Ser Cristão e ser Cidadão
Desde seus primórdios
a fé cristã trouxe para a humanidade uma nova perspectiva
nas relações entre o ser humano e a sociedade. O cristão
se encontra em uma dupla condição, de cidadão
(na linguagem antiga se usava o termo súdito) na sociedade,
mas também de membro da Igreja. Um dos mais eloqüentes
episódios da vida de Santo Ambrósio (339-394), bispo
de Milão, descreve-o exigindo penitência pública
da parte do imperador Teodósio, acusado de ter praticado
uma grande injustiça. Em um mundo profundamente hierárquico
como o da antiguidade Santo Ambrósio considerava o imperador
romano como “fiel da Igreja de Jesus Cristo”. Não
superior a Ela, mas como um de seus membros. Santo Agostinho (Enarrationes
in Psalmos LV, 2), por sua vez ensinava que os batizados em Cristo,
devem ter a consciência simultânea da importância
viver a cidadania em conformidade com a fé em Cristo.
Considerando que a
pertença à Igreja de Jesus Cristo, implica no ser
membro do povo de Deus, é também verdade que estamos
sempre em uma sociedade com valores e demandas próprias.
Essa nossa “dupla cidadania”, de fieis no reino de Deus
e cidadãos do reino dos homens não se traduz em contradição,
mas sim em complementaridade. A religião católica
é fonte de espiritualidade, de valores e de ética
para a sociedade brasileira. O Estado promove organização,
cultura, saúde, segurança, desenvolvimento e assistência.
Por tudo isso a religião não pode ser reduzida à
mera “ação de cidadania” ou a simples
“gestos de solidariedade”. Ser cristão, é
seguir a Cristo, abraçar a fé e vivê-la, vencendo
limitações de ordem pessoal e humana. Na sociedade
somos católicos e essa deve ser sempre a nossa identidade,
como pessoas e filhos de Deus. Para nós cristãos,
as práticas de cidadania são espelho da nossa fé
em Cristo.
Fr. Evaldo Xavier Gomes, O. Carm.