A greve de fome
de D. Cappio. Um debate necessário.
Plínio de Arruda Sampaio (1)
----------“Juntos
sofreram perseguições por ocasião do golpe militar;
juntos ajudaram-se reciprocamente a vencer as dificuldades do exílio;
juntos formaram as Comissões de Justiça e Paz e os Centros
de Direitos Humanos para combater os desmandos da ditadura; juntos
marcharam pelas Diretas-Já; juntos estiveram na criação
e fortalecimento das CEBs, das Pastorais Sociais, e mais especificamente,
da Pastoral de Fé e Política”, lembra Plínio
de Arruda Sampaio (PSOL-SP), referindo-se aos cristãos brasileiros,
em especial os formadores da Teologia da Libertação.
Depois de décadas de união e, seis anos de governo Lula
ocorreu a “primeira fissura nessa unidade: um grupo dos cristãos
sociais apóia Lula e outro grupo o combate tenazmente”,
constata..
----------“Podemos considerar essa
divergência uma catástrofe, um escândalo, um pecado?”,
questiona. E em seguida dispara: “Claro que não. Na esfera
da política, a regra é a divergência e isto não
tem por que afetar a unidade dos cristãos”.
----------No artigo a seguir, Sampaio
propõe a reflexão: “Quem de nós não
se sentiu questionado pelo gesto do bispo? Quem não se viu
obrigado a fazer uma revisão da sua própria militância
a fim de ver se está realizando as tarefas e correndo os riscos
inerentes à construção do Reino?”, lembrando
a greve de fome de D. Cappio, no último mês. E conclui:
“Agora que o profeta foi calado, fica-nos o desafio de não
deixar que seu sacrifício seja esquecido. Está aí
uma boa ocasião para que nós - apoiadores e opositores
de Lula - nos disponhamos a dialogar, a fim de aplainar nossas diferenças”.
--------Eis
o artigo.
--------“Porque
os corpos dos animais, cujo sangue o sumo sacerdote carrega no Santuário
para expiação do pecado, são queimados fora do
acampamento. Foi por isso que Jesus, para santificar o povo por seu
próprio sangue, sofreu do lado de fora da porta”. (São
Paulo. Hebreus. 13, 11:12).
--------"O
balanço do ano de 2007 e as perspectivas de 2008 não
se resolvem sem a decifração do mistério profundo
que emana das águas do rio São Francisco. Muito abaixo
da crosta, abaixo das águas represadas e até dos aqüíferos
mais profundos: há uma fonte de água limpa que insiste
em jorrar. Entroncamento, esquina da história, o gesto de Dom
Cappio, o radical sereno, é um divisor de águas".
Leo Lince, militante marxista.
--------A.
Unidade e Divisão na Igreja
--------1.
Se divergências internas comprometessem a unidade da Igreja,
ela teria sucumbido já nos seus primeiros cinqüenta anos,
na polêmica relativa ao batismo dos gentios. Mas esta foi só
a primeira. As divergências continuaram e continuam vivas no
seio da Igreja Católica. Muitas remontam a Constantino (séc.
IV), explodiram na Reforma (séc. XV) e acirraram-se com a Revolução
Francesa (séc. XVIII). Desta última surgiu, sessenta
anos depois, uma corrente de católicos que existe até
hoje: os "cristãos sociais" – cristãos
cuja vida de fé foi fortemente influenciada por gente como
Ozanan, Lacordaire, Keteler, Sturzo; em seguida por Maritain, Lebret,
Cardjn, Mounier, Lubac, Lombardi, Congar; e, mais recentemente, pelos
grandes autores da Teologia da Libertação.
--------Na
metade do século passado, essa visão de Igreja difundiu-se
no Brasil através principalmente do apostolado de Dom Helder
Câmara, Alceu de Amoroso Lima, dos padres Dominicanos, dos jovens
da JUC (Juventude Universitária Católica). Os cristãos
que participam da Pastoral de Fé e Política são
herdeiros dessa história.
--------2.
Caracterizam-se por um modo específico de participar na construção
do Reino de Deus anunciado pelo Cristo como a grande Boa Nova que
Ele trouxe para a humanidade.
--------O
Reino de Deus abrange todas as dimensões do ser humano. A particularidade
do carisma dos cristãos sociais consiste na dimensão
que escolheram (sem prejuízo das demais) como centro principal
do seu testemunho: a implantação de estruturas sociais
justas e respeitadoras da dignidade do homem. Isto os obriga a intervir
diretamente na política, a fim de transformar estruturas de
exploração e dominação.
