPT - e da Coordenação
da Comissão do laicato (inclui a Pastoral da Juventude). Nasceu
em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, e foi membro da
Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionista).
Fez Mestrado em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade
Gregoriana de Roma. Foi sagrado Bispo em 17 de setembro de 2000 e
assumiu, como primeiro Bispo, a Diocese de Janaúba, em outubro
de 2000. Em abril de 2006, foi transferido para a Diocese de Guaxupé/MG.
Seu lema era "Pela Cruz À Luz". Morreu no dia da
Exaltação da Santa Cruz.
----------A
sua morte súbita trouxe para todos que o conheceram a certeza
de uma perda muito antes do tempo. Para aqueles que não o conheceram
pode causar até surpresa o fato de tantos que sentem agora
a dor da sua perda. Além de Janaúba e Vitória,
foi velado na Catedral de Guaxupé, igreja de N. Sra das Dores.
E foi, segundo pedido insistente da sua família e do povo de
Vitória, sepultado em Vitória, no Espírito Santo
no dia 16/09.
----------Bispo,
bom pastor e profeta no meio do povo, preparou e esteve conosco na
10ª ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS de Minas Gerais. Incansável
trabalhador em prol do Reino de Justiça e amor, com um sorriso
vibrante, olhar penetrante, era expressão humana de Deus no
meio de nós. Junto com Dom Luciano Mendes, dom Hélder
Câmara, Dom Antônio Fragoso, Irmã Dorothy, Che
Guevara e tantos mártires, não apenas descansa, mas
vive, agora, plenamente, de forma terna e eterna.
----------Padre
Zé Renato, das CEBs e das Pastorais Sociais de São Paulo
assim testemunha: "Impressionou-me no 11o Intereclesial das CEBs,
em Ipatinga, em julho de 2005, a proximidade de dom José Mauro
com a juventude. Eu não o conhecia pessoalmente, mas este fato
muito me chamou a atenção. Meio que de longe pude observar
uma proximidade que dispensa formalismos, onde a simplicidade, alegria
e o carinho, estavam sempre presentes. Observei também, que
neste relacionamento, não que as atitudes se nivelavam, mas
eram frutos de um profundo respeito, conhecimento e confiança
entre Pastor e Rebanho. Dom José Mauro se fez jovem com os
jovens. Quando, neste ano, pude encontrá-lo na Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB - que tratou do tema da
juventude, falei de minhas observações a seu respeito,
lá no 11o Intereclesial das CEBs. Então, o sorridente
Pastor me dizia que, lá, ficou inclusive no acampamento da
juventude, o que lhe custou algumas dores nas costas, devido as acomodações,
mas que não podia ter sido diferente. Para os que conheceram
e viveram a experiência maravilhosa do Intereclesial de Minas
Gerais sabem que o valor do testemunho de dom José Mauro se
comparada à acolhida que os demais bispos e delegados receberam.
Fica a memória feliz de alguém que nos ensina que a
Igreja deve caminhar na simplicidade e transparência da fraternidade,
na alegria e simplicidade. Deve caminhar na ternura, sem o peso de
formalismos e burocracias, que distanciam, deve ser despretenciosa
e cada vez mais servidora."
----------Antes
de conhecê-lo pessoalmente, eu ouvia falar muito bem de dom
José Mauro. Nos últimos anos tive a alegria e a responsabilidade
de acompanhar o excelente trabalho dele à frente da diocese
de Janaúba, onde em apenas 5 anos criou e organizou as bases
para um trabalho de evangelização libertadora. Criou
e organizou a Cáritas diocesana que vem fazendo um bom trabalho
junto ao povo pobre, apoiando projetos de Economia Popular Solidária,
geração de renda e sustentabilidade. Criou e organizou
uma boa equipe da CPT na diocese. Apoiava de forma firme a luta do
MST e da Via Campesina pela realização da reforma agrária
no norte de Minas. Era um crítico do latifúndio e das
monoculturas. “A monocultura do eucalipto e as carvoarias estão
devastando nosso cerrado”, profetizava dom José Mauro.
Incentivou o desenvolvimento das Comunidades Rurais no espírito
da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais
de Base, mais de 600 nos 32 municípios da diocese. Para dom
José Mauro os leigos/as deviam ser protagonistas na igreja.
