A igreja do Carmo,
em Belo Horizonte
(Texto publicado no livro CARMO, de Alberto Villas
– BH. A cidade de cada um, 13, ed. Conceito, Belo Horizonte,
2008, pp. 38-41; 55-58.)
----------Senta,
que lá vem história! Corria o ano de 1939.
----------Em
Barcelona, na Espanha, as tropas vitoriosas do general Francisco Franco
eram recebidas com flores por uma multidão de moradores da
cidade. Na Universidade de Roma o cientista Enrico Fermi anunciava
que o físico alemão Otto Hahn havia conseguido a desintegração
do átomo, obtendo, com isso, a libera¬ção
de uma quantidade gigantesca de energia, coisa do porte de 200 milhões
de volts.
----------Enquanto
Adolf Hitler entrava triunfalmente em Praga, apenas oito horas depois
que os primeiros soldados alemães marcharam sobre a capital
da ex-República da Checoslováquia, nos Estados Unidos
estreava o filme No Tempo das Diligências, de John
Ford, um clássico do faroeste estrelado por John Wayne. Enquanto
Pablo Picasso terminava uma de suas obras-primas - Noite de Pescaria
em Antibes -, em Roma morria aos 81 anos o fundador da psicanálise,
Sigmund Freud. No mesmo ano, o Vaticano anunciava o falecimento do
papa Pio XI, o Papa da Paz.
----------Foi
nesse ano de 1939 que chegou a Belo Horizonte, atendendo a um convite
do arcebispo D. António dos Santos Cabral, o frei Canísio
Mulderman, provincial dos Carmelitas. Ele veio a Belo Horizonte para
decidir sobre a fundação de uma nova paróquia
sob a orientação da Ordem Carmelita.
----------Frei
Canísio correu vários bairros da capital mineira e acabou
decidindo-se pelo bairro do Mendonça. O bairro do Mendonça
era um pedaço de terra habitado por gente muito humilde, gente
muito sofrida, à beira da pobreza absoluta. Mendonça
foi o primeiro nome do que viria mais tarde a se chamar bairro do
Carmo.
----------No
ano seguinte à visita de frei Canísio, mais precisamente
no domingo, 16 de julho, D. António dos Santos Cabral expediu
o decreto de número 37 criando a Paróquia Nossa Senhora
do Carmo. Frei Atanásio Maatman, o primeiro vigário,
e seu coadjutor frei Estevão Peters, foram recebidos com festa
pelo povo do lugar. A missão dos dois parecia quase impossível:
erguer ali, naquele fim de mundo, uma igreja em homenagem à
Virgem do Carmo.
----------Um
ano depois, no dia 4 de maio de 1941, um sino repicou convocando todo
o bairro do Mendonça para celebrar, com missa e tudo o mais,
a inauguração da nova igrejinha e da casa paroquial.
Foi naquela casinha simples caiada de branco e apenas uma porta principal
e duas janelas na fachada que aquela gente esquecida do Mendonça
começou a andar com fé, a se congregar através
de associações religiosas e das atividades paroquiais.
----------A
idéia de lutar em busca de uma vida melhor para o povo do bairro
foi crescendo e a necessidade de mais e mais sacerdotes era uma realidade.
Em 1943, frei Plequelmo Sauders chegou para dar uma força.
Em 1944 foi a vez de frei Inocêncio Gerritsjans e em 1945, frei
Benigmo Dissel.
----------Com
a igrejinha em homenagem à Virgem do Carmo caminhando
a todo vapor, nada mais natural que o bairro também prosperasse.
E nada mais natural também que passasse a se chamar bairro
do Carmo. O sonho estava apenas começando e foi no dia 15 de
julho de 1946 que, festivamente, foi lançada a pedra fundamental
para a construção de uma nova, grande e bela igreja.
----------Com
a chegada de frei Atanásio e frei Estevão, o sonho começou
a ser passado para o papel, a virar realidade. Os primeiros esboços
foram desenhados e foi criado um serviço ambulatorial para
ajudar as pessoas carentes do bairro. Foi o recém-inaugurado
Lactário Nossa Senhora do Carmo que passou a garantir o leite
das crianças pobres e desnutridas. Mais tarde, esse lactário
foi englobado pela Assistência Social D. Querubina Martins Vianna.
----------O
encarregado de tocar a obra da nova igreja ficou a cargo de frei Inocêncio.
Sua primeira providência foi procurar o amigo e arquiteto Ildeu
de Oliveira Aguiar que aperfeiçoou aqueles primeiros esboços,
dando forma oficial ao que seria a nova e bela Igreja Nossa Senhora
do Carmo.
----------Levantar
recursos para começar a erguer paredes não era fácil.
Surgiu então a idéia de criar no local um pequeno cinema,
o Cine Carmo, que funcionava precariamente num salão com chão
de terra batida, sempre muito quente. A coisa mais comum era ver a
fita embolar no projetor e o filme ser interrompido. Mas o dinheirinho
que pingava de cada sessão era sagrado. Depois do cinema vieram
as rifas, as barraquinhas, as coletas, as campanhas para conseguir
recursos para tocar a obra.
----------Frei
Inocêncio adorava contar piadas e tocar pia¬no. Saía
de casa em casa com a sua simpatia para conseguir um recurso aqui,
outro ali, arrecadando um dinheirinho a mais com o propósito
de realizar o seu grande sonho. E foi assim que as obras começaram.
