Pedro, Bispo.
Artigo de Dom Tomás Balduíno
----------Dom Tomás
Balduíno, bispo emérito de Goiás, publicou, em
espanhol, um artigo celebrando os 80 anos de vida de D. Pedro Casaldáliga.
O artigo foi traduzido para o italiano e publicado pela Agência
ADISTA, 14/04/2008. Eis o artigo.
----------É
curioso: tenho dificuldade de satisfazer a solicitação
de escrever sobre dom Pedro por ocasião de seu octogésimo
aniversário. Dou-me conta que estou retardando os trabalhos.
Uma das razões é, sem dúvida, a série
de viagens que fiz no segundo semestre de 2007 para acompanhar os
conflitos pela terra, que se intensificaram com o mega-projeto de
transposição das águas do rio São Francisco.
Mas, é também e, sobretudo, pelo fato que esta é
a primeira vez que me ponho a escrever sobre Pedro, o qual marcou
profundamente minha vida de bispo.
----------Pensei numa aproximação
à figura de Pedro ao modo de florzinhas, como na narração
da vida de Francisco de Assis. Em fim de contas, escrever sobre a
história de um poeta que ao mesmo tempo é bispo é,
de certa forma, a mesma coisa.
----------Conheci Pedro quando
já era bispo da prelazia de São Félix do Araguaia,
missão confiada pela Santa Sé aos claretianos. Foi numa
tensíssima Assembléia Geral da CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil), convocada para Brasília em
1970, em plena ditadura militar, que nos encontramos por primeira
vez. Impressionou-me sua vivacidade, fulminante, mas o que me impressionou
ainda mais foi que ele estava tão bem informado sobre o que
estava acontecendo na sociedade e na Igreja. Senti improvisamente
naquele homem a clara e radical identificação com a
caminhada – muito perigosa naquele tempo – que uma parte
da Igreja do Brasil e da América Latina estava agora iniciando.
Ali teve início nossa profunda amizade e nossa profunda comunhão.
Considero aquele momento como uma bênção de Deus
para mim. Naquela Assembléia foi lido integramente o conto
de frei Tito de Alencar sobre as terríveis torturas por ele
sofridas no cárcere Tiradentes. Já que a presidência
não permitia que se superassem os minutos concedidos a cada
intervenção, os bispos tiveram que se alternar para
a leitura integral do texto. Foi nossa melhor ocasião de análise.
Bispo por vontade
do povo
----------Aos
8 de agosto de 1971 fui a São Félix a pedido de Pedro
para ordenar sacerdote Manoel Luzón, seu companheiro desde
o início da missão no Araguaia. A um certo momento,
Pedro me chamou à sua sala de trabalho e me mostrou a carta
de resposta que recém escrevera ao Núncio, o qual lhe
havia comunicado sua eleição a bispo de São Félix.
Depois de ter lido a carta, eu lhe disse: “Não entendo,
Pedro. Até agora aceitaste ser juridicamente prelado desta
igreja. Quando o papa te propõe passar do jurídico ao
sacramental, dizes que não queres mais?” Percebi, a partir
de minha intervenção, uma mudança de atitude.
Convocou subitamente uma reunião com os sacerdotes, as irmãs,
os leigos, à minha presença e, malgrado fosse vinculado
pelo segredo pontifício, mostrou a todos o conteúdo
da carta da Santa Sé e colocou a questão se deveria
aceitar ou não tornar-se bispo de São Félix.
Encontro belíssimo, e único, de membros maduros e sábios
de uma igreja nova. Em cada um daqueles que tomavam a palavra se podia
perceber de maneira viva a liberdade, a seriedade e a sinceridade
de quantos empenhavam a própria vida na mesma perigosa aventura
missionária. No final foi aprovado que Pedro se tornasse bispo
de São Félix. Teria podido repetir com toda razão
as palavras dos apóstolos “Pareceu bem ao Espírito
Santo e a nós...” Por causa desta minha participação
ao seu percurso episcopal, Pedro me adotou como “padrinho”
e também como seu “bispo auxiliar”. De minha parte
me emocionei ao assistir, naquele dia, ao renascimento do antigo e
venerável modo popular e evangélico de escolher os grandes
bispos e pastores que marcaram a história da nossa Igreja.
