Matéria
sobre transposição do Rio São Francisco
- Jornal Brasil de Fato – de 22 a 28 de dezembro de 2005
SOCIEDADE SE ARMA PARA AMPLO DEBATE
Luís
Brasilino
Em audiência com Lula, frei
Luiz ouve nova promessa de debate enquanto sociedade reúne
argumentos contra projeto.
----------Nos
dias 14 e 15 de dezembro, os mais engajados críticos da transposição
do Rio São Francisco reuniram-se em um seminário em
Brasília (DF). Eram cerca de 50 representantes de movimentos
sociais, organizações não governamentais (ONGs),
intelectuais, indígenas, religiosos e juristas fazendo um
esforço coletivo para subsidiar com argumentos frei Luiz
Cappio, bispo da diocese de Barra ( BA ) que, ao final do seminário,
se encontraria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
----------No início de outubro,
frei Luiz ganhou atenção internacional após
11 dias de greve de fome contra a transposição. O
protesto entrou no centro do noticiário e só se encerrou
com a promessa do governo de iniciar uma discussão em torno
da megaobra. Para isso, no início dessa etapa de debates,
frei Luiz queria dar viabilidade a sua causa, não mais à
sua pessoa: “Mais importante que a audiência com
o presidente é informar a população sobre o
que está se passando”, destacou o religioso, no
seminário.
----------Sendo assim, os participantes
dedicaram-se por cerca de 40 horas praticamente ininterruptas a
uma oficina de trabalho de onde saíram dois documentos. Um
explicando detalhadamente porque são contra a transposição.
E outro com propostas para abastecer uma agenda positiva de desenvolvimento
do Semi-Árido brasileiro.
----------Ao final dos trabalhos, os
militantes se abraçaram e rezaram. Saíram juntos em
direção ao Palácio do Planalto, convictos de
terem feito tudo o que podiam em benefício do sertanejo.
A AUDIÊNCIA
----------Frei
Luiz foi para a reunião com Lula, dia 15, acompanhado de
dom Tomás Bauduíno, da Comissão Pastoral da
Terra ( CPT), do sociólogo Adriano Martins, de Luciana Khoury,
promotora de Justiça da Bahia, e do jornalista Henrique Cortez,
coordenador do Portal ECODEBATE. A audiência durou duas horas,
o dobro do programado, e começou com a exposição
de argumentos de frei Luiz contra a transposição.
“Não é verdade que essa obra levará
água para quem tem sede. Isso, por si só, já
é um impedimento ético para justificar a oposição
ao projeto”, foi o destaque inicial de Cappio.
----------Segundo Adriano Martins,
assessor do bispo, durante a reunião o ministro Ciro Gomes,
da integração Nacional e principal interessado na
obra, entendeu que está numa situação desconfortável.
“A transposição não é mais um
passeio no parque. Ciro tentou fazer sua palestra, seu discurso,
mas não tinha platéia. Todos lá conheciam muito
bem o projeto”, analisou Martins.
----------“A proposta do
presidente era tudo o que desejávamos. Ele se comprometeu
a realmente abrir um amplo debate com a sociedade. Essas foram palavras
textuais do presidente”, garantiu frei Luiz ao deixar
a audiência. Contudo, Jaques Wagner,ministros de Relações
----------Institucionais,
que também participou da audiência, falou com a imprensa
cerca de dez minutos depois de frei Luiz. Deixou escapar que 2006
continua sendo um ano razoável para iniciar as obras de transposição.
PRESSA
----------Ciro
Gomes também parece não levar muito a sério
a promessa de Lula: "Nós temos pressa e eu acho
que chegou a hora de encerrarmos a discussão e passarmos
à execução”, afirmou para a reportagem
da Agência Brasil, dia 9, durante seminário que discutiu
a obra.
----------João Abner, hidrólogo
e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, se cansou
de tentar debater o projeto com o governo nos últimos três
anos e está cético com relação à
promessa de Lula. "O governo não tem condições
de sustentar um debate porque toda sua argumentação
está baseada em mentiras”, desabafou ainda no
Palácio do Planalto.
----------O temor do movimento contra
a transposição é que o governo aproveite a
desmobilização social, comum durante as festas de
final de ano, para cassar no Superior Tribunal Federal as duas liminares
que impedem o prosseguimento das obras.
A IMPRENSA
PODE AJUDAR, MAS........
----------Os
participantes do seminário contam com a contribuição
da mídia para que o debate em torno da transposição
do Rio São Francisco dê frutos. Para João Abner,
hidrólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
a única saída para conter o “rolo compressor”
do governo é informar a população. “
Só assim os brasileiros descobrirão que esse projeto
consumirá, pó muitos anos, grande parte dos recursos
que iro para a Região Nordeste e que esse investimento não
irá alterar o quadro atual de pobreza e miséria “,
avalia Abner.
----------Mas, a menos que haja uma
reviravolta no trabalho da grande imprensa, dificilmente a população
ficará bem informada. O engenheiro agrônomo João
Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco de
Pernambuco, conta que foi procurado pela revista Vejadurante a greve
de fome de frei Luiz Cappio. “Conversamos por três
dias consecutivos para uma grande reportagem sobre a transposição.
