MASMORRAS
Por Haroldo Vinagre Brasil
Engenheiro e prof. universitário
E-mail haroldovbe@gmail.com
----------O
mote da Campanha da fraternidade de 2009: a paz é fruto
da justiça, me faz lembrar uma brincadeira que eu fazia
com meus seis filhos, para mostrar a importância de ter
espaço para os seres humanos, em quaisquer circunstâncias
da vida.
----------Eu
desenhava com gis um quadrado de 2 metros por 2 metros, no chão
do quintal lá de casa e os colocava lá dentro,
o que significava que cada um tinha pouco mais de meio metro
quadrado no qual se ajustar. Depois eu falava que aquele quadrado
era um iceberg a deriva em um mar cheio de tubarões famintos.
Em seguida eu cortava, riscando com gis, 20 centímetros
nas duas dimensões do quadrado, como se o iceberg estivesse
derretendo. Eles tinham assim que se espremer uns contra os
outros para caber no espaço restante sem cair no mar.
Em seguida eu ia cortando mais 20 centímetros, obrigando
alguns a subirem nos ombros dos outros, se enganchando no pescoço,
fazendo assim o espaço render o dobro. Mas, na medida
em que o iceberg derretia, os mais fortes terminavam empurrando
os mais fracos para fora, que certamente seriam comidos pelos
tubarões. Tudo acabava em choro.
----------Esta
alegoria retrata as prisões brasileiras, que colocam
180 presos em um espaço onde só cabem 40. Verdadeiras
masmorras ou calabouços, nelas a sociedade transforma
seres humanos em animais ferozes, sob nosso olhar indiferente.
Como ter paz sob este tipo de justiça? Ainda mais que
o próprio presidente do Supremo reconhece que as penas
desses presos se alongam além do previsto nas sentenças,
sem que nada se faça para coibir esse absurdo. Além
disso, se fizermos um levantamento, verificaremos que a população
carcerária que mora nessas prisões é de
jovens e pobres, ficando os de colarinho branco, geralmente
portadores de titulação universitária,
em verdadeiros hotéis estrelados ou prisão domiciliar.
----------Em
um vídeo recentemente divulgado na internet, o presidente
do PCC, Marcola, alardeia que possui um exército de 140
mil homens (metade do exército brasileiro), formado nessas
masmorras e que, dentro de regras estritas, “estão
com ele e não abrem”. Na realidade fazer justiça
no Brasil atualmente é alimentar a “universidade”
do Marcola.
----------Cristo
falou que “o que fizerdes de mal a esses desgraçados,
vocês estarão maltratando é a mim”.
Nada mais claro. Sob um silêncio imoto, as nossas elites
passam ao largo dessas questões. E´ o Brasil oficial
desconhecendo o Brasil real das favelas, dos quilombos, dos
doentes sem assistência, dos sem casa e dos sem terra,
dos sem letras, dos Palmares e dos Canudos. Dos presos nem se
fala.
----------Para
não ficar só na denúncia, quais os sinais
de esperança? Há hoje uma consciência de
que ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém.
A preocupação com o meio ambiente é um
exemplo dessa mundialização dos problemas, postura
que vai contaminando outras questões, pois nada acontece
de forma isolada. Resolver ou, pelo menos amenizar a injustiça
é uma ação ecumênica que envolve
todos nós, quaisquer que sejam nossas ideologias.