Daqui a pouco continuamos a contar a história da Igreja do
Carmo, que acabou virando o xodó, o coração e
a alma do bairro.
A obra-prima
----------Senta,
que lá vem mais história sobre a Igreja do Carmo. O
ano era 1963. A União Soviética, empenhada em ganhar
a corrida espacial, colocava em órbita a primeira mulher astronauta,
a subtenente Valentina Tereshkova, que deu exatas 48 voltas na Terra.
Nos cinemas de Belo Horizonte estreava Vidas Secas, de Nelson
Pereira dos Santos, baseado na obra-prima de Graciliano Ramos. A França
chorava a morte de Edith Piaf e Jean Cocteau, enquanto o Vaticano
anunciava que o mundo ganhava um novo papa, Paulo VI. Foi nesse ano
de 1963 que foi inaugurada a nova Igreja do Carmo, uma suntuosa construção
feita com o maior capricho.
----------Projetada
inicialmente para ter sua frente virada para a rua Grão Mogol,
o projeto foi invertido assim que confirmaram a transformação
da BR-3 em avenida Nossa Senhora do Carmo. Com sua frente voltada
agora para a grande avenida, a Igreja do Carmo foi inaugurada no dia
15 de agosto com a presença de D. João Resende Costa,
arcebispo de Belo Horizonte. Foi uma festa que encheu de orgulho todos
os moradores do bairro. O Carmo parou para abrir as portas daquela
igreja majestosa, irreparável.
----------Frei
Tito Frankort, o vigário da época, trouxe da Holanda
o tabernáculo e os grandes castiçais. Tudo foi muito
bem pensado. A imagem de Nossa Senhora do Carmo - que fica bem acima
dos arcos do altar - foi encomendada a um artista português
radicado no Rio de Janeiro. Um carrilhão com 37 sinos e o relógio
da torre foram encomendados ao senhor Van Bergen, na Holanda.
----------Os
vitrais, que até hoje são um espetáculo de beleza,
cor e luminosidade, foram encomendados, na década de 1950,
à Casa Conrado de São Paulo. São compostos por
43 painéis de diferentes formas e tama¬nhos que foram desenhados
pelo artista Ornar Guedes, sempre sob a orientação de
Frei Benigmo Dissel. O sonho dos moradores do Carmo estava realizado.
----------As
missas de domingo anunciadas pelo badalar dos sinos eram sagradas.
Lá era possível encontrar todos os moradores do bairro.
Doutor Rui Amorim, o encarregado de recolher o dinheiro dos fiéis
que inicialmente era colocado numa sacola de veludo vermelho. Algum
tempo depois, eram pequenas bandejas de vime que iam passando de mão
em mão. As crianças ficavam a missa inteira acompanhando
o vôo das andorinhas, que iam de um canto ao outro à
procura de um lugar para fazer seus ninhos.
----------Com
o golpe militar de 31 de março de 1964, os sermões começaram
a ficar inflamados. Em plena ditadura, um grupo de jovens sacerdotes
carmelitas assumiu a Paróquia e iniciou um trabalho ligado
diretamente ao contexto econômico, cultural e social da comunidade.
Frei Mateus, frei Cornélio, frei Tomás, frei Cláudio,
frei Carlos, frei Otávio e frei Renato criaram as comunidades
de base que promoviam vários cursos de aprofundamento cultural
e religioso para leigos.
----------Com
a chegada do Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968,
os padres engajados nas lutas sociais foram perseguidos. Mas os militares
não conseguiram calar a voz dos freis que a cada domingo davam
o seu recado, exigindo liberdades democráticas, muitas vezes
nas entrelinhas para evitar o pior.
----------No
dia 7 de fevereiro de 1967, frei Cláudio Van Balen assumiu
a paróquia quando já tinha conquistado a simpatia de
todos os moradores do Carmo. Frei Cláudio nasceu na Holanda
em 1933 e está radicado no Brasil desde 1950. Em 1990 tornou-se
Cidadão Honorário de Belo Horizonte e, em 1997, Personalidade
do Ano. E não é para menos.
----------Religioso
carmelita desde 1954, frei Cláudio estudou Letras Clássicas
na PUC de São Paulo, onde se formou em 1958. Em 1964 terminou
sua pós-graduação em Teologia Dogmática,
em Roma.
----------Escritor
de mais de trinta livros, frei Cláudio, além de professor
de Filosofia, Teologia e Espiritualidade, é uma espécie
de anjo da guarda do bairro do Carmo. Desde 1967, ele mantém
um centro de serviços humanitários junto às favelas
Papagaio e Acaba Mundo, onde presta trabalho voluntário, com
irmãos de ordem religiosa, para mais de mil paroquianos.
----------Seus
sermões coloquiais sempre mexeram diretamente com a alma e
o coração de cada morador. Ir a uma missa na Igreja
Nossa Senhora do Carmo sempre foi um prazer, e nunca uma obrigação.
As palavras de frei Cláudio são sempre comentadas nas
saídas das missas, quando os fiéis caminham devagarzinho
até encontrar a saída.
----------"Ninguém
pode comprar ou diretamente construir a paz. O que podemos é
construir relações de fraternidade, na base da justiça,
do direito, da distribuição fraterna e justa dos bens."
Palavras de frei Cláudio.