Pessoas idosas,
na Bíblia e na Vida, com a Palavra
Campanha da Fraternidade
de 2003 – Texto 02
Frei Gilvander Moreira
----------O
Evangelho, segundo as comunidades de Lucas, inicia-se com o protagonismo
de um casal “de idade avançada” (Lc 1,7): Isabel
e Zacarias. De um ventre estéril e de um senhor idoso carregado
de anos, nasce João Batista, o grande profeta, líder
de um bonito movimento popular que lutava por transformações
sócio-econômico-político-religiosas. Da mesma
forma, no Primeiro Testamento, do ventre estéril de Sara e
do corpo centenário de Abraão, nasce Isaac e uma grande
descendência (cf. Rm 4,18-20).
----------O
velho Simeão, tomando em seus braços o menino Jesus,
exclamou: “Agora, Senhor, deixa teu servo ir em paz, porque
meus olhos viram tua salvação que preparaste diante
de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória
de Israel, teu povo” (Lc 2,29-32). Ana, viúva de 84 anos,
mulher contemplativa, pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino
Jesus a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém
(Lc 2,38). O ancião Nicodemos, estimado membro do Sinédrio,
supera o medo dos conservadores da religião e se manifesta
como discípulo do Crucificado (cf. Jo 19,38-40). Há
tantos Simeãos, Anas e Nicodemos em nosso meio!
----------Leonardo
Boff encontrou em uma avenida de Rosário, na Argentina, duas
senhoras, velhinhas, elegantes, uma apoiada na outra. Elas, reconhecendo
L. Boff, disseram: “Há muito tempo que acompanhamos a
Teologia da Libertação. Não somos pobres. Nós
somos é velhas, embora ricas. Estamos caminhando para o fim
da vida. Mas todos os dias rezamos pelos cristãos libertadores,
pelos teólogos e pelos bispos proféticos. E muito mais
rezamos pelos oprimidos, para que sejam fortes e encontrem aliados
para a sua luta de libertação. Somos solidárias
com o senhor”. Que beleza de solidariedade, de mística
e de energia. Faço votos que a tenacidade dos militantes, a
cooperação dos aliados, a lucidez dos pastores e a inteligência
dos teólogos estejam assentadas na espiritualidade de pessoas
anônimas.
----------O
apóstolo Paulo nos alerta: “Deus escolheu o que é
fraqueza no mundo, para confundir o que é forte. E aquilo que
o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus
escolheu, mostrando que pode valer pouco o que o mundo pensa que é
importante.” (I Cor 1,27-28). Atualizando, podemos dizer: o
mundo capitalista, ao idolatrar a beleza física, a força
bruta e a rapidez, diz que o idoso é inútil, um peso
para a sociedade, um improdutivo. Mas, a partir da ótica de
Deus, dizemos que o idoso é vital para a sociedade, um sustentáculo
detentor da memória de um povo. O idoso é nossa história
viva.
----------Deus
é frágil, não tem a força dos ricos: o
dinheiro; nem a força do Estado: as armas; mas tem a força
da fraqueza e do amor, que é o que faz a diferença e
nos humaniza.
----------Eliseu
Lopes (1919-2002), um profeta destemido que partiu para a vida em
plenitude, aos 83 anos, nos deixou um brilhante comentário
sobre o Decálogo. “Honra teu pai e tua mãe, para
que vivas longos anos sobre a terra que Javé, teu Deus, te
dá!” (Ex 20,12. cf. Dt 5,16; Ef 6,1-3). O sentido desse
princípio do Decálogo pode ser: honra a sabedoria que
passa pela tradição qual correnteza, ou: não
menosprezes as raízes, a rocha que te gerou. Eliseu afirma:
“Eis uma das dez palavras do decálogo que, deslocada
do contexto histórico e esvaziada de seu conteúdo coletivo
e social, infantilizada, tornou-se instrumento de chantagem de pais
e mães. Antes de tudo, é uma Palavra para adultos, e
não para crianças. É dito "honra" e
não "obedece". Só o adulto pode honrar. Porque
"honrar" é reconhecer, considerar, homenagear o mérito
de alguém". Note-se ainda que "na terra que YHWH
teu Deus te dá" supõe que esta Palavra é
dirigida não aos indivíduos, mas a todo o Povo, beneficiário
do dom da Terra. Merece realce a menção expressa da
"Mãe". De certo modo, questiona o "poder pátrio"
da cultura romana. Tradicionalmente esse 4º mandamento, infantilizado
e individualizado, tem servido, para os pais e as mães, como
chantagem para disciplinar os filhos menores com o fantasma do pecado
e a terrificante ameaça do castigo divino.”
----------“Levanta-te
diante de uma cabeça branca e honra a pessoa idosa” (Lv
19,32). “Quem aflige o pai e afugenta a mãe é
um filho desonrado e infame” (Prov 19,26). “Escuta teu
pai, que te gerou, e não desprezes tua mãe envelhecida”
(Prov 23,22). “Quem respeita sua mãe é como alguém
que ajunta tesouros (Eclo 3,4).
----------Ao
lado de nossos vovôs e vovós, é hora de cantarmos
com Renato Teixeira: “Ando devagar, porque já tive pressa.
Já corri demais... Cada um possui o dom de ser capaz, de ser
feliz.”
----------Estamos,
não apenas em uma época de mudanças, mas em uma
mudança de épocas. Fala-se de uma crise de sentido,
ou de mudança de paradigmas. Estamos em uma travessia, em que
desponta uma encruzilhada: humanismo ou barbárie. Para caminharmos
rumo à humanização, é vital que jovens
e idosos convivam, respeitando-se, se amando e se completando.
----------Faz
bem re-cor-darmos tantas pessoas idosas que combateram o bom combate;
fizeram a diferença e continuam vivos e presentes, mesmo na
ausência física. Por exemplo: Dona Zica, a mãe
da grande comunidade da Mangueira, mulher que amou profundamente seu
povo. Dom Hélder Câmara, etc. (Quem você recorda?).
O filósofo Sartre, já idoso, dizia: “Participo
das manifestações públicas, porque meu corpo
é respeitado. Ajuda para que não haja repressão
aos movimentos sociais.”
----------Um
outro mundo, justo e solidário, é possível, necessário
e urgente, desde que se inclua os idosos, respeitando-os e nos tornando
aprendizes da sabedoria deles.
----------Não
se deve exaltar, isoladamente, os idosos. O idoso merece lugar de
destaque se dispôs e dispõe ainda da vida, testemunhando
que o novo sempre existiu, sendo a razão da história.
A dignidade da velhice está em aceitar o convite para pronunciar
o “amém” à totalidade e à unidade
de tudo e todos, consagrando-se parceiro na criação,
aprendiz na libertação.
----------Eis
uma dica bibliográfica para quem quiser aprofundar sobre a
terceira idade, suas belezas e desafios:
ALVES, Rubem. As cores
do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus,
2001.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. 2a ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1990.
OLIVEIRA, R. C. S., Terceira idade: do repensar dos limites aos sonhos
possíveis. São Paulo, Paulinas, 1999.
SCHOKEL, L. A., Esperança: meditações bíblicas
para a terceira idade. São Paulo, Paulus, 1994.
TONETO, Bernadete. Idoso, com muito prazer: felicidade não
tem idade. São Paulo, Salesiana, 2002.
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br