Rápida memória e 4o Encontro Mineiro das CEBs
– o ONZINHO
As CEBs - Comunidades Eclesiais de Base – nasceram, há dois mil anos atrás, a partir de uma Boa Notícia para os empobrecidos e excluídos, trombeteada, em primeira mão por Maria Madalena, uma mulher que muito amava: JESUS RESCUSSITOU! Transfigurados pela utopia da ressurreição, os seguidores/as de Jesus se reuniram em pequenas comunidades a partir das CASAS, para testemunhar que somente relações de Amor verdadeiro vencem o poder do mal. Os projetos de Vida são mais fortes que os de morte. De fato, a Ressurreição representa para todos os cristãos e cristãs uma nova esperança após a morte de Jesus na cruz. Reacende uma luz para o projeto de libertação do povo oprimido.
No Brasil, podemos dizer que as CEBs passaram por um momento
de gestação, um de nascimento, crescimento e hoje já estão na maioridade. A
gestação foi protagonizada por alguns movimentos como a ACO – Ação Católica
Operária -, o MEB – Movimento de Educação de base -, o Movimento do Mundo
Melhor e pelos Planos de Pastoral da
CNBB. No final da década de 50 e início da década de 60, as CEBs pipocaram por
todo o Brasil no campo e nas periferias das cidades. Hoje existem mais de
100.000 por todos os cantos e recantos do Brasil. Tanto a gestação quanto o
nascimento das CEBs coincidem com o momento de intensa atividade política da
sociedade civil mundial, após 2a Grande Guerra, a divisão do mundo
em dois blocos de influência - capitalista e comunista -, a pressão da força
hegemônica desses dois blocos que culminou com o eclipse das utopias
socialistas após a queda do muro de Berlin, em 1989, e com o esfacelamento da
URSS, no Leste Europeu.
Somente em 1968, aconteceu o batismo das
CEBs. Foi em Medellín, na Colômbia, na 2a Conferência Episcopal da
América Latina, quando os bispos referendaram a Opção pelos Pobres.
Inicialmente chamadas de Comunidades Cristãs de Base, foram reconhecidas como o
primeiro e fundamental núcleo eclesial, responsável em seu próprio nível pela
riqueza e dinamização do projeto de Jesus de Nazaré. Foi assim a célula inicial
de estruturação eclesial e foco de evangelização.
A confirmação se deu em Puebla, no
México, em 1979, na 3a Conferência Episcopal latino-americana, mesmo
tendo encontrado sua legitimidade na palavra do magistério universal na Evangelii
Nuntinadi, 58. O Documento de Puebla assim se expressa: “As comunidades
eclesiais de base, que, em 1968, eram apenas uma experiência incipiente,
amadureceram e multiplicaram-se sobretudo em alguns países. Em comunhão com
seus bispos e como pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização e
em motores de libertação e de desenvolvimento”.
As CEBs ocuparam, principalmente a partir
da maturidade, importante papel na construção dos movimentos sociais no Brasil,
a ponto de serem consideradas “sementeiras de movimentos populares”; o papel da
organização, da crítica, do fortalecimento dos movimentos organizados que
lutavam contra as ditaduras militares que se instalaram em diversos pontos do
continente latino-americano. De fato, a maturidade das CEBs pode ser
compreendida em três momentos: O
primeiro, com o Documento da CNBB, em 1982, que reconhece: “Fenômeno
estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da
Igreja-instituição e tornaram-se “um novo modo de ser Igreja”. Ao redor
delas desenvolveu-se a ação pastoral e evangelizadora da Igreja. O segundo
momento aconteceu com o VI Encontro Intereclesial das CEBs, em Trindade/GO, em
1986, onde se cunhou a expressão – “CEBs: Um modo novo de toda a Igreja
ser.” Essa expressão mostrou que o espírito das CEBs deve fermentar
toda a instituição eclesial a partir da Opção pelos Pobres. Finalmente, o
terceiro momento pode ser compreendido na feliz expressão de D. Pedro
Casaldáliga – “CEBs: O modo normal de toda a Igreja ser.” Esta
expressão quer significar
que as questões fundamentais defendidas pelas CEBs devem ser assimiladas por
toda a Igreja-instituição, pois fazem parte da defesa da vida.
