Fundamentalismo, Religião, Ética e Transformação Social

Como buscar e encontrar os fundamentos da vida?

Frei Carlos Mesters, carmelita

I

Alguns aspectos da problemática em torno do fundamentalismo

“Fundamentalismo, Religião, Ética e Transformação Social”. Os quatro assuntos estão ligados entre si. Quando a religião se torna fundamentalista, a ética se torna conservadora e a transformação social corre perigo.

Fundamentalismo e busca dos fundamentos

Fundamentalismo tem a ver com a busca dos fundamentos. A busca dos fundamentos não é ruim. Quando as mudanças que ocorrem no mundo chegam a destruir o quadro tradicional de referências, as pessoas, todos nós, nos sentimos inseguros e vamos em busca de uma nova segurança, de um fundamento mais sólido. Nunca se buscou tanto os fundamentos da vida como hoje, pois nunca tivemos tantas mudanças em tão pouco tempo em tão grande quantidade, em tantos níveis da vida e em tal profundidade, como hoje. Nunca estivemos tão desligados dos fundamentos da vida: desligados da natureza, do nosso passado, da nossa cultura, desligados de nós mesmos e do fundamento último que é Deus. “Como buscar e encontrar os fundamentos da vida?” Esta é a questão.

Na nossa linguagem a palavra fundamentalismo tem uma conotação negativa. A afirmação “Fulano é um fundamentalista” não é nenhum elogio. A palavra sugere uma forma duvidosa de se buscar os fundamentos da vida. Existem muitas formas de busca dos fundamentos. Nem todas ajudam. Algumas atrapalham, e muito!

Tudo isto se aplica sobretudo à maneira como concebemos a ligação com o fundamento último da vida que é Deus. É na maneira de vivermos o relacionamento com Deus, que se concentra a questão do fundamentalismo. As imagens ou modelos que usamos para expressar o relacionamento com Deus são as que mais influenciam no comportamento humano. Os modelos patriarcal e monárquico foram e ainda são usadas, muitas vezes, para legitimar as relações de poder tanto na sociedade e na igreja como na família e na comunidade. Interferências e mudanças na maneira de se representar o relacionamento com Deus são as que mais provocam resistência e crise. Há pessoas que, em nome da fidelidade à tradição da fé, recusam qualquer forma de renovação ou atualização. Elas identificam Deus com a imagem que têm de Deus e consideram esta imagem como o fundamento último da sua vida. Não permitem que alguém o coloque em dúvida, pois é a sua segurança. Elas não se dão conta de que toda imagem de Deus é apenas uma imagem, uma metáfora, um símbolo, mas não é Deus. Deus não pode ser identificado com nenhuma imagem, seja ela qual for. Ele ultrapassa tudo. O fundamentalismo é uma tentativa de obrigar Deus a ser como nós o queremos.

Várias maneiras de se buscar os fundamentos

*  Na renovação da Vida Religiosa, se insiste muito em voltar às origens, aos fundamentos. Os Círculos Bíblicos são uma forma de reatar com os fundamentos da vida e da fé e estão dando resultados positivos tanto na linha da ética como da transformação social. Por outro lado, cresce em toda parte a interpretação fundamentalista da Bíblia, leitura ao pé da letra, que, muitas vezes, impede a abertura e a renovação. Na igreja católica a interpretação fundamentalista foi condenada, pela primeira vez, em 1992 no documento da Pontifícia Comissão Bíblica “Sobre a interpretação da Bíblia na Igreja”.

* A política de Apartheid na África do Sul era baseada numa leitura fundamentalista da Bíblia. A destruição de grande parte da religião e da cultura dos povos indígenas da América Latina na século XVI estava baseada numa leitura fundamentalista do livro de Josué. O romance “Deixados para trás”, com mais de 50 milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos da América do Norte, traz uma leitura fundamentalista do Apocalipse que teve influência decisiva na vitória de Bush.

* Foi o fundamentalismo que, alguns anos, atrás levou um judeu, após a leitura do livro de Ester, a matar uma dezena de muçulmanos em Hebron, junto ao túmulo de Abraão e Sara. O fundamentalismo muçulmana leva jovens a transformar-se em bombas vivas para matar os outros em atentados terroristas suicidas. O fundamentalismo cristão levou à inquisição, às excomunhões e à morte de muitas pessoas na fogueira.

