MANIFESTO “ONDE
ESTÃO NOSSAS CRIANÇAS?”
----------Só
em Belo Horizonte, nos últimos 8 anos, são 250 crianças
desaparecidas. Estima-se que anualmente, no Brasil, 4 mil crianças
desapareçam.
A ditadura militar desapareceu com 17 mil pessoas. Está em
ação outra ditadura que está desaparecendo um
número muito maior de pessoas.
----------Não espere desaparecer
alguém que você ama para que sua solidariedade apareça!

----------Dia
19/05/2008, na Igreja do Carmo, em Belo Horizonte/MG, aconteceu um
CULTO ECUMÊNICO EM HOMENAGEM A PEDRO AUGUSTO E A TANTAS CRIANÇAS
DESAPARECIDAS E ASSASSINADAS. Na ocasião foi lançamento
o
MANIFESTO “ONDE
ESTÃO NOSSAS CRIANÇAS?”
----------8
de agosto de 2006. Terça-feira. São aproximadamente
três e meia da tarde. O dia é fresco e faz sol. Pedro
Augusto Santos Prates Beltrão, um garoto de 11 anos,
sai de sua casa, localizada no Centro de Belo Horizonte, para ir à
papelaria comprar uma caixa de lápis de cor. Leva no bolso
cinco reais.
Pedro ainda veste o uniforme da escola, que cursa na parte da manhã,
e usa sandália de dedo. Como havia feito dezenas de vezes,
Pedro percorre o curto caminho de sua casa à papelaria, compra
o material que precisava, deixa a loja e nunca mais é visto.
Desaparece no meio da multidão.
----------Ninguém
viu. Ninguém sabe. Ninguém diz nada.
----------10 de maio de 2008.
Sábado. O céu da manhã é azul e ensolarado.
Os restos mortais de Pedro são sepultados no cemitério
Parque da Colina. Dias antes, o resultado da contra-prova do exame
de DNA requerida pela família de Pedro confirma o que todos
se recusavam em acreditar: a ossada encontrada em agosto de 2007,
na Mata dos Camargos, perto do bairro Califórnia, nos arredores
de Belo Horizonte, era realmente do menino Pedro Augusto.
----------Assim como
Pedro, várias crianças e adolescentes desapareceram
de suas famílias nos últimos anos e continuam desaparecendo.
A estatística comprova que muitos fogem de suas casas por causa
da violência doméstica, maus tratos e exploração
sexual. Este com certeza é um problema gravíssimo que
tem que ser mais intensamente assistido pela sociedade.
----------Mas o que
estamos falando aqui hoje é sobre meninos e meninas que estão
sendo arrancados da convivência familiar contra a sua vontade.
Que desapareceram sem qualquer testemunho quando estavam brincando
ou transitando perto de suas casas ou em local de costume.
----------Assim como
a família de Pedro, muitas famílias estão vivendo
esta dor e sofrimento. Algumas infelizmente enterraram suas crianças.
Outras não se têm a mínima notícia de seus
filhos e filhas.
----------Mas, quem
são essas crianças? Algumas que temos acompanhado:
----------Douglas Freitas Ferreira,
13 anos, desapareceu em março de 2006, nas proximidades da
Vila Olímpica, do Clube Atlético Mineiro, onde fazia
aulas de futebol. Tempos depois, a Polícia Civil encontrou
uma ossada na região de Venda Nova, que após exames
de DNA, foi identificada como sendo de Douglas. Os restos mortais
de Douglas foram sepultados em janeiro de 2008.
----------Daniel Almeida da Silva,
8 anos, desapareceu em 17 de junho de 2006, no caminho de sua casa,
no bairro São Geraldo, à casa de sua avó. O corpo
de Daniel foi encontrado dias depois jogado no Ribeirão Arrudas
e permaneceu guardado por quase um ano no IML de Belo Horizonte. Após
identificação, também através de exames
de DNA, Daniel foi enterrado no dia 11 de maio de 2007.
----------Sérgio Alves
Lopes, de 7 anos, desapareceu em 23 de dezembro de 2005,
quando catava latinhas com a avó no bairro Eldorado, em Contagem,
e nunca mais foi visto. Em agosto de 2007, foi encontrada uma ossada
perto do aterro sanitário de Contagem que foi confirmada como
sendo de Sérgio Lopes. O sepultamento se deu logo depois.
Todas crianças assassinadas!
----------E ainda são
muitas as crianças que continuam desaparecidas. Esses desaparecimentos
são casos de segurança pública, pois estão
relacionados a crimes hediondos como pedofilia, tráfico de
pessoas, trabalho escravo, exploração sexual, dentre
outros. Não dizem respeito só às famílias
que tiveram seus entes queridos arrancados de suas convivências
e impedidos de seguirem suas vidas como qualquer pessoa, na razão
natural da vida, tolhidas da realização de seus sonhos.
Os desaparecimentos dizem respeito à sociedade em que vivemos
e, por isso, temos que buscar formas de combatê-los. Não
podemos nos calar, não podemos nos aquietar.
----------Conforme dados
da Secretaria de Segurança Pública, somente
na cidade de Belo Horizonte, no mês de maio, constam cerca de
250 crianças e adolescentes desaparecidos. Se estendermos
este dado para a Região Metropolitana de Belo Horizonte ou
para todo o estado, os números são assustadores. E,
se ainda, somarmos com os desaparecimentos de adultos, teremos um
montante que chega à casa das centenas de pessoas desaparecidas.
----------É direito
de todos o ir e vir. É dever do estado promover a segurança
da população. É preciso que toda a sociedade
seja guardiã das crianças e adolescentes, principalmente,
para que tenhamos gerações que cresçam saudáveis,
com direito de escolhas e com maior espírito de cidadania.
----------Não
podemos mais tolerar que a cada mês novas famílias passem
a fazer parte dessa terrível estatística. Que a cada
mês, mais e mais crianças, adolescentes e adultos aumentem
a lista dos casos sem solução.
É urgente e premente a necessidade de ações realmente
efetivas e eficazes por parte do estado, do poder público e
de todas as instituições responsáveis pela segurança
pública e pelo combate aos crimes que estão por trás
de tantos desaparecimentos.
----------É hora de enxergarmos
o desaparecimento de crianças, adolescentes e adultos como
responsabilidade de toda a sociedade.
Belo Horizonte, 19 de maio de 2008.
Movimento Onde Estão Nossas Crianças?

Contatos:
Cléia Santos, Tel.: (31) 3214 0396, e-mail: cleiamcs@hotmail.com
Jane Costa, e-mail: janeccosta@uol.com.br
Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 19/05/2008