POSICIONAMENTO
Gravidez sob violência e de risco extremo.
Aborto. Avaliação.
(março / 2009)
----------O
CASO: a gravidez de gêmeos por parte de uma menina de
nove anos, após ser estuprada, durante três anos,
pelo padrasto. Com autorização jurídica,
médicos provocaram o aborto. E mereceram o “muito
obrigada” da menina. O povo aplaudiu a intervenção.
Autoridades eclesiásticas divergiram. (Matar pode: guerra,
legítima defesa, evitar um mal maior. Abortar nunca pode!
Como se, nesse caso, não pudesse haver uma legítima
defesa.) Tudo indica que a menina ia sofrer grave ameaça
de saúde física e psíquica e, muito provavelmente,
nem ela nem os gêmeos iriam sobreviver. Para os doutores
da lei, o palco estava armado. Gostam de amarrar, proibir, tirar
a graça, fechar caminhos e matar esperança, alegria,
fé. Meu Deus!
----------Autoridades
eclesiásticas – Recife, Roma, Brasília –
se manifestaram contra a intervenção médica.
Para os eclesiásticos: Excesso de zelo pastoral? Intromissão
indevida? Dependência servil? Equívocos no discernimento?
Defesa real da vida? Honradez em compromissos? Pergunta: nesse
caso alguém, de fora, tem condição de definir,
categoricamente, o que é o melhor para terceiros? Em
questões controvertidas, membros do clero têm direito
de cultivar idéias fixas e impô-las a terceiros?
Não conviria, antes, ouvir as pessoas envolvidas no episódio
– no respeito à complexidade do fato – para,
só depois, emitir uma opinião? Se, em princípio,
somos todos contra o aborto, há casos... E mãe
nenhuma nem médico vão querer o aborto por simples
prazer. Algum desnaturado pode haver, até em fileiras
eclesiásticas.
----------Tive
acesso a uma carta em que um padre erudito se refere a crianças,
fruto de estupro, alvo de carinho especial para as mães.
Tudo bem, casos são casos. Quem ousa saber o que convém
aos outros, mesmo sendo crianças aparentemente usadas
como ‘objetos’ para compensação de
suas mães - “servindo elas de doce remédio”.
Refiro-me ao seu escrito: Por que as mães teriam de tremer
de vergonha ou de culpa ao se lembrarem do passado quando pensaram
em abortar? Teriam de ser pessoas de outro mundo? Ser-lhes-ia
vedado terem sentimentos comuns? Mais. Um padre ou doutor poderia
arrogar-se o direito de falar em nome delas? E isso com segurança
catedrática? Afinal, basta saber das “coisas”,
das leis? Não seria melhor enfronhar-se, modestamente,
no mistério das “relações”
humanas, sofridas e ameaçadoras? Por que enquadrar as
mães, genérica e globalmente na mesma bitola?
“Não julgueis...”
----------Dizer,
detrás da cátedra, que o aborto é algo
monstruoso... Claro, em princípio somos contra. Mas temo
que se acentue a dramaticidade pelo fato de afirmar –
gratuitamente – que há ‘vida humana’
desde a concepção. Durante dezenove séculos,
nunca se o soube no âmbito da Igreja. Além disso,
convém lembrar que a própria natureza, não
raro, provoca aborto. E, parece, o faz com sabedoria. Afirmar:
“Aborto como alívio para estupro”. Seria
simplesmente uma falsidade. Algum reverendo é que o sabe?
Pretende saber. E um padre pode permitir-se a expressão
dramática ao aludir a restos mortais de bebês,
que criminosos extraem do ventre das mães para jogá-los
no lixo. Um padre, um bispo não deveriam ter grande sensibilidade
frente à dramaticidade do sofrimento humano? Ou será
que não devem nada a ninguém? Só imposições
e proibições apodícticas? Compaixão,
nem pensar. E isto porque sabem das “coisas”. Frente
a “relações” continuam analfabetos?
Quem sabe, seu estilo de vida empobrece ou até castra
sua sensibilidade humana. Os outros, então, é
que não passam de “algozes”. E eis Pilatos
a lavar as mãos.
----------Por
que afirmar com fria certeza: “A menina não estava
prestes a morrer nem o aborto se apresentava como a "solução".
Por acaso, o padre ou o bispo são também ‘médicos’?
De novo, o doutor sabe tudo. Morte seria somente algo físico.
Será que, para eles, tudo e todos não passam de
‘coisas’? Chegou às minhas mãos a
carta de um padre que se reconhece “escravo de Jesus”.
