OS CONFLITOS
IDEOLÓGICOS NA AMERICA LATINA
(Venezuela, Equador e Colômbia)
José Luiz Quadros
de Magalhães e frei Gilvander Moreira
----------O
conflito ideológico na América Latina ameaça
transformar-se em conflito armado. ----------Algo
deste tipo já poderia ser previsto: não poderia o governo
Bush fechar os olhos para o crescimento dos movimentos populares e
democráticos na América Latina que ameaçam interesses
de corporações privadas globais especialmente no petróleo
e gás da região, além da riqueza do subsolo e
supersolo da Amazônia e a grande quantidade de água em
toda a região.
----------Em
março de 2008 o governo da Colômbia, em ação
conjunta com os Estados Unidos, que passaram as informações
por satélite para as forças armadas da Colômbia,
autorizou uma ação militar que assassinou 21 guerrilheiros
colombianos das FARC, Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia,
que luta contra o capitalismo há 30 anos. Estes guerrilheiros
foram mortos em território equatoriano, parece que enquanto
dormiam. Após o ataque realizado por avião, o exército
da Colômbia invadiu o território do Equador para pegar
os corpos dos guerrilheiros colombianos. O Equador por meio de seu
presidente eleito, Rafael Correa, denunciou a invasão de seu
território por parte da Colômbia, acusando o governo
de Álvaro Uribe de desrespeitar o direito internacional e a
soberania nacional. Imediatamente Hugo Chaves, presidente da Venezuela,
apóia o Equador e mobiliza exército, marinha e aeronáutica
na fronteira com a Colômbia. O Brasil condena a ação
colombiana e pede que Álvaro Uribe peça desculpas ao
Equador.
----------Para
entender estes fatos é necessário sabermos um pouco
dos personagens principais.
----------A
Venezuela, a exemplo de diversos outros países latino-americanos,
viveu inúmeros governos poucos democráticos no decorrer
de sua história, mesmo que com o exercício do voto e
de uma certa democracia representativa, o poder econômico local
sempre dominou a política mantendo seus grandes privilégios.
Isto porque construiu-se naquele país um sistema econômico
que privilegiava um pequeno grupo social que também detinha
o poder econômico e o controle da mídia. Enquanto isto,
uma grande maioria da população era colocada à
margem, sem acesso a direitos sociais como saúde e educação;
direitos econômicos como emprego e remuneração
justa; direitos individuais como liberdade de consciência e
de expressão e direitos políticos como a real participação
na construção da vontade política do estado por
meio de participação no poder. O governo de Hugo Chaves,
eleito em 1998 e com posse em Janeiro de 1999, começou a mudar
radicalmente este cenário. Erradicou o analfabetismo; acabou
com o monopólio privado da comunicação (especialmente
a televisão) criando uma rede pública de comunicação;
aumentou o acesso a saúde e criou mecanismos de participação
popular na gestão do estado; afastou a “elite”
econômica do poder e ajudou diversos estados latino-americanos
em projetos de melhoria da condição sócio-econômica.
----------Neste
episódio de março de 2008 a Venezuela pode aproveitar
a oportunidade para desestabilizar o governo colombiano pró-Estados
Unidos, facilitando a ascensão de um governo que se junte no
projeto de desenvolvimento social dos governos do Equador e Bolívia.
----------O
Equador elegeu um governo popular e democrático que vem promovendo
reformas sociais para a redução da miséria, seguindo
os passos da Venezuela e Bolívia. Recentemente convocou uma
Assembléia Nacional Constituinte para elaborar uma nova Constituição
democrática e popular a exemplo da Bolívia e da Venezuela.
A política do governo Rafael Correa é de nacionalizar
as riquezas de petróleo e gás do seu país para
beneficiar o seu povo, o que claramente afeta interesses do capital
internacional, incluindo europeu e norte-americano, e do pequeno grupo
dos muito ricos do equador que também se beneficiam com a miséria
do povo.
----------O
governo da Colômbia é um dos poucos governos de direita
conservadora da região, que tem governos democráticos
de esquerda no Uruguai, Brasil, Argentina, Chile, Equador, Bolívia
e Venezuela. Por este motivo os Estados Unidos tem financiado militarmente
e economicamente a Colômbia. O governo Uribe (envolvido, segundo
a imprensa de seu país, em casos de corrupção),
tem recebido dinheiro para projetos de segurança publica e
de reformas urbanas, além de muitos recursos para combater
a guerrilha de esquerda, se apresentando como a última esperança
dos EUA de barrar o crescimento dos governos democrático-populares
na região. Este episódio atual representa claramente
o interesse do governo Bush em desestabilizar os governos populares
do Equador, Bolívia e Venezuela.
----------O
Brasil neste episódio vai agir com extrema cautela. O governo
Lula é simpático às reforma sociais e econômicas
da Venezuela, Bolívia e Equador, tendo apoiado política
e economicamente, quando possível, estes países. Entretanto,
nossa política externa é pacífica não
sendo possível um envolvimento militar e mesmo político
mais profundo neste caso. Os motivos são claros. O governo
Lula não tem maioria no Congresso para fazer isto. Nossas forças
armadas ainda são bastante conservadoras e preconceituosas
em relação a movimentos populares democráticos,
que são vistos, pelo viés de alguns líderes militares
brasileiros, como movimentos de baderna de desordem e até terroristas
até hoje, e não como movimentos de construção
de uma sociedade sustentável e justa. A direita brasileira
é muito organizada e se encontra também no poder. Estes
fatores tornam impossível um envolvimento maior do Brasil,
mesmo se este fosse o desejo do presidente. Apesar de tudo isto o
Brasil pode ter um papel fundamental neste momento, evitando a guerra,
que não é desejável em nenhuma hipótese.
----------A
guerra só trará destruição e mais miséria,
além de ser prejudicial aos projetos democráticos populares
uma vez que desviará recursos (que podem ser usados para a
melhoria da vida) para a morte de irmãos latino-americanos.
As transformações sociais e democráticas que
a América Latina necessita devem ser construídas com
participação e organização popular pacífica.
A razão histórica está do nosso lado e é
por este motivo que veremos no futuro uma sociedade justa, portanto
igualitária e livre, florescer na América Latina. Não
podemos perder a razão usando a violência.
José Luiz Quadros
de Magalhães, email: ceede@uol.com.br
Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 06/03/2008