“TESTAMENTO ESPIRITUAL” de Dom
ANTÔNIO FRAGOSO
Por Frei Gilvander Moreira
Artigo publicado na Revista CONVERGÊNCIA, Ano
XLI, n. 398, dez/2006, pp. 611-615.
--------Logo
após se tornar bispo emérito, Dom Antônio Fragoso
entregou a mim, frei Gilvander Luís Moreira, por escrito, uma
espécie de “Testamento Espiritual”, escrito por
ele mesmo, em João Pessoa, dia 15 de setembro de 1998. Guardei-o
como uma pérola preciosa, ciente de que um dia deveria partilhar
com muita gente raios de luzes da ação profética
e libertadora de um bispo que foi um irmão e companheiro do
povo pobre de Crateús e do Nordeste, companheiro na tribulação,
na realeza e na perseverança.
--------As
poucas vezes que tive oportunidade de conviver um pouquinho com Dom
Antônio Fragoso me marcaram muito, pois eu sentia que dele irradiava
uma luz e uma força profundamente humano-divina.
--------Dia
30 de novembro de 2005, tive a alegria de reencontrar Dom Antônio
Fragoso em João Pessoa. Após visitar frei Domingos Fragoso,
irmão dele e frade carmelita, fomos até à casinha
onde ele estava morando, uma casa muito simples, ao lado de uma favela.
Asfalto na frente da casa não existia. Poeira era o que não
faltava. Ele nos mostrava graciosamente cada cantinho da casa com
muitas fotografias de grandes lutadores e lutadoras. “Após
entregar a coordenação da Diocese de Crateús,
optei por viver aqui no meio do povo pobre, sendo um deles, na simplicidade
e saboreando a presença de Deus no meio dos pequenos e prediletos
de Deus”, revelava dom Antônio Fragoso.
1. DADOS PESSOAIS
- Antônio Batista Fragoso
- Nascido em 10/12/1920, em Teixeira, Estado da Paraíba, Brasil.
- Ordenado sacerdote, em 2 de julho de 1944, no Seminário da
Paraíba.
- De 1947-1957, Assistente da JOC, para os Estados do Nordeste Brasileiro.
- Ordenado bispo, em 30 de maio de 1957.
- Bispo auxiliar, na Arquidiocese de São Luís do Maranhão,
de 1957-1964.
- Bispo Diocesano de Crateús, Estado do Ceará de 1964-1998.
- Padre conciliar, no Vaticano II, em 1962, 1963, 1964 e 1965.
- Bispo Emérito de Crateús, desde de 17 de fevereiro
de 1998.
2. BISPO.
--------A
JOC – Juventude Operária Católica - me abriu os
olhos para a realidade do mundo dos pobres (que, depois, chamados
de Empobrecidos e posteriormente, Excluídos).
--------A
Teologia dos tempos de Seminário eu a levei a sério
com a "paixão" dos tempos de juventude. Mas não
consegui ILUMINAR minhas práticas e os "sinais dos tempos",
pois ela, Era mais "doutrinária", dedutiva.
--------A
metodologia Jocista - do VER, JULGAR e AGIR vem testada nas experiências
dos Militantes e Assistentes da JOC, me ajudou a partir da "Realidade",
perceber o seu "sentido e a presença do Reino sob sinais
e a me confrontar com uma Prática Transformadora.
--------A
notícia da minha escolha para o Episcopado me apanhou de surpresa.
Convencido que a JOC era o meu futuro, apelei para o Papa. A nomeação
enviada para mim, no início de dezembro de 1957, só
foi publicada em março de 1957.
--------É
voz corrente (quem sabe desses segredos, com segurança?) que
Dom Hélder Câmara "sugeriu" à Nunciatura
apostólica diversos nomes dos vindos da Ação
Católica Especializada. Lembro-me de que, no Vaticano II, quando
Mons. Joseph Cardajn foi escolhido Cardeal, nós, - um grupo
de 18 -, os Assistentes da JOC lhe oferecemos um almoço afetuoso.
