Mês da
Bíblia 2008: 1ª Carta aos Coríntios
Frei Gilvander Moreira (1)
----------As
cartas do apóstolo Paulo são os mais antigos escritos
cristãos existentes. Paulo permanece um autor maltratado, mal
amado e mal conhecido entre os cristãos.
----------Legalista,
misógino, anti-social, conservador... Essas acusações,
normalmente, são feitas por pessoas que o conhecem muito mais
por meio de lembranças de catecismo e de leituras litúrgicas,
ouvidas distraidamente, do que por uma consulta freqüente a seus
escritos.
----------Há
uma evolução no pensamento de Paulo. De cartas simples,
Paulo, vai, passo a passo, desenvolvendo seu jeito de escrever até
se revelar como um grande escritor. O mundo Paulino possui um centro
que permanece imutável: a ressurreição de Jesus.
“Se Cristo não ressuscitou, vazia é o nosso
anúncio e vazia também é a vossa fé”
(1Cor 15,14).
----------O
pensamento de Paulo é dinâmico e, ao mesmo tempo, contextual.
----------Por
volta de meados do século XX, as convicções de
que Atos dos Apóstolos constituíam a biografia mais
segura da vida, ação e ensinamento de Paulo ruíram-se.
----------Criaram
o Princípio de Knox que podemos resumir nos seguintes termos:
os Atos podem ser utilizados para completar os dados das cartas, jamais
para corrigi-los.
----------Corinto,
a terceira cidade do império romano depois de Roma e Alexandria
tinha cerca de 500 mil habitantes. Paulo, “o apóstolo
dos gentios”, chegou a Corinto no início da primavera
de 50 d.C. durante sua segunda viagem missionária.
----------Paulo
escreveu o maior número de cartas para a/s comunidade/s cristã/s
de Corinto. O Segundo Testamento contém só duas cartas
endereçadas à comunidade cristã de Corinto (1
e 2 Coríntios), mas estas mencionam outras duas, a primeira
pré-canônica (1Cor 5,9 (2),
carta perdida) e a Carta Dolorosa (ou “Severa”; 2Cor 2,4,
carta perdida).
----------Paulo
tinha à disposição várias fontes de informações
sobre a Comunidade dos coríntios: os familiares de Cloé
(1Cor 1,11), a carta enviada pelos coríntios (1Cor 7,1) e a
delegação composta de Estéfanas, Fortunato e
Acaico (1Cor 16,17).
----------Segundo
Atos dos Apóstolos, Priscila e Áquila foram anfitriões
de Paulo em Corinto (cf. At 18,2-3). Eram cristãos ex-escravos
de origem judaica, que haviam fugido da Itália em 41 d.C. Como
exilados político-religiosos, Priscila e Áquila, ao
acolher o apóstolo Paulo, estavam também correndo o
risco de reiniciar as perseguições já sentidas,
na própria pele, lá em Roma.
----------À
medida que a ação missionária de Paulo se irradiava,
especialmente, entre os “tementes a Deus” (3),
aumentava a ira dos judeus em relação a Paulo, o que
tornava cada vez mais difícil anunciar o evangelho nas sinagogas.
----------Um
conflito experimentado na comunidade de Corinto: os libertos, ex-escravos,
mesmo tendo conquistado ascensão econômica se sentiam,
em parte, discriminados, pelos livres, os cidadãos gregos.
Logo, quando Paulo alerta para as discriminações que
aconteciam na comunidade não está se referindo apenas
a opressão econômica, mas a uma gama de diferenças
culturais, históricas, religiosas, étnicas, patriarcais
e antropológicas, que eram motivos de incompreensões
e discriminações.
----------O
Evangelho anunciado por Paulo se tornou atraente para essas pessoas
que sentiam algum tipo de discriminação. Jesus Cristo
personificava o paradoxo em que viviam. O cristianismo entendia a
ambigüidade das pessoas discriminadas em Corinto e, ao mesmo
tempo, apresentava-lhes um projeto de sociedade comprometida em reconhecê-las
como pessoas, todas igualmente valiosas e dignas. Havia na comunidade
cristã uma utopia que bradava “todos têm a mesma
dignidade”, ninguém pode ser discriminado.
----------“Não
há entre vós nem muitos sábios aos olhos dos
homens, nem muitos poderosos, nem muita gente de família distinta”,
pondera Paulo à comunidade cristã de Corinto. (Cf. 1Cor
1,26). Para compreender bem as divisões que são reprovadas
por Paulo na comunidade de Corinto, discriminações trazidas
à tona no momento da celebração da Ceia Eucarística
(1Cor 11,17-34), não podemos nos apegar só às
diferenças formais entre escravos, libertos, poderosos, sábios
e influentes, pois os escravos domésticos eram bem melhor tratados
que os escravos da zona rural, que eram cruelmente torturados por
seus senhores. Os libertos, mesmo tendo conquistado ascensão
econômica, traziam consigo mesmos as marcas da história
pessoal de escravidão.
----------Conhecemos
16 membros da comunidade cristã de Corinto pelo nome. Dois
deles (Priscila e Áquila) são marido e mulher. Duas
mulheres (Priscila e Febe). Seis são explicitamente de origem
judaica (Áquila, Crispo, Priscila, Sóstenes, Jasão
e Sosípatro). Dois são, com certeza, de origem pagã
(Erasto, Justo). Pela maioria dos problemas tratados na 1ª Carta
aos Coríntios percebemos que são oriundos da cultura
gentílico-pagã. Enfim, o grupo predominante na/s comunidade/s
cristã/s de Corinto era formado de pagãos de diversos
graus do meio da escala social.
