Espiritualidade cotidiana
Saborear o Espírito que impregna as pequenas coisas
---------Que
bom acordar cedinho, após dormir bem. Na cama ainda, agradecer
a Deus por todas as pessoas com as quais compartilhamos a vida, seja
no afeto, na solidariedade, seja com a força do trabalho que
produz todos os meios necessários à existência
na nossa única casa comum, o Planeta Terra. Em companhia agradável,
sair para comer um sanduíche vegetariano, naturalíssimo,
e tomar um copo de suco de goiaba, isso mesmo, nada de álcool.
Nada de carne, nada de enlatados, e muito menos, transgênicos.
Agradecer a Deus pela saúde e por tantas pessoas que nos ajudam
a mudar nosso estilo de vida, rumo a uma vida mais saudável,
em harmonia com o universo que nos envolve.
---------Com
muito carinho e ternura, participar de uma Eucaristia colada no chão
da vida, unindo Fé e Vida, no início da manhã,
freqüentada, normalmente, por pessoas da terceira idade - a melhor
idade. Procurar cumprimentar com atenção quem de nós
se aproxima. Ter uma atenção especial, até quando
uma senhora, na sacristia, nos interroga: "Frei, você benze
carro?" Respondo: "Depende. De traficante ou de corrupto,
eu não benzo." Mas no final, benzer o carro, em deferência
àquela senhora, mas alertando: "Que este automóvel,
abençoado, seja um instrumento para você ser bênção
para muita gente. Que ele ajude você a encurtar distâncias
que separam muita gente. Que seja um instrumento para você ser
mais solidária. Não esqueça nunca da responsabilidade
social e ecológica que recai sobre nossos ombros." Fazê-la
partir, feliz da vida, após se despedir dizendo: "Se precisar,
pode contar comigo, Frei".
---------Ir
à padaria perto de casa e tomar um copo cheio de vitamina,
saboreando todos os goles e agradecer a Deus, mais uma vez, pela multidão
de trabalhadores que fizeram com que pudéssemos degustar aquela
delícia. Sair feliz, após desejar um bom dia a todas
as trabalhadoras.
---------Após
conviver com pessoas, adeptas das terapias naturais, estou decidido
a diminuir ao máximo o consumo de café e leite. Devemos
ser críticos e assumir a mudança de atitude, como resultado
da consciência de que no Brasil há mais farmácias
do que padarias, o que nos leva a concluir que estamos em um país
de doentes. Precisamos cuidar da nossa própria saúde
e semear estilos de vida mais saudáveis. Se estamos adoecendo,
temos de desconfiar do que estamos comendo. Quanto mais saudável
a alimentação e as atitudes, mais saudável a
nossa vida.
---------Que
bom, quando entramos, diariamente, nos estabelecimentos, semearmos
solidariedade e simpatia, cumprimentando com alegria todas as pessoas
que trabalham naquele local. Assim podemos pedir por um serviço
e ouvir a resposta: "Até três, se você quiser".
Bem dizia a vovó: “Quem semeia ternura colhe ternura!”
---------Logo
após, entrar no carro e partir para outra celebração
da Eucaristia, agora entre os empobrecidos, na favela. Dirigindo,
pensar na responsabilidade social de ter tantos bens disponíveis
e agradecer novamente a Deus por ter um carro para andar, um aparelho
celular para se comunicar com mais agilidade, saúde etc. Refletir:
apenas uma minoria tem as facilidades que o progresso pode trazer
à nossa vida. Ao tempo em que vigiamos para não cairmos
no deslumbramento do consumo, devemos ter a consciência de que
ter acesso a esses recursos aumenta a nossa responsabilidade diante
de tantos excluídos, daqueles que utilizam diariamente o transporte
coletivo, diante daqueles que só têm acesso aos telefones
públicos e outros equipamentos que poderiam tornar menos sofridas
as suas vidas. Afinal, são conquistas de toda a humanidade
e essas conquistas só podem ser legítimas quando democratizado
o uso, e ainda por cima, mediante o compromisso com o desenvolvimento
sustentável.
