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Caminhar para a Paz, Sim! Violência, não!

-----Vivemos uma hora perigosa. Sistemas opressores e relações violentas nos colocaram numa das maiores encruzilhadas da história da humanidade. Medo, insegurança e instabilidade atingem a todos. Clamores por Paz e por Justiça se tornam ensurdecedores. Ou nos tornamos artífice de Paz ou seremos o anjo exterminador do nosso futuro. Caminhos para a Paz se fazem caminhando, lutando e festejando. Eis alguns dos muitos caminhos que devem ser trilhados simultaneamente:
-----1) Ouvir os clamores das vítimas da violência. Eis um retrato do Brasil: Uma negra de 20 anos, nascida, crescida e que sobrevive numa grande favela, em Belo Horizonte, denuncia em palavras de fogo: "Aqui na favela tem até crianças órfãs de 5 anos alimentando desejo de vingança. Aqui na favela a carência é total, é de cortar o coração. Muita gente não conhece nem uma unha da realidade dos pobres do Morro. Estamos de mãos e pés amarrados. Imposta a lei do silêncio, a gente vê tudo, escuta tudo, mas não pode dizer nada, senão somos assassinados ou assassinam alguém que a gente ama muito. Não é com violência que vamos construir a Paz. Todas as vezes que eu, negra, pobre e favelada, vou procurar emprego, sou discriminada. Só pela minha cor e por morar na favela já sou considerada uma "leprosa". Nós somos empurrados para as ladeiras e prensados em barracos apertados. As pessoas esquecem que no nosso meio tem muita gente boa, trabalhadora, solidária e corajosa, tanto é que vive no meio de um fogo cruzado. Vamos dar as mãos para construirmos uma rede de solidariedade, de luta por Paz e por Justiça que salve o nosso povo!” Ouvir o inaudível é imprescindível. Apenas quando se aprende a ouvir o coração (e estômago, pés, mãos) das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, entende-se o que está errado e edifica-se a Paz.
-----2) Sentir-se parte, um elo vivo, para salvar a Mãe Terra e a Irmã água. Basta de devastação ambiental. “Somos mais filhos da Terra do que do céu", dizia Teilhard de Chardin. Tudo que acontece à Terra e à Água acontece a nós. Não podemos nos limitar às lutas urgentes por sobrevivência. Resgatar, integrar, unificar, harmonizar todos, com tudo, numa relação de inter-retro-dependência é vital para construirmos Paz verdadeira. Sentir-se terra e água. Einstein nos alertava: "Os seres humanos são parte do universo. Considerar como seres, à parte, separados, é uma grande limitação. Temos que irradiar nossa compaixão a tudo". O ser humano está dentro da comunidade de vida maior. Separado da comunidade de vida maior, os seres humanos não são construtores de Paz, mas são violentos.
-----3) Cultivar a memória de tantos que tombaram na luta pela Paz. Dom Pedro Casaldáliga, profeta destemido, nos alerta: "Ai de um povo que esquece os seus mártires". Os cristãos são discípulos de um mártir: Jesus Cristo. Embora no Brasil seja costume esquecer muito rápido a morte dos seus pobres, é necessário cultivar na memória e no coração o exemplo bonito de doação de vida pelos outros de tantos que tombaram na luta pela Paz. Mas a força de vida existente em nós e no nosso meio é muito mais forte do que as forças que tentam calar os apaixonados pela vida com Paz e Justiça.
-----4) Fortalecer os Sinais de Paz que estão se multiplicando: Nos acampamentos e assentamentos, o Movimento dos Sem terra cresce em organização e luta; pequenos produtores resistem com agricultura familiar orgânica e sustentável, produzindo para saciar a fome do povo brasileiro; medicina alternativa a partir das plantas, pelo sistema bio-energético; cresce o nível de consciência crítica e política; jovens promotores estão se firmando na luta pela justiça contra as corrupções; movimentos de mulheres, negros, indígenas, sem casa, desempregados, lutam por Direitos Humanos; o povo cresce em participação ativa na administração das cidades; redes de solidariedade, de geração de emprego e renda, economia popular solidária etc. Enfim, um grande movimento popular (social), como um rio subterrâneo, está permeando todo o tecido social brasileiro, construindo relações e estruturas de Paz, de baixo pra cima e de dentro pra fora.
-----5) Globalizar as ações que poderão re-criar uma nova sociedade com pessoas mais humanas. Globalizar a solidariedade e a luta pela Justiça, de mãos dadas. “’É preciso pensar globalmente e agir localmente” dizia Gramsci. É hora de articular bem a luta por Justiça, com Solidariedade e com Mística libertadora. Pois luta por Justiça sem Solidariedade e sem Mística pode recair em "mera ação política"; transforma algumas estruturas, mas não recria as pessoas. Solidariedade sem Justiça e sem Mística pode recair em "mero assistencialismo ou paternalismo, o que gera dependência e não liberta as pessoas. Mística sem Justiça e sem Solidariedade pode recair em "mero pietismo alienante".

Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br