----------Pedro foi sagrado
bispo em 1971, na mesma cidade de São Félix, circundado
pelo povo pobre de toda aquela região, a céu aberto,
na bela paisagem às margens do tranqüilo Araguaia, onde
o rio apresenta em torno de um quilômetro de largura. Era outubro
e ainda eram visíveis aquelas encantadoras praias de areia
dourada. O sagrador principal foi o grande patriarca do Centro-Oeste,
dom Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia, acompanhado
por outros dois sagradores: dom Juvenal Roriz e eu. Antônio
Carlos Moura, cerimoniário, teve a feliz idéia de levar
embora as nossas mitras. O novo bispo jamais teve mitra nem báculo
pastoral, nem anel de ouro ou de prata. Mas, recebeu todos estes elementos
inculturados nos símbolos indígenas e camponeses. A
mitra era um chapéu de palha, o báculo um remo tapirapé
e o anel era feito de tucum, tornando-se, em seu dedo e no de muitos
agentes de pastoral, um sinal do empenho pela caminhada da libertação.
----------Não faltou,
como de rigor, a carta pastoral, distribuída no mesmo dia,
com o título Uma igreja da Amazônia em conflito
com o latifúndio e a marginalização social.
Era a época da ditadura militar, sob a presidência do
terrível general Emílio Garrastazu Médici, época
de total censura, época de celas de tortura. O documento foi
para a sociedade e a Igreja como um relâmpago em céu
sereno. Mas, seu conteúdo profético fora muito bem pensado,
nas incríveis peripécias de sua realização,
e havia plena consciência sobre as duras conseqüências
que sua publicação haveria de produzir. A carta, do
início ao fim, trazia a marca de Pedro, mas recebera a válida
e competente colaboração da equipe que trabalhava com
ele desde o início de seu trabalho pastoral como prelado.
----------José de Souza
Martins, o grande sociólogo especialista em questões
agrárias brasileiras, professor da Universidade de São
Paulo, assim se expressou, em 1995, durante a comemoração
do vigésimo aniversário da Comissão pastoral
da Terra:
----------“Surge um dos mais
importantes documentos sociais da história contemporânea
do Brasil. Refiro-me à carta pastoral de Dom Pedro Casaldáliga
no início dos anos setenta, Uma Igreja da Amazônia em
conflito com o latifúndio e a marginalização
social. Pela primeira vez na história do Brasil se apresenta,
num documento público, com uma visão completa e total,
o lado perverso do funcionamento do capital. Este documento deixou
um sinal não só na história da Igreja, mas também
na história social e política do país. Não
foi por acaso que ele atraiu sobre a igreja de São Félix
do Araguaia toda a ira possível dos representantes desta extrema
e tremenda devastação” (in A
luta pela terra, Paulus, p. 76).
----------A
ira do poder não tardou a se abater sobre a pequena igreja
de São Félix. Mas, não foi imediatamente por
causa de deste documento bomba. Ocorreu com a ação do
Padre Francisco Jentel em favor dos camponeses de Santa Terezinha,
que ele defendia das agressões da empresa CODEARA, a qual se
declarava a única proprietária da região. Em
conseqüência do conflito entre a fazenda, apoiada pela
polícia militar, e os habitantes da região, teve início
a caça ao padre Jentel de parte da polícia. Para complicar
a situação, aterrissei com o avião teco-teco
em Santa Terezinha, junto ao mesmo Jentel e a Pedro. Não tardou
muito a chegar um policial para capturar padre Jentel. O encontro
teve lugar numa encruzilhada: à esquerda se ia ao centro de
pastoral, à direita ao cárcere. Pedro se interpôs
entre Jentel e aquele elemento bem nutrido da mal-afamada polícia
do Mato Grosso. Estupefato, vi então Pedro transfigurar-se
de um pequeno mosquito pungente em um verdadeiro gigante. Levantou
a voz, gritou, gesticulou energicamente e não cedeu sequer
um milímetro. O policial, vencido, foi embora dizendo que voltaria
com reforços. Entrementes vieram soldados armados de fuzis
mandados para vigiar meu avião teco-teco.
----------Viemos depois a saber
que os reforços teria vindo naquele mesmo dia, de helicóptero,
de Barra do Garças. Mas, tiveram que esperar até o dia
seguinte. Entrementes, de manhã, uma lancha a motor levou Jentel
para longe do cárcere de Santa Terezinha que ele conhecia nos
mínimos detalhes e do qual queria fugir a qualquer custo.
