Mais de mil pessoas
ocupam área onde o exército iniciou projeto de transposição
------------Cerca
de 1200 pessoas ocuparam e estão acampadas, desde o início
da madrugada de hoje (26), em Cabrobó (PE), na área
em que os batalhões de engenharia do exército deram
início à construção dos canais de aproximação
do eixo norte, do projeto do governo federal de transposição
das águas do rio São Francisco. A ação
deve servir para impedir o avanço das obras e para a retomada
do território pelo povo indígena Truká, que reivindica
a posse da terra.
------------O
acampamento não tem prazo para encerrar e o número de
participantes deve aumentar, até o final do dia. Participam
da ação organizações sociais e movimentos
populares, além de comunidades tradicionais de Minas Gerais,
Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia e Ceará. Eles exigem o
arquivamento do projeto, além da implementação
de alternativas e tecnologias apropriadas de convivência com
o semi-árido.
Serviço
Local:
Km 29 (entre Cabrobó e Orocó/PE)
Contatos:
Ruben Siqueira: (71) 92086548
Neguinho Truká: (87) 96066065
Clarice Maia (Comunicação): (71) 92086548
Manifesto do Acampamento:
O Nordeste é
Viável sem Transposição e com Ética na
Política.
------------De
São João a São Pedro, o Nordeste todo se une
em sua maior festa. Coincidente com as colheitas no sertão,
é a festa da fartura, da solidariedade e da alegria. Do Nordeste
viável, auto-sustentável e soberano. Nós, os
movimentos populares e entidades civis da Bacia do Rio São
Francisco e de todo o Nordeste, vimos festejar em Cabrobó/PE
para mostrar que o Nordeste não precisa deste projeto traiçoeiro
chamado "integração de bacias", a mesma antiga
transposição. Acampados em cerca de 2000 pessoas junto
ao canteiro de obras, no km 29 da BR 428, vimos exigir a imediata
suspensão das ações que dão início
às obras da transposição. Em sinal de outro desenvolvimento,
voltado para a população e não para o capital,
nos irmanamos ao Povo Truká e aos indígenas de todo
o Nordeste na retomada desta terra, da Fazenda Mãe Rosa, desapropriada
para a transposição, território Truká
desde tempos imemoriais.
------------Água
nos açudes e cisternas, caatinga verdejante, comidas de milho,
requeijão e paçoca, licores e muito forró ao
redor da fogueira... Sinais do Nordeste bonito e viável, evidências
do que pode o período chuvoso do semi-árido, se para
ele deslocarmos o foco, concentrarmos os esforços, investirmos.
Ao optar por obra contra a seca e não a favor do semi-árido
e sua dinâmica sócio-ambiental, o governo erra mais uma
vez, como tem acontecido historicamente. A proposta de conviver com
o semi-árido – esperava-se desse governo – sepultaria
a política e a indústria do combate à seca e
consolidaria a política do aproveitamento do chuvoso, pois
é neste e não na seca que se decide a vida do sertão
e do sertanejo. A transposição, barganhada e em nome
de uma falsa revitalização das bacias do Nordeste, significa
uma "travessia para o passado". A questão não
é doar água ou não, mas qual desenvolvimento,
a que preço e para quem. E como enfrentar os limites impostos
pelas mudanças climáticas globais, que tendem a diminuir
os mananciais do Rio São Francisco e desertificar o semi-árido.
------------Este
é o terceiro acampamento que fazemos, o último em Brasília
por uma semana no mês de março, com 740 pessoas. Já
se somam quase uma centena de manifestações públicas.
Sequer fomos recebidos, muito menos ouvidos ou considerados. Será
por que significamos a incômoda verdade sobre esse projeto e
o que ele vai trazer de falso desenvolvimento para o Nordeste? Ou
é porque vivemos num blefe de democracia? Ditadura de novo,
com desenvolvimentismo e até ação do Exército?