--------
Bispo Auxiliar do Arcebispo D. José de Madeiras Delgado, tentei
fazer UNIDADE com ele, mesmo se éramos diferentes, na nacionalidade
e na visão da Igreja e do Mundo.
--------Ele
me confiou o acompanhamento da Ação Católica
Especializada (JOC, JEC, JAC, ACO) e da Pastoral Catequética.
Com as bênçãos e o apoio aberto dele, foi possível
promover, em 1958, 1959 e 1960, uma SEMANA CATEQUÉTICA mobilizadora,
em cada uma das 60 paróquias da Arquidiocese.
--------É
bom ter em vista que a Arquidiocese de São Luís, cobria,
na época, as Paróquias das, posteriormente criadas,
Dioceses da Viana, Bacobal, Coroatã e Brejo.
3 - O VATICANO II.
--------Eu
tive a graça de ser plenamente autorizado por D. José
de Medeiros Delgado a participar do Concílio em 1962, 1963
, em 1964 e em 1965 eu já era Bispo Diocesano de Crateús.
--------O
Concílio Vaticano II marcou fundo a minha vida.
- o horizonte eclesial se alargou às dimensões dos 5
continentes;
- foi nos oferecida a oportunidade da renovação teológica,
por meio de mais de 70 conferências-Debates de grandes teólogos
do 1o time teológico do mundo;
- deu-se a queda das imagens tradicionais de Igreja: Igreja Pirâmide
e Igreja centro e periferia - que foi proclamada como a comunidade
dos Discípulos de Jesus, todos fundamentalmente iguais, onde
a "autoridade" se torna diaconia;
- Aprofundou-se o diálogo da Igreja com as "Realidades
Terrestres";
- O Vaticano II teve dificuldades de acolher o pedido de João
XXIII: apresentar ao mundo um ROSTO NOVO DE IGREJA, sobretudo
da IGREJA DOS POBRES;
- Nos bastidores do Concílio, um grupo de Bispos se reunia
no Colégio Belga e tematizava a identidade entre Jesus e os
Pobres, ensaiando a compreensão das conseqüências
sociais, políticas, culturais e místicas dessa identidade;
- Ficou-nos a certeza de que o Vaticano II não era o ponto
de chegada, mas o ponto de partida de um processo exigente de conversão
pessoal e eclesial.
--------O
Antônio Fragoso que saiu do Concílio não era mais
o mesmo que nele entrou, em outubro de 1962.
--------Nunca
direi demais a Deus toda a minha gratidão por ter sido e continuar
sendo PADRE CONCILIAR.
4. EM CRATEÚS,
no sertão do Ceará
--------O
Vaticano II me interpelou. Se esvaziaria, se os cristãos, e
sobretudo o Episcopado, não o pusessem em prática.
--------As
tentações chegam, previstas ou inesperadas. A "saudade
das panelas do Egito", a recuperação do pré-concílio,
a "restauração" de uma modernizada neo-cristandade
podem gerar o "desencanto" até nos mais ardentes,
sepultar a memória do acontecimento, levar a proposta de "hermenêuticas"
ideologizadas (talvez, bem intencionadas).
--------O
desafio é este: como assumir o processo conciliar, articulando
a Comunhão Evangélica de Igreja e a Ousadia profética?
--------A
Igreja de Crateús, situada no sertão árido nordestino
(os Sertões de Crateús e dos Inhamuns), também
se sentiu desafiada e extremamente frágil para acolher o sopro
inspirador do Vaticano II (não dando?) referencial para ninguém,
mas, expressamos o desejo de dizer "sim" ao Apelo do Concílio.
--------1.
Buscou assumir um "rosto rural", priorizando o anúncio
da Boa Nova aos Pobres,-por
vezes, dando pretexto às queixas das "classes Médias
tradicionais”.
--------2.
O Bispo com mais boa vontade do que "Know-how" não
quis revestir a "figura histórica
e popular de BISPO", mas ir se tornando - companheiro e irmão.
--------3.