Atualmente, continuam sendo fator
primordial de promoção humana e de libertação integral. São comunidades
missionárias, proféticas e ecumênicas, isto é, abertas ao mundo, ao diferente,
aos pobres e excluídos, às diversas culturas e religiões e até mesmo aos que
não têm fé, mas trabalham e lutam pela justiça. A construção de uma sociedade
solidária e justa pressupõe a libertação de toda forma de preconceito e
discriminação, a disposição ao diálogo, a busca de novos caminhos que superem
as enormes barreiras e contradições sociais. Enfim a construção de uma
sociedade que tenha como fundamento o amor e a paz.
Dois aspectos principais nos dão a
certeza do papel insubstituível que pode ser assumido pelas CEBs: primeiro, a
formação cristã fundada em uma fé libertadora; segundo, o compromisso com os
destinos políticos do país, por meio de uma participação cidadã, extremamente
descentralizada, capilarizada por toda a sociedade civil, de forma consciente e
solidária, onde a tônica da organização sejam os interesses da comunidade e não
os interesses individuais. É nesses dois aspectos que queremos centrar a nossa
reflexão neste texto.
De 10 a 13 de junho de 2004, fomos privilegiados participantes do 4o Encontro Mineiro das CEBs, - “Onzinho” -, encontro/preparação para XI Intereclesial de CEBs, que acontecerá na Diocese de Itabira-Cel. Fabriciano, de 19 a 23 de julho de 2005. Estiveram presentes cerca de 1000 representantes das CEBs de MG, do ES, representantes de outros Estados e até visitantes internacionais. Cerca de 650 voluntários distribuídos nas diversas equipes de serviço revelaram que ofertar-se é doar, fazer-se presente agraciando.
Continua sendo o que há de mais forte no espírito das CEBs a convicção de que com a ressurreição de Jesus as utopias jamais morrerão, os sonhos de libertação jamais serão pesadelos, a luta dos pequenos será sempre vitoriosa (ainda que custe muito suor) e a forças da Vida terão sempre a última palavra. Por mais cruéis que sejam, todas as tiranias passarão! Se olharmos, com benevolência, em volta, veremos, surpresos, que os sinais de Páscoa superam os sinais de morte.
Diante de tantas dificuldades cotidianas, na família, na saúde, na política, e em tantos outros momentos da vida, os participantes mantiveram, do primeiro ao último momento do encontro, uma alegria contagiante, um entusiasmo indescritível. Reflexão sobre o tema ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA, seguir Jesus no compromisso com os excluídos, convivência e celebração foram regadas por muita música, muito ritmo e a certeza de trazerem, todos, os mesmos desejos no coração. De muitos cantos e recantos, chegaram os representantes, acreditando na possibilidade de uma vida em sociedade que não tenha como pressuposto único o mercado, o consumo, a alienação política, a redução do cidadão a mero consumidor, apatia geral e um Estado que foi visto por Marx e Engels, no Manifesto Comunista, como um comitê a serviço da burguesia.
O tema da Campanha da Fraternidade de 2004, ÁGUA: FONTE DE VIDA, continua firme na mente e no propósito de todos. A metodologia utilizada para os grupos de trabalho, deu o nome de grandes rios de Minas Gerais para demarcar os espaços de reflexão e estudo. O espaço maior, o da Espiritualidade Libertadora, recebeu todos os participantes, conjuntamente, e mereceu o nome de “Estação São Francisco”. Os outros plenários, denominados “vagões”, com os nomes de: Rio das Velhas, cujo lema foi a luta contra a mineração depredadora; o Rio Doce, que disse não às barragens; o Rio Pomba, com a luta contra o envenenamento dos rios e, finalmente, o “vagão” Rio Jequitinhonha marcou a luta contra as dragas que também levam morte à biodiversidade e às águas em uma das regiões mais pobres do planeta, o Vale do Jequitinhonha.