------------O
processo transcorrido até aqui não foi democrático
nem republicano e desabona o projeto, seus promotores e lobistas:
estudos de impacto ambiental formais e incompletos; críticas
fundamentadas dos principais especialistas; desrespeito às
decisões do Comitê de Bacia; descumprimento do acordo
feito com D. Luiz Cappio , ao encerrar a greve de fome, em novembro
de 2005, para que houvesse um amplo e sério debate nacional
sobre o assunto; incertezas e inverdades quanto as reais motivações
do projeto, quanto a seus custos e a quem vai pagar a conta; propaganda
enganosa sobre seu alcance, ao manipular a opinião pública
e inventar um público beneficiário de 12 milhões
de sedentos, na verdade, os que vão pagar a conta dos grandes
usos econômicos intensivos em água; irregularidades flagrantes
detectadas pelo Tribunal de Contas da União; indícios
de corrupção (caso da Gautama, empreiteira candidata
ao segundo trecho mais caro da obra); ocultação ao debate
público dos projetos de transposição do Rio Tocantins
para os Rios São Francisco e Parnaíba; compra descarada
de apoio dos políticos do São Francisco, com verbas
da revitalização; chantagens de um pseudo-desenvolvimento
transmutado em crescimento econômico a qualquer custo e sem
futuro... São motivos mais que suficientes para que esse projeto
seja arquivado. E que a sociedade cobre essa única atitude
digna de um Estado de Direito democrático e republicano.
------------Transposição
não é solução – esta a verdade que
não quer calar!
Queremos
um programa verdadeiro de convivência com o semi-árido;
Queremos
um projeto de desenvolvimento regional que atenda às reais
necessidades da população do semi-árido e do
São Francisco e não de uma minoria de empresários
nacionais e estrangeiros;
Queremos
a democratização do acesso à água, com
acesso livre da população aos açudes e às
adutoras;
Queremos
controle social sobre os usos das águas dos açudes e
reservatórios geridos com competência;
Queremos
destinação prioritária das águas para
a agricultura familiar e camponesa;
Queremos
a implementação imediata das 530 obras do Atlas Nordeste
da ANA – Agência Nacional de Águas para levar água
a 34 milhões de habitantes do Polígono das Seca;
Queremos
programas que ampliem, divulguem e implantem as mais de 140 tecnologias
hídricas, agrícolas e ambientais de convivência
com o bioma caatinga e o clima semi-árido;
Queremos
reforma agrária ampla e efetiva e regularização
dos territórios tradicionais, a começar pelas áreas
dos Povos Truká, Tumbalalá, Pipipã e Cambiwá,
atingidos pela transposição;
Queremos
a suspensão das barragens de Pedra Branca, Riacho Seco e Pão
de Açúcar e de Centrais Nucleares na região;
Queremos
uma revitalização do Rio São Francisco que seja
para valer!
Queremos
que o Supremo Tribunal Federal tome finalmente a decisão e
que essa seja contrária ao projeto;
Queremos
o arquivamento definitivo do projeto de transposição!
CONVIVER COM
O SEMI-ÁRIDO É A SOLUÇÃO! SÃO FRANCISCO
VIVO –
TERRA E ÁGUA, RIO E POVO!
Cabrobó,
26 de junho de 2007.
MST - MPA - MMC - MAB - APOINME - MONAPE - CETA -
SINDAE - CÁRITAS - CIMI - CPP - CPT - ASA - AATR - PJMP - CREA/BA
- SINDIPETRO AL/SE - CONLUTAS - Federação Sindical e
Democrática de Metalúrgicos do Estado de MG - Terra
de Direitos - Fórum Nacional da Reforma Agrária - Rede
Brasileira de Justiça Ambiental - Fórum Permanente em
Defesa do Rio São Francisco / BA - Fórum de Desenvolvimento
Sustentável do Norte de MG – Fóruns de Organizações
Populares do Alto, Médio, Submédio e Baixo São
Francisco - Frente Cearense Por uma Nova Cultura da Água Contra
a Transposição - Projeto Manuelzão /MG - STRs,
Colônias de Pescadores, Comunidades Ribeirinhas, Indígenas,
Quilombolas, Vazanteiras, Brejeiras, Catingueiras e Geraiseiras da
Bacia do Rio São Francisco.