---------Celebrar
a Eucaristia para sete pessoas apenas e sentir que da celebração
irradia um Espírito bom que inunda toda a Vila. Aprender com
a sabedoria das pessoas simples, tais como, a da dona Maria da Vila
Acaba Mundo, em Belo Horizonte. Durante a homilia, perguntei: "Sobre
o que vocês mais conversam durante o dia?" Dona Maria começou
a dizer: "Eu não me canso de dizer para meus filhos que
devemos pagar o mal com o bem, que devemos ser pacíficos e
amar a todos, principalmente nossos inimigos." Ela continuou:
"Meu filho Manoel tem uma mercearia na favela do Complexo da
Serra. Já foi assaltado diversas vezes. Outro dia ele foi visitar
no hospital um assaltante que o tinha assaltado a mão armada.
O assaltante ficou tão comovido que disse: "Nenhum dos
meus pretensos companheiros vieram me visitar. Logo você, que
foi assaltado por mim, veio me visitar. Você está me
dando uma grande lição de vida." Refleti sobre
a beleza do gesto de perdão, da bondade do coração
da dona Maria, mas ao mesmo tempo pensei em quantas vezes foi incutido
na cabeça dos pobres de que devem ser pacíficos, resignados.
Isso nos faz lembrar a canção “Meu Brasil”,
do Zezé di Camargo e Luciano que profetisa: “Tá
faltando consciência, tá sobrando paciência...”
Isto mesmo, parte dos pobres no Brasil são pacientes demais.
A concentração de renda chegou ao limite e nenhuma ameaça
efetiva tira o sono da elite conservadora. Perdão sim, passividade
nunca!
---------Deixar
o coração se alegrar, quando pressentimos outras demandas
fora do espaço religioso. Esses são fatores que nos
mantêm na dinâmica da vida. Ser presença solidária
ao lado dos desempregados, que não tendo como ocupar os seus
dias, são empurrados para afogar os seus desalentos nas drogas,
no álcool, na violência à família e à
sociedade.
---------Para
completar, que gostosura receber a visita de um amigo-irmão,
após dias de ausência. Na conversa, sentir o nó
na garganta por diversas questões. Oferecer o ombro fraterno,
quando as dificuldades pesam demasiadamente e o fazem chorar, sentindo
o peso enorme da vida. Ver um amigo-irmão chorar é de
cortar coração. Ainda mais, se é um lutador que
pega firme no batente, mas sofre as agruras de uma sociedade covarde
com a maioria dos seus filhos. Isso faz crescer em nós a indignação
contra uma elite indiferente aos problemas sociais e uma sociedade
idolátrica que condena vidas e mais vidas a uma luta desumana
por trabalho, dignidade e sobrevivência.
---------Enfim,
o dia todo, observar o canto dos pássaros, sorver o oxigênio
que nos é servido gratuitamente por uma conspiração
de amor que rege o universo. Refletir sobre muitas coisas e perceber
que devemos saborear a gostosura da vida, a partir das pequenas coisas
e das micro-relações. Não ficar esperando grandes
acontecimentos para podermos nos sentir felizes. Relembrar a frase
de Che Guevara: “A liberdade não é o futuro. A
liberdade é a luta!” Acrescentaríamos: luta por
justiça, por saúde, por trabalho, por uma Reforma Agrária
autêntica.
---------Eis
um convite: Assumirmos o propósito de sermos mais saudáveis,
mais felizes e irradiarmos a nossa felicidade em nosso meio, para
todas as pessoas, compartilhando as pequenas conquistas.
---------Agradecer
pela vida, que é bela e nos quer belos e entusiasmados. Sentir-nos
guiados pelo Espírito de Deus todo o dia em todos os dias.
Crescer cada dia um pouco e ---------“carregar
em si o dom de ser capaz, de ser feliz”, como nos ensina Renato
Teixeira.
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br