CORPOS À LUZ DE UMA ÉTICA CIDADÃ
--------Pergunta:
“É importante proibir o nu, em propagandas comerciais
e em outdoors de publicidade?” Um sim, um não, não
bastam. É preciso refletir sobre quem somos e como construir
as relações na sociedade. Há fundamentos para
a aprovação da lei municipal dentro de um “ethos”
libertário? Não deixa de ser preocupante explorar, publicamente,
o corpo da mulher em imagens que vemos espalhadas pela cidade. Convém,
no entanto, mover-nos em águas mais profundas, não para
afogar, mas para escapar da armadilha da superficialidade do “isso
é proibido, aquilo é permitido”; um moralismo
que nos reduz à infantilidade, indigna ao potencial humano
em nós.
--------Em
uma rápida retrospectiva sobre a noção de corpo,
na história, podemos dizer: O CORPO para os gregos era a perfeição
e, por isso, devia ser cultuado. Para os medievais, o corpo era sede
do pecado e, por medida de precaução, devia ser negado.
Para os modernos, o corpo é um projeto aberto, em construção,
em que a liberdade pessoal insiste em imperar, não raro, às
custas de outros corpos (humanos e não humanos). Para os contemporâneos,
o corpo é fragmentação e, em meio a uma idolatria
do mercado, está sendo escravizado e reduzido a mercadoria
ou a mero consumidor.
--------Até
o século III a.C., a nudez não era considerada um símbolo
do mal, tentação, sedução, pecado sexual.
O dominicano, padre Carron, dizia que, para os povos indígenas,
pudor era valorizar o corpo nu e pintá-lo, enfeitá-lo.
Vestir o corpo é impudor, para muitas culturas autóctones.
Em muitos textos bíblicos, vergonha é um meio de controle
social; não é uma questão moral oriunda da sexualidade.
O povo da Bíblia sentia vergonha por uma derrota militar (cf.
Juízes 20,18-28) ou por um empreendimento frustrado.
--------Qual
deve ser a moralidade pública? Esconder os corpos nus? Ou será
que a moralidade pública está, exatamente, em revelar
o que há por detrás das propagandas que se utilizam
dos corpos nus? Não seriam as práticas capitalistas
e machistas as maiores responsáveis pela exposição
excessiva da mulher como objeto de consumo? Não estariam os
interesses comerciais acima de uma ética cidadã que
busca o bem-estar das pessoas, coletivamente? Fixar-nos no efeito
ou combater a causa?
--------O
corpo é um dos elementos constitutivos da pessoa, que envolve
o espírito, o ser todo. Corpo é território do
sagrado e do profano, da vida e da morte, do puro e do impuro. O ser
humano é corpo, animado por sopro transcendente. Um mistério
de grandiosidade envolve nossos corpos. Somos templos vivos de um
Deus que nos ama apaixonadamente.
--------Por
que se fixar nos corpos expostos em propaganda e esquecer o que deve
nos envergonhar de fato? O que deve indignar a todos nós é
a desigualdade social existente em nosso País, recentemente
colocado nas estatísticas das sociedades mais desiguais do
mundo. Vergonhosa é a falta de oportunidade no país,
cujo desemprego atingiu, também recentemente, o recorde histórico
de quase 20% de nossa força de trabalho. Lamentável
é a mediocridade da elite brasileira, liderada por 400.000
famílias que possuem quase 50% da riqueza do país. Indecente
é a ausência secular de uma Reforma Agrária autêntica,
uma iniqüidade que clama aos céus por justiça.
Indecente é a indiferença dos cidadãos, a burocracia,
o lucro de igrejas e o intimismo de espiritualidades.
--------O
filósofo Sartre, já idoso, dizia: “Participo das
manifestações públicas, porque meu corpo é
respeitado. Ajuda para que não haja repressão aos movimentos
sociais.” É hora de respeito a todos os corpos, os de
todos os humanos e os corpos dos animais, vegetais e minerais que
compõem, conosco, uma grande comunidade de vida. Urge respeitar
o corpo mais agredido hoje, o planeta Terra, nossa única casa
comum.
--------A
conclusão da Carta da Terra diz: “Que nosso tempo seja
lembrado pelo despertar de uma nova reverência frente à
vida, pelo compromisso firme de alcançarmos a sustentabilidade,
a intensificação da luta pela justiça e pela
paz e pela alegre celebração da vida.” Oxalá
nosso tempo seja lembrado por uma reverência e uma reinvenção
nas relações entre os corpos que somos, em uma interação
universal profunda, corpos que amam, lutam e dançam, fazendo
festa, corpos que resistem e sofrem, indignando-se contra as forças
da exclusão; corpos que morrem e ressuscitam.
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br