* Nasci na Limbúrgia, Países Baixos. Antigamente, o dialeto se evitava. “Coisa da roça!”, assim diziam. Era chique falar o holandês. Hoje, se escreve em dialeto e até gramática do dialeto se faz. O mesmo vale para o renascimento e revalorização das línguas indígenas. A linguagem é um fundamento básico da vida humana.

* Nos anos 40, só sobrava um pequeno grupo dos índios Tapirapé. Estavam num processo de extinção. Eram cada vez menos. Tinham perdido os fundamentos da vida. As irmãzinhas de Jesus foram morar com eles. Não falavam de Jesus, mas, como Jesus, eram uma presença amiga falando da vida. Hoje, os Tapirapés são centenas. Descobriram um novo fundamento.

* A passagem pela “Noite Escura”, de que fala São João da Cruz, representa a descoberta dolorosa de que a imagem que a pessoa se fazia de Deus não era Deus, mas apenas uma sua imagem.

* Grande parte das guerras no presente e no passado nasceu e continua nascendo de uma leitura fundamentalista dos textos sagrados, tanto da Bíblia como do Al Corão.

Estes poucos exemplos mostram como Fundamentalismo, Religião, Ética e Transformação social estão intimamente ligados entre si. Mostram como a atitude fundamentalista tem uma influência profunda sobre a maneira de se viver a religião, sobre nosso relacionamento com Deus, sobre o comportamento moral das pessoas e sobre a política. Mostra também como é importante a busca dos fundamentos para que se possa sair dos impasses da história e descobrir um novo horizonte de esperança. Volta a pergunta que colocamos no título: Como buscar e encontrar os fundamentos da vida?

II

Olhar no espelho da Bíblia em busca de alguma luz

Iluminar a partir da Bíblia é possível?

Como iluminar, a partir da Bíblia, o problema do fundamentalismo, se, no passado, a interpretação da Bíblia causou tantos males e se na própria Bíblia encontramos tantos sinais negativos de fundamentalis­mo? Por ex;, as guerras de Judas Macabeu, exterminando em nome de Deus populações inteiras (2Mac 12,15-16.19.23.26.28). O livro do Deuteronômio tem passagens que, quando interpretadas ao pé da letra, legitimariam a ação da CIA, os grampos telefônicos e a execu­ção sumária de pessoas que pensam diferente (Dt 13,7-12.13-19).

É verdade, tudo isto se encontra na Bíblia. Mas ela também registrou o esforço do povo de Deus para ultrapassar o fundamentalismo e atingir os verdadeiros fundamentos da vida. Neste sentido, um olhar no espelho da Bíblia pode trazer alguma luz. Quais os caminhos que a Bíblia oferece para buscar os fundamentos da vida?

Vamos analisar um período, na qual, como hoje, a busca dos fundamentos tomou conta da vida do povo. É o período depois do cativeiro. Mas antes disso uma pequena parábola que diz tudo. O resto que segue é comentário.

Uma parábola que resume tudo

 

O pai pediu ao filho para ir à rodoviária esperar uma tia já idosa que vinha de longe e que o filho ainda não conhecia. Deram a ele uma fotografia como meio de reconhecimento. Ele foi. O ônibus chegou na hora certa. Fotografia na mão, o filho ficou olhando as pessoas. Um pequeno detalhe. A foto era de 40 anos atrás. Conferindo bem as pessoas que desciam do ônibus, o filho não encontrou ninguém que, conforme a foto, pudesse ser sua tia. Quando desceu a última pessoa, uma senhora, o filho mostrou a foto e perguntou: “Desculpe! Por acaso, a senhora viu se esta pessoa estava no ônibus?” Ela olhou a foto, sorriu e disse: “Sou eu!” O filho conferiu o rosto com a foto e disse: “A senhora pode enganar os outros, mas não a mim!” Voltou para casa e disse: “Chegou não, pai!” 

Moral da história: o filho teve mais fé na foto da tia do que na própria tia!

