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Frei Gilvander: um olhar mais fiel às Cartas de Paulo

(Entrevista no Jornal Horizonte Acadêmico, Informativo da Faculdade Católica de Pouso Alegre, MG, Julho a setembro de 2008 – Ano III, n. 20, p. 3.)

----------De 25 a 27 de agosto de 2008, foi realizada a Jornada Teológica de 2008 da Faculdade Católica de Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais. O tema do evento foi: “A missão de Paulo ontem e hoje”. Entre os convidados, estava Frei Gilvander Luís Moreira que no dia 26 refletiu sobre o tema: “O apóstolo Paulo a partir da 1a Carta aos Coríntios – desafios da evangelização nas grandes cidades”. O Jornal HORIZONTE ACADÊMICO entrevistou Frei Gilvander sobre a importância do estudo das Cartas de Paulo e da celebração do Ano Paulino. Acompanhe:

----------HA - Qual a importância de se celebrar o Ano Paulino?
----------Frei Gilvander: “Resgatar o apóstolo Paulo com seu testemunho e ensinamento pode exigenar muito a nossa vida cristã. Paulo nos inspira muito. Paulo, ao lado de muitas mulheres e dos Helenistas, como Estevão, Filipe, Barnabé e ... inculturou o evangelho no meio urbano, onde a idolatria grassava. Rompeu muitas barreiras. Foi um grande profeta, apaixonou-se por Jesus de Nazaré e pelo seu projeto de libertação integral de todos.” Celebrar o Ano Paulo é tempo para ouvirmos muitos alertas de Paulo, tal como: "Desejem os dons do Espírito, principalmente a profecia, pois quem profetiza fala às pessoas, é entendido, edifica, exorta e consola a comunidade. Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas. Quem fala em línguas edifica somente a si mesmo, fala só a Deus” (cf. 1Cor 14,1-6).”

----------HA - Como os escritos de São Paulo iluminam as realidades pastorais, hoje?
----------Frei Gilvander: “Se lidos a partir do seu contexto histórico, os escritos paulinos inspiram-nos a testemunhar inculturação nas grandes selvas de pedra que são as grandes cidades. Inspiram-nos a resgatar a força da profecia que consola os aflitos, mas incomoda os acomodados. Inspiram-nos na construção de comunidades que sejam espaço de acolhida de todos a partir dos excluídos. Inspiram-nos para superar os fundamentalismos e os (neo)paganismos atuais. Inspiram-nos a inserir no mundo dos pobres. Paulo observou que o Concílio de Jerusalém (At 15,1-35) tinha aceitado a reivindicação das igrejas da periferia: abolir a circuncisão. Recordou que a igreja-mãe tinha feito um único pedido: “Não esqueçam os pobres” (Gal 2,10).”

----------HA - Que você aponta como importante para uma leitura libertadora das cartas paulinas?
----------Frei Gilvander: “Observe o seguinte: As cartas do apóstolo Paulo são os mais antigos escritos cristãos existentes. Paulo permanece um autor maltratado, mal amado e mal conhecido entre os cristãos. Muitos o consideram “legalista, misógino, anti-social, conservador...”. Essas acusações, normalmente, são feitas por pessoas que o conhecem muito mais por meio de lembranças de catecismo e de leituras litúrgicas, ouvidas distraidamente, do que por uma consulta freqüente a seus escritos. Há uma evolução no pensamento de Paulo. De cartas simples, Paulo, vai, passo a passo, desenvolvendo seu jeito de escrever até se revelar como um grande escritor. O mundo Paulino possui um centro que permanece imutável: a ressurreição de Jesus. “Se Cristo não ressuscitou, vazio é o nosso anúncio e vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,14). O pensamento de Paulo é dinâmico e, ao mesmo tempo, contextual. Por volta de meados do séc. XX, as convicções de que Atos dos Apóstolos constituíam a biografia mais segura da vida, ação e ensinamento de Paulo ruíram-se. Os Biblistas criaram o Princípio de Knox que podemos resumir nos seguintes termos: os Atos dos Apóstolos podem ser utilizados para completar os dados das cartas, jamais para corrigi-los. Havia na/s comunidade/s cristãs de Corinto uma utopia que bradava “todos têm a mesma dignidade”, ninguém pode ser discriminado.”

----------HA - Que olhares os/as estudantes de Teologia devem ter em relação aos textos paulinos?
----------Frei Gilvander: a) Olhar a partir das mulheres. Paulo achava perfeitamente natural que as mulheres fossem ministras da Igreja em igualdade de condições com os homens. 1Cor 11,11-12 é a primeira e única defesa explícita da completa igualdade das mulheres no 2º Testamento. Diz assim: “Portanto, diante do Senhor, a mulher é inseparável do homem, e o homem da mulher. Pois, se a mulher foi tirada do homem, o homem nasce da mulher, e tudo vem de Deus”.
----------b) Olhar a partir dos escravizados. Ao ler os textos paulinos, leve no coração a dor e a luta dos 30 mil trabalhadores cortadores de cana, que estão em situação análoga à de escravidão. Olhe a partir dos escravizados pela idolatria do mercado.
----------c) Olhe a partir das pessoas ecumênicas. d) Olhe a partir dos/as profetas e profetisas, como Irmã Dorothy, Dom Cappio, dom Tomás Balduino ... e) Olhe a partir da Teologia da Libertação quer busca construir uma igreja que seja carisma e não poder. f) Olhe a partir do pequeno, do excluído. Olhe a partir dos povos indígenas. Enfim, olhe a partir da periferia. Assim, os textos paulinos serão faróis acesos na luta pela construção de uma sociedade sustentável, expressão do reino de Deus no nosso meio.