Margens opostas
ROBERTO MALVEZZI
(Texto publicado na FSP, 15/01/2008, p. A3)
----------O
saldo do gesto de frei Luiz Cappio institui um abismo moral entre
companheiros que até ontem bebiam da mesma água
----------O
SALDO do gesto de frei Luiz Cappio demarca as margens e estabelece
um abismo moral entre companheiros que até ontem bebiam da
mesma água. O rio que nos separa é mais profundo que
o São Francisco. O que está em jogo é o futuro
deste país, do próprio planeta, da própria humanidade.
Durante o longo "jejum e oração", principalmente
diante da iminência de um desfecho trágico, o governo
aceitou mais uma conversa com os opositores do projeto de transposição
do rio São Francisco. Na sede da CNBB, diante de nossas oito
propostas alternativas à transposição, o governo
reconheceu que seis delas poderiam ser consideradas, particularmente
as políticas públicas contidas no "Atlas Nordeste"
e a implementação de tecnologias de captação
de água de chuva em projetos de convivência com o semi-árido.
Porém, o governo jamais aceitou rever o projeto da transposição.
Será que o caminho do governo está mesmo "livre"
para prosseguir com o projeto após a decisão do STF
de liberar as obras? Uma obra de longo prazo, que envolve bilhões
de reais durante sucessivos governos, nunca está garantida
antes de sua conclusão. Há detalhes que escapam ao povo
brasileiro. Basta citar um, o "detalhe Castanhão".
Essa grande barragem do Ceará, construída para receber
as águas do São Francisco, tem capacidade para armazenar
7 bilhões de metros cúbicos de água. Dali, ela
será levada para a Grande Fortaleza, particularmente ao porto
de Pecém, onde se instalará um complexo industrial demandante
de água. Sem o Castanhão, praticamente não existe
transposição para o Ceará. Pois bem, a parede
da barragem do Castanhão foi construída sobre uma falha
geológica, sujeita a abalos sísmicos ("A Face Oculta
do Castanhão", Cássio Borges, 1999).
----------Os
técnicos defensores da obra sempre disseram que esse risco
jamais existiria. Porém, dias atrás, a terra tremeu
na região, causando rachaduras nas paredes, apavorando a população
a jusante da barragem. Alguns técnicos garantiram que sua estrutura
não está comprometida.
Mas quem garante que não ocorrerão novos abalos, mais
fortes que esses, pondo em risco a estrutura da obra e toda a população
a jusante?
----------A
preocupação fundamental demonstrada pelo governo foi
"não fazer concessões ao bispo", como demonstração
de "autoridade". Muitas vezes, a expressão corrente
foi que "ceder liquidaria o Estado". Ou: "Agora é
o São Francisco, depois podem querer barrar usinas no rio Madeira".
Portanto, o governo sabe que o gesto de frei Luiz aponta não
só contra o governo e seu PAC mas também contra o modelo
de desenvolvimento que está sendo imposto sobre a natureza,
as pessoas e as comunidades mais pobres do país.
----------Os
movimentos sociais somente reivindicam que o governo cumpra o que
está proposto no "Atlas Nordeste", que é o
principal estudo realizado até hoje sobre a demanda humana
de água na região Nordeste. Foi elaborado pela ANA (Agência
Nacional de Águas), um organismo de Estado
(www.ana.gov.br).
----------Os
técnicos da ANA sempre demarcam a distinção com
a transposição afirmando que "esta tem finalidade
econômica, enquanto o atlas tem finalidade de abastecimento
humano". Aqui está a razão maior de nossa divergência
com o governo: na ótica dos direitos humanos, dos princípios
de Dublin, que norteiam o manejo da água no mundo contemporâneo,
na ótica cristã, na Lei Brasileira de Recursos Hídricos,
a prioridade no uso da água é saciar a sede humana e
dessedentar os animais.
----------As
propostas do "Atlas Nordeste" alcançam 34 milhões
de nordestinos no meio urbano, em nove Estados e 1.356 municípios.
Somados aos 10 milhões que poderíamos alcançar
com a captação de água de chuva no meio rural,
ofereceríamos segurança hídrica para 44 milhões
de pessoas. Portanto, sua abrangência humana é quase
quatro vezes a da transposição.
Não temos medo de discutir o uso econômico da água.
Mas esse debate precisa ser feito com profundidade, principalmente
numa região em que apenas 5% do solo é irrigável
e só temos água para irrigar 2% dele. Em um momento
histórico de diminuição da disponibilidade de
água e solos férteis em todo o planeta, queremos apenas
que o governo tenha critérios claros para o uso de bens tão
escassos e preciosos.
----------Na
hora certa, retomaremos nossa luta. Como os peixes de piracema, que
nadam contra a corrente reproduzindo a vida. Os que se deixam levar
pelas águas não se reproduzem, não contribuem
com as gerações futuras. São devorados pelos
homens.
ROBERTO
MALVEZZI, 54, filósofo, é assessor da Comissão
Pastoral da Terra e autor de "Semi-árido: uma Visão
Holística".