Guatemala, golpeada
por ditadura militar (36 anos), em processo de libertação
---------Estive
na Guatemala, de 24 a 29 de novembro deste ano, participando do VII
Congresso Missionário Latino Americano (II Congresso
Americano Missionário). Não vou descrever aqui o conteúdo
das Conferências, pois ficaria muito longo. Penso que é
mais interessante partilhar o que fui experimentando nas entrelinhas
do Congresso. Cerca de 4.000 missionárias/os, de 40 países,
participaram, trocando experiências, animando-se mutuamente
e reforçando o lema: “Igreja verdadeira é
Igreja Missionária”. Não se justifica
mais reduzir a missão a uma perspectiva tradicional de exportar
o Evangelho, convertendo estranhos para a nossa “Fé”.
Urge mudar o paradigma percebendo que o Espírito de Deus sopra
e se irradia em todas as culturas, em todos os povos, fazendo da convivência
o encontro do divino e humano. Há muito mais sementes do Evangelho
nas diferentes culturas e pessoas do que uma visão unilateral
de fé faz perceber.
---------A
riqueza do Congresso se manifestou: a) no espírito profético
dos mártires, dos pobres e dos excluídos da América
Afro-Lat-Índia; b) nas orações protagonizadas
pelas mulheres, segundo a mística dos afro-descendentes de
várias etnias da América Central; c) nos testemunhos
comoventes de leigos, missionários/as, religiosos e membros
do clero; d) na troca de experiência entre os protagonistas
da missão.
---------Houve
Conferências e reflexão em grupos sobre: a) os desafios
da missão cristã no mundo atual; b) a missão
a partir do cotidiano, da pobreza e do martírio; c) a missão
Ad Gentes no século XXI. Foi emocionante encontrar
freiras e padres brasileiros que estão, radicalmente, comprometidos
com a missão na Nicarágua, na Guatemala e em outros
países. A paixão pelo Reino de Deus (e dos pequenos)
move, felizmente, muito mais pessoas do que imaginamos.
---------Foi
emocionante cantar o hino do Congresso juntamente com os 4.000 missionárias/os.
Eis o refrão: “Desde el corazón de América
/ desde nuestra pequeñez / e desde nuestra pobreza / vamos
a buscar amor. / Por los caminos del mundo / a predicar a Jesús
/ con Gerardi y con Romero / cargaremos nuestra cruz.”
---------Enquanto
eu ouvia algumas conferências de cardeais e bispos, brotavam
de dentro de mim questionamentos: Enfatiza-se demais a importância
da “experiência pessoal de Deus” na vida do/a cristão/ã.
Por que não enfatizar a necessidade da “experiência
social, política e econômica de Deus”? Por que
endeusar tanto Maria, a mãe de Jesus, e ser cúmplice
da opressão relativa a mulheres? Não há falta
de respeito para com a dignidade das mulheres, em muitas igrejas?
Negar cidadania às mulheres nas igrejas é um pecado
que clama aos céus. Uma senhora guatemalteca, ao saber que
eu era brasileiro, se mostrou encantada com as telenovelas brasileiras
que estão fascinando povos de muitos países. Três
minutos depois, a mesma senhora chorava copiosamente ao ver o andor
de N. Sra de Guadalupe ser carregado, enquanto o povo entoava um canto
mariano.
---------Guatemala,
país da América Central, com 11 milhões de habitantes
(sem contar os animais, as plantas e os minerais, o que daria uma
população de bilhões de seres vivos), sendo 70%
pobres, com 40% de excluídos, 40% de analfabetos. Salário-mínimo
de Rs 120,00 (a moeda nacional é o Quetzal. Um dólar
vale quase oito quetzal). O Parlamento conta é composto por
150 deputados, sendo que cada um ganha cerca de Rs 45.000,00. O povo
guatemalteco é de uma hospitalidade e de uma cordialidade marcantes.
As pessoas cumprimentam a gente, dizendo assim: “Pedro, para
te servir!” Ou: “Odete, tua servidora!”
---------A
Guatemala esteve sob as botas dos militares durante 36 anos, até
1997. Impressiona a enorme quantidade de mártires nesse país.
Em uma conferência, o arcebispo de Tegucigalpa, capital de Honduras,
ao fazer memória dos mártires, fez muita gente chorar.
Sente-se que é um povo profundamente ferido pela ditadura militar.
Uma advogada chorou muito, enquanto me dizia: “Há
profundas feridas em nosso povo. Sofremos a mais cruel das ditaduras
da América Latina. Enquanto eu estudava na Universidade, diversas
vezes ficamos sitiados sem poder sair, pois o exército cercava
a universidade para pegar os “subversivos”. Um dia, nos
despedimos de um professor, às 18:00 hs. Ao chegar em casa,
às 20 hs, soubemos que aquele professor, competente e profundamente
humano, tinha sido assassinado. Isso corta nosso coração
de dor. Ainda hoje é arriscado denunciar, pois podemos ser
perseguidos. Graças a Deus, está aumentando a pressão
internacional reforçando nossa luta pelos Direitos Humanos
e Sociais.”
