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A Esperança vence o medo. É Natal!

--------O Natal, apesar de tão violentado pela idolatria do mercado, vem aí reacendendo em nós os melhores sonhos e desejos. No Natal acontece a humanidade e a jovialidade de Deus. Deus se faz frágil e cheio de ternura. Assume a condição humana e arma sua tenda no nosso meio, entrando pela porta dos porões da humanidade. A força inspiradora do Natal é mais forte do que todas as tramas para amordaçar o Deus que se faz menino pobre. Natal é para recriar a atmosfera sagrada de nossas origens e abrir o coração. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, o dom mais sagrado.
--------Provavelmente o dia 27 de outubro de 2002 entrará para a história como o dia do NATAL do povo brasileiro, dia em que o povo resolveu dar à luz os sonhos bons de libertação, dizendo ADEUS AOS SISTEMAS DE OPRESSÃO E AOS OPRESSORES. Um legítimo filho do povo foi eleito para presidente. Respira-se no ar o sentimento de que um outro Brasil está nascendo, mais justo e mais solidário.
--------A esperança começou a vencer o medo. Com os pés no chão, uma explosão de alegria toma conta da maior parte do povo brasileiro. Os ventos começaram a soprar na direção de mudanças importantes que resultarão em mais vida para o povo. Estamos movidos pela esperança e pela confiança de que é possível um outro Brasil, onde mulheres, homens, crianças, jovens e idosos tenham todos uma vida digna e feliz. A auto-estima do povo se eleva. O povo demonstrou seu orgulho nas ruas, agitando bandeiras e gritando: “Agora estamos no volante do Brasil. Lula é um dos nossos. Ele é um comedor de feijão como nós. Lula é uma pessoa comum como nós.”
--------Os Pára-lamas do Sucesso cantam: “a esperança não vem do ar nem das antenas de TV, a arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê.” Aqui transparece uma crítica sutil a muitas esperanças “fogo de palha” que são cultivadas no seio da sociedade brasileira. A Esperança que pulsa nos corações do povo é como uma árvore com raízes profundas, com tronco firme e com copa frondosa que abarcará, com consistência, a concretização dos genuínos sonhos de milhões de brasileiros. Milhares de pessoas deram a vida para que hoje pudéssemos cantar que a aurora insiste em nascer. É Natal com razões da nossa esperança (I Pd 3,15)! De onde vem nossa Esperança?
--------Vem da sociedade civil organizada, que se expressa num grande movimento popular que permeia todo o Brasil, constituindo uma Rede de Solidariedade e de luta por Justiça que está presente em todas as cidades e na maioria das pessoas.
--------Vem de 502 anos de noite escura para os povos indígenas, resultando num massacre de mais de cinco milhões de indígenas. Mas a estrela de Natal começa a brilhar para e a partir dos povos indígenas. Não foi em vão o sangue deles derramado. Prova disso: O povo indígena Tapirapé está renascendo no Mato Grosso. Os Tapirapé estavam em extinção. Dos 1500 de antigamente foram reduzidos a 47 por causa incursões dos Kayapó, das enfermidades dos brancos e da falta de mulheres. O cacique Marcos: "Os Tapirapé vão desaparecer. Os brancos vão acabar conosco. Terra vale, caça vale, peixe vale. Só índio não vale nada". As Irmãzinhas de Jesus, há 50 anos, começaram viver com os indígenas Tapirapé o evangelho da fraternidade na roça, na luta pela mandioca de cada dia, no aprendizado da língua e no incentivo a tudo o que era deles, inclusive a religião, num percurso solidário e sem retorno. A auto-estima deles voltou. Graças à mediação delas, conseguiram que mulheres Karajá se casassem com homens Tapirapé e assim garantissem a multiplicação do povo. De 47 passaram hoje a 520. As irmãzinhas se tornaram parteiras de um povo.
--------Nossa Esperança vem de Zumbi dos Palmares, dos quilombos e do crescente movimento negro que vem colocando na ordem do dia o combate ao racismo mascarado existente na nossa sociedade. Vem da cultura negra que nos ensina que a terra (e a mulher) é viva, tem axé, é fonte de vida.
--------Nossa Esperança vem dos movimentos que lutam (e que lutaram) pela Reforma Agrária: Antônio Conselheiro, Canudos, Contestado, Ligas camponesas, Movimento Sem Terra, Comissão Pastoral da Terra, CIMI, sindicatos combativos e ... Está renascendo todos que tombaram na luta contra o latifúndio no Brasil.
--------Nossa Esperança vem da grande rede de solidariedade existente pelo Brasil afora, tal como o Sítio Santa Clara, no Rio de Janeiro, onde o casal Eliete (uma funcionária pública) e Cícero (um economista) se tornaram os pais de setenta e duas crianças filhas do descaso, da pobreza e da injustiça social. Lá há a uma aula prática de amor, de cidadania, de solidariedade e respeito. Lá, aprendemos através do exemplo de um ex-menino de rua que já usou todos os tipos de drogas para esquecer a fome e que motivado pela ESPERANÇA, bateu de porta em porta pedindo um pouco de dignidade e uma chance, Euclides esbanja generosidade e talento para o teatro. Eliete e Cícero vivem para e com os meninos que eram abandonados. Todas as crianças estão na escola, tem atendimento médico e psicológico através de voluntários. A glória de Deus brilha no sítio Santa Clara e nos diz que nossa esperança não nos enganará. (Sítio Santa Clara, fone: (021) 2428 1191, e-mail: elietesantaclara@hotmail.com)
-------- Com uma esperança que vem de baixo, podemos dizer: Agora temos um presidente que sabe sorrir, conjugar o verbo repartir; criado no roçado; bebeu leite de cabra; aprendeu no desemprego o que é deitar-se à noite e não ter sossego; pagou aluguel; morou em casa apertada; enfrentou a repressão; foi preso e processado; sabe chorar; olha nos olhos com quem fala; joga futebol; gosta da sanfona e do pandeiro; viu as longas cercas prendendo a terra. Enfim, é amigo do povo.
--------Num grito silencioso, os pobres clamam: “Presidente, os ricos têm recursos, tudo podem fazer; nós só temos você, não deixe nossos corações pararem de sorrir.” Eis uma espiritualidade libertadora que se apresenta como mola antropológica indispensável para alimentar a esperança e contribui para o desenvolvimento da consciência crítico-criativa fortalecendo a luta por transformação social e política. Assim uma mística libertadora inspira e motiva a luta para a superação das gritantes desigualdades entre nós. Enfim, dia 01 de janeiro de 2003 será Natal verdadeiro para o povo pobre brasileiro. Rico em esperança!

Frei Gilvander Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br