Vi
e ouvi na Palestina
Frei
Gilvander Moreira
----------Após
concluir o mestrado em Exegese Bíblica, no Pontifício
Instituto Bíblico de Roma, na Itália, seis colegas
e eu fizemos uma viagem-estágio, de 05 a 20 de março
de 2000, à Terra Santa (todas as terras são santas,
mas ...) de Israel-Palestina. Partilho aqui algumas impressões,
“coisas” que vi e/ou escutei lá em Israel-Palestina
e que me marcaram muito. De saída, digo que a matança
que Israel está perpetrando contra povo palestino me
deixa profundamente indignado.
----------O
centro-sul de Israel-Palestina é quase só um deserto,
uma desolação imensa. Ao constatar esse perfil
geográfico, imediatamente me veio a consideração:
“Mas esta é a terra que Deus prometeu aos nossos
pais?!!! Terra em que corre leite e mel?!!! Por que e para que
brigar tanto pelo controle desta terra?” Mas ao chegar
às planícies da Galileia, no norte da Palestina,
vi que ali a terra é muito fértil. Na Galileia
se produz de tudo - é um paraíso terrestre, um
grande celeiro agrícola. A Palestina tem sido disputada,
há mais de 4 mil anos, em vista de ser uma região
estratégica para a geopolítica do Oriente Médio
- geograficamente é ponto de ligação entre
três continentes: Europa, Ásia e África.
----------A
Jerusalém Antiga é hoje um grande mercado religioso
e ... Se Jesus "torrou a paciência" e, com o
sangue fervendo de indignação, "chutou o
pau da barraca" lá na frente do Templo e arrematou:
"Vocês estão fazendo da casa do
meu Pai um covil de ladrões!” (cf.
Lc 19,45; Mc 11,17), imaginem agora que toda a Jerusalém
(e o mundo) é um grande mercado, onde em nome do deus
capital se jogam bombas em cima de crianças, mulheres,
idosos e doentes. As ruas da Jerusalém antiga são
muito estreitas. Automóveis circulam somente em algumas
ruas. Na maioria das vielas só podem passar uns pequenos
tratores para transportar mercadorias. Os judeus, após
1948, construíram ao lado da Velha Jerusalém,
uma Jerusalém Nova, uma cidade de primeiríssimo
mundo, muito luxuosa.
----------Em
Israel, o serviço militar é obrigatório:
três anos para os rapazes e dois anos para as moças.
Israel tem um poderosíssimo exército. Por exemplo,
em Hebrom, onde a quase totalidade da população
é palestina, em março de 2000, ainda viviam dois
mil judeus. Estavam lá 500 soldados para dar “segurança”
a esses judeus: um soldado para cada quatro judeus. Vi diversas
pessoas judias andando em Jerusalém (e no caminho para
Jericó) com um ou dois soldados com metralhadora nas
mãos fazendo sua escolta. Cada família hebraica
que vive em território palestinense tem direito à
escolta de dois soldados judeus com metralhadora nas mãos,
24 horas por dia. Em Hebrom pudemos sentir a grande tensão
que existe entre palestinos e israelenses.
----------No
estado de Israel há barreiras e mais barreiras do exército
e carros armados por toda parte. Tivemos que passar no detector
de metais diversas vezes, sobretudo quando tentamos entrar na
mesquita de Omar, no muro das lamentações e no
túmulo dos patriarcas em Hebrom. Um dos meus colegas
não pôde entrar com um binóculo para ver
melhor à distância. Por ser parecido com palestino,
fui vistoriado diversas vezes por soldados do exército
de Israel.
----------No
norte da Palestina, acima do lago da Galileia, nas Colinas de
Golã (território que Israel tomou à força
da Síria), divisa com Líbano e Síria, vimos
de perto como o exército israelense está armado
até os dentes. Vimos três acampamentos do exército,
cada um com mais de 30 tanques de guerra e caminhões
lotados de armas.