----------Lá
havia diversas tendências de evangelização. Segundo
At 18,24-28, o missionário Apolo veio de Éfeso para
Corinto pouco depois da partida de Paulo para Jerusalém no
fim do verão de 51 d.C. Ao dizer “eu plantei, Apolo
regou” (1Cor 3,6), Paulo confirma, de modo explícito,
que Apolo exerceu em Corinto uma ação missionária
posterior à dele. Apolo falava com espírito cheio de
fervor (At 18,25), era versado nas Escrituras (At 18,24) e tinha o
dom da linguagem edificante (cf. 1Cor 1-4).
----------Além
dos grupos pró Paulo e pró Apolo, havia também
um terceiro grupo que proclamava adesão a Cefas (1Cor 1,12).
Eram judeus convertidos que achavam difícil integrar-se em
uma comunidade de predominância pagã.
----------“Eu
sou de Paulo...” Essa fórmula, provavelmente, sugere
que os que se entendem pertencentes a facções dentro
da comunidade agem de forma infantilizada (cf. 1Cor 3,1-4) ou como
escravos (1Cor 7,23). Talvez os ricos e mais bem educados eram partidários
de Apolo e os de classe baixa preferiam o apóstolo Paulo.
----------As
idéias filosóficas de Fílon faziam uma distinção
entre homem celeste e homem terreno, o que gerava duas formas de encarar
o corpo. Para os espiritualistas presentes na comunidade “o
corpo é mau por natureza e traiçoeiro para a alma”,
visto que “o homem terreno era amante do corpo”. Se o
corpo é “um conspirador contra a alma, um cadáver
é sempre uma coisa morta”. Essa concepção
levava os espirituais a negarem a ressurreição de Cristo
(1Cor 15,12), pedra de toque do anúncio de Paulo.
----------A
importância que alguns coríntios atribuíam à
glossolalia (1Cor 12-14) inclui-se nesse padrão, quando reconhecemos
que, para Fílon, a posse do espírito profético
expressava-se em êxtase, loucura e frenesi inspirado, pois “a
mente é desapossada à chegada do espírito divino”.
Paulo contesta fortemente a prática de orar em línguas.
Aqui também o grupo dos espiritualistas é criticado.
----------No
tocante aos dons, Paulo recorda que em primeiro lugar estão
os apóstolos, entendido como enviado de Deus, missionários.
Em segundo lugar estão os profetas, aqueles/as que ouvem os
sussurros e cochichos de Deus nas entranhas da História. Em
terceiro lugar, os mestres, os que ensinam a verdade que liberta.
Paulo alerta: "Desejem os dons do Espírito, principalmente
a profecia, pois quem profetiza fala às pessoas, é entendido,
edifica, exorta e consola a comunidade. Aquele que profetiza é
maior do que aquele que fala em línguas. Quem fala em línguas
edifica somente a si mesmo, fala só a Deus” (cf.
1Cor 14,1-6).
----------“Ora,
vós sois o corpo de Cristo, e sois os meus membros”,
alertava Paulo aos cristãos de Corinto. (cf. 1Cor 12,27). Paulo,
ao chamar a comunidade de corpo de Cristo, identifica-a como a presença
de Cristo no mundo. Cristo ressuscitou, prova disto é a existência
da comunidade cristã.
----------Paulo
achava perfeitamente natural que as mulheres fossem ministras da Igreja
em igualdade de condições com os homens. O texto de
1Cor 11,11-12 é a primeira e única defesa explícita
da completa igualdade das mulheres no Segundo Testamento. Diz assim:
“Portanto, diante do Senhor, a mulher é inseparável
do homem, e o homem da mulher. Pois, se a mulher foi tirada do homem,
o homem nasce da mulher, e tudo vem de Deus”.
----------A
força e a clareza desse discernimento significam que a diretriz
para as mulheres se calarem na igreja (1Cor 14,34-35) não foi
escrita por Paulo. Foi acrescentada mais tardiamente para harmonizá-la
com a passagem não-paulina de 1Tm 2,11-14.
----------A
Ceia do Senhor, descrita em 1 Coríntios 11,17-34, era realizada
em casas particulares. Não existia “a comunidade”
de Corinto, mas havia “as comunidades” de Corinto, pois
havia muitas: uma que se reunia na casa de fulano, outra que se reunia
na casa de beltrano e assim por diante. No total, provavelmente, uma
dezena de lugares diferentes.
----------Reunir
algumas dezenas de pessoas na própria casa significava não
poder juntá-las todas no mesmo cômodo. As casas dos ilustres
eram construídas à moda romana. As acomodações
davam para um pátio central, parcialmente coberto, o atrium,
do qual, uma parte do espaço era ocupada por um recipiente
destinado a colher as águas das chuvas.
----------Os
costumes sociais e culturais dos coríntios não desapareceram
do dia para a noite pelo fato de se terem convertido ao cristianismo.
O proprietário da casa continuava a receber seus amigos cristãos
na sala de jantar, ao passo que os demais, menos afortunados, se amontoavam
no atrium.
----------Belo
Horizonte, 01 de setembro de 2008.
----------Frei
Gilvander Luís Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
(1) Este texto é
um resumo do artigo de nossa autoria “COMUNGAR É TORNAR-SE
UM PERIGO: eucaristia à luz dos bastidores da 1a coríntios”,
publicado no livro Desafio da cidade grande aos Cristãos –
A Primeira Carta aos Coríntios lida por cristãos do
século XXI, Rogério Ignácio de Almeida Cunha
(org.), CEBI, São Leopoldo, 2008, pp. 53-74.
(2) “Eu vos escrevi em minha carta que não
tivésseis relações com impudicos”.
(3) A expressão "temente a Deus"
se refere a um gentio que simpatiza com a religião judaica,
mas que não aceita a circuncisão e a conseqüente
obrigação da Lei.