VOLUNTÁRIA/O
NA PROMOÇÃO DA VIDA:
coração aberto e mãos solidárias, à
luz do “bom samaritano” (Lc 10,25-37)
----------Diante da realidade de crescente
violência social e de exclusão, em que roubos, assaltos,
assassinatos e seqüestros fazem crescer a insegurança
e disseminam o medo, o outro é considerado um inimigo em potencial.
Acreditar e confiar no outro passa a ser um desafio. Nesse contexto
conflitivo, o “episódio-parábola do Bom Samaritano”
nos dá ânimo e luz, para que sejamos voluntária/o
de mais qualidade.
----------O samaritano percorre
os seguintes passos interligados e interdependentes (Lc 10,33-35),
passos que podem inspirar ação e atitudes de nós
voluntárias/os:
----------1) “Certo
samaritano...” anônimo, pois não é
revelado o nome dele; herege, segundo a religião judaica; impuro,
segundo o povo judeu; pagão, segundo a cultura judaica; representante
dos samaritanos, que por novecentos anos foram discriminados pelos
judeus.
----------2) “Em viagem,
se aproxima da realidade do caído e semimorto. Não passa
adiante. Não levanta teorias que justificam a exclusão
e aliviam a própria consciência. Interrompe seus planos
e deixa-se guiar pelo inesperado, pelo inédito, pelo que acontece.
O samaritano estava em viagem porque estava trabalhando. Estava ocupado
e provavelmente também preocupado com suas responsabilidades.
Mas, por ironia da história, as pessoas que encontram mais
tempo são as mais ocupadas. Diz a sabedoria dos engajados:
“Se precisar de ajuda, procure alguém que está
muito ocupado, pois este terá mais tempo”. Quem ama verdadeiramente
sempre encontra tempo para estar com a pessoa amada. Encontra o seu
jeito de multiplicar o tempo e conquista o tempo necessário
para estar com o outro. O sacerdote e o levita voltavam do trabalho
e teriam, em tese, mais tempo para dedicar ao pobre assaltado, mas
foram insensíveis. O samaritano usa seu precioso tempo para
ser solidário.
----------3) “Chega junto...”.
Não fica à distância, na arquibancada da vida;
aproxima-se do outro que está em apuros. Padre Júlio
Lancellotti, vigário episcopal do povo da rua, da cidade de
São Paulo, certa vez, quando saía da prisão,
foi nervosamente interpelado pelo diretor da prisão: “Pode
voltar lá dentro, pois os menores infratores recomeçaram
outra rebelião lá e já fizeram alguns funcionários
como reféns”. Padre Júlio discerniu no calor do
conflito e voltou. Ao entrar, pulou no meio dos menores rebelados
e gritou: “Silêncio! Sentem todos!” Um menor grandalhão
levantou-se e disse para todos: “Vamos obedecer, pois o padre,
nosso amigo, está falando”. Padre Júlio, continuando,
conclamou os menores: “Vamos rezar um Pai-nosso. Pai nosso,
que estais no céu...” Todos rezaram e assim a rebelião
foi contida. No dia seguinte, perguntaram aos menores: “Por
que vocês obedecem ao Pe. Júlio e não obedecem
aos guardas penitenciários?” Eles responderam em coro:
“Padre. Júlio é gente fina; é nosso amigo;
chega justo quando estamos em apuros; é verdadeiro; gosta de
nós; não mente para nós”. No dia seguinte,
Padre Júlio constatou que alguns menores tinham sido torturados
por dizerem a verdade e denunciarem as arbitrariedades cometidas pelos
guardas.
----------4) Vê o excluído
semimorto. Não foi um olhar frio, calculista,
sobre o sofrimento do outro, mas sem um olhar com base no outro que
sofre. Um olhar de benevolência e ternura. Deixa que a dor do
outro entre através dos próprios olhos. Certamente foi
um olhar penetrante. Passa a ver o mundo conforme a dor do outro.
E deixa-se guiar pela visão que vê o outro sofrendo.
Diz a sabedoria popular: aquilo que os olhos não vêem
o coração não sente. Um provérbio indiano
expressa semelhante compreensão ao dizer que os olhos vêem
mil vezes mais do que os ouvidos escutam.
----------5) Move-se de compaixão
em face da dor do excluído. A dor do outro entra pelos olhos
e invade todo o corpo. Penetra nas entranhas, no coração,
revolvendo-os. Revira o corpo por dentro. Quem está comovido
se entrega ao outro, não o agride. Sentir compaixão
é associar-se à dor do outro partilhando-a e, desse
modo, diminuindo-a. A dor sentida pela pessoa excluída foi
suavizada pelo “odor” da companhia do samaritano. Segundo
Dalai Lama, compaixão é admitir que a vida do outro
é mais importante do que a minha própria vida; é
orientar a vida segundo o outro que sofre. O outro se torna um absoluto
na minha vida. Quem decidirá se o meu trabalho vai continuar
é a situação do outro.
