GÊNESIS 1-11: UMA SOCIDADE SUSTENTÁVEL
Frei Gilvander Moreira
Frei Cláudio van Balen
----------“Amazônia,
missão neste chão” e “Defesa da Vida”
- temas da Campanha da Fraternidade de 2007 e de 2008. Nenhum texto
bíblico mais sugestivo que o do Gênesis 1 a 11 para orientar
nossa convivência sustentável com respeito à Amazônia,
ao Brasil, ao mundo, à Vida - com biodiversidade, povos, culturas
e religiões. Os relatos no Gn 1 a 11 - lidos de forma atualizada,
ecumênica e militante – hão de inspirar-nos para
um lidar saudável com os desafios diante do aquecimento global
e outros problemas atuais, causados, principalmente pelo sistema econômico
neoliberal genocida.
----------De
acordo com a ONU, em 2005 aconteceram 360 desastres naturais: 168
inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas
que afetaram 154 milhões de pessoas. No final de 2004, um tsunami
ceifou a vida de 280 mil pessoas.
----------Em
Gn 1-11 há relatos que não podem ser interpretados como
se fosse simples história das origens do universo e da humanidade.
Com uma roupagem simbólica, eles nos conferem uma responsabilidade
decisiva na construção do mundo e da história,
após o longo processo da evolução cósmica.
O Deus da vida nos convoca à missão de parceiros na
Aliança da Criação-Salvação. Para
Gn 1-11 não há uma multidão de ídolos
que povoaram ou povoam a terra com suas ‘monarquias’ dos
poderes cultural-político-econômico-religiosos.
----------A
criação toda se encontra em Deus – grávido
do universo – e desde sempre, do mesmo, ela flui, passando por
uma gestação progressiva, em que a gratuidade do mistério
da vida se anuncia a partir de formas minúsculas e na lentidão
do infinito, do eterno. A pessoa humana capta e se arrisca de verbalizar
o que é encoberto por um silêncio impenetrável.
Daí, seu recurso a metáforas – Deus cria falando
e recorre a dias – que expressam, simbolicamente, um mistério
que ora amedronta ou encanta, ora suscita nossa admiração
ou nos interpela.
----------Deus,
então, cria a partir da palavra, isto é, deixa emanar
de seu ser - não por meio de simples decreto nem por um poder
ditatorial – uma rica gama de seres. É algo como o próprio
espírito de Deus ‘pairando’ sobre as águas
(Gn 1,2b), melhor dizendo, todas as criaturas, toda a realidade, tudo
e todos são permeados, perpassados pelo divino, pelo espírito
de vida. O divino não está acima e nem fora do real,
porém está na realidade com todas as suas relações
se encontra abrigada em Deus.
----------Nesta
perspectiva o profano é realidade sagrada, pois emanado de
Deus reflete algo de seu mistério. Se a criação
acontece a partir da palavra – sopro divino – participa,
em seu íntimo, do mistério divino e merece de todos,
no respeito, a gratidão. Somos, pois, elevados a administradores
do divino a ponto de –descuidando da criação –
anularmos algo da essência divina e cometermos uma lesa-divindade.
Conseqüentemente, maltratando da criação, prejudicamos
a nós mesmos.
“Houve uma tarde e uma manhã!” (Gn 1,5.8.13.19.23.31).
Eis o refrão a revelar que para o povo da Bíblia a vida
caminha das trevas da noite para a luz da aurora. “Faz escuro,
mas cantamos”, diria o/a autor/a de Gn 1-11. Com mãos
à obra, havemos de construir a esperança. Na criação
de relações e instituições libertadoras,
como sugere Gn 1, exclamamos: “Que Beleza! Tudo é muito
bom! A vida, a mãe terra, a irmã água, toda a
biodiversidade, tudo é destinado e chamado a ser fruto e berço
de relações humanitárias a serviço da
vida!”