 

A grande mudança que provocou a busca dos fundamentos

No mês de agosto de 587 a.C, Nabucodonosor, rei da Babilônia, mandou destruir a Cidade de Jerusalém (2Rs 25,8-12; Jr 52,12-16). Perderam tudo que, até àquele momento, tinha sido a garantia visível da presença de Deus: O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16), já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sempre (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16). O povo perdeu a independência política e se tornou um grupo étnico, perdido no meio de um império multi-cultural e multi-racial. Os sinais tradicionais da presença de Deus foram destruídos como vaso de vidro que se quebra em mil pedaços. Desapareceu o quadro de referências que tinha orientado o povo até àquele momento. Esta desintegração sem precedentes provocou uma busca renovada e variada dos fundamentos da vida.

As várias direções em que eles buscaram os fundamentos

1. A maioria silenciosa: adotou os deuses do império

A maioria dos exilados acomodou-se e começou a freqüentar a religião da Babilônia com suas procissões grandiosas e imagens majestosas. Adotaram os ídolos e o jeito de viver dos grandes. Esqueceram o próprio passado e passaram a identificar a presença de Deus com as expressões religiosas do povo da Babilônia. Era a sua maneira de ligar-se de novo aos fundamentos da vida. Este grupo parece ter sido o mais numeroso, a maioria silenciosa, pois o que mais transparece nos escritos daquela época é a denúncia dos ídolos da Babilônia (Is 44,9-20; Ba 6,1-72; Sl 115,4-8). Hoje também, a maioria silenciosa busca os fundamentos da vida no caminho mais cômodo do consumismo, a nova religião do império neoliberal com seus templos grandiosos.

2. Zorobabel e Josué: queriam reeditar o passado

Para outros, o fato de estar fora da terra era o mesmo que estar longe de Deus! Eles consideravam a épo­ca dos reis como o modelo a ser imitado por todos. Identificavam a presença de Deus com o Templo, a monarquia e a posse da terra. Era a sua maneira de reatar com os fundamentos da vida. Deste grupo eram Zorobabel, Josué, o profeta Ageu e outros. Eles voltaram para Palestina em 520 aC, depois que Ciro permitiu o retorno (Esd 1,2-4). Queriam a todo custo reconstruir o templo, restaurar a monarquia e recuperar a independência política. Mas não tiveram futuro. Desapareceram da cena. Hoje, alguns sonham com o retorno da cristandade.

3. Neemias e Esdras: adaptaram a imagem antiga de Deus

O grupo liderado por Neemias, Esdras e uma parte da elite pensante achava que, em nome de Deus, deviam aceitar o jugo do rei estrangeiro, rezar por ele e colaborar com ele (Jer 27,6-8.12.17; 42,10-11). Ao mesmo tempo, queriam manter bem firme a consciência de serem o povo eleito de Deus, distinto e separado dos outros povos. Por isso, insistiam na observância da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça que proibia o contato com os outros povos (Esd 9,1-2). E para que todos os judeus, dispersos no império persa, se unissem neste esforço de serem a raça escolhida de Deus, criaram um movimento internacional, transformando Jerusalém em símbolo de unidade para todos (Ne 2,5). Esta era a maneira deles de reatar com os fundamentos da vida: de um lado, abertura frente ao poder imperial através da barganha para conseguir privilégios; de outro lado, fechamento frente aos outros povos através da observância da lei de Deus, pureza da raça e Jerusalém como centro do Povo de Deus. Uma atitude semelhante marca o relacionamento Igreja-Estado em muitos países.

4. Discípulos de Isaías: criaram uma nova imagem de Deus

Um outro grupo achava que a solução não era voltar ao passado nem acomodar-se no presente, nem buscar favores ou adaptar-se às exigências do império, mas sim aprender a ler com outros olhos a nova situação em que se encontravam. Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos quer ensinar por meio deste fato tão trágico do cativeiro?” Eles procuravam voltar às origens do povo. Reliam as histórias do passado para encontrar nelas uma luz que os ajudasse a redescobrir a presença de Deus naquela terrível ausência. Deste grupo eram os discípulos e discípulas de Isaías, cuja experiência, registrada em Isaías 40 a 66, foi um marco importante na história do Antigo Testamento. A crise da mudança, em vez de levá-los à perda da fé em Javé ou a uma restauração do passado, foi para eles uma ocasião de purificação e de renascimento. Era a maneira deles de buscar os fundamentos da vida, mais ou menos como os que hoje seguem o método ver, julgar e agir para sair do impasse e descobrir um novo horizonte. Sua influência chega até o Novo Testamento. Jesus lhes deve muito. 

