O Paraguai sob
o signo da libertação
Leonardo Boff, Teólogo
-----------Não
se pode falar do Paraguai sem antes, humildemente, pedir desculpas
pelo etnocídio que as tropas da Tríplice Aliança
(Brasil, Argentina, Uruguai) perpetraram durante os cinco anos de
guerra. Ocorreu um brutal genocídio no qual mais de 90% dos
homens adultos foram mortos ou passados a fio de espada, entre eles
muitas crianças. É uma dívida ética que
ainda devemos reparar.(cf. livro A GUERRA DO PARAGUAI, de Eduadro
Galeano, 1968.)
-----------Mas
agora importa olhar para frente. Depois de 60 anos de domínio
do Partido Colorado, finalmente, irrompeu uma figura de alta qualidade
ética e política na pessoa de Fernando Lugo. Foi padre
da Congregação do Verbo Divino e bispo de San Pedro,
diocese com muitos pobres. Possui excelente currículo acadêmico,
formado em ciências da religião e em sociologia com especialização
em doutrina social da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma.
Foi professor de teologia e membro do seleto grupo de assessores do
Conselho Episcopal Latino-americano.
-----------O
que marcou sua vida foram os cinco anos que trabalhou no Equador com
comunidades indígenas sob a inspiração do bispo
de Riobamba, Leônidas Proaño, famoso por sua postoral
indigenista de cunho claramente libertador, pois se propunha gestar
uma Igreja de rosto indígena em sua forma de rezar, de pensar
e de viver a fé.
-----------De
regresso ao Paraguai e feito bispo, inseriu-se profundamente nos meios
pobres e na cultura guarani (fala fluentemente guarani). Esta prática
pastoral lhe fez entender o acerto das intuições e do
método da Teologia da Libertação, que havia aprendido
com o bispo Proaño: partir do universo dos pobres, dar-lhes
vez e voz, fazer corpo com suas causas, participar de suas agruras
e alegrias corroborando para que se tornem sujeitos de sua libertação,
construtores de um outro tipo de sociedade e de outro modelo de Igreja,
fundado em redes de Comunidades Eclesiais de Base - CEBs.
-----------Inserido
nos meios populares, sentiu na pele a urgência de mudanças
políticas de seu país. Não havendo lideranças
significativas que pudessem romper a “ditadura” do Partido
Colorado e de combater a corrupção instalada em todas
as instâncias do poder, entendeu que ele poderia prestar esse
serviço a seu povo. “Liturgia” no sentido antigo
da Igreja, mais que um conjunto de ritos e celebrações,
era entendida como serviço ao povo no sentido do bem comum.
Pois essa “liturgia” foi assumida pelo bispo Lugo. Coordenou
a formação da “Aliança Patriótica
para a Mudança”, apoiada pelo Partido Liberal Radical
Autêntico e por um leque de partidos menores que o levaram à
presidência do país.
-----------Inicialmente
o Vaticano se opôs à sua decisão, chegando até
a suspende-lo “a divinis” (proibição de
exercer o ministério). Mas uma vez eleito, triunfou a sensatez
e acolheu seu pedido de voltar ao estado leigo. É infeliz a
expressão canônica “redução ao estado
leigo”, pelo simples fato de que este estado é o de Jesus,
como o diz a epístola aos Hebreus, pois notoriamente Jesus
não é da tribo de Levi, dos sacerdotes, mas de Davi
que é de leigos, reis e poetas. Portanto, foi promovido ao
estado de leigo, ao de Jesus. Quer exercer o poder dando centralidade
aos pobres e ao povo guarani. Deixou claro que não quer fazer
da política seu destino de vida, mas apenas uma passagem de
serviço.
-----------É
um homem que sabe escutar e acolher o que vem de baixo, fruto da experiência
de muitas gerações. É uma honra para a Igreja
e para a própria Teologia da Libertação oferecer
um quadro desta densidade política e ética para servir
a um povo que tanto sofreu historicamente e que merece um destino
melhor, integrado nas novas democracias do Continente.