Alternativas
de abastecimento hídrico do Nordeste seco:
a disputa é por dinheiro
João
Suassuna (1)
----------O
que já era previsível aconteceu: os problemas da geração
de energia elétrica do país voltaram à baila,
desta feita no governo Lula. Não foi por falta de aviso. Em
fevereiro de 2007 editamos artigo na internet criticando a forma precipitada
com a qual o presidente Lula tratou essa questão. Naquela ocasião,
segundo a ótica do presidente, os apagões eram páginas
viradas na história do nosso país.
----------As
análises que temos feito na última década sobre
a realidade nordestina, principalmente as de sua região semi-árida,
têm tido elevados índices de acertos. Sobre as questões
energéticas, por exemplo, temos vários textos publicados
em tons de profecia. As coisas estão acontecendo exatamente
como havíamos previsto.
----------Embora
seja um tema complexo, o que está ocorrendo hoje no setor elétrico
brasileiro é simples de entender, por ser a geração
de energia realizada preferencialmente em hidrelétricas. Esse
fato preocupa pela recorrência no descompasso das caídas
das chuvas em todo território nacional. Em 2001, por exemplo,
as autoridades apostaram nas chuvas que não caíram,
o que resultou na mais séria crise energética vivenciada
na nossa história. Em 2008 não foi diferente. As coisas
estão acontecendo de forma muito semelhante àquelas
ocorridas em 2001, embora com menor gravidade. Os volumes acumulados
nos reservatórios das principais hidrelétricas nacionais
baixaram a níveis críticos, o que obrigou as autoridades
ao acionamento das baterias de termelétricas movidas a gás,
para manter a geração de energia em patamares satisfatórios.
Essa alternativa, na nossa ótica, é paliativa, tanto
pelas indefinições ocorridas nas remessas do gás
da Bolívia ao Brasil, como por ter a Petrobrás informado
que só tinha condições de fornecer às
termelétricas cerca de 20% do gás sob sua tutela, com
o conseqüente aumento tarifário do setor elétrico,
penalizando o usuário da energia.
----------Entretanto,
cremos que as discussões havidas a esse respeito estão
fora de foco. Não cabe aqui discutir se irá ou não
chover. As expectativas de 2001 não foram bem sucedidas, mas
neste ano de 2008, as chuvas, apesar de atrasadas, já estão
ocorrendo com muita intensidade no sudeste do país, o que irá
ocasionar a subida dos níveis dos reservatórios daquela
região. A discussão mais importante que tem que ser
feita é se o rio São Francisco, com a baixa vazão
que vem mantendo até agora, terá condições
de suprir as demandas volumétricas dos projetos da região
nordeste que estão sendo implementados em sua bacia hidrográfica,
visando o uso consuntivo de suas águas. Em novembro de 2007,
quando a represa de Sobradinho chegou a apenas 15% de seu volume preenchido,
158 municípios do estado da Paraíba estavam em estado
de emergência motivado por uma seca que se anunciara e, conseqüentemente,
pelo total desabastecimento das populações ali residentes.
Na nossa percepção o rio já está no seu
limite de uso, não tendo mais condições de suprir
tais demandas.
----------Caso
seja mantida a meta de crescimento do país de 5% ao ano, há
necessidade de se injetar, à potência elétrica
instalada do país, cerca de 5.000 mw/ano, volume de energia
nada inexpressivo se considerados os 5.437 mw conseguidos nos três
primeiros anos do governo Lula. E se não houver a preocupação
com os aportes energéticos necessários ao nosso desenvolvimento,
não irá demorar muito e teremos problemas de falta de
energia elétrica no nosso país.
----------No
Nordeste o caso é mais complicado ainda, tendo em vista ser
o rio São Francisco responsável por mais de 95% da geração
de sua energia, situação esta agravada pelos múltiplos
usos a que é submetido, pelas formas lotéricas das caídas
das chuvas e pelas características geológicas de sua
bacia hidrográfica (escudo cristalino), resultando tudo isso
na intermitência de seus principais afluentes. Os descompassos
pluviométricos ocorridos em suas nascentes no final do ano
passado e início deste ano resultaram em reduções
significativas de sua vazão com conseqüente redução
volumétrica na represa de Sobradinho, a qual em novembro de
2007, apresentava apenas 15% de seu volume preenchido (em igual período
de 2006, a represa apresentava 60% de sua capacidade).
----------Ao
denunciarmos essas questões com espírito desarmado,
fomos invariavelmente classificados por nossas autoridades de “xiitas”,
maus nordestinos e de técnicos que costumam colocar “areia”
nas coisas.