O Rumo que a história tomou

Destas quatro tendências só o grupo de Isaías conseguiu romper com o modelo tradicional e criar uma nova imagem para expressar o relacionamento com Deus. Os outros ficaram presos nos modelos ou fundamentos antigos: o templo, a lei, a raça, a monarquia, a posse da terra, Jerusalém. Pararam na foto e por ela se desorientaram. Não foram capazes de reconhecer a presença e os apelos de Deus nos fatos novos que estavam acontecendo.

Depois do cativeiro, o grupo da maioria silenciosa diluiu-se no império. O da independência política e do retorno ao passado desapareceu. Provavelmente, foi eliminado pelo império e pelo tempo. A experiência dos discípulos e discípulas de Isaías continuou viva, animando o povo, mas como força subterrânea, não oficial. O projeto do grupo de Neemias e Esdras se impôs e tornou-se a proposta oficial, aparentemente a mais viável naquele contexto, pois muitos deles tinham adquirido bons empregos e posições vantajosas na nova pátria, como transparece nas entrelinhas de vários livros (Ne 2,1-9; Esd 7,11-26; Tb 1,12; Es 2,16; 6,10-11; Dn 3,97).

Assim, em 445, Neemias, ministro do rei da Pérsia, consegue licença para ir a Jerusalém, reorganizar o povo ao redor do Templo e reconstruir as muralhas da cidade (Ne 2,4-9; 3,38). Doze anos depois, ele voltou para o seu emprego em Suza, capital do império (Ne 2,6; 13,6). Em 398, também com o apoio do rei, Esdras dá continuidade à obra de Neemias (Esd 5,1 a 6,22). Ele consegue o privilégio de se viver segundo a Lei de Deus sem atender às exigências da religião dos ídolos. O rei Artaxerxes chegou a dizer a Esdras: “Quem não obedecer à lei do seu Deus que é a lei do rei, será castigado rigorosamente com morte ou exílio, multa ou prisão” (Esd 7,26).

A proposta de Neemias e Esdras carregava no seu bojo uma contradição. De um lado: abertura e barganha frente ao poder político e econômico. De outro lado: isolamento e separação do povo de Deus frente às outras religiões e culturas. Desta ambigüidade inicial nasceram dois partidos que se tornaram inimigos irreconciliáveis, ambos lutando pela liderança, mas ambos irmãos, filhos da mesma contradição original.

O grupo da abertura e barganha identificava a presença de Deus com a obediência à lei do Rei. Eles conseguiram a liderança política e econômica e, sem nenhuma sensibilidade para com a religiosidade do povo, impunham aos outros tudo que vinha do império, inclusive a cultura grega e as expressões do culto imperial: jogos olímpicos, ginásio, uniformes, associações, construção das cidades, comércio, dinheiro (2Mac 4,12-14; 1Mac 1,11-15). Eles deram origem aos saduceus e à elite sacerdotal.

O grupo do isolamento e da separação identificava a obediência a Deus com a observância da lei de Deus. Eles conseguiram a liderança religiosa e cultural e tinham grande influência sobre a consciência do povo. Eles deram origem aos fariseus e doutores da lei. Para defender o povo contra a agressão da elite econômica e política e ajudá-lo a manter sua identidade como povo eleito de Deus, eles se fechavam cada vez mais na estrita observância da lei de Deus e na pureza da raça. Eles criaram um novo cativeiro, o cativeiro do fundamentalismo que se fechou na letra, na pureza da raça e na observância das leis. Este novo cativeiro levou-os ao isolamento total entre as nações, à expulsão das mulheres estrangeiras (Esd 10,1-44) e aos massacres realizados por Judas Macabeu (2Mac 12,15-16.19.23.26.28).

Duas observações a respeito do fundamentalismo

Paradoxalmente, o fechamento quase irracional em torno da lei de Deus evitou que os pobres fossem desintegrados pela política desastrosa e opressora daquela elite estúpida que barganhava favores junto aos poderes públicos do império e agredia o povo com a imposição de costumes estrangeiros. O fechamento foi a única saída que sobrou para os pobres e foi assim que, após 400 anos, Jesus os encontrou nas aldeias da Galiléia. Mesmo formado no fundamentalismo alienante dos fariseus da época, os pobres, diferentemente dos fariseus, continuavam abertos para a mensagem de vida que Jesus que lhes revelava (Mt 11,25-27). A história se repete até hoje! Clericalismo e fundamentalismo podem até proteger em casos especiais, mas não trazem vida. O povo aguarda a mensagem da vida que vem de Jesus. Algo semelhante ocorreu depois do Concílio Vaticano II, a crítica das grandes imagens dos santos nas igrejas, feita sem consideração pelo jeito de ser do povo, fez aumentar a venda das imagens pequenas que o povo comprava para colocar no pequeno santuário das suas casas.

