MANIFESTO CONTRA
A TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO
(Extrato do livro SÃO FRANCISCO, um presente,
de Frei Cláudio van Balen, Sérgio Bittencourt e Cláudio
Guerra. Livro lançado dia 11/04, na Igreja do Carmo, em Belo
Horizonte/MG. O livro pode ser adquirido pelo e-mail:
pastoral@igrejadocarmo.com.br)
STATUS QUESTIONIS
----------O
Projeto da Transposição do Rio São Francisco
envolve o aspecto político, geográfico, social, ético,
econômico, jurídico e ecológico. Todos estão
interligados.
----------1.
É politicamente incorreto, pois o organismo
que responde pelas bacias hidrográficas – o Comitê
da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, instância
decisória e legal – foi contrária ao projeto.
Segundo nossa visão de mundo, o projeto peca por falta de embasamento,
conteúdo e forma. Em resumo, o que é do interesse de
todos, precisa do consenso da maioria.
----------2.
Geograficamente, a área
de influência do Projeto se restringe a apenas cerca de 5% do
semi-árido nordestino, o que mostra que sua grandiosidade não
tem uma correspondente em termos de abrangência. A população
difusa do semi-árido não será beneficiada.
----------3.
Socialmente, o Governo Federal não se preocupou
em articular e integrar suas ações através de
um Pacto político com os sete Governos Estaduais e com mais
de 500 Governos Municipais envolvidos por problemas da região.
O Projeto não foi discutido com praticamente ninguém.
Ele veio de “de cima para baixo”, em uma postura extremamente
autoritária por parte do Ministro da Integração
Nacional.
----------4.
O aspecto ético: O Projeto alcançaria
12 milhões de pessoas – 268 cidades, entre elas Fortaleza,
João Pessoa, Campina Grande e Caruaru, cidades que têm
outras formas de melhorar o abastecimento público – e
irrigaria 300 mil hectares de terras até o ano de 2020. Entretanto,
70% do consumo médio de água do Projeto vai ser direcionado
para os pólos tradicionais de irrigação da região.
O Projeto tenta ignorar a estrutura econômica, social e política
que é a principal causadora do atraso e da miséria no
nordeste brasileiro.
----------5.
Economicamente: Uma análise de custo-benefício
mostra que os 4,5 bilhões de reais (dado oficial. Na realidade
poderá chegar a 20 bilhões de reais.) seriam aplicados
em uma solução de engenharia hidráulica que desconsidera
uma infra-estrutura hídrica contra a seca, já existente
no semi-árido, bem como um razoável avanço ocorrido
no sistema de coleta de água das chuvas.
----------6.
Juridicamente: Intervenção sobre terras indígenas
exige aprovação do Senado Federal. E há liminares
na justiça cancelando a Licença Prévia obtida.
Há cinco Estados doadores de água e quatro Estados receptores.
Até hoje, não se estabeleceu quem pagará a quem,
quanto e como. As referências legais ainda não foram
devidamente esclarecidas (leis, normas e resoluções
do Conselho Nacional de Recursos Hídricos).
----------7.
Ecologicamente, a agronegócio, monoculturas
e mineração estão dizimando milhares de nascentes
e secando rios. As ações de revitalização
na Bacia do Rio São Francisco vêm sendo manipuladas e
proteladas pelos Governos Federal e Estaduais que continuam surdos
aos argumentos de que “não se deve fazer a transfusão
de sangue em um paciente que está anêmico”. O problema
do semi-árido se resolve com um Projeto de convivência
com o Semi-árido, o que passa pela construção
de 1 milhão de cisternas.
----------Um
tema nunca mencionado é o do custo da energia elétrica
necessária para bombear a água para altitudes que chegam
a 300 metros e para distância de 750 Km. A operação
do sistema será privatizada, envolvendo técnicas e custos
que serão repassados para as tarifas.
----------Tecnicamente,
não existe nenhum problema na execução da Transposição,
estando a engenharia brasileira perfeitamente apta a construir estações
de bombeamento, túneis, aquedutos e reservatórios. Entretanto,
o que se questiona é a razão pela qual alternativas
tecnológicas não foram, efetivamente, contempladas e
seus respectivos custos não foram nomeados.
----------Um
aspecto técnico importante, porém nunca mencionado,
é o das grandes perdas da água por evaporação
(três vezes maior que no centro-sul), em canais abertos de longas
distâncias nas elevadas temperaturas durante o ano todo, no
semi-árido.
----------Conclui-se
que a obra não combaterá a injustiça social,
a água não chegará à área mais
carente do semi-árido e não beneficiará as famílias
sertanejas que ali vivem. A obra é muito interessante para
as firmas empreiteiras, projetistas e, principalmente, para os grandes
irrigadores da região, produtores de hortifruticultura e camarão
para exportação (hidronegócio).
----------O
caso do Estado do Rio Grande do Norte merece destaque. Especialistas
da UFRN comprovaram que o Projeto trará água para poucas
regiões do Estado, que já a possuem com relativa abundância
e que a irrigação consumirá 92% da água
do Projeto, deixando de lado a questão do abastecimento difuso
que está diretamente associado à calamidade provocada
pelas secas e pelas cercas dos latifúndios.
----------Nossa
conclusão é que a Transposição do Rio
São Francisco – no atual contexto – não
passa de mais uma obra faraônica e insana, planejada com recursos
públicos e cujos benefícios serão dirigidos a
um pequeno grupo de privilegiados, principalmente os grandes irrigadores
da região, empresários do hidronegócio.
----------A
Ordem dos Advogados do Brasil, a SBPC (Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência), a grande maioria dos cientistas brasileiros
(de incontestável competência técnica) bem como
a grande maioria das Igrejas cristãs e da própria CNBB,
ao fazerem uma análise global dos vários aspectos do
mega-projeto, se posicionaram contra o mesmo.
Do livro SÃO
FRANCISCO, um presente, de Frei Cláudio van Balen, Sérgio
Bittencourt e Cláudio Guerra.