----------Nas
Colinas de Golã, ao lado do asfalto, há cercas
de arame dos dois lados com placas penduradas de 15 em 15 metros
dizendo: “Atenção, perigo! Terreno
minado!” Nas Colinas de Golã estão
fontes de águas de Israel-Palestina e as terras são
muito férteis. É no Golã que estavam as
“vacas de Basã” (cf. Am 4,1-4), pois lá
era (e continua sendo) um grande celeiro agrícola. A
degradação ambiental está secando fontes
de águas do Rio Jordão e consequentemente o lago
da Galileia. O “Mar” Morto está baixando
muito suas águas. Logo, como sem água não
se pode viver, pois é imprescindível para a agricultura,
para os animais e principalmente para os seres humanos, o controle
das fontes das águas tornou-se questão de Segurança
Nacional para Israel.
----------Israel
controla militarmente a quase totalidade das águas da
região. Quando diminuem as águas, os palestinos
e jordanianos são os primeiros a passarem sede, pois
Israel fecha a “torneira” para eles (Algo equivalente
também se faz no Brasil: água vira mercadoria,
onde grandes empresas consomem um exagero de água para
produzir mercadorias e deixam os pobres na beira do rio São
Francisco sem água, favelas sem água, enquanto
condomínios fechados esbanjam água.). A água
não está sendo distribuída equitativamente
para todos. Israel permite acesso à água somente
para o abastecimento urbano nas cidades palestinas. Mais da
metade da agricultura de Israel é irrigada, mas os palestinos
são proibidos de irrigar suas lavouras, algo semelhante
à transposição do Velho Chico para beneficiar
hidronegócio de grandes empresas, enquanto o povo do
semi-árido continua sem água.
----------A
presença marcante das práticas religiosas está
por toda parte. Na Jerusalém Antiga, às 4 horas
da manhã, os muçulmanos começam a rezar
na grande Mesquita de Omar, construída no lugar do Templo
judeu. No alto da Mesquita, os alto-falantes (em todas as mesquitas
deles os alto-falantes estão presentes) fazem ecoar para
toda a Jerusalém antiga a oração dos muçulmanos.
Cinco vezes por dia pode-se escutá-los rezando. A apenas
poucos metros, no muro das lamentações, ao lado
do ex-templo, os judeus mais conservadores rezam “inclinando
a cabeça rumo ao muro”.
----------Vimos
na Samaria, região central da Palestina, perto do monte
Garizim, um grupo de crianças palestinas apedrejando
o automóvel de um israelense, que apontou um revólver
para as mesmas crianças. Dá para imaginar o ódio
que existe de parte a parte. Praticamente todas as famílias
palestinas já tiveram algum parente assassinado pelo
exército de Israel.
----------Em
1.998, chegaram a Israel cerca de 63 mil judeus, vindos principalmente
da ex-União Soviética, país que tinha acolhida
uma grande multidão de judeus. Mas enquanto os judeus
importam judeus da diáspora de todo o mundo, com o patrocínio
econômico dos judeus dos EUA, os palestinos se multiplicam
somente pelo processo reprodutivo natural. A Jerusalém
antiga está cheia de muçulmanas, quase todas com
uma criança nos braços, outra no ventre e 3, 4,
5 ou 6 ao redor da saia. Entre os muçulmanos existe a
poligamia. Todavia, na prática, é coisa de ricos,
porque cada mulher tem que ter uma casa, conforme determina
a lei.
----------Dizem
que corre entre os palestinos a seguinte afirmação:
“Nós venceremos os judeus na cama, não
com armas”. O povo palestino é empobrecido,
assim como o povo negro brasileiro. São muito simpáticos
e acolhedores. Existem diversos campos de refugiados palestinos.
Uma mulher cristã de Belém desabafou conosco:
“Os peregrinos-turistas vêm aqui preocupados
em ver pedras mortas (ruínas antigas), mas não
se lembram das pedras vivas que somos nós cristãos,
minorias na terra de Jesus, e que estamos no meio de um fogo
cruzado entre judeus e palestinos”.