Do outro lado, até hoje, o mundo continua confuso por causa destes mesmos três motivos que geraram o fundamentalismo. A exaltação da raça levou o nazismo a matar seis milhões de judeus e é causa de massacre em muitas partes do mundo. A observância da Lei de Deus levou a inquisição a matar muitos heréticos e a queimar muitas pessoas na fogueira. A concentração em torno de um único Templo levou a muitas guerras de religião, a perseguir gente que pensa diferente e a achar que os de outra religião são inferiores.

III

Caminhos para superar o fundamentalismo

Ao longo dos séculos, desde o cativeiro até o Novo Testamento, a experiência de Jeremias e dos discípulos e discípulas de Isaías, mesmo abafada, continuava viva na base e fazia sentir a sua presença. Os capítulos 40 a 66 de Isaías, os livros de Qohelet, Jó, Jonas, Rute, Judite, Cântico dos Cânticos e alguns outros livros são uma expressão desta resistência. Cada vez de novo, eles procuravam recolocar o relacionamento com Deus em novas bases que respeitassem tanto a vida humana como o próprio Deus. Eis algumas das tentativas que foram feitas para evitar que a Boa Nova de Deus fosse aprisionada em normas, imagens, leis, poderes, dogmas ou instituições, ou que estas mesmas normas, leis ou símbolos impedissem a redescoberta da presença de Deus na vida.

1. Jeremias: recuperar o contato com a natureza

No cativeiro muitos diziam: “Deus nos abandonou” (Jer 33,23; Is 40,27; 49,14). “Acabou-se a esperança que vinha de Deus” (Lam 3,18). Este desespero nasceu do fato de eles terem identificado Deus com os sinais da presença divina. Desaparecendo os sinais, desaparecia o próprio Deus. Perderam a foto e pensavam que com ela Deus tivesse desaparecido. Jeremias ajudou a perceber a presença de Deus de outra maneira. Ele dizia: “Temos muito motivo de esperança!” Perguntavam: “Que motivo?” Respondia: “O sol vai nascer amanhã!” Jeremias recuperou o contato com a natureza como manifestação de Deus: “Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite, aquele cujo nome é Javé dos exércitos: quando essas leis falharem diante de mim – oráculo de Javé – então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jer 31,35-36; cf Jer 33,19-21). O movimento ecológico tem muito a nos dizer.

2. Isaías: nova imagem para expressar o relacionamento com Deus

Os exilados judeus viviam desenraizados na imensidão do império babilônico (587 a 535) e persa (535 a 332). Como tantos exilados e migrantes de hoje, o único espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, os filhos, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte da vida já não existia: a organização mais ampla da tribo, a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia. Nada disse tinha sobrado. Ora, em vez de achar que Deus tivesse desaparecido, foi exatamente neste espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que eles reencontraram a presença de Deus. A nova imagem de Deus reflete este ambiente familiar da casa, pois Deus é apresentada por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). O Deus que antes estava ligado ao Templo, ao sacerdócio, ao culto oficial, à Monarquia, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da vida familiar e comunitária de cada dia. Eles, por assim dizer, humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida como o espaço do reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído!

3. Reler a Tradição à luz da nova experiência de Deus

A redescoberta da presença de Deus no ambiente familiar e comunitário da “casa” e não do Templo foi uma fonte de luz e de criatividade para reler e repensar, um por um, todos os valores tradicionais do passado, libertá-los dos erros e das limitações e adaptá-los à nova situação. A nova experiência de Deus e da vida os fez ultrapassar as fronteiras das imagens tradicionais e ajudou-os a redescobrir a verdadeira Tradição Na releitura que fizeram, mantiveram as palavras, mas deram-lhes um sentido novo, o contrário do fechamento fundamentalista de Esdras: 

*  O povo de Deus não é uma raça, pois também os estrangeiros fazem parte (Is 56,3.6-7).