Todas as decisões pastorais eram discutidas longamente com
os leigos, as Religiosas e os Padres. O Bispo não quis prevalecer-se
de seus "poderes canônicos" para destacar seu voto
ou sua decisão, mas habitualmente aceitou que o voto de qualquer
dos Leigos e Presbíteros fosse igual ao seu.
--------4.
Desejando ser uma comunidade de discípulos, SEM PODER como
Jesus, a Diocese recusou ter OBRAS (Colégios, Escolas, Rádio,
Hospitais). As obras, se necessárias forem, devem ser iniciativas
da "comunidade" e não do Bispo, do Padre, da "Diocese",
da "Paróquia".
--------5.
A Diocese de Crateús, muito pobre, depois de experimentar,
durante 10 anos, pedir DINHEIRO/AJUDA às "Agências
doadoras" católicas e/ou não governamentais decidiu,
sem muita unanimidade(!) não mais fazer projetos para o Exterior
ou para o governo do País. A idéia inspiradora era esta:
"uma mulher, um homem, cresce quando DÁ DE SI,
não quando estendem a mão para receber".
--------6.
A Diocese decidiu não fazer um "Seminário menor".
Até mesmo chegou a pensar que "o coração
da Diocese não é o seminário, mas a formação/educação
da fé da comunidade, com seus Ministérios. Das Igrejas
vivas na base nascerão, quando o Espírito soprar, VOCAÇÕES
ORDENADAS E CONSAGRADAS suficientes.
--------7.
Muitos Cristãos pediam "Espiritualidade", "Mística",
"Nutrição da Fé", calor do coração
na Liturgia", mas não aceitavam que a Fé movesse
os Cristãos para o combate pela Justiça, para uma Prática
transformadora e radical.
--------A
Diocese assumiu a responsabilidade de lutar para que os Cristãos
tivessem duas pernas sãs e articuladas: a perna da Experiência
de Deus e a perna do combate pela Justiça. Esta opção
trouxe tensões e afastamentos dolorosos.
--------Nos
seus 34 anos, a Igreja de Crateús reconhece que está
só NOS PRIMEIROS PASSOS de vivência da Inspiração
do Vaticano II.
5. VIOLÊNCIA
E NÃO-VIOLÊNCIA
--------A
Igreja de Crateús não é uma ILHA, cujas pontes
para "invasão" de idéias e propostas culturais
estivessem cortadas.
--------A
consciência da MISÉRIA (= Pobreza, Empobrecimento, Exclusão)
leva facilmente, à INDIGNAÇÃO ÉTICA.
--------A
indignação ética é o primeiro passo necessário
para o combate pela Justiça e pode-se abrir para a SOLIDARIEDADE
ATIVA ou para VENCER A VIOLÊNCIA do Sistema com a violência
popular.
--------As
últimas 5 décadas "empurraram" mais no sentido
de combater a violência com a violência.
--------Ultimamente,
emergem Apelos para a Solidariedade ( = "novo nome da Paz?").
--------Em
Crateús, fortemente marcada pela injustiça e a opressão,
a tendência dos intelectuais" e dos "Ativistas"
era a "Revolução armada". Não havia
estratégias com armas, havia mais "idealismos" e
discursos.
--------Eu
fui muito motivado por homens como Gandhi, pelo "movimento Internacional
de Reconciliação" (Jean Goas e Hildegard Gon Mayer?),
pela "irmandade do servo sofredor" (Bispo do Pe. Alfredinho
Kung), pela "pressão Libertadora" (D. Hélder
Câmara) pela "Firmeza Permanente" (Dr. Mário
Carvalho de Jesus).
--------Não
consegui convencer a maioria da Diocese de que o combate pela Justiça
NÃO VIOLENTO, inspirado na Força Libertadora do Amor,
era a Esperança. Ninguém queria a Revolução
Armada, mas tinha medo de que a "Não Violência "fosse
negativa, acomodada, "inocente".
--------Chego
a pensar que a maioria da população da Diocese tem práticas
não-violentas, mas é carente de EDUCAÇÃO
para a ATITUDE solidária, que recusa usar as armas dos opressores.