--------3.
É importante assinalar que a política tem uma lógica
interna, um dinamismo próprio, implica um certo modo de vida,
impõe regras e condições aos que buscam intervir
na sua dinâmica. Por isso, a intervenção nesse
plano provoca uma tensão permanente na vida espiritual dos
cristãos sociais: por um lado, para serem eficazes, precisam
obedecer a essa lógica e essas condições; por
outro lado, não podem se submeter inteiramente a elas sem frustrar
seu testemunho de fé.
--------4.
Os cristãos sociais brasileiros constituem um grupo muito unido
no interior da Igreja brasileira. Juntos trabalharam sob a batuta
de Dom Helder, na preparação da intervenção
dos padres conciliares brasileiros na discussão do esquema
XIII (base da Populorum Progressio) do Concilio Vaticano II; juntos
sofreram perseguições por ocasião do golpe militar;
juntos ajudaram-se reciprocamente a vencer as dificuldades do exílio;
juntos formaram as Comissões de Justiça e Paz e os Centros
de Direitos Humanos para combater os desmandos da ditadura; juntos
marcharam pelas Diretas-Já; juntos estiveram na criação
e fortalecimento das CEBs, das Pastorais Sociais, e mais especificamente,
da Pastoral de Fé e Política.
--------Nesse
contexto, o apoio não oficial, mas efetivo, através
do engajamento político de seus membros no PT e nas campanhas
de Lula, foi um processo natural: todos consideravam aquele caminho
adequado para corrigir os horrores da sociedade capitalista e para
possibilitar a plena participação do povo nas decisões
do estado brasileiro.
--------5.
Os seis anos de governo Lula causaram a primeira fissura nessa unidade:
um grupo dos cristãos sociais apóia Lula e outro grupo
o combate tenazmente.
Podemos considerar essa divergência uma catástrofe, um
escândalo, um pecado? Claro que não. Na esfera da política,
a regra é a divergência e isto não tem porquê
afetar a unidade dos cristãos.
A opção cristã é compatível com
diferentes opções políticas, pela simples razão
de que a todas transcende, e a nenhuma se acorrenta. Basta que a proposta
política respeite a dignidade da pessoa humana para que possa
ser aceita pelo cristão.
--------Obviamente,
a unidade é melhor do que a divisão, sobretudo considerando
o poderio das estruturas adversas e o reduzido número dos cristãos
sociais. Contudo, diante do governo Lula, a unidade só tem
sentido se formos capazes de travar um diálogo sobre nossas
divergências, sem escamotear as dificuldades. Em outras palavras:
se formos capazes de debater o tema sem intransigências e sem
faltar à caridade.
--------Um
debate deste tipo não pode se perder na desqualificação
dos que pensam diferentemente e nem na atribuição de
motivos menores aos que não comungam das mesmas posições.
Pelo contrário, funda-se no pressuposto de que os contendores
agem com reta intenção e que estão dispostos
a revisar posições equivocadas, se forem convencidos
pelos argumentos do debate.
Isto posto podemos entrar em matéria.
--------B.
Os erros atribuídos aos críticos do governo
--------Os
opositores do governo Lula têm recebido as seguintes críticas:
irrealismo, elitismo, ressentimento, moralismo, e até neo-lacerdismo.
As três últimas são apreciações
subjetivas, que fogem ao espírito com que este debate deve
ser travado e por isso, não serão respondidas.
--------1.
Duas visões contraditórias da conjuntura no interior
da Pastoral de Fé e Política
--------Antes
de analisar as críticas de irrealismo e elitismo, convém
estabelecer claramente as diferenças de visão sobre
a conjuntura brasileira atual, porque elas estão na raiz das
divergências.
Entendem os cristãos favoráveis a Lula que a sua vitória
inaugurou, já pela figura do personagem (um retirante que chegou
à presidência), já pela política que está
executando, uma nova conjuntura, cuja essência é um processo
lento, mas efetivo, de integração das grandes massas
populares nas estruturas econômicas e políticas da nação.
Tanto é assim, aduzem que, apesar da lentidão de alguns
avanços, o povo apóia maciçamente o presidente.