*  O templo não é só para os judeus, mas é casa de oração para todos os povos (Is 56,7).

*  O culto é universal, pois os excluídos como estrangeiros e eunucos dele participam (Is 56,3-7).

*  O sacerdócio não é só de Levi ou de Sadoc, mas também de estrangeiros lá do Egito (Is 66,20-21).

*  O reino não é a monarquia de Davi, mas sim o Reino Universal do próprio Deus (Is 52,7; 43,15).

*  O messias, o “ungido”, não é só o rei davídico, mas também Ciro, o Rei da Pérsia (Is 45,1; 44,28).

*  A eleição não é um privilégio que separa, mas sim um serviço que os une à humanidade (Is 42,1-4).

*  A missão não é ser um grupo separado, distinto dos outros, mas sim ser “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6)

*  A lei de Deus não é só para Israel, mas todos os povos nela encontram uma luz (Is 2,1-5).

* Jerusalém não é centro só dos judeus, mas sim centro de peregrinação para todos os povos (Is 60,1-7).

4. Qohelet: reconstruir o tecido da convivência humana

O cativeiro desarticulou o quadro tradicional dos valores da vida. As soluções propostas por Zorobabel, Josué, Esdras e Neemias, em vez de reconstruir a convivência humana, contribuíam para miná-la ainda mais, tanto por parte da elite sacerdotal que impunha costumes estrangeiros e promovia a abertura frente o poder político e econômico, como por parte dos escribas que se fechavam na observância da lei. Qohelet oferece critérios para o povo adquirir uma consciência mais crítica e clara a respeito das tendências da época e perceber melhor os valores da vida. Ele critica tanto a sede de riqueza da elite (Qo 2,1-16; 5,9-16) e a sua mania de correr atrás das novidades do império (Qo 1,10-11), quanto o fechamento dos escribas e a sua pretensa justiça (Qo 7,15-16). Com palavras diferentes, ele repete, do começo ao fim: “Tudo é vaidade!”, miragem, ilusão! Parece até um estribilho que sempre volta (Qo 1,2.14.17; 2,1.11.15.17.19.21.23.26; 3,19; 4,4.8.16; 5,9.15.19; 6,2.9.12; 7,6.15; 8,10.14; 9,9; 11,8.10; 12,8). Ao mesmo tempo, por meio de um outro estribilho, repetido sete vezes ao longo das páginas do livro (Qo 2,24-25; 3,12-15; 3,22; 5,17-19; 7,13-14; 8,15; 9,7-10), Qohelet aponta uma outra saída, que pode ser resumida da seguinte maneira: “Nada há de melhor para o ser humano do que alegrar-se, comer e beber, desfrutar o fruto do trabalho e gozar a vida com a esposa amada, pois tudo isto vem da mão de Deus”. Qohelet convida o povo a reencontrar o fundamento da existência na vida em comunidade, na família e no trabalho honesto e experimentar em tudo isto o dom de Deus. Todo o resto, que não contribui para a reconstrução das relações primárias neste núcleo básico da convivência humana é vaidade, perda de tempo, corrida atrás do vento, peruca em careca, enxerto em galho morto. Para ele o fundamento é este: melhorar, reconstruir e garantir o relacionamento humano em bases de fraternidade na família, na comunidade! Tudo deve estar a serviço do fortalecimento deste núcleo básico da vida, hoje tão ameaçado. 

5. Jó: fazer uma crítica radical à teologia da retribuição

O livro de Jó é o que melhor ajuda a perceber como a imagem que temos de Deus repercute na organização econômica, social, política e religiosa da sociedade, e como a tensão entre a antiga e a nova imagem de Deus afeta todos os setores da vida. Naquele tempo, a visão tradicional dizia e repetia: “Sofrimento e pobreza são castigo de Deus. Riqueza e bem-estar, sinais de recompensa divina!” Até hoje, este é o fundamento da assim chamada Teologia da Retribuição. Esta maneira de representar o relacionamento entre Deus e o ser humano beneficiava a elite e dava aos pobres e sofredores um complexo de culpa e inferioridade. O livro de Jó verbaliza a tensão entre a tradição dominante da elite e a incipiente consciência rebelde dos sofredores. O livro é um teatro. Jó representa os sofredores, cuja consciência estava começando a se rebelar. Os três amigos representam a visão tradicional, que eles defendem com unhas e dentes. A cabeça de Jó, formada pelo catecismo da tradição dominante, dizia: “Jó, você sofre e é pobre porque você é pecador! Deus está te castigando!” Mas o coração, a consciência, dizia: “Deus é injusto comigo! Não pequei! Quero brigar com Ele para me defender”. Jó acusa Deus e critica aos três amigos, que identificavam a presença de Deus com o nível econômico das pessoas: “Vocês usam mentiras e injustiças para defender a Deus!” (Jó 13,7). “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!” (Jó 7,27). A frase final de Jó é uma chave para todo o livro e para todos os tempos. Ele se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42,4-6). Jó teve uma nova experiência de Deus e descobriu que a sua luta não era contra Deus, mas contra aquela imagem de Deus que falsificava a consciência das pessoas e impedia a convivência. Ele renasceu!

