Mês da
Bíblia: faíscas da Primeira Carta de Pedro
Frei Gilvander Moreira, O.Carm.
--------Em
setembro, mês da Bíblia, somos convidados a beber de
uma fonte boa que é a Primeira Carta de Pedro (I Pd). Se ficarmos
na superficialidade da I Pd poderemos pensar que a Carta defende moralismo,
sacrificialismo e submissão ingênua das esposas aos maridos,
dos servos aos patrões, etc. Se lida nas linhas, nas entrelinhas
e por trás das palavras, descobrimos que a I Pd não
é lição de moral, mas um testemunho solidário
e libertador; é Pedra Viva, uma injeção
de esperança fecunda; é fina flor que quer ser uma bússola
na vida dos cristãos e cristãs que sobrevivem em contextos
tremendamente hostis e opressivos.
--------Segundo
I Pd, as cristas e os cristãos, no sofrimento, se assemelham
a Jesus, àquele que “injuriado, não injuriava
e que, padecendo, não nutria rancores (I Pd 2,23); que deixou-nos
um “modelo” (I Pd 2,21) a ser seguido. Ou seja, para I
Pd, Jesus Cristo é um servo sofredor. Mais: Ele está
vitorioso à direita do Pai (I Pd 3,18-22), pois venceu a morte
e ressuscitou. Enganaram-se (completamente) os algozes de Jesus. Logo
a pessoa cristã pode seguir, com alegria, pelo caminho trilhado
por Jesus. É bom, santo e leva à verdadeira vitória.
--------A
Primeira Carta de Pedro explicita a fina flor da Teologia do Servo
Sofredor, que se rege pela lógica da solidariedade. O servo
sofredor se torna luz para as nações e é sinal
de salvação, porque não apenas se pauta por uma
nova lógica, mas segue à risca essa lógica do
amor: humilhado, não humilha; pisado, não pisa; violentado,
não violenta; caluniado, não calunia; difamado, não
difama; excluído, não exclui; marginalizado, não
marginaliza; desprezado, não despreza.
--------As
comunidades cristãs, às quais I Pd foi endereçada,
sobreviviam sob diversas opressões. A esperança estava
por um fio. O povo estava cercado por todos os lados. Ser estrangeiro,
clandestino, sem pátria, sem cidadania, sem casa para morar,
condenado a peregrinar sem eira nem beira, ofuscava demasiadamente
o esplendor da vida que insistia em resistir. I Pd objetiva elevar
a auto-estima e a esperança do povo. Trata-se de uma esperança
viva (I Pd 1,4) que fecunda. Por isso, enfatiza que o povo cristão,
como Jesus, é Pedra Viva. Aqui há uma dupla beleza:
a) Ser comparado a Jesus, alguém que se tornou
Cristo, porque cultivou e desenvolveu seu potencial humano; foi capaz
de testemunhar que é possível florir e produzir frutos
que libertam e humanizam as relações. b)
Ser definido como Pedra Viva, não como algo
morto ou fadado à morte, mas como
fonte de vida e de soerguimento, frente a todo e qualquer obstáculo.
--------Enfim,
a Primeira Carta de Pedro tem como objetivo maior reacender a Esperança.
--------I
Pd convoca todos os cristãos e cristãs a praticarem
o amor ao próximo, tendo os sentimentos de Jesus (cf. Fl 2,5-8),
sendo compassivo-misericordiosos, fraternais, humildes, perdoando-se
mutuamente e retribuindo o mal com o bem.
--------P.S:
Para uma compreensão melhor da Primeira Carta de Pedro, sugerimos
o livro Esperança a toda prova, uma leitura da Primeira Carta
de Pedro, CEBI, São Leopoldo, 2003. Frei Gilvander é
co-autor. Encontra-se no CEBI-MG, tel: 031 3222-1805 ou na secretaria
da Igreja do Carmo (tel: 031 3221 3055)
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br