--------Na
defesa da política presidencial, assinalam ainda os apoiadores
de Lula que, se ele andar mais depressa do que está andando,
há risco de retrocesso. Afirmam que, só os irrealistas
e os de má vontade não conseguem ver as transformações
sociais que estão ocorrendo na base da sociedade. Essa visão
da conjuntura parece-nos completamente equivocada.
--------O
processo em marcha consiste na perda acelerada do controle nacional
sobre a economia; na perda, também acelerada, dos valores culturais
que fundamentam o sentimento de identidade nacional; na deterioração,
igualmente acelerada, do meio ambiente; e, para culminar, na esgarçadura
do tecido moral do estado.
--------A
imagem que acode à mente, diante dos fatos estarrecedores estampados
diariamente nos jornais é o de uma guerra civil não
declarada dos setores integrados no sistema capitalista contra a população
pobre, dele marginalizada.
--------2.
Propostas dos opositores ao governo Lula
--------A
primeira crítica ao governo Lula é que ele, não
somente deixa de enfrentar essa conjuntura dramática, como
procura escamoteá-la com medidas que esconde das massas a verdadeira
situação do país, estimulando assim, comportamentos
que reforçam a sua passividade.
--------Para
chamar essas propostas de irrealistas, como elas têm sido chamadas,
seria necessário que se demonstrasse: a) que a conjuntura não
é dramática; e b) que as medidas que os opositores sugerem
para enfrentá-la provocariam retrocesso.
--------a)
Quanto ao caráter dramático da conjuntura não
há necessidade de muito esforço para reunir evidências.
Acaso não é dramática a situação
das populações periféricas nas médias
e grandes cidades, sujeitas a viver em meio à guerra aberta
entre as polícias corruptas e o crime organizado? Que dizer
do tratamento dado aos presos; do descalabro em que se encontra a
maioria dos hospitais e do abandono das escolas públicas? A
corrupção que levou quase todo o primeiro escalão
do governo a ser denunciado pelo Ministério Público
não configura uma dramática deterioração
moral do estado?
--------Se
estes poucos exemplos, destacados de uma série enorme de horrores,
que enchem diariamente as páginas dos jornais, não configurarem
uma situação dramática, é porque as palavras
perderam completamente seu significado.
--------Quanto
tempo levará, mantendo-se o ritmo do governo Lula, para evitar
que mulheres sejam encerradas em celas de presos masculinos? Quando
os trabalhadores que vivem nas favelas do Rio de Janeiro e nas periferias
de São Paulo poderão transitar tranqüilamente sem
o risco de serem atingidos por uma bala perdida? Quantas gerações
de alunos serão prejudicadas pela deterioração
da rede escolar pública?
--------Não
pode ser, portanto, pelo lado do exagero na caracterização
da conjuntura e na urgência em enfrentá-la que pode prosperar
a crítica de irrealismo aos opositores do presidente.
--------b)
Será então a acusação de irrealismo fundada
no caráter das medidas propostas? É o que se examinará
a seguir.
--------I)
Lula faz muito pouco no plano da redução da desigualdade,
apesar de ter todas as condições para realizar uma reforma
agrária; fortalecer a agricultura camponesa; e melhorar substancialmente
o ensino público - três das propostas de seus opositores.
--------Não
o faz. Por quê? Porque as ações para romper a
dinâmica perversa da desigualdade requerem uma quantidade de
recursos que o estado brasileiro só terá condições
de reunir se tomar a decisão de postergar o pagamento da dívida
pública: cerca de 150 bilhões de reais por ano. No entanto,
para o governo, a quantia destinada a fazer esse pagamento é
sagrada, intocável, a ponto de ser retirada do montante dos
recursos arrecadados antes mesmo da formulação do orçamento.
--------Ora,
a quantia que sobra depois desse corte prévio é insuficiente
para quebrar a dinâmica que gera desigualdade.
--------No
tocante à reforma agrária e à agricultura camponesa,
o governo fez ainda pior: reduziu os insuficientes aportes que havia
inicialmente alocado e passou a estimular o maior adversário
da população rural: o agronegócio. Com isso,
procura conseguir grandes saldos na balança comercial de modo
a favorecer a entrada de capital estrangeiro no país.