----------O
ser humano reconhece em si, e em todos os seres, algo da imagem e
semelhança de Deus (Gn 1,26). Sim, não só o ser
humano. Toda a complexidade da vida – terra, água, seres
vivos, cerrado, Amazônia, ar, sol, lua, estrelas, etc - reflete
o divino, irradia a luz e a força de Deus. Longe de nós
o antropocentrismo, com sua arrogância excludente, que tanto
mal tem feito à humanidade. Finalmente, graças a também
a tantas crises, percebemo-nos fazendo parte, pertencendo uns aos
outros. Irmãos insetos e passarinhos, por exemplo - exímios
ecologistas - ajudam a limpar o ambiente, cuidando do equilíbrio
da natureza. O irmão morcego, grande semeador, e o pardal benfeitor
cumprem a missão de semear uma variedade infinita de espécies
por onde vão passando.
----------“Cuidem
da terra!” (Gn 1,28). Não queiramos trair esta sua missão,
simplesmente explorando e submetendo todos. Reinemos compartilhando
responsabilidades e crescendo em todos os sentidos, não só
na dimensão econômica. Cresçamos espiritualmente,
deixemos de ser analfabetos espirituais, políticos e ecológicos.
Não nos curvemos diante de sua ignorância e cobiça,
nem diante de nenhum tipo de tirania. Exerçamos liderança.
Participemos da coordenação da terra, isto é,
do destino dos seres e do equilíbrio da vida. Ao cuidarmos
da terra, nos beneficiamos a nós mesmos.
----------O
mundo do campo parece ser o chão geográfico e econômico
do Gn 1-11. A humanidade é gente tirada da terra (Gn 2,7).
Somos tão filhos e filhas da terra e da água quanto
somos filhos e filhas de Deus. É hora de aprofundarmos nossa
ligação íntima com a mãe terra que não
pode continuar sendo tratada como mercadoria, sendo espoliada de seu
sangue - as águas e o verde. Rasgar o ventre da mãe
terra, deixá-la coberta de chagas e ferida de morte é
genocídio, é condenar seus próprios filhos/as.
----------Somos
gente colocada em uma horta / roça para cultivá-la qual
jardim (Gn 2,8-9). Nossa missão é cuidar, proteger,
pastorear toda a biodiversidade. Conviver de forma fraterna com todos
e tudo. Isso é construir uma sociedade sustentável.
Preservar, desenvolver e aperfeiçoar ao máximo deve
ser a meta prioritária. Construir e produzir ... só
se for dentro dos limites da sustentabilidade. “Sociedade sustentável”,
eis um grande desafio. Quando continuamos depredando, impiedosamente,
a natureza e conservando relações injustas, cometemos
uma falácia, uma grande mentira. Nada de nos esconder atrás
da ignorância e maldade em discursos e práticas de pequenos
e grandes agro-industriais. Sociedade implica respeito por natureza
e pessoas. O sistema capitalista tem deixado um rastro de destruição.
O futuro da humanidade e da biodiversidade está intrinsecamente
ligado à construção de uma sociedade que se sustenta
por uma envolvente, multiforme e responsável ecologia. Ecologia
é cuidar da harmoniosa integração dos seres.
----------Mulheres
não podem ser consideradas inferiores só porque se teriam
originado de uma costela de homem. (Gn 2,21). Leitura fundamentalista
não! Homem e mulher são “carne da mesma carne”;
emanam do mesmo Deus, sendo sua imagem viva. Eva, a culpada de tudo?
A interpretação pode ser outra. Eva se mostrou rebelde
frente à rotina, tão comum ao macho. Desde então,
toda mudança deve algo a uma incômoda e santa rebeldia.
Quem lidera o processo de amadurecimento humano provoca alguma instabilidade,
porém estimula a abandonar o infantilismo.
----------Só
quando expulsos do paraíso do sossego e da acomodação,
somos impelidos a abraçar o processo histórico com suas
potencialidades e ambigüidades. Desde o início, o ser
humano passa pela adolescência para chegar à fase adulta,
pagando um preço a fim de viver e conviver em um mundo melhor.
Ele conquista progressiva autonomia, assumindo o que faz parte da
vida: dar à luz em dores de parto e suar por seu sustento.
