Jejuo
também por democracia real
Dom LUIZ FLÁVIO CAPPIO
(Artigo publicado na FSP, 12/12/2007, p. A3)
----------Acusam-me
de inimigo da democracia por estar em jejum e oração
combatendo um projeto autoritário e falacioso: o da transposição
----------ACUSAM-ME
de inimigo da democracia por estar em jejum e oração
combatendo um projeto do governo federal autoritário, falacioso
e retrógrado, que é o da transposição
de águas do rio São Francisco. Meu gesto não
é imposição voluntarista de um indivíduo.
Fosse isso, não teria os apoios numerosos, diversificados e
crescentes que tem tido de representantes de amplos setores da sociedade,
inclusive do próprio PT. Vivêssemos uma democracia republicana,
real e substantiva, não teria que fazer o que estou fazendo.
----------Um
dos mais graves males da "democracia" no Brasil é
achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval
para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para
o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos
de influências, desvios do erário, porcentagens em obras
públicas e mensalões são práticas tradicionais
na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe
de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.
Há políticos -e, infelizmente, não são
poucos- que, por onde passaram na vida pública, deixaram um
rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito
etc. Como ainda funcionam o clientelismo eleitoral, a mitificação
de personagens, as falsas promessas de campanha, o "toma-lá-dá-cá"
e mais deseducação que educação política
do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições
de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.
Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição
era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais,
à base do marketing e das verbas de "caixa dois"
das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações
do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá
exemplo até aos EUA... O projeto de transposição
não é democrático, porque não democratiza
o acesso à água para as pessoas que passam sede na região
semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco.
O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões
de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público
para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos
dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes,
somadas às do rio São Francisco.
----------A
transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto
que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos,
passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas
de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam
para atividades econômicas altamente consumidoras de água,
como a fruticultura irrigada, a criação de camarão
e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos
impactos ambientais e sociais. Esses números são dos
EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto
sobre o Meio Ambiente), públicos por lei, já que, na
internet, o governo só colocou peças publicitárias.
----------O
projeto de transposição é ilegal e vem sendo
conduzido de forma arbitrária e autoritária: os estudos
de impacto são incompletos, o processo de licenciamento ambiental
foi viciado, áreas indígenas são afetadas e o
Congresso Nacional não foi consultado como prevê a Constituição.
Há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades
ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo
colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel
das Forças Armadas, militarizando a região. A decisão
do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, de Brasília,
em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é
mais uma evidência disso.
----------O
mais revoltante, porque chega a ser cruel, é que o governo
insiste em chantagear a opinião pública, em especial
a dos Estados pretensos beneficiários, com promessas de água
farta e fácil, escondendo quem são os verdadeiros destinatários,
os detalhes do funcionamento, os custos e os mecanismos de cobrança
pelos quais os pequenos usos subsidiariam os grandes, como já
acontece com a energia elétrica. Os destinos da transposição
os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para
uso industrial, 4% para população difusa.
----------Temos
um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões
de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas
quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo
pela metade do preço previsto no PAC para a transposição.
O Atlas Nordeste da ANA (Agência Nacional de Águas) e
as iniciativas da ASA (Articulação do Semi-Árido)
são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento
humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido.
Fui chamado de fundamentalista e inimigo da democracia porque provoquei
que o povo se levantasse e, disso, os "democratas" que me
acusam têm medo. Por que não se assume a verdade sobre
o projeto e se discute qual a melhor obra, qual o caminho do verdadeiro
desenvolvimento do semi-árido? É nisso que consiste
a nossa luta e a verdadeira democracia.
DOM FREI LUIZ
FLÁVIO CAPPIO, 61, é bispo diocesano da cidade
de Barra (BA) e autor do livro "Rio São Francisco,
uma Caminhada entre Vida e Morte".