6. Jesus: reconstruir a convivência como revelação do rosto de Deus

Na época de Jesus, as leis da pureza, herança do fundamentalismo de Neemias e Esdras, dificultavam e até destruíam a convivência nos povoados da Galiléia. As muitas normas criavam um ambiente de desconfiança mútua entre as pessoas, transformavam a observância da Lei de Deus em fonte de medo e de exclusão e tornavam impossível a vida comunitária. O ponto em que Jesus mais insiste é a reconstrução da vida comunitária. A experiência de Deus como Pai é a raiz do anúncio do Reino. Ela gera uma prática nova. Se Deus é pai, somos todos irmãos e irmãs. A Comunidade deve ser como o rosto acolhedor e amoroso de Deus, transformado em Boa Nova para o povo.

Ao contrário dos outros missionários, os discípulos e as discípulas de Jesus não podem levar nada, nem bolsa, nem sacola, nem dinheiro, nem bastão, nem cajado, nem sandálias, nem sequer duas túnicas (Mt 10,9-10; Mc 6,8; Lc 10,4). A única coisa que podem levar é a paz (Lc 10,5). O missionário vai sem nada, porque acredita que vai ser recebido. Sua atitude provoca no povo o gesto evangélico da hospitalidade (Lc 9,4; 10,5-6). Eles devem ficar hospedados na primeira casa em que forem acolhidos. Não podem andar de casa em casa, mas devem conviver de maneira estável e, em troca, recebem sustento, “pois o operário merece o seu salário” (Lc 10,7). Ou seja, devem integrar-se na vida e no trabalho da comunidade local, no clã, e confiar na partilha. Não podem levar sua própria comida, mas devem comer o que o povo lhes oferece (Lc 10,8). Isto é, devem aceitar a comunhão de mesa, e não podem ter medo de perder a pureza no contato com o povo. A convivência fraterna é um valor evangélico que prevalece sobre a observância das normas rituais. Como tarefa especial devem praticar a acolhida e cuidar dos excluídos: doentes, possessos, leprosos (Lc 10,9; Mt 10,8). Isto é, devem exercer a função do Go´êl e acolher para dentro da comunidade e refazer a vida comunitária do clã. 

Estas recomendações de Jesus aos discípulos e discípulas criticam as leis excludentes da pureza e reforçam os valores centrais da vida comunitária: a paz, a hospitalidade, a comunhão de mesa, a partilha e a acolhida dos excluídos.

Caso todas estas exigências forem preenchidas, poderão gritar aos quatro ventos: “O Reino chegou!” (cf. Lc 10,1-12; 9,1-6; Mc 6,7-13; Mt 10,6-16). Pois o Reino não é uma doutrina, mas sim uma nova maneira de viver e conviver, nascida da Boa Nova que Jesus nos trouxe de que Deus é Pai. Devem recriar e reforçar a comunidade local, o clã, a “casa”, para que possa ser novamente uma expressão da Aliança, do Reino, do amor de Deus como Pai que faz de todos irmãos e irmãs. 