Isto – embora muitos o sintam qual castigo – conduz o
ser humano a assumir a maioridade, fazendo-o caminhar com as próprias
pernas. Os que buscam o novo, às vezes, com rebeldia, andam
de mãos dadas com Deus. “Eis que faço novas
todas as coisas”. Eles se fazem co-criadores de Deus.
----------“Pecado
original” ... Tem a ver com uma inerente e original limitação
de não querer assumir a própria condição
humana em sua fragilidade. Requer-se a leveza da humildade em conviver
com limitações e falhas, uma vez que, em nós,
há desequilíbrios e virtudes de tantas gerações
qual poeira cósmica a nos humilhar ou dignificar. Aqui, não
cabe gloriar-se nem culpar outros. Somos vasos de barro, lembrou Paulo
apóstolo. A realidade nos desafia para crescer em autonomia
sem recair na auto-suficiência da soberba com prepotência.
Longe de nós a dependência que humilha e a arrogância
que subjuga. Tanto no bem como no mal, nada é somente meu.
Pagamos um preço, não só à condição
humana como também à herança genética
e a mil e uma circunstâncias do passado e do presente.
----------Um
dos sintomas do pecado original é o instinto excludente de
“propriedade privada”, tanto no plano individual como
no plano sócio-político-cultural-econômico-religioso.
O filósofo Jean Jacques Rousseau pondera que o pecado original
entrou no mundo quando alguém resolveu cercar um pedaço
de terra e dizer: isto é meu. Os outros, amedrontados
pelo poder, abaixaram a cabeça e aceitaram. Ou seja, a raiz
de muitos desvios e injustiças estaria nessa instituição
da “propriedade privada”. De propriedade de bens necessários
à vida passou à propriedade dos meios de produção,
o que consagrou a violência no mundo. Daí, é só
um passo para Caim matar Abel.
----------Outro
sintoma de pecado original é insinuar que a mulher é
‘sedutora’, eternamente conspirando, para fazer os homens
caírem nas garras do mal. Veja a que pode chegar um preconceito,
uma atitude covarde: Mulheres-cobra, de língua dupla,
mentirosas, perversas e maliciosas. Em Gn 3, a “serpente”
pode ser considerada como a lucidez interior ou a informação
exterior que conscientizam Eva, isto é a mulher, a fim de que
se disponha a crescer humanamente. Não seria tanto o caso de
uma imoral sedução, mas a partilha dos bens da cultura.
A visão machista não tolera tal atuação
feminista. De fato, em um clima apocalíptico e de patriarcalismo,
o livro do Eclesiástico chegou a avaliar Eva como a primeira
a pecar (Eclo 25,24).
----------Gn
3 não fala de mulheres carregando uma certa essência
impura e pecaminosa, por isso distanciadas da plena presença
do divino. Excluir as mulheres de lugares e instituições,
impedi-las de “tocar” no sagrado, de partilhar do altar,
de ritos e liturgias, é trair o sentido da mensagem bíblica.
A biblista Maria Soave nos alerta: “Foi a serpente conhecedora
da sabedoria que fez a humanidade acordar: “Não acreditem
na força da violência e dos donos das armas! Não
acreditem nos tiranos e nos senhores! Tomem da fruta da árvore,
tenham força para gritar não, para acreditar na mudança,
para tirar do trono os reis poderosos e seus deuses onipotentes e
vingativos! Na evolução da história, a humanidade
tomou a fruta e comeu. Nossos olhos se abriram e tivemos a coragem
de expulsar reis poderosos, sacerdotes opressores e deuses violentos.
Tivemos a coragem de ser felizes. Eva – a humanidade com o cheiro
de terra – a partir daquele dia, passou a ser chamada com o
nome de serpente: hawwah, Eva, Mãe de todos os viventes.”
----------Caim
mata Abel, no passado e no presente. Caim é ferreiro, da cidade.
Detentor da tecnologia de guerra e do poder. Abel é pastor,
peregrino semi-nômade. Assim era e é o povo de Deus.
Não nos fixemos apenas em Caim e na sua violência. Deus
se comove com a dor de Abel e interpela Caim: “Onde está
seu irmão Abel?” (Gn 4,9). Deus não fica neutro,
opta pela defesa do agredido. Os enfraquecidos por sistemas de morte
- tal como o capitalismo selvagem – podem inspirar-se no Deus
de Abel e no Abel de Deus.