----------A partir daquele momento
iniciou a perseguição geral contra a Prelazia, sob a
forma de verdadeira operação de guerra, em 1973. Todos
os sacerdotes foram ao cárcere e todos foram espancados. Os
agentes de pastoral leigos foram conduzidos a um quartel de Campo
Grande e submetidos todos à tortura. O Pe. Jentel, julgado
e condenado a dez anos de prisão pelo seu apoio aos camponeses
de Santa Terezinha, foi também ele encarcerado em Campo Grande.
Pedro, por sua vez, foi mantido preso em sua casa. A certa altura
lhe ordenaram que tirasse os óculos, mas não tiveram
a coragem de espancá-lo. O maior desafio que enfrentamos foram
os diversos processos de expulsão feitos contra eles pelo exército.
Nossa defesa consistia na denúncia pública destas tentativas,
imediatamente difundida pelo jornal O Estado de São Paulo ,
então em guerra contra a censura oficial. A vantagem era que
tais tentativas tinham repercussão internacional, fazendo retroceder
o governo. A maior contribuição veio do próprio
papa Paulo VI que chegou a declarar: “Tocar em dom Pedro Casaldáliga
é como tocar a pessoa do papa”.
----------Em 1972 encontrei-me
com Pedro em Brasília, onde estava ocupado com o processo do
padre Jentel. Tomou-me por um braço e me conduziu a um encontro
convocado por dom Ivo Lorscheider, encontro no qual estava nascendo
o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). O relator da história
sessão foi dom Sigaud, arcebispo de Diamantina/MG. Saí
dali como um dos conselheiros deste instrumento pastoral que revolucionou
totalmente a missão indigenista no Brasil, passando a considerar
os povos indígenas não mais como um objeto de nossa
assistência e de nossa catequese, mas como sujeitos, autores
e destinatários da própria história.
----------Em 1974, por ocasião
da assembléia da CNBB em Itaici/SP, dom Pedro propôs
a um grupo de bispos um encontro sobre a Amazônia, prioridade
da política governamental. Já desde então Pedro
via a Amazônia como símbolo de uma realidade muito grande,
complexa e conflitiva, de caráter sócio-político-cultural-econômico
e religioso, de dimensão nacional e latino-americana. Hoje
ela conquistou ainda mais peso, atingindo uma dimensão planetária.
----------O fruto desta preocupação
e desta mobilização de Pedro foi a criação
da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Para nós que nos
consideramos co-fundadores, Pedro é o legítimo iniciador,
ou, melhor ainda, o pai da CPT, concebida a partir da compaixão
pelos sofrimentos dos camponeses de sua igreja local. É por
isto que ele a chama de “filha”, escrevendo-lhe uma carta
de amor pelo seu “jubileu de orvalho e de sangue”. Entre
outras coisas, lhe diz:
----------“Nasceste um pouco
amaldiçoada, / quase clandestinamente, / filha da paixão
pelos pobres da Terra, / filha do reino dos Céus que é
também o Reino da Terra. / Mal vista em casa, odiada fora...
/ (...) bendita CPT, / pastoral de fronteira, / evangelho de risco,
/ profecia nos campos e pá na mão e cântico nos
lábios / dos Novos Céus e da Nova Terra”.
As incompreensões
na Igreja
----------Como
se não bastasse a pressão geral contra ele e contra
os seus agentes de pastoral – além da expulsão
do padre Jentel, decidida pelo general presidente Ernesto Geisel,
de acordo com a Nunciatura Apostólica e a Embaixada Francesa
– um dos bispos da assembléia episcopal Regional do Centro
Oeste, dom Juvenal Roriz, iniciou uma campanha entre os bispos para
a expulsão de Pedro da nossa regional. Recebeu a notícia
da tremenda iniciativa somente no próprio dia da reunião
episcopal. Dom Fernando Gomes dos Santos, presidente da Comissão
Episcopal, propôs a votação sobre este caso no
início da sessão. Estava presente dom Ivo Lorscheider,
presidente da CNBB, em visita à regional. Dom Epaminondas,
bispo de Anápolis/GO, por pudor, passou uma nota a dom Roriz,
solicitando-lhe retirar a proposta da ordem do dia. Dom Juvenal Roriz
lha devolveu escrevendo sobre a mesma folha: “Pelo menos sete
são contra ele”. Éramos treze bispos. Sua proposta
foi rejeitada por onze votos contra e um a favor. Pedro foi expressamente
confirmado entre nós, graças, em parte, à presença
de dom Ivo.