----------Em
2006, ele acolheu e ajudou-nos a preparar e a realizar a X Romaria
da Terra e das Águas de Minas Gerais, em Janaúba. A
celebração final do evento ocorreu no dia 20/08. Sempre
com espírito acolhedor e profético, participou de várias
reuniões de preparação.
----------Um
dia, cheguei em Janaúba, às 5:45hs da manhã.
Na frente da casa de dom José Mauro, esperei até às
6:30hs para tocar a companhia. Não queria incomodá-lo
muito cedo. Ao acolher-me, com alegria, disse-me que estava trabalhando
desde as 5:00hs e que tinha deitado à meia noite, após
celebrar 4 missas em 4 comunidades rurais. “Tenho que pisar
miúdo para atender bem a diocese e os compromissos fora da
diocese. Acabo multiplicando tempo”, dizia.
----------Participou
o dia inteiro de um encontro de preparação da X Romaria.
À noite, celebrou a missa em uma comunidade da periferia de
Janaúba e participou de uma reunião em outra comunidade.
Chegou em casa às 21:00hs. Convidou-me para acompanhá-lo
à cozinha e foi logo ligando o fogão. E em poucos minutos
tinha preparado um jantar. Ainda insistiu para levar-me na rodoviária
para que eu pudesse pegar o ônibus rumo a Belo Horizonte.
----------Dom
José Mauro foi um dos destaques da X Romaria da Terra e das
Águas. Às margens do rio Gorutuba, com um chapéu
de palha, com a camiseta da X Romaria, cedinho já estava ele
lá cumprimentando todos com uma alegria hospitaleira. Parecia
um imã. Por onde passava ia atraindo o povo. Nunca vi bispo
tão querido. Todos queriam aproximar-se dele. Cumprimentá-lo.
Tocá-lo. Pedir a bênção. Abraçá-lo.
Convidar para ir na comunidade. Davam-lhe presentinhos como balas
e biscoitos. “Um senhor disse e repetia: Nossa comunidade vive
abandonada pelos políticos e também pela igreja. O único
padre que foi celebrar uma missa lá na nossa comunidade era
bispo, dom José Mauro.”
----------Dom
José Mauro após fazer a abertura da X Romaria, de cima
do caminhão de som, onde acolheu os milhares de romeiros e
romeiras, caminhou no meio do povo até a praça da catedral
de Janaúba, onde foi concluímos a celebração
da Romaria. Com o talento dos grandes comunicadores, com intrepidez
e veemência, assim se expressou na homilia da celebração
de encerramento da X Romaria da Terra e das Águas, em 20 de
agosto último, em Janaúba, no norte de Minas, onde foi
bispo nos últimos 5 anos:
----------“Falar
da Terra, falar da água, no nosso Norte de Minas, é
para nós um clamor, um grito, pois, é para nós
a esperança que ensina o nosso povo a continuar resistindo
e a continuar caminhando.
----------Hoje
de manhã, (no início da X Romaria da Terra e das Águas),
olhando aquela multidão que parecia uma serpente, tive de um
lado uma dor e de outro uma alegria muito grande. Eu lembrava do livro
do Êxodo, quando Deus disse ao povo: eu ouvi o teu clamor, vi
tua dor e eu desci para caminhar com vocês.
----------Eu
falei - tantos séculos se passaram e nós ainda somos
um povo escravo de tantas situações. Mas, uma alegria
me vem na memória, não somos um povo sozinho, um povo
qualquer, somos um povo que caminha sabendo onde queremos chegar.
Nós somos o povo de Deus. Sabemos que Deus caminha na nossa
frente.
----------E
foi Deus que nos trouxe de tantos lugares. Foi Ele quem nos acompanhou,
para que essa romaria pudesse reanimar dentro de nós a preocupação
com a terra e a água, com essa natureza que é nossa
mãe, que nós temos ferido tanto, magoado tanto. Começamos
a pagar o preço pelo carinho com a natureza que nós
já deixamos de ter. A natureza vai se sentindo esgotada. Nós
sentimos esse grito da natureza quando o sofrimento da vida humana
vai aumentando, cada vez mais.
----------Aqui
nós queremos falar da partilha da terra nesse Brasil. Nós
sonhamos, 500 anos, para que essa terra seja dom para todos. Essa
terra continua sendo dom de alguns, terra acumulada, invadida. Terra
que não é partilhada, para que o pão seja arrancado
com o suor do rosto de todos aqueles que querem trabalhar e viver
com dignidade.