--------II)
Em relação à ecologia e à democratização
da mídia, as soluções sugeridas por seus opositores
(proibição dos transgênicos, do desmatamento da
Amazônia, da expansão da soja no cerrado), nada têm
de irrealistas, pois constituem simplesmente o cumprimento de dispositivos
da Constituição. Sua efetivação não
exige grandes gastos e depende unicamente de decisões unilaterais
do estado brasileiro. O único que se requer é disposição
para enfrentar grupos econômicos poderosos. Aí está
o problema: Lula não tem coragem de enfrentá-los. Se
tivesse, duas coisas poderiam acontecer: impor a esses grupos uma
disciplina favorável ao povo; ou sofrer uma derrota no Congresso.
Mas até neste caso o povo sairia ganhando, pois a derrota contribuiria
mais para conscientizar a massa de seus direitos do que a evidência
da capitulação do governo brasileiro diante dos poderosos.
--------III)
Combater a corrupção política também não
exige gastos e sim atitudes. Se cumprir a lei não for considerado
um comportamento irrealista, a atitude correta de Lula diante dos
parlamentares que chantageiam o governo, seria a recusa peremptória
a usar os mesmos métodos da cultura política tradicional.
--------Como
o governo lida com um Congresso corrupto, surgiria o que erradamente
se classifica como um problema de "governabilidade": o governo
não conseguiria aprovar seus projetos. Seria muito mais salutar
se, para superar essa dificuldade, Lula, em vez do "mensalão",
decidisse fazer aquilo que os cristãos sociais consideram fundamental
para o avanço democrático: convocar o povo para participar
do debate sobre os seus projetos.
--------Alguém
acredita que os senadores derrotariam a CPMF se Lula tivesse reunido
um milhão de pessoas em Brasília, para explicar-lhes
porque esse imposto é necessário ao país?
--------Por
que não seguiu, desde o início, esse caminho de governabilidade?
Porque a presença da massa na rua, fora dos tradicionais comícios
eleitorais, reduz o poder da classe dominante. Para não contrariar
a classe dominante, Lula não quer mais arregimentar as massas
contra o sistema capitalista.
--------Claro
está que se Lula tivesse optado pelo caminho aqui sugerido,
a tensão política seria bem maior. Mas inferir daí,
como tem sido feito, o risco de golpe de estado contra o presidente
não tem fundamento, nem na linha atual da política externa
norte-americana (sem cujo assentimento não há golpe
possível no continente), nem na política interna (Forças
Armadas sem legitimidade para sustentar um regime de exceção).
--------Parece
evidente, diante dessa realidade que não há nenhum irrealismo,
voluntarismo, ou pressa injustificada nas medidas propostas e, conseqüentemente,
nas críticas a Lula por não tê-las adotado.
--------3.
Crítica aos "feitos" do governo Lula, apregoados
pelos seus apoiadores.
--------Os
defensores de Lula têm propalado os seguintes avanços
do seu governo em favor do povo: I) estabilização da
economia e volta do crescimento; II) aumento da oferta de emprego;
III) redução na desigualdade de renda; IV) atenção
aos bolsões de pobreza; V) aumento das oportunidades aos jovens;
VI) política externa independente.
--------I)
Louvar a contenção do ritmo inflacionário e a
volta do crescimento, sem discutir a forma como se conseguiu esse
resultado, escamoteia o problema.
--------A
inflação está baixa, mas isto não significa
estabilidade da moeda brasileira, porque não foi removido nenhum
dos fatores da sua vulnerabilidade diante dos movimentos do capital
financeiro internacional: o aumento do passivo externo e a total mobilidade
do capital que entra no país.
--------Por
isso, é mais correto dizer que a inflação está
sendo contida. E contida por meio de uma política extremamente
comprometedora do futuro da nação, uma vez que a estabilidade
do real deve-se à entrada maciça de capital estrangeiro
nas bolsas de valores. Isto está acontecendo em decorrência
de três fatores: dos baixos juros da economia norte-americana;
dos altos juros pagos pelo Brasil; e dos enormes favores que o governo
concede ao capital financeiro.
--------A
maré financeira atual favorece a entrada de dinheiro estrangeiro,
mas, apesar das advertências feitas até por seus correligionários,
o governo não tomou medidas para evitar o "efeito manada",
caso a conjuntura vire subitamente.
--------Este
tipo do controle da inflação freia o crescimento e o
faz depender dos investimentos estrangeiros, ou seja, de uma variável
fora do controle nacional.
--------Quanto
à retomada do crescimento econômico, é preciso
desmistificar desde logo, esse tipo de argumento. Evidentemente crescer
é melhor do que não crescer. Mas, como Celso Furtado
demonstrou, há quarenta anos atrás, é uma ilusão
pensar que o crescimento por si só melhora substancialmente
a vida do povo, se não se modificar o padrão perverso
de distribuição de renda.