---------Entre
os 40.000 assassinados pela Ditadura militar e guerrilha, estão
centenas de cristãos catequistas. O povo cristão guatemalteco
teve de enterrar a Bíblia, pois os militares mandaram apreender
todas as Bíblias, uma vez que o povo encontrava forças
e espírito crítico na leitura dos textos sagrados. Muita
gente enterrou suas Bíblias, dentro de sacos plásticos,
mas continuaram realizando os Círculos Bíblicos a partir
das passagens bíblicas conservadas na memória do povo.
---------No
Congresso lançaram um documentário, em vídeo,
intitulado La Bíblia Enterrada, que é uma meditação
sobre os catequistas mártires. Estes foram assassinados, porque
testemunhavam a verdade, abriam os olhos dos pobres dizendo que Deus
quer a igualdade entre as pessoas. Organizavam sindicatos de trabalhadores,
exigiam direitos civis básicos, tais como água, energia
elétrica, um posto de saúde, liberdade política,
etc.
---------Dezoito
catequistas, em uma vila, foram massacrados brutalmente, porque não
quiseram se incorporar à Guerrilha e nem ao Exército.
Diziam: “Se vamos com a Guerrilha, teremos que matar. Se
cedermos ao Exército, teremos que entregar todos nossos companheiros
e amigos.” Um filho, diante desse dilema, disse a seu pai
catequista: “O melhor caminho é a resistência,,
pai!” Após serem torturados, tiveram que cavar o
próprio túmulo sob a mira das metralhadoras, antes de
serem alvejados. “Juraram fidelidade até o fim”,
testemunha um sobrevivente.
Em 1982, o Exército fez uma emboscada e assassinou Rosálio
Benito e seus 48 companheiros catequistas. “Vocês são
revolucionários comunistas”, acusavam os vassalos da
ditadura.
---------Muitos
camponeses, tal como o catequista Manuel, foram assassinados por pistoleiros
pagos por latifundiários. Hoje, a comunidade assegura:
“Manuel deu a vida dele por nós. Ele, com a doação
de sua vida, nos ajudou a conquistar esta terra tão necessária
para nosso sustento. Manuel nos recorda que devemos entregar nossa
vida para que todos tenham vida. O lema de Manuel era: “Se não
posso lutar pelos meus irmãos, para que serve a vida?”.
---------Os
cristãos catequistas tinham saído da infantilidade.
Diziam: “Não somos mais crianças, mas adultos
na fé cristã.” Um filho, vendo o pai ser
arrastado para fora da própria casa pelos soldados do Exército,
exclamou: “Pai, agora o senhor vai mostrar com a vida o
que nos ensinou por palavras.”
---------Até
mesmo levar a eucaristia para os doentes foi proibido pela ditadura
militar. Os cristãos escondiam as hóstias consagradas
dentro de pães. O senhor Nicolau, já baleado por homens
do Exército, recomendava à esposa: “Cuide
bem dos nossos filhos, já que não poderei mais cuidar
deles.” Morreu rezando o Pai Nosso.
---------Em
um grande “Livro da Vida”, no Monumento aos Mártires
estão os nomes de todos os cristãos catequistas martirizados.
É uma lista tão grande que parece com os 144.000 do
Apocalipse, a multidão dos que lavaram suas vestes na grande
tribulação provocada pelo Império Romano.
---------Enfim,
tantas Bíblias enterradas e tantos mártires sepultados
são sementes evangélicas que interrogam nossas consciências.
Enxugando as lágrimas, os pobres da Guatemala não deixam
no silêncio o testemunho dos milhares de mártires. Continuam
cantando e caminhando, clamando por Justiça, Paz e Liberdade.
“Irá chegar um novo dia ...”
---------Eis
três boas Notícias para os pobres (= evangelho) que vi
na Guatemala:
---------1)
O processo sobre o assassinato do bispo Dom Girardi foi reaberto.
O bispo auxiliar da capital dom Girardi foi o mentor, organizador
e apresentador dos quatro volumes do livro GUATEMALA: NUNCA MAIS.
Dom Girardi foi assassinado, barbaramente, um dia após apresentar
essa publicação profética que é um grito
ensurdecedor por justiça, em nome dos 40.000 mártires
dos 36 anos de ditadura militar. Alguns dos assassinos estão
presos. Um general, ex-Ministro da Defesa, acusado de ser um dos mandantes,
também está preso. Cresce a pressão internacional
para que seja feita justiça. O arcebispo da capital Guatemala,
indignado, bradou do púlpito da catedral: “Não
descansaremos em paz até que seja feita justiça com
respeito ao hediondo assassinato de Dom Girardi. Estamos dispostos
a perdoar, mas queremos saber a quem perdoar. Não vamos ficar
cegos no meio da cortina de fumaça que construíram para
negar que se trate de um crime político. É um crime
claramente político. E o povo de Deus clama por justiça.”
---------2)
Dia 25 de novembro, dia internacional de luta contra a violência
à mulher, participei de uma manifestação do Movimento
das Mulheres que denunciava o assassinato de 225 mulheres no país,
em dez meses de 2003.
---------3)
No dia 26 de novembro, 15.000 indígenas sem terra entraram
na capital da Guatemala, marchando em quatro frentes: uma de cada
ponto cardeal; encontraram-se na praça, em frente ao palácio
do Governo Federal. Clamavam por Reforma Agrária e por Direitos
Sociais.
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br