“Onde está teu
irmão Reginaldo?”
-----------"O
mundo é um lugar perigoso para se viver; não porque
existam só pessoas más, mas porque as boas pouco fazem
contra a maldade!" (Albert Einstein)
-----------Reginaldo
Gomes, 19 anos, negro, sorriso largo e acolhedor, dono de uma alegria
e gingado contagiantes, órfão de pai – assassinado
- desde os dois meses de ventre materno. Seu pai adotivo também
faleceu após contrair grave enfermidade. Sua mãe está
muito debilitada no hospital. Com 11 anos, Reginaldo conseguiu libertar-se
das drogas e do tráfico, após ficar em uma fazenda de
recuperação de drogaditos, em Ravena, Minas Gerais.
Encontrou apoio e guarida na Casa da Acolhida Marista, de Belo Horizonte,
dos 11 aos 16 anos. Estava animado e com boas perspectivas de melhorar
sua condição financeira. Já estava fazendo auto-escola.
-----------Reginaldo, arrimo de família,
tinha dois empregos: de dia trabalhava como ajudante de pedreiro e,
de noite, era vigilante da rua Raul Pompéia, bairro São
Pedro (ao lado da Savassi) em Belo Horizonte. Seu sonho foi interrompido
barbaramente na madrugada do dia 25/08/2007, por volta das 03h da
manhã. Dentro da guarita, onde substituía um colega
vigilante que não pôde ir trabalhar naquele dia, Reginaldo
foi abordado por alguém (ou grupo), que jogou nele combustível
e ateou fogo. No desespero de apagar as chamas e tentar socorro nessa
rua tão deserta, naquela hora, ele correu umas três quadras
até próximo à praça da Savassi, onde um
anjo chamou o SAMU que o levou ao Pronto Socorro João XXIII.
Ainda consciente e lúcido, Reginaldo forneceu alguns dados
para o Boletim de Ocorrência. Com 60% do corpo queimado, com
queimaduras de 2o 3o graus, mesmo tendo passado por cirurgias, após
12 dias, Reginaldo faleceu na noite do dia 05/09/2007.
-----------Lena Sangaxa, coordenadora
da Casa da Acolhida Marista, foi ver Reginaldo no hospital, quatro
dias após o bárbaro atentado. Ela relata: “Foi
algo inesquecível. Ele ficou sem pele, todo despelado como
um boneco cheio de fios por todo lado e muitas faixas cobrindo seu
corpo. Olhava para ele e desejava que ele me ouvisse: “você
não está sozinho, estamos aqui com você”.
Eu buscava aquele sorriso que sempre encontrei em seu rosto que comunicava
sem precisar falar... Dessa vez, não o encontrei. Como me doeu!
Nessa noite não consegui dormir, apenas chorar.”
-----------No Hospital João XXIII,
ficamos sabendo que nos últimos dez dias, em Belo Horizonte,
seis pessoas foram internadas no hospital por terem sido envolvidas
por combustível e fogo em seus corpos. Estão entre a
vida e a morte.
-----------Fizemos, na manhã do
dia 06/09, uma Caminhada pela Paz, do colégio Marista Dom Silvério
ao local onde Reginaldo foi incendiado. Lá fizemos uma celebração
para cobrar justiça. Entremeados por orações,
cantos e símbolos, uns 20 estudantes usaram a palavra para
expressar os apelos que sentiam. “Até quando vamos
ficar indiferentes frente a atos bárbaros como esse? E se fosse
nosso pai ou nossa mãe ou nossa irmã que tivessem sido
queimados? Onde estão as lideranças desse país?
Por que a imprensa nada divulgou até agora? Só porque
Reginaldo era negro e morava na favela? Temos que transformar nossa
indignação em ações de luta em prol da
superação da violência. Reginaldo começou
a ser queimado bem antes de receber gasolina e fogo em seu corpo.
Não teve oportunidade de estudar em um Colégio de qualidade.
Aos 19 anos ele poderia estar cursando, por exemplo, medicina na UFMG,
após ter estudado em colégio particular como nós
estamos estudando. Ele foi massacrado, enquanto estava trabalhando.
Jovem honesto e trabalhador. Temos que eliminar o fosso que separa
o mundo dos incluídos economicamente e o mundo dos excluídos.
Temos que estabelecer convivência e relações entre
estes dois mundos, pois só a convivência supera preconceitos
e tabus. Ninguém nasce bandido e bárbaro. Um meio violento
cria pessoas violentas. Temos que exigir dos governos uma política
econômica soberana e popular. Dinheiro público deve ser
investido em políticas públicas – moradia, emprego,
reformas agrária e urbana, saneamento, educação
de qualidade, preservação ambiental, inclusão
social – e não ser repassado para banqueiros que se enriquecem
cada vez mais às custas da miséria do povo... ”.
Com voz embargada, a juventude interpelava nossa consciência.
-----------Após ficar no IML durante
uma noite e uma manhã, o corpo de Reginaldo foi sepultado no
Cemitério da Saudade – cemitério dos pobres –
em um caixão simples, com a presença da mãe dele,
dona Conceição, que teve autorização para
sair do hospital para presenciar o sepultamento do filho. A pedido
da mãe que queria ver o rosto do filho pela última vez,
abrimos o caixão. O corpo todo envolto em faixas, o rosto todo
desfigurado, despelado e cheio de cicatrizes levou as doze pessoas
que ali estavam a chorar copiosamente. Abraçados, rezamos com
a voz embargada um Pai Nosso e uma Ave Maria. Ouvimos do evangelho
de João 11,17-44, o relato com a afirmação de
Jesus de Nazaré: “Eu sou a ressurreição
e a vida. Quem vive com dignidade,, mesmo que morra, viverá.”
Vivenciamos ali o choro de Jesus sobre Jerusalém, cidade opressora.
“Se vocês compreendessem hoje o caminho da paz! Por que
vocês não reconheceram o tempo em que Deus veio para
visitá-la?”, interpela-nos o evangelho. (Cf. Lc 19,42.44).
-----------Reginaldo se revelou um servo
sofredor e, assim, testemunhou a força e a luz de Deus presente
no nosso meio. Agora, Reginaldo e o Deus da vida, indignado com a
atrocidade que foi ceifar o bem mais precioso de um irmão enquanto
trabalhava, nos interpelam: “Onde está teu irmão?”
Não sejamos indiferentes frente a qualquer violência.
Sejamos artífices da paz!
* * *
BH, 07/09/2007, 13º
Grito dos Excluídos.
Frei Gilvander Moreira
E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br