----------Dom Sigaud, arcebispo
de Diamantina, acusou publicamente dom Pedro e a mim de sermos “comunistas”.
Isto, naturalmente, teve grande repercussão na imprensa. Era
a ocasião, servida em um prato de prata, para que a mídia
falasse de divisões no seio da Igreja. De nossa parte, tratando-se
de um bispo ligado à TFP (Tradição, Família
e Propriedade), movimento integralista da elite empresarial e latifundiária
de São Paulo, decidimos não responder à acusação.
Não obstante isso, o núncio apostólico, Sebastiano
Baggio, tomou como pretexto a denúncia e solicitou de Roma
uma visita apostólica às nossas duas igrejas, a de São
Félix do Araguaia e a de Goiás. O visitador foi dom
José Freire Falcão. Nem eu, nem Pedro, jamais viemos
a saber da conclusão destas visitas e se o motivo real da Santa
Sé para agir de modo agressivo contra as nossas igrejas fosse
na realidade uma questão de comunismo. Em conseqüência
de tudo isso decidimos enviar uma carta conjunta ao papa Paulo VI.
Confiamos o documento a Paulo Evaristo Arns, recomendando-lhe que
a consignasse diretamente ao papa. Confiou-nos sucessivamente que
a consignou a uma terceira pessoa. O resultado é que jamais
obtivemos resposta. Sinal de que o papa jamais recebeu esta carta,
ou que, talvez, jamais soubesse desta visita apostólica.
----------Pedro sempre preferia
o ônibus para as suas viagens, incluídas as mais longas.
Porém, certa ocasião teve que caminhar por horas a pé,
de noite, pela estrada dita “da fera”, entre Goiás
e São Miguel do Araguaia. Não foi por escolha. Viajava
em ônibus direto a São Miguel. Percebendo problemas intestinais,
disse algo ao motorista e desceu do ônibus. O motorista pensava
que fosse alguém do lugar e partiu. No mesmo ônibus viajava
padre Geraldo Rosania, vigiando pela segurança do bispo, mas
dormia profundamente. Ao amanhecer, Pedro, exausto, encontrou barracas
de bóias-frias e foi por eles acolhido. Eis agora a minha leitura
daquele contratempo: Pedro estava retornando de um encontro do regional
ao qual chegara com atraso porque havia levado seu apoio a um grupo
de camponeses ameaçados. Dom Miguel Mundo, bispo auxiliar de
Jataí/GO e secretário do regional Oeste dos bispos,
havia dirigido uma repreensão pública a Pedro porque
chegara com atraso. Pedro não se defendera. De minha parte,
não dera importância ao caso. Mas, posso garantir que
o episódio havia golpeado profundamente Pedro, que empreendera
a viagem de retorno sofrendo em nível físico as conseqüências
daquela agressão injusta e antievangélica.
----------Durante o pontificado
de João Paulo II, foi praticamente ordenado a Pedro que cumprisse
a visita ad limina. Em Roma, na Congregação
para a Doutrina da Fé, teve que justificar-se ante o cardeal
Ratzinger e outros sobre dois pontos: com respeito às suas
viagens anuais à América Central, quando percorria regiões
e dioceses suscitando mal-estar nos respectivos bispos, e com respeito
às suas críticas às visitas ad limina. Pedro
nos contou que jamais se sentira com tanta presença de espírito
como naquele dia. De início, percebendo que iriam diretamente
ao ponto, sugeriu de se começar com uma prece. Creio que esta
prática tenha sido ali introduzida desde então. Continuo
pensando no testemunho do nosso irmão ante aquele tribunal
que fôra o da Santa Inquisição. Creio que a missão
do bispo se tenha voltado, em primeiro lugar, aos pequenos e aos pobres
de sua igreja, mas não exclua a ação profética
ad intra, também às mais altas instâncias eclesiásticas,
inclusive ao papa. Deus seja louvado!
Bispos “vermelhos”
----------Mas,
não é tudo tão grave e repleto de tensão
na vida de um bispo. Por solicitação dos índios
Tapirapé, transportei mais de uma vez de avião araras
domesticadas pelos índios Rikbatsa do rio Juruena. Atravessava
todo o estado de Mato Grosso em direção Leste-Oeste.