----------Na
semana que antecedeu o final do segundo jejum de Dom Luiz Cappio,
aconteceu de tudo na imprensa pernambucana. Fomos acusados inclusive
de “termos feito a cabeça” de Dom Luiz nas questões
sanfranciscanas e de outras bobagens semelhantes. Dom Luiz é
um autodidata por excelência. Vive na região semi-árida
nordestina há mais de 30 anos e peregrinou durante um ano inteiro
da nascente do Velho Chico à sua foz, interagindo com o povo
e levantando os problemas existentes em toda a bacia hidrográfica
do rio. Portanto, conhece a realidade da região como ninguém.
Apesar de ser paulista, Dom Luiz é mais nordestino do que muitos
nordestinos ilustres que fizeram o caminho inverso.
----------Ainda
no tocante aos múltiplos usos das águas do rio São
Francisco, existem projetos que estão sendo postos em prática,
os quais irão agravar mais ainda o quadro de penúria
hídrica ali existente. Referimo-nos ao projeto de transposição
de suas águas e, mais recentemente, à ampliação
de nossa fronteira agrícola com o plantio de cana-de-açúcar
irrigada com as águas do Velho Chico para a produção
de etanol. Na nossa avaliação o rio São Francisco
já não dispõe dos volumes necessários
à satisfação das necessidades desses projetos.
Ora, se atualmente no São Francisco não existem volumes
sequer para gerar energia, como é que querem retirar água
para o atendimento do agronegócio? Fala-se na irrigação
de cerca de 90 mil hectares de cana, área esta que demandará
volumes significativos de um rio já debilitado. Para se
ter uma idéia da gravidade dessa situação, para
se produzir um litro de álcool combustível são
necessários cerca de 2.500 litros de água. Na nossa
ótica, caso esses projetos sejam executados, essas questões
entram na esfera da irresponsabilidade, em um momento em que é
preciso sentar-se à mesa de negociações para
se discutir o uso de qualquer gota d`água disponível,
sob pena de entrarmos em um processo de exaustão de nossas
riquezas naturais, de difícil solução.
----------O
uso das águas do rio São Francisco para o agronegócio
já dividiu o Nordeste ao meio. Atualmente, fala-se em nordeste
setentrional e nordeste meridional. Além de dividir os habitantes
das duas regiões, o projeto dividiu também a igreja
católica. Os religiosos desinformados do nordeste setentrional
são favoráveis a essas iniciativas, enquanto aqueles
do nordeste meridional, mais informados, são contrários.
Ao participarmos da Caravana em defesa do São Francisco, a
qual visitou 11 capitais brasileiras discutindo a realidade da região
semi-árida, observamos claramente essa dicotomia de opiniões.
Ao chegarmos na Paraíba, por exemplo, nos deparamos com a notícia
de que o arcebispo emérito da capital paraibana, Dom Aldo Pagotto,
havia sido entrevistado no “Bom-Dia Paraíba” (noticiário
local da Rede Globo) e teria dito que o grupo em visita à Paraíba
era “a caravana da morte”, pois estava negando um caneco
d´água a quem tem sede. Iludem-se aqueles que acreditam
que a transposição irá resolver os problemas
de abastecimento da população difusa nordestina.
Ao contrário, a transposição servirá
única e exclusivamente a interesses empresariais e, portanto,
não irá atender às necessidades dos sertanejos.
Trata-se da perpetuação da indústria da seca.
A esse respeito, gostaríamos de esclarecer que ao participarmos
da dita caravana não estávamos brincando, nem tampouco
fazendo turismo. A missão da caravana foi de paz e, sobretudo,
de esclarecimento.
----------Caso
semelhante ocorre no meio político regional. Políticos
do nordeste setentrional, por exemplo, são favoráveis
ao projeto transpositório, enquanto os do nordeste meridional
são contrários. Sobre essas questões, caso curioso
ocorre com aqueles que têm seus redutos eleitorais nas regiões
por onde irão passar os canais do projeto. Existe um empenho
enorme por parte deles para a implantação desses canais,
o que na nossa opinião não passa de uma tentativa de
garantir o voto do eleitorado iludido e desinformado. Lembramos que
o ano de 2008 é eleitoral e, portanto, o estrago advindo dos
votos desses eleitores (em número) será diretamente
proporcional à vontade e ao empenho desses políticos
na realização da obra.
----------Aliás,
somos da opinião de que as questões ambientais do país,
quando tratadas no meio político, costumam ser complicadas,
desgastantes e com resultados diversos do previsto. Notem o caso da
febre amarela ocorrido recentemente na região Centro-Oeste.
Houve alguns casos isolados naquela região o que motivou o
ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a dar
declarações na mídia televisiva com o propósito
de acalmar a população, numa tentativa de convencimento
de que não haveria epidemia e, portanto, a vacinação
só seria aconselhável para aqueles casos em que as pessoas
fossem viajar para regiões de ocorrência da doença.