Daí é só um passo para se deixar manipular
por doutrinas, autoridades, instituições. Friamente
livresco e dogmático, ele se mostra incapaz de discernir
as circunstâncias. Tudo e todos não passam de coisa.
Basta um livro – o Direito Canônico – para
sua orientação. Que todos somos, de alguma forma,
assassinos e suicidas – por nosso jeito defeituoso de
lidar com vida e pessoas – isso nem passa por sua cabeça.
O drama não o atinge, a não ser como transgressão
da lei. Nem um conselho precisa dar. Basta só uma ordem,
uma condenação.
----------Na
carta que li, o padre afirma que não há furto
‘legal’ e muito menos aborto ‘legal’.
Porém, nem coisa é só ‘coisa’.
Acontece que a lei não pode prever todas as situações
em que um cidadão está dispensado de observá-la;
e, portanto, ao fazer o oposto, procede ‘legalmente’.
Em tempo de guerra, na carência, eu mesmo já roubei
“legalmente” algo para matar a fome. Porém,
o bom fiscal não se pode permitir tal luxo. Afinal, ele
é escravo que tem de esclarecer todo indício de
fraude. Lei é lei. Pecado é só pecado.
Como ‘coisa’, o que está fora da norma é
lixo. Com seu zelo de vigilante, coloca-se no rastro dos réus
a fim de enquadrá-los na transgressão da lei.
Compaixão de nada vale. Punição é
a solução. Porém – no caso da menina
- o aborto foi realizado depois de abalizada recomendação
médica.
----------Enfim,
na referida carta, o padre parabeniza o bispo como ‘escravo
do direito’. Bem máximo? Claro, assim, o bispo
teria defendido “não só a lei de Deus, mas
até a lei dos homens”. Por acaso, o padre seria
também jurista? Triste sina de pastor! Por esse bem vale
a pena dar a própria vida? Felizes de todos que enxergam
em Jesus o grande líder que não veio trazer a
paz para os donos da ordem, para os doutores da lei - fariseus
hipócritas. Feliz quem se dispõe a pagar um preço,
denunciando a hipocrisia nas instituições, sua
violência a degradar e matar, sistematicamente, tantas
pessoas. Felizes os que respeitam leis justas e têm na
compaixão a força motriz de seu comportamento.
Feliz quem torce para se eliminar da lei eclesiástica
a “excomunhão” – “lesa dignidade”.
Felizes os que não impõem a outros um peso que
doutores e líderes religiosos não querem mexer
nem com um só dedo. Feliz quem assume a fragilidade da
condição humana e, em dúvidas, busca no
diálogo uma luz para suas decisões.
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FELIZES DE NÓS QUANDO NOS INSPIRAMOS NA BOA NOVA
DE JESUS.
A BOA NOVA
(Segue a reformulação
das idéias básicas
da BOA NOVA de Jesus,
“Sermão da Montanha” e “Bemaventuranças”.)
Na “Boa Nova”,
o amor vai além das medidas.
“Se alguém se apropria do que é teu,
não feches o coração para ele”!.
A Boa Nova conhece
um só Mandamento:
“Colocar tua própria vida
no lugar da vida alheia”.
A Boa Nova faz
abrir portas a excluídos.
“Que tua justiça não se detenha
no rigor de normas”.
A Boa Nova transborda
em um bem querer.
“Mesmo quem te incomoda,
possa contar sempre contigo”.
A Boa Nova gera
“Bons Samaritanos”.
“Abraçar os teus,
a estranhos prestar socorro”.
Essência
da Boa Nova: o Amor há de reinar.
“Se Deus é compaixão,
inclui todos em tua compaixão”.
A Boa Nova é
fonte inesgotável de anistia.
“Não prives outros
do que tanto queres para ti”.
Boa Nova estimula
a corrigir desequilíbrios:
“Renova a esperança de pobres,
cegos, surdos e mudos”.
Graças à
Boa Nova acontecem surpresas:
“O perdido é achado, o excluído valorizado,
o triste consolado”.
As tarefas da Boa
Nova estão ao alcance de todos:
“Um pedaço de pão, um copo de água,
o perdão para uma dívida”.
A Boa Nova prepara
uma festa para fragilizados:
“Pecadores, enfermos,
condenados e excluídos”.
A Boa Nova é
desafio para uns, alegria para outros.
“Requer generosidade, despojamento
e confraternização”.
A Boa Nova é
dádiva e tarefa para todos.
“Como procurei fazer,
prossegue nesse ensaio”.
JESUS