Só que a matéria não saiu. O mesmo aconteceu
com a revista Isto É. Dei entrevista por escrito, cinco perguntas
sobre as quais me debrucei todo o fim de semana. Também não
publicaram nada. Infelizmente, existe uma pressão do governo
federal que faz com que esses órgãos da imprensa não
publiquem suas matérias”, denuncia Suassuna.
SECA É
INVENÇÃO DA ELITE
----------Uma
análise do documento com argumentos contrários à
transposição, formulado no seminário convocado
por frei Luiz Cappio, em Brasília, permite uma constatação:o
governo mente, e mente muito. Toda a propaganda oficial gira em
torno da redenção do povo sertanejo. Os 12 milhões
de pessoas espalhadas pelo Semi-árido, que sofrem os efeitos
da seca, seriam beneficiadas pela água do São Francisco.
----------No entanto, o documento denuncia
que o próprio relatório de impacto ambiental ( RIMA)
da obra informa que a abrangência do projeto é de uma
área de, no máximo, 7% do Semi-árido. “
90% do território continuará na mesma situação”,
prevê o texto. Além disso, as regiões supostamente
beneficiadas pela transposição têm água
suficiente para atender com segurança às demandas
urbanas e agrícolas atuais”.O Ceará tem potencial
para atender em até quatro vezes as demandas por água
para todos os seus usos^. O Rio Grande do Norte, mais de duas vezes.
E a Paraíba mais de uma Vez e meia. Portanto, não
existe déficit hídrico nos Estados beneficiados”,
decreta o documento.
----------Sendo assim, para que serve
a transposição? Se a água não é
para o abastecimento humano e animal, ela só pode destinar-se
a atividades econômicas, tais como a irrigação,
criação de camarões e usos industriais. O governo
reconhece isso.Na página da internet do Ministério
da Integração Nacional, principal empreendedor do
projeto, lê-se o seguinte texto: "Embora o abastecimento
doméstico possa ser, em princípio, suprido com os
açudes existentes, o fato é que, em algumas bacias,
o nível de comprometimento com usos múltiplos da água
vão se tornando críticos, com a prioridade dada aos
usos urbanos interferindo com as atividades produtivas da população
rural e até do consumo industrial. A inibição
de atividades produtivas já aparece clara, por falta de planejamento
de médio prazo ou por inviabilidade de novas outorgas d`água,
na medida em que os usuários já estabelecidos pressionam
por manter seus direitos de uso, mesmo quando não prioritários
para o consumo humano. Os conflitos tendem a se agravar, tornando
a gestão da água complexa e afastando o investimento
privado, em face dos riscos envolvidos”.
----------Segundo a interpretação
feita pelos signatários do documento, o texto do Ministério
admite que há água para o abastecimento doméstico
na região”. Ou seja, o problema é a “inibição
de atividades produtivas”, pois os “usuários
já estabelecidos pressionam por manter seus direitos de uso,
mesmo quando não prioritários para o consumo humano”.
----------Além disso, a obra
está orçada em R$ 4,5 bilhôes. As empreiteiras
da região, acostumadas às regalias da indústria
da seca, esperam ansiosas.
ALTERNATIVAS
NÃO FALTAM
----------Na
audiência que teve com o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, dia 15, frei Luiz Cáppio não se limitou
a criticar a transposição do Rio São Francisco.
Ele levou consigo um documento elaborado por cerca de50 militantes,
opositores do projeto, contendo propostas alternativas de desenvolvimento
e do convivência com o Semi-árido. De acordo com os
especialistas têm origem na grande concentração
de terra, na exploração do trabalhador rural e no
uso predatório dos recursos naturais. Elementos essenciais
da indústria da seca.
----------Para eles, a superação
desses pontos, por meio de uma cultura de convivência com
o Semi-árido é a resposta para os para os problemas
da população sertaneja. A primeira proposta nesse
sentido é a realização de uma reforma hídrica
que democratize as águas estocadas nos 70 açudes da
região, o abastecimento da população que habita
a Bacia do São Francisco, o aproveitamento das águas
superficiais e subterrâneas, uma redução das
perdas com redistribuição e reuso da água e
uma minuciosa captação da água da chuva.
INDÚSTRIA DA SECA
----------Dada
a alta concentração fundiária da região,
o segundo ponto para enfrentar a indústria da seca passa
a ser a reforma agrária. Também é necessário
demarcar e titular territórios indígenas, quilombolas
e de comunidades tradicionais ribeirinhas e regularizar as terras
da União e devolutas, aumentando a oferta territorial.
----------O documento apresenta
propostas sócio-culturais, para valorizar a identidade da
população e facilitar o entendimento da concepção
de convivência com o clima: fortalecimento das identidades
culturais da população local por meio da sua inclusão
na formulação de políticas públicas,
divulgação de técnicas de convivência
com o Semi-árido (cisternas, barragens subterrâneas,
cacimbões, entre outras), fomento a projetos de educação
ambiental e valorização da expressão artística
regional.
----------O texto enfatiza
ainda a importância do controle social sobre o Estado. Por
fim, frei Luiz sugeriu a Lula políticas de conservação
e utilização sustentável da biodiversidade
e da agrobiodiversidade, fontes mais limpas e renováveis
pra oferecer segurança energética à região,
e reivindicou a recuperação de áreas degradadas
e desertificadas.