O que se viu no dia seguinte à fala do ministro, foi uma corrida
desenfreada da população brasileira em busca da vacina,
o que levou a extinção de seus estoques nos principais
centros de saúde em todo território nacional.
----------A
situação não foi diferente com o recém
empossado ministro de Minas e Energia, Edson Lobão. Na tentativa
de acalmar a população brasileira sobre as possibilidades
da volta dos racionamentos de energia, o ministro, diante de reservatórios
praticamente vazios, afirmou que não haveria racionamento -
pois as termelétricas estavam operando - mas apenas um ajuste
nas tarifas de energia para compensar os gastos com a utilização
do gás, sendo obrigado a desfazer, no dia seguinte, tudo aquilo
que havia dito no dia anterior. O próprio presidente Lula informou
à nação que o seu governo foi o que menos desmatou
a região amazônica. No dia seguinte a essa declaração,
a Organização das Nações Unidas divulgou
um relatório considerando 2007 o ano em que mais se desmatou
a região, o que motivou, durante uma semana inteira do
mês de janeiro, uma discussão acalorada entre as autoridades
governamentais as quais está afeto o meio ambiente. Para nós,
o caso mais emblemático foi o da ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva, que concedeu a licença ambiental ao projeto de
transposição, por entender que o mesmo era ambientalmente
seguro. Como é “seguro” o projeto que está
sendo implantado se a população brasileira testemunhou,
através do Jornal Nacional, na edição do dia
29 de janeiro de 2008, um cidadão atravessando o rio de moto
(de Porto Real do Colégio – AL, até Própria
- SE), num percurso trágico, em local muito próximo
à sua foz, onde, conforme o ex-ministro Ciro Gomes havia
afirmado à nação brasileira, o rio São
Francisco estaria “perdendo” muita água para o
mar? A atitude da ministra pode ser justificável pelo fato
de ser nativa de região superúmida do país e,
portanto, não conhecer em profundidade a realidade do nordeste
seco. Mas, na nossa opinião, isso não a isenta de ter
baixo compromisso com a região.
----------Doravante,
é possível que os políticos, que costumam iludir
seu eleitorado com propostas mirabolantes visando tão somente
à obtenção de votos, passarão, mais cedo
ou mais tarde, pelo constrangimento de verem suas candidaturas inviabilizadas
pela insuficiência de votos nas urnas. Para os religiosos desinformados,
que costumam iludir seus fiéis, cremos que no dia do juízo
final será dada como certa uma passagem pelo purgatório,
nem que seja de forma rápida.
----------Finalmente,
entendemos que a melhor classificação que foi dada às
alternativas de abastecimento do povo nordestino ficou por conta de
João Bosco, secretário de Recursos Hídricos do
governo do estado de Pernambuco. Em evento sobre Água e Energia
promovido no Recife, em novembro de 2007, pela Fundação
Gilberto Freyre e pelo governo do estado, o secretário a elas
se referiu, na tentativa de defesa do projeto de transposição,
quando submetido aos nossos argumentos. Segundo o secretário,
que estava falando para uma plenária de cerca de 200 pessoas,
as disputas sobre as alternativas de abastecimento do povo do Semi-árido
eram por recursos financeiros: a escolha era pelo projeto mais caro.
Que era por dinheiro, isso todos nós já sabíamos.
O fato curioso é que essa assertiva partiu de um secretário
de estado, que estava ali numa situação difícil
tentando defender um projeto que não irá resolver a
situação de abastecimento das populações
carentes nordestinas. Para nós este fato servirá de
munição para próximas investidas, ajudando-nos
a continuar mostrando, de forma transparente, a insustentabilidade
técnica do projeto. Fica claro que, diante das alternativas
atualmente existentes - como as do Atlas Nordeste de abastecimento
urbano de água, orçado em R$ 3,6 bilhões e o
projeto de Transposição, que pode chegar a R$ 20 bilhões,
em 25 anos - é lógico que a escolha das autoridades
recairá no projeto que for mais caro, ou seja, o da transposição.
----------Diante
de todo esse relato, entendemos que não se pode colocar a vontade
política acima das possibilidades técnicas de se promover
o desenvolvimento do nosso país, sob pena de continuarmos seguindo
firmes na rota da escuridão. Antes, escrevíamos sobre
os riscos que podiam surgir caso a obra fosse iniciada. Agora, diante
das obras em andamento iremos começar a escrever sobre as suas
conseqüências.
Recife, 12 de fevereiro de 2008.
(1) Engº Agrônomo e Pesquisador
da Fundação Joaquim Nabuco, colaborador e articulista
do EcoDebate; e-mail: joao.suassuna@fundaj.gov.br