----------6) Se aproxima
ainda mais da pessoa sofrida, se entrega gradativamente
ao outro. É na proximidade que se dá o encontro face
a face, o encontro EU–TU. Foi assim que aconteceu com Moisés
na sarça ardente (Ex 3,1-6). Jó, depois de passar por
um processo dolorido de revisão da sua experiência de
Deus, chega à conclusão de que “antes eu Te
conhecia somente por ouvir dizer, mas agora meus OLHOS Te vêem”
(Jó 42,5). Quer dizer, Jó encontra-se face a face
com um Deus solidário e libertador. Mas o encontro face-a-face
com Deus se dá no encontro face a face com o outro, principalmente
com o outro que está excluído, semimorto. Pelo rosto
reconhecemos com muito mais facilidade uma pessoa que já vimos
alguma vez. Mas se nos apresentar um corpo sem rosto será muito
mais difícil o reconhecimento. Uma religiosa, de vida consagrada,
desejava viver a contemplação no meio do povo excluído
da periferia de Vitória da Conquista (BA). Ela decidiu rezar
com o povo aflito da sua vizinhança. Um dia, enquanto visitava
as famílias nos seus casebres, percebendo que muitas mães
davam água com sal para tentar consolar os filhos que choravam
pedindo alimento, a religiosa perguntou para uma mãe: “Por
que você vendeu todas as camas, cadeiras e os móveis
da casa?” A mãe respondeu: “Irmã,
a senhora nunca vai conseguir entender o que significa uma mãe
ver o filho chorar e gritar com fome e não ter alimento para
dar para o filho. Vendi todos os móveis, um a um, para comprar
pão para meus sete filhos. Frio até que a gente agüenta,
mas passar fome e ver os filhos pedirem alimento é ser cortada
por dentro; mata a gente aos poucos. Nós, mães, não
somos de ferro. Somos de carne e osso e amamos os nossos filhos.”
----------7) Cuida do outro no
imediato e no mediato. Fez curativos, derramando óleo
e vinho nas feridas. A compaixão move o coração
e aciona as mãos para a prática da misericórdia,
da solidariedade efetiva. O samaritano vive a espiritualidade do CUIDADO
com o outro e consigo mesmo. Falam alto o modo como ele ajuda
e o que ele usa para cuidar do outro. O como envolve a experiência
e a competência de quem já está familiarizado
com o exercício da solidariedade. E o que ele usa para aliviar
a dor do outro são frutos da mãe-terra e do seu esforço
humano (suor, fadiga, tempo). Com produtos naturais, o samaritano
recupera a vida do outro: óleo, para curar feridas, e vinho,
que além de curar, dá alegria e ajuda a retomar a vida.
----------8) “Colocando-o
sobre o seu próprio animal, levou-o a uma pensão, onde
cuidou dele...” Fez-se solidário, deu os
primeiros socorros e encaminhou o semimorto para o restabelecimento
completo. O samaritano não se contentou com o mínimo
de assistência oferecida a alguém em perigo, mas deu
seu tempo, seu dinheiro e o seu ser, sem calcular. A oferta do dinheiro
não é substitutiva, mas um complemento da sua ação
pessoal. Ele amou “com força”, isto é, com
os seus próprios bens econômicos. Ele mostrou que amar
é agir com o coração, é ter “cor-agem”.
Para o samaritano, o grito por solidariedade é urgente. Seria
tarde demais e chegaria atrasado se ele tivesse dito para o excluído
semimorto: “Daqui a pouco eu te ajudo”; ou “espera
um pouco”; ou “quando eu voltar, eu te ajudo”; ou
“depois que eu me aposentar eu te ajudo”; ou “quando
eu ganhar na loteria eu te ajudo” ou, ou.... Mas não;
cedeu o seu próprio jumento para carregar a vítima,
desinstalando-se.
----------9) Pagou dois denários.
Conforme Mt 20,2, um denário era o suficiente para pagar um
dia de serviço. Mas “um denário por dia de serviço”
era o suficiente para alimentar a esposa e os filhos, comprar roupas,
manter as necessidades do lar, pagar impostos, taxas do templo etc?
----------10) Deixa o semimorto
guarnecido. Vai embora, mas deixa marcas de bondade e sai
positivamente registrado para o resto da vida.
----------11) Não deixou
nome nem endereço. Soube a hora exata de entrar e
de sair da sua vida do outro. Foi embora. Agindo assim, impossibilitou
que se criasse vínculo de dependência entre ele e o socorrido.
Ele foi solidário de modo gratuito e libertador.
Eis o testemunho de um Samaritano que entrou para a história
como um grande pai das voluntárias/os. Inspiremo-nos nele!
Frei Gilvander Moreira, email:
gilvander@igrejadocarmo.com.br
Igreja do Carmo – Belo Horizonte. Feliz Páscoa de 2008
para todas/os!