6 - MONS. BETTAZZI
E PAZ CHRISTI.
--------Não
é meu propósito falar do meu colega do Vaticano II,
Mons. Luigi Bettazzi, Bispo de Ivrea e membro da "Fraternidade
dos Pequenos Bispos", que cerca de 20 Padres conciliares organizamos,
durante o Concílio, como um pequeno grupo de Amizade e mútuo
apoio, inspirado no Irmão Carlos de Foucaud e sua Espiritualidade,
dos 20, 9 já se foram para a casa do Pai. Eram do Vietnam,
da Coréia do Sul, da África, da Alemanha, da França,
os outros, ainda sobreviventes, DAMOS GRAÇAS a Deus por este
grupo.
--------Quero
falar do testemunho de Mons. Bettazzi em favor da PAZ (= Pax-Christi).
--------Mons.
Bettazzi foi sempre um bispo da Solidariedade ativa não violenta
e da Profecia audaciosa. Nem sempre encontrou compreensão a
que tinha direito.
--------Lembro-me
das suas posições pela autodeterminação
do Vietnã na Mídia ocidental.
--------Lembro-me
de suas abertas e corajosas mensagens, nos congressos da Pax Christi
italiana e da Pax Christi internacional.
--------Lembro-me
de seus livros deliciosos de ler, interpelantes para os que querem
sair do "status quo" ou de atitudes sectárias, especialmente
o denso e profético "La Sinistra di Dio".
--------Lembro-me
da Visita (Pesquisa à América Central e da publicação
contraditada do relatório.
--------Sinto-me
gratificado por ter Mons. Bettazzi como Amigo e Irmão e como
um militante não violento da PAZ.
7 - ESPERANÇAS
PARA O FUTURO.
--------Um
homem com quase 78 anos ainda pode ter esperanças "concretas"?
--------Sou
filho de um casal sertanejo paraibano muito pobre, que foi sempre
sonhador incorrigível, "jovem aos 90 anos” carregando
utopias mobilizadoras.
--------São
estas algumas das minhas esperanças:
- Uma Igreja com ROSTO DE POBRE, comunidade de servidores de Jesus,
sem poder, vivendo a mística do serviço de "lavar
os pés" da humanidade, principalmente dos pobres, conheço
muitos testemunhos. Por isto, sei que é possível.
- O ministério dos Cristãos que, na Igreja Católica,
unem a comunhão eclesial evangélica e a profecia explicita.
Quem não se lembra do Pe. Haering, do Arc. John Quinn, do Pe.
Tissa, de Mons. Oscar Romero, de Mons. Ivan Girardi, da multidão
dos catequistas e celebradores da palavra nas CEBs – Comunidades
Eclesiais de Base -, dos milhões de mártires "anônimos"
no combate pela justiça.
- As CEBs - pequenas Igrejas Vivas na Base de tipo rural e, também,
de tipo urbano em que unem, no cotidiano "anônimo"
a maior fidelidade ao Evangelho e à teimosia profética.
- O pluralismo de rastos da Igreja vinda de Teologias, de Liturgias,
de formas de ser PADRE ensaiando, já na História presente,
a UNIDADE NA DIVERSIDADE.
- A invenção de realizações históricas
da UTOPIA SOCIALISTA, que os assim chamados "SOCIALISMOS REAIS"
experimentaram e traíram e a "globalização"
se gloria de havê-lo sepultado definitivamente.
- A resistência multissecular dos Indígenas, dos Negros,
das Mulheres, dos Sem poder e que não é resgatada pela
opinião pública de hoje, mas faz tremer o sistema global
que o "ignora" e o "escanteia".
--------Estas
"ESPERANÇAS "CONCRETAS" estão
fazendo o seu caminho e NINGUÉM vai impedi-los de florescerem
e frutificarem, no tempo que o Espírito programa.
Antônio Fragoso
- Bispo Emérito de Crateús.
João Pessoa, 15 de setembro de 1998.
Frei Gilvander Moreira
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br