NATAL:
milagre da partilha
Frei Gilvander Moreira
----------A
fome, fruto de injustiças, era problema sério
na vida dos primeiros cristãos. Os quatro evangelhos
relatam Jesus “multiplicando” pães para saciar
a fome do povo (cf. Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; 8,1-10; Lc 9,10-17
e Jo 6,1-13). Mateus relata que o povo faminto “vem das
cidades”. As cidades, ao invés de serem espaço
para o exercício de partilha e de cidadania, produzem
exclusão e violência.
----------“Jesus
atravessa para a outra margem do mar da Galiléia”
(Jo 6,1), entra no mundo dos gentios, dos pagãos, dos
impuros; isto é, dos excluídos. Ele não
se limita à convivência com os incluídos,
mas estabelece comunicação efetiva e afetiva entre
os dois mundos, o dos incluídos e o dos excluídos.
Tabus e preconceitos sejam superados.
Profundamente comovido, porque “os pobres estão
como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), os que exercem
os poderes político-religioso e econômico-cultural
não o fazem como libertadores, mas colocam fardos pesados
nas costas do povo. Com olhar penetrante, Jesus constata a grande
multidão de pessoas com os corpos esmagados pela bomba
ruidosa da fome e de outras formas de injustiça.
----------O
Galileu não sente medo dos pobres, convive e caminha
com eles, procurando superar a fome que os humilha. Aparecem
dois projetos para resgatar a cidadania desse povo faminto.
O primeiro é apresentado por Filipe: “Onde
vamos comprar pão para alimentar tanta gente?”
(Jo 6,5). Ou seja, devolve o problema. No mesmo tom, outros
discípulos tentam lavar as mãos: “Despede
a multidão para que vá aos povoados comprar alimento
para si.” (Mt 14,15). Filipe representa quem está
dentro do mercado e pensa a partir do mercado. Avalia o mercado
como um deus capaz de salvar as pessoas. Basta comprar para
consumir. Jesus, porém, chama os discípulos à
responsabilidade social: “Ajudai, vós mesmos,
para que tenham algo de comer” (Mc 6,37). Amor autêntico
é fazer o povo capaz de perceber que somos os agentes
da solução dos problemas.
----------O
segundo projeto é proposto por André que, mesmo
sentindo as próprias limitações, revela:
“Há um menino com cinco pães e dois
peixinhos” (Jo 6,9). É como se Jesus despertasse
em seus discípulos e discípulas uma responsabilidade
social: “Vocês mesmos dispõem de meios
para que o povo se alimente” (Mt 14,16). Jesus
quer “mãos à obra”. Nada de desculpas
e racionalizações a tranqüilizarem a consciência.
Com ânimo, abraça o projeto de André (=
homem vigoroso, em grego), mobiliza o povo a “sentar na
grama” (Jo 6,10).
----------Aqui,
há duas características fundamentais do processo
protagonizado por Jesus a fim de levar o povo da exclusão
à cidadania. Jesus convida o povo para sentar-se, com
a ajuda das lideranças. Por quê? Na sociedade escravocrata
do império romano, somente pessoas livres, cidadãs,
podiam comer sentadas. Os escravos deviam comer de pé,
pois não podiam perder tempo de trabalho. Era só
engolir e retomar o serviço árduo. Um terço
da população era escrava e outro terço,
semi-escrava. Logo, quando Jesus inspira o povo para sentar-se,
ele está, em outros termos, defendendo que os escravos
têm direitos e merecem ser tratados como cidadãos.
----------Por
que sentar na grama? A referência à “grama”
indica que o povo está no campo, na zona rural. Também
a partir de gestos solidários e de uma reorganização
da vida no campo, poderá advir um estímulo em
vista da solução política para a fome e
a violência que afligem o povo. Não é justo
aceitar, passivamente, as três medidas que o poder midiático
impinge também ao povo brasileiro: violência, diversão
e paternalismo. Cidadania e segurança alimentar exigem
que o povo se organize e, em clima de partilha horizontal, cuide
do território. Território sem participação
popular é negação de soberania.
----------Jesus
sugere aos discípulos que organizem o povo. “Sentem-se,
em grupos de convivência, de dez, de cem, de cinqüenta
...” (Mc 6,40). Assim, Jesus e os primeiros cristãos
nos inspiram que a resolução dos problemas da
fome, de tantas injustiças e da violência social
passam necessariamente pelo empenho do povo organizado. Sem
organização nada feito. Jesus provoca a solidariedade,
conclamando para a organização dos marginalizados
como meio para se chegar à cidadania de todos e para
todos.
----------Os
últimos acontecimentos na economia globalizada, nas tragédias
climáticas que são resultado da irresponsabilidade
capitalista, o retrocesso acelerado dos direitos sociais, a
ameaça de fome em todo o mundo, fazem-nos crer que só
haverá Natal se assumirmos essa responsabilidade cristã
de participar do milagre da multiplicação dos
pães. Que mais um Natal se --
-------faça
aprendizagem!