Um novo olhar
sobre a cura
Ana
Elizabeth Diniz Especial para O TEMPO

---------Trazer
a espiritualidade para dentro da universidade. Essa foi a proposta
de um grupo de estudantes da Faculdade de Medicina da UFMG, liderados
por Andrei Moreira de Souza, Fabrício Henrique Alves de Oliveira
e Oliveira e Jorge Luiz Barbosa Júnior, que culminou em 2006,
na criação da disciplina optativa saúde e espiritualidade,
referendada por abaixo-assinado de 714 alunos e apoio de mais de 40
professores. A matéria tem carga horária de 30 horas
aula, é oferecida uma vez por semestre e pontua dois créditos
curriculares. O próximo passo é transformá-la
em matéria obrigatória. E é claro que "temas
novos e provocativos sempre despertam reações muito
variadas e dentre elas, preconceito e deboche. A medicina hoje é
altamente tecnológica e o médico está perdendo
cada vez mais a capacidade de diálogo com o paciente. Não
há uma forma palpável de se pensar sobre o sagrado,
o divino, o espírito criador, Deus. A afirmativa é sempre
de que o que não é palpável não é
científico. Assim, somente as pessoas que acreditam que exista
algo mais que a pura matéria, além do corpo que não
é eterno, podem construir essa nova visão da medicina",
explica Mauro Ivan Salgado, cirurgião dentista e médico
com mestrado e doutorado em medicina pela Universidade Federal de
Minas Gerais e coordenador dessa disciplina optativa.
---------Essa
trajetória precursora dentro do ambiente acadêmico gerou
uma semente: o livro "Saúde e Espiritualidade - Uma Nova
Visão da Medicina", organizado por Mauro Ivan e Gilson
Freire, médico com especialização em homeopatia
pela Escuela Médica Homeopática Argentina e professor
da Associação Médica Homeopática. O livro
traz artigos de vários profissionais da área da saúde
sobre o tema e do teólogo e frei Cláudio Van Balen,
da igreja do Carmo (confira agenda). "Evidentemente que se
trata de uma parcela de médicos contemporâneos. A maioria
ainda vê com reservas esses arroubos espiritualistas que já
varrem as paisagens conceituais da medicina moderna. Nos nossos dias,
a física quântica vem demonstrando a existência
de uma realidade subjacente e imponderável, sustentando o mundo
subatômico. Ora, se esse domínio existe, certamente está
presente nos seres vivos, os quais nada mais são que conjuntos
bem ordenados de átomos. Assim, compreender essa imponderabilidade
como o mesmo domínio espiritual já apregoado pelas religiões
do passado e concebido pelas antigas filosofias, torna-se evidente
para todo pesquisador sincero", pontua Freire. O livro pretende
levar para os meios acadêmicos, emenda o médico, "evidências
seguras de que um campo espiritual está presente na vida e
deve ser considerado determinístico no adoecimento humano e
na manutenção da saúde, devendo orientar o desenvolvimento
de novos recursos terapêuticos que estarão presentes
na medicina do futuro.
---------Ele
abre caminhos para que a espiritualidade seja motivo de pesquisas
e integre o saber cientifico moderno". Mas será que a
medicina já evoluiu a ponto de encontrar no cérebro
alguma área que possa explicar a existência de Deus?
"Acreditamos que Deus seja a maior realidade do universo e da
vida, presente em toda manifestação fenomênica
existente, inclusive o nosso campo espiritual e nossas manifestações
corpóreas. Como um impulso ordenador, Ele sustenta toda a ínsita
sabedoria presente no intrigado arranjo orgânico que nos sustenta
e que nos permite manifestar na realidade exterior, o que inclui o
cosmo neuronal, evidentemente. Entretanto, acredito, Deus é
uma realidade 'não-local', utilizando-nos da linguagem da física
quântica. Fora do 'continuum' espaço-tempo, Ele é
onipresente e, portanto, não pode ser precisado segundo os
nossos meios de localização", discorre Ivan. Os
médicos autores defendem a idéia de uma nova medicina
"pronta a considerar o homem uma entidade produzida e animada
não pela aleatoriedade de suas biomoléculas, mas sim
por um domínio abstrato, o qual se pode muito bem denominar
de espírito.
---------Essa
nova visão médica irá conter a excessiva intervenção
química e artificial que hoje parece atingir o seu extremo,
para buscar soluções mais amenas e naturais afeitas
à organicidade própria da vida. Priorizará como
essencial o homem integral, buscando em sua intimidade consciencial
as razões últimas para o seu adoecimento. Assim, será
uma medicina que privilegia o doente e seu mundo emocional, muito
mais que a sua doença, efeito último de seus distúrbios.
Enfim, será uma prática médica que considerará
os avanços da especialização, mas aprenderá
a ver e tratar o homem como uma perfeita unidade. Essa será
a verdadeira medicina da alma, e não apenas a do corpo, como
hoje tem sido praticada".
---------Agenda
o que: Lançamento do livro "Saúde e Espiritualidade
-- Uma Nova Visão da Medicina", 480 págs, R$ 40
ONDE: Associação Comercial de Minas Gerais (av. Afonso
Pena, 372, centro) Quando: 14 de novembro, das 19h30 às 20h30
Informações: 3278- 2621 Proposta -
A Organização Mundial de Saúde apregoa uma assistência
à saúde mais humanizada onde incluiu a espiritualidade
no conceito fundamental de saúde. Esse ato rompeu as barreiras
educacionais no mundo inteiro e abriu uma janela de esperança
para a verdadeira integração entre saúde e espiritualidade.
---------Evidência
Dois terços das universidades dos Estados Unidos já
têm cursos normais ou optativos sobre saúde e espiritualidade,
daí a importância de se analisar a medicina além
do corpo.
---------Conceito
Não podemos reduzir a vida às leis físicas ou
restringi-la ao quimismo celular, do mesmo modo que não conseguimos
explicá-la sem buscarmos a sua integração ao
espírito.
Depoimento
– Frei Cláudio van Balen. A dimensão simbólica
é essencial
---------
A conexão entre corpo e espírito se faz mediação
de doença e saúde. Pelo corpo temos acesso ao espírito,
pelo espírito influenciamos a saúde do corpo. Relação
médico-paciente requer a magia do encontro. É regra
que a doença aconteça, passando do corpo para o espírito
e vice-versa. Sem espiritualidade, a medicina se limita à "mágica
taumatúrgica". O efeito-placebo confirma que medicina
é mais do que simples intervenção técnica.
Doença e cura são processos corporais em um contexto
de relações mais amplas. O paciente, em seu modo de
ser, é fator básico na eficiência da intervenção
médica. Na medicina, a atuação da dimensão
simbólica é indispensável.
---------E
a dimensão espiritual na relação "médico/pacientes"
se faz benefício para o corpo. Inocular confiança aciona
e harmoniza energias do corpo e da mente. Toda doença é
uma desordem, uma fragmentação na complexidade das relações.
No enfermo, distúrbios em um setor podem ter consequências
em outro setor. Instrumentos e ações médicas
estejam a serviço da dimensão espiritual da cura. A
espiritualidade liberta o médico da couraça mecanicista.
Bons cuidados com o corpo sinalizam a eficiência do espírito
no trabalho da cura.
Psicólogo clínico, teólogo
e vigário da igreja do Carmo O teólogo Cláudio
Van Balen
E-mail: fclaudio@igrejadocarmo.com.br
Publicado em: O Tempo 04/11/2008