Semente de uma
terra nova
Marcelo
Barros
-----------A
ONU convida toda humanidade a celebrar o 22 de abril como o “dia
da terra”. Trata-se de ajudar as pessoas a tomar consciência
dos direitos da Terra, como solo fecundo da comunidade da vida, congregada
neste planeta. Para isso, é preciso que se transformem a própria
sociedade e as relações entre as pessoas. Ora, os desafios
são imensos. Nesta semana, os lavradores recordam o massacre
dos lavradores Sem Terra em Eldorado de Carajás (17/04/1996).
Ainda nestes dias, fazendeiros de Roraima, fortalecidos pelo Supremo
Tribunal Federal que ordenou a suspensão da retirada de brancos
da reserva indígena Raposa Terra do Sol, ameaçam ser
mais violentos com os índios do que já costumam ser.
A CNBB pede ao governo proteção para três bispos,
cuja vida está ameaçada, porque defendem os pobres e
a terra da Amazônia.
-----------O
professor José de Souza Martins escreve: “Em um estudo
sobre a ocupação das frentes de expansão brasileiras,
Darcy Ribeiro diz que o Brasil é representado, no contato com
o índio, pelo pior tipo de brasileiro que pode haver, violento
e desumano. As populações nativas e caboclas do Brasil
profundo não têm mais sorte do que os índios:
o Brasil das instituições a elas se apresenta para negar
as instituições; a lei se apresenta como escárnio
da lei; e não raro as autoridades agem como cúmplices
ou omissas em face de violações da lei e do direito
que negam o Estado e a própria civilização”
(O Estado de S. Paulo, 13/04/2008).
-----------Neste
final de semana, a Organização da ONU para a Agricultura
e Alimentação (FAO) encerrou em Brasília o seu
30º Congresso e reconheceu que se espalha pelo mundo uma nova
onda de carestia e falta de alimentos básicos. Nos primeiros
meses deste 2008, do Egito às Filipinas, os preços dos
gêneros básicos para a alimentação subiram
desproporcionalmente. A média do aumento dos preços
foi 40%, sendo que alguns alimentos chegaram a ser 126% mais caros
do que há apenas um ano (revista Internazionale, 17/04/2008).
Isso tem provocado manifestações populares nas ruas
das grandes cidades da Ásia e da África, com repressões
policiais e mortes em Abdijam, Cairo e outras cidades. Esta crise,
diz a FAO, é fruto de causas meteorológicas, como secas
em algumas regiões e inundações em outras, ambas
provocadas pelo aquecimento global. Entretanto, a causa maior é
uma especulação selvagem por parte das Transnacionais.
Até pouco tempo, na maior parte do mundo, pequenos lavradores
eram responsáveis por 70% ou mais da produção
agrícola dos países. Conforme a FAO, de um ano para
cá, no Brasil, 23 milhões de terras férteis,
antes usadas para a agricultura, foram desviadas para a monocultura
de soja para os porcos da Europa ou cana de açúcar para
produção de etanol para os automóveis norte-americanos.
Isso sem falar em 12 milhões de hectares que os patrões
reservam para a especulação imobiliária. A alimentação
depende, agora, de Transnacionais interessadas no lucro e não
na vida das populações. Existe alimento suficiente para
toda a humanidade, mas está estocado para a especulação
e o aumento do lucro das Transnacionais e, para elas, pouco importa
que morram, cada dia, de fome, milhares e milhares de crianças
inocentes e de adultos, vítimas deste sistema iníquo.
Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, lançou um apelo
para que se proclame internacionalmente um “new deal”
alimentar (o termo se refere ao acordo que o governo norte-americano
lançou na época da depressão para assistir às
vítimas da fome). Entretanto, este tipo de medida não
visa transformar o modelo econômico. Apenas o ajusta para evitar
o pior.
-----------Graças
a Deus, na contramão desta calamidade social, em vários
países da América Latina, organizações
indígenas estão reorganizando o Estado a partir da terra
e da pluralidade cultural. Vários países fizeram novas
constituições, nas quais são assegurados os direitos
de todos à plena cidadania e o cuidado com a Terra, como mandamento
obrigatório. Estas constituições se inspiram
na “Carta da Terra” que se encerra com estas palavras:
“Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama
a buscar um novo começo. (...) Isto requer uma mudança
na mente e no coração. Pede um novo sentido de interdependência
global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar
com imaginação a visão de um modo de vida sustentável.
Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e
diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas
formas de realizar esta visão. (...)
-----------Que
o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência
face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade,
a intensificação da luta pela justiça e pela
paz, e a alegre celebração da vida.