--------Além
disso, precisa ficar bem claro, para que o nosso povo deixe de viver
de ilusões, que as taxas de crescimento da nossa economia respondem
muito mais a movimentos externos do capital, sobre os quais não
temos controle algum, do que às virtudes das políticas
econômicas dos diferentes governos.
--------Isto
posto, convém acrescentar que uma taxa de 5% de crescimento
não zera o enorme déficit social e, dado o padrão
de distribuição de renda, não é suficiente
para gerar empregos para a totalidade da juventude que chega à
idade de trabalho.
--------Além
do mais, o crescimento baseado nos investimentos estrangeiros é
outra forma de contrair dívida, pois o capital investido gera
lucros que retornam aos países de origem, sem esquecer também
que, quanto mais a produção cai nas mãos de empresas
estrangeiras, menor é a margem de controle dos brasileiros
sobre os rumos da sua economia.
--------Por
tudo isso, o verdadeiro debate sobre o desempenho econômico
do governo não pode se limitar a uma exposição
de cifras estatísticas, mas ao exame dos graves defeitos da
política econômica seguida pelo governo ao ver-se obrigado
a reagir diante de movimentos da economia mundial.
--------II)
Com relação do crescimento do emprego, cabe perguntar:
que tipo de emprego? A propaganda governamental, exaltando os "empregos
com carteira assinada", só pode enganar quem não
está procurando emprego, pois estes sabem que a expressão
não tem mais o significado que tinha durante a era Vargas e
até os anos setenta.
--------Agora
- mercê das reformas introduzidas na legislação
trabalhista - "carteira assinada" pode significar (e significa
para a maioria dos jovens que entram nesse mercado) emprego precário,
sub-remunerado, não muito diferente do trabalho informal, o
qual continua grassando impunemente.
--------III)
A propaganda que se faz a respeito da redução das diferenças
de renda entre os estratos mais altos e mais baixos da pirâmide
de distribuição de renda baseia-se inteiramente em manipulações
estatísticas (que consideram apenas a renda do trabalho e excluem
a renda financeira) que já foram desmascaradas por técnicos
de um órgão federal insuspeito: o IPEA.
As principais medidas para acelerar esse ritmo - a reforma agrária,
o fortalecimento da agricultura camponesa, e a recuperação
da rede escolar foram substituídas por programas de pequenos
financiamentos a pessoas de renda pouco acima da linha de pobreza
absoluta.
--------Tais
programas, no geral, são linhas de crédito subsidiado
a pequenos empreendedores, aposentados, consumidores de classe média
baixa e jovens que desejam seguir cursos universitários. Esses
programas têm grande efeito de propaganda e reduzido impacto
estrutural.
--------Veja-se,
para dar um só exemplo, o PROUNI. Esse programa inflamou a
imaginação de toda uma juventude excluída do
ensino superior, mas, na verdade, não se trata de uma solução
para o problema do caráter excludente do nosso sistema de ensino,
e sim de um expediente de efeito imediato e frustrantes resultados.
--------Em
vez de jogar recursos suficientes para aumentar as vagas das universidades
públicas (e criar cursos suplementares para suprir as notórias
deficiências de formação intelectual dos alunos
da rede estatal), o estado transfere recursos para faculdades privadas
que - com raríssimas exceções - são rendosos
negócios e não centros de formação universitária.
--------V)
O carro-chefe da propaganda do governo é o aumento do gasto
assistencial. Comparado com os minúsculos gastos do governo
FHC, houve, de fato, um aumento nos últimos cinco anos.
O gasto assistencial, isoladamente, não soluciona o problema
a inserção social da multidão de miseráveis
que o capitalismo foi deixando pelo caminho ao longo da sua história.
No início do governo tentou-se timidamente articular o esforço
assistencial com programas estruturantes. Mas as duas principais iniciativas
- crédito subsidiado ao pequeno produtor e compra antecipada
- não obstante os resultados muito positivos que apresentaram,
foram incapazes de superar os obstáculos opostos pela burocracia
estatal e pela barreira da comercialização.
--------Como
os recursos injetados pelo governo foram insuficientes para vencer
o círculo vicioso que bloqueia o desenvolvimento da agricultura
camponesa, o aumento das verbas assistenciais está servindo
para reforçar traços indesejáveis da cultura
tradicional da massa (enquanto "sujeitos monetários sem
dinheiro") sem ajudá-las a tomar consciência de
sua dignidade e de seus direitos.