----------Eu
me lembro do Norte de Minas, dos nossos tantos assentamentos, dos
nossos quilombolas. Lembro do nosso sofrimento com a terra. Terra
que não é repartida, terra que não é dividida,
terra que não gera fraternidade e que não gera justiça
entre os irmãos.
----------Nós
queremos rezar hoje por esta terra dom de Deus e direito de todos.
E queremos mostrar ao Brasil que o povo de Deus continua peregrino,
continua romeiro, rumo à terra prometida. A terra que Deus
prometeu a todos, enquanto de todos ela não for é um
pecado da humanidade que clama aos céus.
----------...E
queremos lembrar o clamor das águas, de tantos rios mortos.
A memória de tantos rios envenenados, que continuam morrendo
diante de nós. Diante da falta de política que possa
dar vida às águas, aos rios e ribeirões. Essas
águas que são as veias de nossa terra, essas águas
que não mais correm por tantos motivos. Essa água vai
sendo esquecida. Porque vamos matando aqui, no Norte de Minas, o cerrado
E a monocultura do eucalipto que vai entrando, é o cerrado
que vai queimando, é o carvão que vai se levando embora.
É a cerca maldita que vi ficando para este norte de Minas,
tão esquecido pelos nossos governantes e pelas nossas Minas
Gerais.
----------Quando
aqui em Janaúba esteve o Aécio Neves, o nosso governador,
eu pude diante dele e do povo dizer: que nós também
somos mineiros, que sentimos que as Minas estão para lá
e os gerais ficaram para cá. Nós temos direito nessas
Minas Gerais. Nós temos direito nesse ouro. Nós temos
direito nesse minério. Nós temos direito nessa vida,
nós temos direito nessa cidadania. Nós somos povo brasileiro,
nós somos povo mineiro, nós somos povo orgulhoso do
Norte de Minas Gerais.
----------Está
na hora de, cada vez mais, por o pé no barranco. E diante de
tantos políticos, que mais uma vez começam a se aproximar
de nós, está na hora de sermos um povo de pé
no barranco, que vai conhecendo a História de cada um, mostrando
para eles que não somos mais o Norte de ontem.
----------Não
somos mais um povo que ignora seus direitos e não conhece seus
políticos. Temos que mostrar que somos um povo. Que conseguimos
adquirir e reconhecer a grande força que nos sobrou, que é
a força do nosso voto, do nosso grito de cidadãos. Que
conscientes haveremos de eleger mais uma vez. Apesar das vergonhas
e decepções, nós voltaremos às urnas olhando
um pouco melhor, tirando os nossos votos das mãos dos amigos,
da tradição, das mãos daqueles que vão
criando os seus currais, daqueles que vão iludindo cada vez
e sempre mais.
----------Temos
que ser um povo que vota com consciência de cidadão,
consciente que este voto que daremos é o nosso não ao
Brasil de corrupção, de impunidade. Que nós,
brasileiros, envergonhados, mais uma vez... O nosso não a esse
momento do Brasil será dado nas urnas. E será dado na
escolha consciente daqueles que mais uma vez iremos eleger, para que
em nosso nome e junto com cada um de nós possamos transformar
esse Brasil, transformar esse Norte de Minas, em terra de Deus, em
água de Deus, mas terra e água de todos.
----------Que
Maria, que celebramos, hoje, assunta ao céu, que se fez serva
do povo na terra, que ela nos ensine a colocar a nossa vida a serviço.
Que ela nos ensine a colocar esse povo peregrino na direção
do seu filho Jesus. Que ela nos ensine a dizer sim, a arregaçar
as mangas. De pés no chão como povo e Igreja do seu
filho Jesus, que é capaz de rezar, mas também é
capaz de colocar essa oração no chão duro e nesta
terra rachada do Norte de Minas. Com nossos sonhos e esperanças
que essa terra do Brasil , há de ser dom de Deus e partilha,
e água para todos.
----------...
ainda, acreditamos num Brasil novo, numa vida nova. Numa vida em abundância
para todos. Deus abençoe a X Romaria da Terra e das Águas,
a Igreja abençoe nossa romaria. A nossa Igreja quer ver caminheiros
na construção deste Reino já, aqui e agora. Mas
em direção ao Reino definitivo, que será dado
a todos aqueles que não abaixaram a cabeça, que não
cruzaram os braços, mas continuaram construindo uma História
nova, um Brasil novo, um Norte de Minas novo, uma nova Minas Gerais.”
