Artigo de
Dom Thomas Balduíno sobrea a Transposição
do rio São Francisco, na FSP, 13/01/2006, p. A3.
Lula, o bispo
e o fórum
DOM TOMÁS BALDUINO
----------Dom
Luiz Cappio, o bispo de Barra (BA) que fez aquela greve de fome
em Cabrobó, às margens do São Francisco,
contra a transposição do rio, teve uma audiência
com o presidente Lula em meados de dezembro. Por insistência
de dom Luiz, participei do encontro.
----------A conversa, no Palácio
do Planalto, durou mais de duas horas. O bispo, primeiro de viva
voz, depois entregando uma série de escritos, deu dez razões
"por que somos contrários ao projeto de transposição
do rio São Francisco". Do lado do governo, da boca
do presidente Lula, veio esta declaração: "Não
posso tirar a transposição".
Das anotações que fiz no evento consta o registro
de uma insistente pergunta de Lula ao bispo, a mesma feita em
quatro momentos daquele diálogo: "Qual é o
seu fórum?". Dom Luiz, com a sabedoria do pastor e
com a humildade de Francisco de Assis, preferiu guardar silêncio.
Não respondeu à pergunta.
----------Eu sou testemunha do que
antecedeu a Cabrobó, do que aconteceu lá e do que
eclodiu no sertão depois daquela greve de fome. É
por isso que tomo a liberdade de responder a essa pergunta de
Lula, que acho muito pertinente e plausível.
----------Uma observação
preliminar. Naquela sala da Presidência da República,
dom Luiz falou com a energia e a virulência dos profetas.
Isso ensejou no presidente uma viva reação e, no
ministro Ciro Gomes, um desabafo pouco sereno. A verdade é
que, em torno daquela mesa do presidente, não deve ser
muito comum comparecer gente, como esse bispo, falando face a
face, com franqueza, sem bajulação hipócrita,
mas em cujo íntimo, por todos nós conhecido, mantém
a mais sincera admiração, a mais profunda estima
e a maior expectativa pelo nosso presidente.
Eu sou testemunha do que antecedeu a Cabrobó.
É por isso que tomo a liberdade de responder a essa pergunta
de Lula
----------E
qual é o fórum? O fórum ao qual dom Luiz
está ligado não é nenhum poder do tipo midiático,
capaz de estabelecer uma correlação de forças
com o poder que está aí. E, respondendo a indagações
precisas de Lula, diria que o fórum não são
as assinaturas aos milhões, pois delas haveria de fato
dos dois lados. Não são os movimentos sociais, pelas
mesmas razões. Nem são os bispos da CNBB, infelizmente
divididos nesta questão. Não são tampouco
os técnicos posicionados em trincheiras opostas.
----------Esse fórum é
o povo pobre do semi-árido. É a gente pela qual
o frei resolveu dedicar a sua vida desde a juventude. Ainda na
condição de frade, caminhou a pé por toda
a bacia do São Francisco e penetrou no semi-árido
setentrional. Ia visitando toda aquela gente, família por
família, olhando sua difícil situação,
escutando seus clamores. Ia confortando-os e, sobretudo, infundindo-lhes
um novo ânimo, uma nova esperança a partir deles
mesmos, de sua autocompreensão e auto-estima, não
mais como objetos da manipulação dos políticos,
mas como dignos sujeitos, autores e destinatários de sua
própria história.
----------São os índios,
os negros quilombolas, os camponeses, os homens e as mulheres
do sertão em busca da terra e das águas de viver,
trabalhar e conviver. São os que não têm nem
voz nem vez, abandonados, jamais ouvidos pelas autoridades. São
as vítimas da violência dos grandes, os despejados
pelo latifúndio e pelo agronegócio, os atingidos
e deportados pelos grandes projetos, muitas vezes com a conivência
do poder público.
----------Essa caminhada do dom frei
Luiz Cappio com os pobres do semi-árido já tem cerca
de 20 anos. Ora, tudo parecia muito calmo e normal, quando, de
repente, a paisagem do sertão mudou. A partir do momento
em que esses sertanejos viram o bispo colocar radicalmente a sua
própria vida pela vida deles e pela vida do rio São
Francisco, acorreram pressurosos ao santuário de Cabrobó.
No dia 4 de outubro, já eram cerca de 3.000 em torno da
minúscula capela de são Sebastião. Passando
em fila diante do frei peregrino, iam abraçá-lo
e receber sua bênção. E outros sertanejos
se juntaram a ele no mesmo gesto de greve de fome.
----------Na verdade, esse fórum
dos pobres, hoje, não depende mais do bispo, nem este pretende
ser seu procurador. Dom Luiz foi sua referência inicial
e simbólica, como um Gandhi do sertão, ou melhor,
como um novo Padre Cícero, o servidor de um povo não
laico, mas religioso e político.
----------Os que se levantaram a
partir desse gesto estão caminhando com as próprias
pernas em busca de algo mais que terra. Estão em busca
de uma radical transformação. Essa gente começou
a se mobilizar lúcida e corajosamente em assembléias.
Primeiro ali mesmo, em Cabrobó, no dia 4 de outubro. Depois,
em Juazeiro da Bahia, em Bom Jesus da Lapa, em Brasília,
e assim por diante, com uma nutrida agenda, que envolve outras
organizações de apoio, mas com seu inconfundível
protagonismo.
----------Este fórum ultrapassa
o São Francisco, vai muito além dos semi-áridos
meridional e setentrional. Na realidade, ele tem rosto de Brasil,
tem dimensão de América Latina. Este povo, com efeito,
não surgiu agora. Ele tem uma longa e sofrida história
de séculos de lutas e de revoluções, de conquistas,
de revezes e de resistência. Este povo é o verdadeiro
inspirador da opção solidária e patriótica
de dom Luiz Cappio, bem como da opção de outros
muitos e muitos mais.
----------Este
é o povo do futuro! É este o fórum!
Dom Tomás Balduino, 84, mestre em teologia e pós-graduado
em antropologia e lingüística, bispo emérito
da Diocese de Goiás, é o presidente da CPT (Comissão
Pastoral da Terra), órgão vinculado à CNBB
(Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).