----------No
relato do dilúvio (Gn 6-9) não nos limitemos à
inundação destruidora que reforça em nós
a imagem de um Deus justiceiro a punir a humanidade. Olhemos, prioritariamente,
para Noé, homem justo, íntegro e que andava com Deus
(Gn 6,9). Noé, mesmo não sendo profissional, faz uma
arca. Em tempos de seca se prepara para enfrentar as inundações.
Preocupa-se em salvar toda sua família: um casal de todas as
espécies vivas. Assim, Noé se torna o pai da ação
ecológica e da defesa intransigente de toda biodiversidade.
Assim como Chico Mendes, há milhares de Noés pelo mundo
afora, participando da construção de uma sociedade sustentável.
----------Em
Gn 11,1-9 olhemos não apenas para a arrogância humana
que constrói uma torre / cidade para destronar Deus.
Vejamos, a presença amorosa de Deus que suscita a diversidade
de línguas e culturas, inviabiliza todo e qualquer ‘pensamento
único’ e, assim, gera a dispersão de planos diabólicos
das hegemonias ameaçadoras. O evangelho de Lucas fez questão
de registrar no Cântico de Maria, a mãe de Jesus:
“Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.
----------Abraão
e Sara (Gn 12). Abraão... Algo novo surge do cansaço,
quando tudo é julgado perdido. Sara... Esperança há,
mas de tão vagarosa provoca zombaria sem desviar-se do caminho.
O casal é convocado para o desconhecido, ameaçado pelo
que não deseja. Tem de deixar sua terra e reconhecer, duas
vezes, que filho não lhe pertence. É no aparente abandono
que o novo recebe sua nova chance. Resta-lhe uma risada e um grito
de dor a ecoar pelos caminhos do tempo, conscientizando seu povo,
a humanidade. Passos certos têm de ser dados. Pressa não.
Falhas não fecham portas.
----------Abraão...,
inspiração dos que crêem..., maltratados no presente,
ameaçados pelo futuro. Como Sara, na velhice, ele gera um filho.
E na terra do Faraó, não assume a companheira como sua.
Ao mesmo tempo, fiel a si mesmo, até na perda, se faz defensor
da vida contra a morte. Modelo dos que crêem, troca o incerto
por certo, mas, fragilizado, recebe a ordem: “Vá, retire-se”.
O caminhar faz o caminho.
----------Ousa
viver com uma promessa sem livrar-se de sua pequenez. Deus não
precisa de super-homens. Em Sara e Abraão, somos todos justificados
pela fé. O pensamento iluminado nos preserva contra a ditadura
de um poder central – a partir de dentro de si e da realidade.
Aqui, não pode haver oposição entre fé
e mundo, entre sagrado e profano, entre fé pessoal e autoridade.
Autonomia e responsabilidade formam a base de uma maturidade espiritual.
O impulso dinâmico da fé está na base da evolução
da história e da fé.
----------Enfim,
com o ser humano intimamente ligado à mãe terra, com
homem e mulher em pé de igualdade e dignidade, com a liderança
de Eva, com Abel, Noé, Abraão e Sara, a bênção
de Deus envolve todas as criaturas e nos convoca para recriarmos o
mundo em suas relações e instituições.
Tudo isso é uma beleza! Vale a pena investir nossas energias
nesta empreitada para o nosso bem e para o bem das próximas
gerações.
----------Com
Fé no Deus da vida, fé nos pequenos, fé em toda
a biodiversidade e fé em nós mesmos, vamos, com mãos
à obra, cantando: “Vencer o inimigo invencível;
...Não me importa saber se é terrível demais,
quantas guerras terei de vencer, por um pouco de paz, E amanhã,
se este chão que beijei, for o meu leito e perdão, vou
saber que valeu delirar e morrer de paixão; E assim, seja lá
como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo
vai ver uma flor brotar do impossível chão.”
(Maria Bethânia)
Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Frei Cláudio van Balen, e-mail: fclaudio@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 08/09/2007.