----------No
final da X Romaria, após o anúncio de que a 11a Romaria
das Águas e da Terra, em 2007, será na arquidiocese
de Belo Horizonte, dom José Mauro convidou os romeiros e romeiras
de Belo Horizonte para, na frente do altar, receberem a tocha de luz
e uma grande bilha de cerâmica e a imagem de São Francisco
de Assis, símbolos que acompanharão a organização
da 11a Romaria na arquidiocese de Belo Horizonte. Perguntou para o
povo: “Vamos ou não vamos levar a imagem de São
Francisco em Belo Horizonte e lá participar da 11a Romaria?”
O povo, em um só grito, respondeu: “Vamos!” “Vai
ser uma bênção a 11a Romaria em Belo Horizonte,
como foi aqui na Diocese de Janaúba. Estaremos lá, se
Deus quiser”, arrematou dom José Mauro. Ele estará
sim participando, mas abrigado em nós, inspirando-nos e dando-nos
força e clareza para carregarmos em nós a grande herança
espiritual e profética que ele nos deixou.
----------Tive
a responsabilidade de estar ao lado de dom José Mauro na assessoria
do 2º Congresso Nacional da Pastoral da Juventude Rural - PJR.
Eram mais de 1.500 jovens vindos de 18 estados para definir ações
que dêem respostas aos desafios da atual conjuntura política
e econômica. Além disso, o congresso quis firmar a PJR
como organização nacional e se fortalecer como referência
para os jovens do campo. Na oportunidade, dom José Mauro disse
que o congresso era o grito da juventude camponesa que acredita na
novidade para a transformação do Brasil em um país
digno de se viver. "Este congresso é uma experiência
de fé, de luta e do Reino de Deus que se concretiza",
finalizou dom Mauro.
----------Em
uma homilia à juventude, dom José Mauro, disse: “Somente
uma espiritualidade centrada no mistério Pascal pode nos levar
a superar os obstáculos e as contradições da
história. Os tempos sombrios exigem de nós clareza em
nossas causas e firmeza em nossas convicções. Somente
quando temos clareza de que a causa é maior do que nós,
somos capazes de morrer por ela, pra que a vida não morra...
Somos convocados a estar do lado daqueles com os quais Jesus Cristo
mesmo identificou-se, os pobres: “Tive fome, tive frio, estive
preso...” Como seguidores do Crucificado Ressuscitado somos
chamados a colocar a vida nas marcas da morte.”
----------Dom
José Mauro assinou o manifesto de Redes, Campanhas, Movimentos
Sociais e Organizações Brasileiras em apoio ao Povo
Boliviano, onde diz: “reconhecemos o direito do povo boliviano
de controlar suas riquezas naturais e de iniciar, com o governo Evo
Morales, a reconstrução da sua identidade nacional e
popular.”
----------Dom
José Mauro ajudou na elaboração e apresentação
do Documento “Os pobres possuirão a terra”, pronunciamento
de 112 bispos de várias igrejas sobre a terra e a pertinência
de se fazer Reforma Agrária. O documento denuncia o agronegócio,
o latifúndio e a idolatria do mercado e propõe medidas
concretas para a realização da Reforma Agrária.
----------Resta,
no entanto, uma pergunta que não conseguimos responder: por
que e para que pessoas tão humanas como dom José Mauro
vão embora do nosso convívio tão cedo? A sua
presença física no meio de nós é uma lacuna
que não será facilmente preenchida. Agradeçamos,
então, a Deus e à vida, o presente que nos foi dado.
Termos tido a oportunidade irrepetível nesta vida de sermos
contemporâneos deste profeta, dotado de tanta bondade, sabedoria
e capacidade incomparável de conduzir o seu rebanho: um grande
pastor!
----------Enfim,
dom José Mauro encarnou o novo jeito de ser bispo, à
luz do Concílio Vaticano II. Exerceu o poder servindo a todos
a partir dos pobres. Ensaiou a vivência e organização
de uma Igreja mais de acordo como sonho de Jesus.
----------Obrigado,
dom José Mauro. Você foi realmente um DOM, uma dádiva,
de Deus e da vida para nós! A luz e a força de Deus,
presentes em dom José Mauro, continuará em nós.
Frei Gilvander Moreira
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br