--------Pergunte-se
aos movimentos populares se o Bolsa Família serviu para mobilizar
ou para desmobilizar as massas? É claro que está desmobilizando.
--------VI)
Outro ponto positivo que o governo assinala é o seu desempenho
no plano internacional. Convém, antes de examinar este aspecto,
considerar as reais margens de ação do nosso país
nesse plano.
--------A
dura realidade é que estamos, e sempre estivemos sobre a tutela
dos Estados Unidos no plano internacional - realidade que não
deve ser ocultada do povo brasileiro, a fim de não estimular
ilusórios sentimentos de autonomia e de protagonismo. Evidentemente,
essa tutela apresenta brechas, mas sempre que o State Department fecha
a questão, só resta às nações subdesenvolvidas
o constrangimento de encontrar desculpas para obedecer.
--------Nesse
contexto, para fazer justiça aos dois hábeis operadores,
que Lula teve o mérito de colocar e sustentar no Itamaraty,
pode-se dizer que procuraram aproveitar as brechas e tiveram que aceitar
o inevitável. Por exemplo: o Itamaraty desenvolveu uma estratégia
eficaz para congelar a ALCA, mas não pôde deixar de apoiar
o Mercosul, que não passa de uma plataforma para driblar políticas
de proteção das indústrias nacionais, a fim favorecer
as indústrias multinacionais.
--------Nas
questões em que o State Department fechou questão: envio
de tropas brasileiras ao Haiti e condenação de Cuba
na Comissão de Direitos Humanos da ONU, por exemplo, o Itamaraty
foi obrigado a aceitar caladamente.
--------Apesar
da limitação estrutural da diplomacia brasileira, o
apoio a Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e a articulação
dos países subdesenvolvidos na OMC - foram pontos positivos
que devem ser reconhecidos.
--------4.
Apoio da massa popular a Lula
--------Este
fato é apontado pelos apoiadores do presidente como o melhor
indicador do acerto da sua política: a massa estaria enxergando
benefícios que olhos "elitistas" não conseguem
ver.
--------Trata-se
de uma afirmação problemática, feita de forma
categórica, em terreno escorregadio no qual as relações
de causa e efeito são de difícil verificação.
O apoio popular nunca foi aceito pelos cientistas políticos
como o critério definidor do bom governo. Se assim fosse, os
governos de Hitler e Mussolini teriam de ser considerados bons, porque
ambos desfrutaram enorme popularidade antes que suas políticas
revelassem seu verdadeiro caráter.
--------Sem
dúvida, os beneficiários do Bolsa Família têm
motivos para apoiar o presidente, inclusive porque não têm
consciência de que esse benefício não compensa,
nem de longe, os direitos que lhes são negados. Entretanto,
o que é intrigante no caso de Lula é que o apoio popular
vai além dos beneficiários diretos do Bolsa Família
- setores, como os Sem Terra, por exemplo, que não têm
razão alguma para apoiá-lo, são majoritariamente
lulistas.
--------Os
cientistas apresentam diferentes explicações para o
fenômeno, precisamente, porque não conseguem ver uma
clara relação de causa e efeito entre o apoio e os benefícios
concretamente recebidos.
--------A
explicação aparentemente mais correta é a que
se fundamenta no efeito da "cultura do favor". Em uma sociedade
na qual massa das pessoas livres pobres ("sujeitos monetários
sem dinheiro", na expressão de Roberto Schwarz) sempre
foi, desde a colônia, muito grande, a "cultura do favor"
adquire peso político e leva as massas populares a uma fidelidade
muito grande com as figuras políticas que identificam como
do seu lado. A gratidão das 11 milhões de famílias
do Bolsa Família e o efeito de demonstração desse
programa nos escalões logo acima na pirâmide social explicam
essa fidelidade a Lula bem mais do que supostas transformações
sociais que os pobres conseguem ver, mas o "elitismo" dos
letrados não conseguem captar.
--------D.
Fora das portas da cidade
--------É
preciso finalizar com a análise do episódio que acirrou
as divergências no seio da comunidade Fé e Política:
o jejum de Dom Cappio.
--------Trata-se,
antes de tudo, de um ato voltado principalmente para a Igreja. Destinou-se
a chamar a atenção dos cristãos para a terrível
situação em que vivem os pobres em nosso país.