----------Uma
das características de Israel-Palestina: as cidades e/ou
bairros dos judeus são ricos, com grande segurança
militar, cerca de arame farpado, enquanto as cidades e/ou bairros
palestinos são pobres e com pouquíssima segurança
militar. Os poucos soldados palestinos que vimos estavam muito
mal armados.
----------No
dia 22 de março de 2000, o Papa João Paulo II
celebrou uma missa em Belém, na Palestina. Foi uma missa
bonita. Os palestinos gostaram. O Papa disse: "O mundo
não pode mais ignorar o sofrimento do povo palestino!"
O Papa exortou judeus e palestinos a encontrarem um caminho
de paz, justiça e convivência respeitosa.
----------Em
quase todas as cidades da Israel-Palestina existe uma cidade
nova ao lado das ruínas de uma cidade antiga. Na parte
nova de Jerusalém, cidade de Primeiro Mundo, onde está
a sede do Parlamento de Israel e a sede do Governo, os judeus
construíram um grande museu chamado Yad Vashem, como
memorial do Holocausto da Segunda Grande Guerra. Lá plantaram
18 mil árvores com o nome de 18 mil pessoas que salvaram
judeus dos campos de concentração nazistas. Lá
estão também, dentro de uma grande sala, três
velas acesas que, com ajuda de espelhos refletores, se multiplicam
em 1.500.000 velas-estrelas. Ao entrar nesta sala se tem a impressão
de estar no meio de uma noite escura com o céu estrelado.
Cada “estrela” recorda uma das 1.500.000 crianças
judias assassinadas nos campos de concentração
de Hitler. Impressionante é escutar uma voz que vai dizendo
o nome de todas as crianças judias vítimas do
nazismo e ao sair da sala encontrarmos diversas fotografias
das crianças martirizadas. É muito comovente,
mas imediatamente uma voz dentro de mim me dizia, quando ali
estive: “O mais dramático e grave é que
o holocausto não é somente uma questão
do passado, pois 2/3 da humanidade continua sendo assassinada
antes do tempo pelo mundo afora”. Pior, Israel, após
a Segunda Grande Guerra, já matou mais palestinos do
que o número de judeus vítimas do nazismo!
----------O
que acontece agora em Israel-Palestina não é uma
guerra, pois esta implica a existência de dois exércitos
se confrontando. O que há agora lá é um
poderosíssimo exército de Israel armado com armas
de última geração, massacrando o povo palestino.
De um lado mais de 1000 palestinos mortos (centenas de crianças
e mulheres), de outro apenas 15 baixas entre os soldados judeus!
Esses números revelam a crueldade do Governo de Israel,
financiado pelos Estados Unidos e pelos imperialistas do mundo
inteiro.
É Claro que não podemos condenar todo e qualquer
judeu como responsável pela matança de palestinos,
algo que ocorre há dezenas de anos. O Governo e a classe
dominante de Israel são os maiores responsáveis.
Urge construirmos um mundo de justiça e paz. Judeus e
palestinos, pessoas de bem de todas as partes do mundo, todos
nós, estamos convocados a ouvir o clamor dos oprimidos
e recriar o mundo com instituições éticas
e com relações humanas ecumênicas e inclusivas.
----------Faço
minha a ponderação de Maurício Abdalla:
“Por mais que o Governo de Israel e todos que o apóiam
traiam a tradição hebraica dos grandes profetas
que clamaram pela justiça e a paz, ainda quero manter
viva a esperança que eles anunciaram. Mesmo que joguem
sua memória na lata de lixo, faço dos profetas
do antigo Israel os meus profetas, pois o anúncio da
justiça não distingue credos, nações
ou etnias. Continuarei defendendo a idéia de que todos,
sem distinção, somos iguais e temos os mesmos
direitos, judeus, negros, árabes, índios, asiáticos,
etc. Manter-me-ei firme em minhas convicções,
pois jamais quero me igualar aos governantes de Israel e àqueles
que o apóiam.”
Frei Gilvander Moreira
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
Belo Horizonte, 18/01/2009