Os poderes ocultos
na “democracia” brasileira
Frei Gilvander Luís Moreira e
prof. José Luiz Quadros de Magalhães
----------Os
poderes econômicos e midiático são irmãos
gêmeos que, de braços dados, numa sociedade neoliberal,
seqüestraram, em grande parte, os poderes executivo, legislativo
e judiciário. A teoria da separação dos poderes
executivo, legislativo e judiciário nasce com o Estado constitucional
moderno como fundamento de uma sociedade onde o poder do Estado seja
limitado, impedindo que o absolutismo anule a liberdade e mantenha
privilégios hereditários insustentáveis em uma
sociedade que busca a igualdade. Os três poderes autônomos
foram um avanço em relação ao absolutismo de
Luiz XIV e seus descendentes.
----------Há
mais de duzentos anos que todo Estado que pretende ser democrático
deve partir da separação de poderes como meio de evitar
abusos, insegurança e injustiça. É claro que
este mecanismo não basta para a realização da
justiça como busca de dignidade expressa nas condições
de vida com oportunidade real para todas as pessoas desenvolverem
seu potencial, condição primeira da liberdade.
----------Não
há liberdade efetiva na miséria e exclusão. Direitos
sociais e econômicos como saúde, educação,
moradia, trabalho digno com salário justo que permita a repartição
de riquezas, reforma agrária, são condições
de exercício da liberdade e efetividade de uma democracia participativa
que dê voz a todos a partir dos últimos, de forma que
cada pessoa possa ajudar a construir um conceito coletivo de justo,
legal, normal e ético.
----------Entretanto,
passados muitos anos, percebemos que novos poderes, não constitucionais
e não democráticos, desafiaram a estrutura jurídica
constitucional criada. Fora da estrutura de poder prevista na Constituição
se desenvolveram poderes não constitucionais, não legais,
fruto da opção por um sistema essencialmente injusto,
pois fundado no egoísmo, no individualismo e na competição:
o capitalismo.
----------Com
o tempo, no decorrer do século XX, o poder econômico
tornou-se mais forte que o Estado. O dinheiro passou a financiar campanhas
eleitorais e com isto passou a dominar o poder legislativo encarregado
de fazer as leis. Logo as leis, em vez de representarem os interesses
do povo passaram a representar os interesses dos detentores do capital,
do dinheiro. O dinheiro também passou a financiar as campanhas
dos chefes do poder executivo e com isto os prefeitos, governadores
e presidentes passaram a representar os interesses daqueles que financiavam
as suas campanhas e não o interesse de todos. Os grandes do
poder judiciário passaram a ganhar tanto que se encastelaram
na classe dominante economicamente. O poder econômico tornou-se
o grande poder em um Estado que pretendia ser democrático.
O que deveria ser de todos passou a ser de poucos numericamente, mas
poderosos financeiramente.
----------Finalmente,
o poder econômico, com seu farto dinheiro, dominou a mídia
no momento em que não bastava produzir mercadorias para vender,
mas precisava antes induzir novos consumidores. Os jornais, as rádios
e as televisões passaram a pertencer a cada vez menos pessoas.
Estas pessoas, proprietárias destes meios de comunicação
começaram a nos mostrar apenas o que interessava a eles. O
povão pode ver apenas as imagens que eles querem que sejam
vistas; os pobres podem saber dos fatos apenas na interpretação
deles. Os pobres quase não têm opções.
Tem que assistir a novelas envenenadas pela propaganda intermitente.
Tem que assistir aos filmes que eles determinam. Ouvir quem eles convidam
para as entrevistas. Entretanto a mentira tem limite e um dia o povo
dirá chega: não há liberdade e justiça
em uma sociedade fundada na propriedade privada, no egoísmo,
no dinheiro, no lucro, na exploração, no individualismo
e na competição.
----------Dois
poderes ilegítimos hoje dominam os três poderes constitucionais.
Para construirmos a sociedade justa, solidária, igualitária,
livre e sustentável ecologicamente que sonhamos isto não
pode continuar. O povo organizado está lutando por democracia
econômica e por “reforma agrária no ar”.
----------O
poder econômico não apenas lucra (eufemismo de roubo)
na especulação financeira, mas faz campanhas publicitárias
ensurdecedoras para encarcerar grande parte da população
em dívidas comerciais. Outro dia, uma revendedora de automóveis
trombeteava aos quatro ventos: “saia de carro novo por apenas
R$15,90 por dia.” Daqui a pouco, dirão: “leve um
carro novo por apenas 0,80 centavos por hora.” Mas não
dizem por quantos anos a pessoa ficará refém desta e
de tantas outras compras que, muitas vezes, são necessidades
artificiais criadas pelo império do consumo, denunciado por
Eduardo Galeano.
----------Há
setores econômicos que roubam muito em cima da miséria
e da violência. Parece haver uma aliança macabra entre
bandidos e grandes empresários do setor de segurança.
Por exemplo, às 18 horas, queimam um ônibus coletivo
em São Paulo; às 20 horas, quem incendiou o ônibus
está sentado na poltrona diante do Jornal Nacional da TV Lobo,
pois sabe que aquela cena será transmitida para todo o Brasil.
O telespectador, ao ver uma cena de violência na TV (ou em Jornais
e revistas), recebe em si, como que por injeção na veia,
o medo. Dissemina-se o medo. Resultado: quem pode se tranca em condomínios
fechados, cerca elétrica, segurança particular. As empresas
do setor de segurança explodem champagne. Logo, uma mídia
que oferece para a sociedade como cardápio diário violência,
economicismo e baixaria está a serviço da classe enriquecida
e agride covardemente a maioria da população.
----------Há,
no Brasil 80 TVs Comunitárias a cabo. Por que não podem
ser canais abertos? Por que há perseguição cruel
às Rádios Comunitárias?
----------Não
basta eleger representantes dos poderes executivo e legislativo. Urge
partilhar os poderes econômico e midiático. Isso só
se faz com respeito à Constituição. Não
somos obrigados a cumprir leis inconstitucionais, pois as leis inconstitucionais
são injustas. Esse tipo de resistência acorda consciências
anestesiadas que são cúmplices de sistemas opressivos.
Urge boicotar leis inconstitucionais como forma contemporânea
legítima do exercício do direito constitucional à
resistência contra a opressão, a injustiça e a
exclusão. No passado ocorreu o boicote do sal e do tecido inglês
na Índia, o dos ônibus segregacionistas no Sul dos Estados
Unidos e tantos outros movimentos de resistência, na forma de
desobediência civil, em todo o mundo, trazendo conquistas fundamentais
para a humanidade.
----------Sigamos
sob inspiração das parteiras do Egito que, ao fazerem
greve e “desobediência civil”, além de lançar
as bases para a nova Constituição do povo hebreu - o
Decálogo - que tem a defesa da vida como coluna mestra, tornou
possível o nascimento de Moisés e de tantos que lutaram
pela libertação dos pobres das garras do império
dos faraós. Move-nos a energia revolucionária de Jesus
Cristo, de Gandhi, de Luther King, dos Sem Terra que arrebentam as
cercas dos latifúndios e do sistema educacional.
Frei Gilvander Luís Moreira, e-mail:
gilvander@igrejadocarmo.com.br - www.gilvander.org
Prof. Dr. José Luiz Quadros, e-mail: ceede@uol.com.br
Belo Horizonte, 07/07/2007.