Insere-se, portanto, plenamente, na tarefa de construção
do Reino de Deus que Jesus Cristo veio inaugurar.
--------Se
o bispo tivesse mobilizado duzentos militantes da CPT, MAB, MST e
outras organizações populares do campo para ocupar o
canteiro de obras do projeto de transposição das águas
do Rio São Francisco (o que lhe seria bem fácil) seu
gesto caracterizaria tipicamente um ato de desobediência civil
- atitude que dezenas de padres e bispos já realizaram (legitima
e reiteradamente) ao longo destes anos. Seria um ato político,
voltado diretamente contra o poder do estado.
--------Mas
ele não agiu assim. Vestiu o hábito de franciscano e
foi rezar e jejuar em uma capela distante, a fim de falar aos cristãos
- conservadores, progressistas, lulistas e anti-lulistas - para os
quais essa simbologia tem sentido.
--------Não
estamos diante da linguagem da força, que é linguagem
da política (legítima quando voltada para objetivo justo
e contida dentro de limites legais), mas diante da linguagem da fé
- dessa força misteriosa, em que se conjugam o histórico
e o transcendente.
--------No
seu livro Fuori dal Campo, Raniero La Valle mostrou que o profeta,
para se fazer ouvir, precisa, muitas vezes, sair fora dos muros da
cidade. Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém.
--------O
projeto da transposição das águas não
é o primeiro grande investimento que o estado faz na região
e sabemos que nenhum deles beneficiou efetivamente a população
pobre. Esta não é uma opinião técnica,
mas uma constatação que qualquer leigo em matéria
hidráulica pode fazer e que padres, freiras, bispos e militantes
da Pastoral de Fé e Política vêm fazendo ao longo
de muitos anos.
--------Fiel
à Opção Preferencial pelos Pobres, Dom Cappio
saiu na defesa dos que não têm voz no plano da política
nacional.
--------Fê-lo
dentro dos limites permitidos? Claro que não. Mas é
precisamente aí que está a profecia. Incontáveis
requerimentos, discursos, atos públicos, protestos foram feitos
dentro dos limites. Debalde. Sem falar nos governos, pouquíssimos
dentro da nossa Igreja - e até dentro da Pastoral de Fé
e Política - tomaram atitudes efetivas para exigir uma discussão
mais ampla da problemática obra.
--------Tal
como os convidados do banquete, a que alude a conhecida parábola
do Cristo, estávamos demais ocupados com as nossas agendas.
O sacrifício do bispo mostrou-nos que é preciso sempre
deixar margem para poder dar atenção à vítima
da parábola do Bom Samaritano.
Em situações limites, nas quais o grau de alienação
é muito grande, somente um fato impactante pode tirar a comunidade
da letargia em que se encontra. Quem de nós não se sentiu
questionado pelo gesto do bispo? Quem não se viu obrigado a
fazer uma revisão da sua própria militância a
fim de ver se está realizando as tarefas e correndo os riscos
inerentes à construção do Reino?
--------Claro
está que esse exame de consciência às vezes nos
machuca. Mas não devemos criticar o bispo. Devemos nos criticar.
--------6.
Agora que o profeta foi calado, fica-nos o desafio de não deixar
que seu sacrifício seja esquecido. Está aí uma
boa ocasião para que nós - apoiadores e opositores de
Lula - nos disponhamos a dialogar, a fim de aplainar nossas diferenças.
--------O
diálogo poderia começar diante da seguinte proposta:
nós consideramos indispensável abrir um grande debate
nacional sobre o bem social e econômico de uma obra que requer
enormes recursos e que causará severo impacto no meio ambiente
e na condição social das populações atingidas.
Por isso, vamos exigir do governo que paralise as obras até
que uma nova rodada de audiências seja realizada no Congresso,
a fim de fixar responsabilidades a respeito de uma decisão
que mudará a fisionomia, social, econômica e política
de uma extensa região brasileira. Perguntamos: vocês
concordam ou discordam dessa proposta? Se discordam, com que argumentos?
(1)
Militante político brasileiro filiado ao PSOL. Formado em Direito,
trabalhou como promotor público e participou da Ação
Popular. Em 1962, foi eleito deputado federal pelo Partido Democrata
Cristão e tornou-se relator do projeto de Reforma Agrária
que integrava as Reformas de Base do governo João Goulart.