Numa daquelas viagens dei uma passagem a Pedro, que se dirigia à
sua Prelazia. Uma volta grande, mas compensada pela beleza extremamente
variada do panorama. Pedro teve uma inspiração: uma
crônica daquela viagem agradabilíssima intitulada “Um
pequeno avião vermelho, carregado com doze araras vermelhas
e conduzido por dois bispos da mesma cor”. Escurecia e notei
no horizonte, na nossa direção, uma formação
de um temporal que bloqueava nossa trajetória. E de longe despontou
uma boa pista de uma grande fazenda. Aproximei-me e aterrissamos.
Veio o administrador, um conhecido de Pedro. “Sois afortunados
– disse -; o patrão está com sua família
no Rio, para o carnaval. A casa é toda para vocês”.
Assim, depois de nos termos alimentado, pudemos gozar do conforto
de um leito matrimonial para cada um.
----------Chegou para Pedro
o momento de renunciar ao cargo de bispo de São Félix.
Sua preocupação e a de muitos de nós dizia respeito
à continuidade da caminhada pastoral. Isto o angustiava, principalmente
por causa da demora da Nunciatura, prejudicando sua saúde,
cada vez mais frágil. Tanto mais que naquele período
ele estava empenhado na solidariedade com os índios Xavantes,
decididos a recuperar o próprio antigo território. Pedro
viu-se novamente circundado de atenção por causa da
explícita ameaça de morte contra ele.
----------O núncio apostólico
solicitou a um bispo que fosse à prelazia para pedir informações
a Pedro com respeito aos seus projetos de partida de São Félix.
A repercussão desta proposta foi em geral negativa. Um grupo
de bispos enviou uma carta à Nunciatura pedindo que prestasse
contas daquilo que teria podido existir por trás desta ação
e afirmando o direito do bispo emérito de escolher livremente
a própria residência, como é garantido pela lei
canônica. A assembléia da Prelazia reagiu. A imprensa
no Brasil e no exterior se encarregou de dar eco à questão.
----------Preocupava-nos a possibilidade
que a proposta relativa à partida de Pedro fosse a condição
posta por algum candidato à prelazia. Por isso, na chegada
de dom Leonardo vimos o sinal do amor do Pai por Pedro e por sua igreja.
Além disso, desde o primeiro telefonema que trocaram, Pedro
percebeu que a chegada de Leonardo seria uma bênção.
Em meu modo de ver, Pedro já estaria morto se tivesse prevalecido
o outro projeto. Leonardo quis habitar na mesma casa de Pedro, continuar
a mesma caminhada. Na cerimônia de posse de Leonardo, diante
de uma grande multidão, após a leitura das bulas, pensei
nas palavras de São Paulo à comunidade, na qual diz
que esta é a verdadeira carta de apresentação
e o sinal de sua legitimidade como apóstolo. Ali, naquele povoado,
estava derramando de modo absoluto o Espírito do Senhor e,
através deste Espírito, o povo reconhecia instintivamente
seu novo pastor.
----------Certo dia Pedro chegou
a me dizer que agora não era mais bispo. Do mesmo modo pelo
qual eu, em 1971, estive em desacordo com ele quando estava para renunciar
ao episcopado no momento de passar do jurídico ao sacramental,
assim também nesta ocasião discordei de sua eclesiologia,
a qual reduz este sacramento ao espaço e ao tempo da jurisdição.
Seja como for, agradeço ao Senhor por ter nos dado Pedro como
bispo. Ele era destinado a este ministério desde o ventre de
sua mãe. Viveu-o e vive-o hoje na radicalidade evangélica
e na simplicidade, na pobreza e na coerência, na doação
até o martírio e na mística, numa obstinada esperança
e numa vibrante poesia. Pensando nos bispos que o Deus de misericórdia
enviou ao nosso continente latino-americano nos tempos pentecostais
do Vaticano II e de Medellín, como Leônidas Proaño,
Oscar Romero, Manuel Larrain, Hélder Câmara, Luciano
Mendes, José Mauro (de Janaúba/MG) e outros, pode-se
afirmar que dom Pedro Casaldáliga se encontra na companhia
deles. Sua ação em nossos dias tem sido tão ampla
e profunda que muitas coisas na sociedade e na Igreja trazem o sinal
de sua presença. Por isso, podemos com toda razão colocá-lo
ao lado dos grandes bispos que assinalaram a história da nossa
Igreja.