Deus
é violeiro também
Por
Frei Gilvander Moreira
“A viola caipira foi, e continua sendo,
o instrumento que mais fielmente traduz o sentimento, a alma
e o saber do povo brasileiro.”
----------Dia
19 de agosto de 2009, às 22:40h, saí em estado
de graça do Palácio das Artes, um dos principais
templos da cultura de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Assisti,
melhor dizendo, participei da Cantoria “VivaViola
– 60 cordas em movimento” com os violeiros Joaci
Ornelas, Chico Lobo, Pereira da Viola, Wilson Dias, Bilora
e Gustavo Guimarães.

----------Eles
tocam nas cordas do nosso coração, do nosso
ser, ao dedilhar as cordas da viola. Cantam e nos encantam.
Quem assiste é elevado ao céu na terra. Reencontramos
as verdadeiras raízes da cultura mineira. Apresentação
simples, cordial, com linguagem simples. Sentimo-nos em casa.
A solidariedade, a cumplicidade de uns com os outros. A alegria
de carregar a fina flor da cultura mineira através
da viola contagia a todos.
----------Sei
que falar de pessoas vivas é algo perigoso, pois cada
pessoa é sagrada, é morada de Deus, infinito
mistério de amor que nos envolve. Cada pessoa é
uma preciosidade, mas em vaso de barro. Peço licença
para partilhar alguns raios de luz que irradiam dos seis violeiros
do Projeto VivaViola:
----------Gustavo
Guimarães resgata a mística e a profecia
das águas com sua música “a voz
do rio”. “Eu sou o Rio das Velhas
/ meu berço é Minas Gerais / percorro os vales
de pedras / mas estou cansado demais... a minha água
é de todos os povos desses arraiais... Joguei o anzol...
Então, dessa vez, eu tive certeza / que era um lamento
da mãe natureza / o rio seguia chorando a sua dor /
feito uma criança carente de amor / recebendo tudo
o que vão despejando / vai morrendo aos poucos, assim
se calando. ... se não deixarem que eu corra / um dia
eu não serei mais.”
----------Gustavo
Guimarães homenageia o povo de sua cidade natal, João
Pinheiro, com sua música “Boi de Santana”
que, com seu mugido mágico, alegrava a todos.
----------Bilora
contagia a todos com seu jeito irônico e elétrico
de ser. Dedilhando com maestria sua viola, ao lado de Chico
Lobo, entoa “Toada do amor” (de
sua autoria): “O amor na beira de rio / é
peixe que não descama / é piabinha no cio /
querendo o bem de quem ama ...”
----------Bilora,
com uma santa ousadia, revela sua fé maior: “Onde
dois ou mais violeiros estiverem reunidos em nome da viola,
Deus está presente.” Que beleza! Olha a
glória de Deus brilhando na viola e nos violeiros!
----------O
talentoso Chico Lobo, nas fitas coloridas
de sua viola, afirma a luz e a força da religiosidade
popular e, especificamente, do congado. Com ele não
faltou a música “Catira”
(de sua autoria). “Pra se dançar o catira
/ tem que se bater o pé / vem depois um palmeado /
só não dança quem não quer / ai
ai só não dança quem não quer...”
----------Pereira
da Viola, mestre na arte de fazer a viola conversar
e cantar, além do encanto do som exalado das 10 cordas
de sua viola, ainda transforma a viola também em “percussão”.
Com sua voz incomparável e um carisma que envolve todos,
esbanja carinho, ternura, graça e gratidão.
Realça a força e a luz do trabalho conjunto,
em mutirão e na solidariedade. Alerta: “Deixemos
nossas mazelas pessoais para saborearmos a beleza de momentos
inesquecíveis como esse show de violeiros.”
Na música “Pois sim pois não”
(de Pereira da Viola e João Evangelista Rodrigues)
revela-se um caminhante que denuncia as injustiças
sobre a terra. “Pois sim senhor / pois sim pois
não / pois não é justo senhor / caminhante
cantador / tanta gente sem morada / tanta terra descansada
/ tanta febre e desamor / sem distância de horizonte
/ tanta gente a sentir dor.”
----------Wilson
Dias com voz belíssima esbanja ternura. Após
agradecer a costureira que trabalhou até às
três horas da madrugada para confeccionar a camisa que
ele vestia – com o desenho de uma viola no peito -,
recorda que “são sutilezas (gestos de
amor gratuito), como essa, que nos dão força
e alegria para continuarmos caminhando...”
----------Na
música “Brasil festeiro”
(de Wilson Dias e João Evangelista Rodrigues), Wilson
Dias faz memória de traços da legítima
cultura e sabedoria mineira. “Sou mineiro só
me alegro / por eu ser do mundo inteiro / vejo pouco mas enxergo
/ quando o bicho é traiçoeiro / me afirmo quando
nego / gosto de ser brasileiro / este é o Brasil sincero
este é o Brasil festeiro.”
----------Joaci
Ornelas, com espírito crítico e criativo,
recorda que o projeto VivaViola sonha grande. Quer, na itinerância,
percorrer muitas cidades e, por onde passar, quer envolver
e contar com a participação dos violeiros da
região. Na música “Moda de violeiro”
(de Joaci Ornelas e João Evangelista Rodrigues) mexe
nas cordas do nosso coração. “...
só o amor nos ensina o dom de amar / o canto bate no
peito e salta do leito / mesmo imperfeito tem de desaguar
/ o canto nasce da vida / a vida é porta aberta / não
tem hora certa pra se fechar.”
----------Três
músicas de domínio público estão
no CD VivaViola, lançado na Cantoria
no Palácio das Artes: “Folia de chegada”,
“Coqueiro vai” (adaptação: Josino
Medina) e “Batuque despedida”.
Cada uma melhor do que a outra.
----------João
Evangelista Rodrigues, poeta, escritor e jornalista,
como sal e fermento, está presente nas letras de muitas
músicas apresentadas.
----------Enfim,
a viola caipira é uma das expressões do divino
no humano, reúne e comove pessoas, sensibiliza mentes
e corações.
----------Quem
participou do lançamento do CD VivaViola saiu indelevelmente
marcado. Experimentamos um “pedacinho do céu
na terra”. Não tenho dúvida: Deus é
violeiro também.
Contato: www.vivaviola.com.br – e-mail: producao@vivaviola.com.br