 

IV

Resumo Final

Recuperar rosto por de trás da foto

O mais importante não o texto, a letra, a imagem, a doutrina, o dogma, o rito. Tudo isto é foto, manifestação importantíssima, mas ocasional e limitada de uma realidade mais profunda e muito mais ampla, que é a experiência de Deus e da vida, que se expressa e aflora nos textos e que, através dos textos, deve ser despertada em nós. Os textos, as imagens, são janelas que permitem olhar para dentro desta realidade e perceber o que está acontecendo lá no mais íntimo da vida do povo de Deus, no mais íntimo de nós mesmos. O texto serve de critério de orientação, de cânon, nesta descoberta progressiva de Deus na vida. É mapa de viagem. A função do texto é conduzir as pessoas para um contato vivencial com a realidade por ele expressa e nele escondida. “A letra mata; é o Espírito que dá vida (à letra)” (2 Cor 3,6). Libertar da prisão da letra é o primeiro passo para superar o fundamentalismo. É também o passo mais difícil na prática: ultrapassar a letra que mata e usar o bom senso do Espírito

Nos nossos encontros, no primeiro dia, carregamos um crachá com o nosso nome. Você chega e procura a pessoa pelo nome escrito no crachá, até encontrá-la. Na hora em que a encontra, você não olha mais o crachá, mas levanta a cabeça e olha o rosto. E o nome que, antes, era só um nome, torna-se agora a janela de um rosto, a revelação de uma pessoa. Geralmente, a pessoa é diferente da idéia que a gente se fazia dela antes de conhecê-la. Quanto maior a convivência com a pessoa, maior será o significado e a densidade do nome. O nome evoca tudo que a pessoa fez para mim. Assim, na Bíblia, a convivência com Deus ao longo dos séculos deu significado e densidade ao nome de Deus.

Na Bíblia, Deus recebe muitos nomes e títulos, muitos símbolos e gestos, que exprimem o que ele significa ou pode significar para nós: Templo, Raça, Monarquia, Jerusalém, Sacerdócio, Sacrifícios, Holocaustos. Mas o nome próprio de Deus é JHWH. O seu significado profundo é descrito no livro de Êxodo por ocasião da vocação de Moisés (Ex 3,7-15): Estou com você! A Bíblia permite ter dúvida de tudo, menos de uma coisa: do Nome de Deus, isto é, da certeza absoluta da presença de Deus no nosso meio, expressa no próprio nome JAVÉ: “Ele está no meio de nós!”

A Bíblia nada mais é do que a história deste Nome, vivido e lembrado, usado e abusado, contado e cantado representado e verbalizado pelo povo nas muitas e variadas circunstâncias e crises da sua história. O Nome Javé aparece mais de 7000 vezes, só no Antigo Testamento! É o pavio ao redor do qual se colocou a cera das histórias. É a janela aberta, através da qual Deus vem até nós, nos revela a sua face e nos atrai, e através da qual nós temos acesso a Ele. “O teu Nome e a lembrança de Ti resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8). O Nome é o lugar do encontro com Deus, sempre disponível para quem o invoca.

O trágico aconteceu (e continua acontecendo) quando fizeram com que, aos poucos, aquilo que era um rosto vivo e amigo, presente e amado, se tornasse um retrato rígido e severo, que foi criando medo e distância entre Deus e o seu povo. Trocaram o rosto pela foto! A religião estruturada ao redor da observância das leis, do culto no templo e da pureza da raça, abafava a experiência mística, e impedia o retorno ao fundamento, à origem, o contato com o Deus vivo. O Nome que devia ser como um vidro transparente para revelar a Boa Nova do rosto amigo e amoroso de Deus, tornou-se um espelho que só mostrava o rosto daquele que nele se contemplava. Trágico engano da auto-contemplação que acabou destruindo a convivência humana e a tornou opressora! Continuaram olhando o crachá, a foto, pensando que fosse Deus. Esqueceram de levantar os olhos para o rosto. Já não bebiam direto da fonte, mas da água engarrafada pelos doutores da lei. Até hoje, bebemos muita água engarrafada.

O fundamentalismo, alimentado pelo ritualismo e pelo moralismo, corta o contato com a fonte e mata a mística. Impede que cheguemos a captar o sentido profundo e vivencial tanto da vida como da Bíblia. A Bíblia, a letra, a história, ao invés de oferecer informações jornalísticas sobre um passado que já passou, oferece um acesso atual e permanente à nossa origem, à fonte de onde nascemos, à consciência comum do Povo de Deus e, assim, ela aprofunda em nós a identidade e a consciência da nossa missão. Ajuda a reencontrar o rosto vivo através da foto antiga.

Frei Carlos Mesters, carmelita, mestre em Exegese Bíblica e Doutor em Teologia Bíblica, co-fundador e assessor do CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, e-mail: cmesters@ocarm.org