Nos “vagões”, tivemos a oportunidade de fazer o aprofundamento, a reflexão acerca da Espiritualidade das CEBs, o modo de discernir, em meio a tantas outras espiritualidades espiritualistas, a verdadeira espiritualidade, capaz de criar a esperança e a paz, para que possamos continuar vivendo em comunidade. Neste aspecto, temos muito que aprender com os povos indígenas. Foram profundamente marcantes. Envolveram todos os participantes na mesma dança – a dança do sol -, em um só ritmo, em uma só certeza: a dos riscos compartilhados. Os riscos de continuarmos – humanidade – insistindo neste modelo econômico/social de pseudodesenvolvimento. O modelo que separa os seres humanos da natureza, como se nós não fizéssemos parte dela mesma. Ao mesmo tempo, a força da união de todos os povos, capaz de superar toda diferença, bastante para unir toda a humanidade em uma só unidade. Partindo da bênção do fogo, da terra, do ar e da água – da mística -, os nossos parentes indígenas iniciaram uma celebração, que pouco-a-pouco foi envolvendo a multidão ali reunida, em um canto de louvor que irradiava irmandade fazendo-nos sentir todos irmãos e iguais. No final o cacique resumiu: “Nunca podemos esquecer que a força e a luz de Deus estão em nós. O nosso negócio é reunir. Ninguém é superior a ninguém. Somos todos irmãos e irmãs.”
A pastora Sônia, brilhante oradora da Igreja Metodista, indicou qual deve ser o farol a iluminar-nos na caminhada de CEBs. Ao lembrar o fundador da sua Igreja, John Wesley que reafirmava o já dito por Santo Agostinho: “No essencial, a unidade; no não-essencial, a liberdade; em tudo, o amor”. Este princípio é uma interessante resposta à encruzilhada em que nos colocamos frente ao desafio de construir uma sociedade democrática. A falência da democracia representativa abre enormes desafios à participação cidadã. Deve haver em nossa sociedade o lugar reservado a cada ser. A corrida individualista burguesa não pode deixar para trás um enorme contingente de pessoas que não têm acesso sequer ao essencial. Todavia, a participação e a decisão não podem, de outro lado, conduzir aos extremos da ditadura da maioria, há de ser preservado o espaço da liberdade de cada um. Por fim, a capacidade de distinguir, entre tantas possibilidades, o essencial do não essencial só pode ser encontrada quando fundada no amor. O amor verdadeiro que pode ser encontrado no modo verdadeiramente cristão de levar a vida, a forma como viviam as primeiras comunidades cristãs. Nessas comunidades não havia interesses individualistas assentados na propriedade privada. A marca da coletivização dos bens marcou a vida dos primeiros cristãos, com uma economia a partir das necessidades das pessoas.
Um dos pontos altos do encontro foi o momento das oficinas. Foram vinte e dois os temas tratados em grupos de aproximadamente 50 participantes. Vinte e duas tendas foram lugar de troca de saberes e da Espiritualidade libertadora vivenciada em muitos cantos e recantos. A vida foi tocada de diferentes maneiras. Navegamos nas águas do saber, descobrindo os desafios da luta dos nossos “parentes” indígenas; dos que fazem da arte o seu meio de resistência; dos Sem Terra aguerridos na luta por uma Reforma Agrária autêntica, aliados aos pequenos produtores no fortalecimento da agricultura familiar, orgânica e ecológica, de mãos dadas com os Atingidos pelos mais de 100 projetos de Barragens (só em MG); dos portadores de necessidades especiais. Passamos pelo sofrimento e luta do povo da rua, dos encarcerados, das mulheres, pela vitalidade da Terceira Idade, pela Economia solidária, e pelos grupos de fé e Política. Muita energia para fortalecer a luta pelos Direitos Humanos, pela Comunicação Popular e pelo resgate dos direitos dos afros descendentes. Iluminados pela Leitura Popular da Bíblia, a luta continua e segue adiante com a Juventude organizada, no sonho do ecumenismo e na perseverança de quem quer continuar a viver mesmo tendo o corpo dependendo de substâncias químicas. A alegria daqueles que, mesmo tendo o corpo necessitando de cuidados especiais, fez explodir um canto de alegria e louvor, no Circo da Esperança.
Enfim, saímos do encontro, de “tanque cheio”, com esperanças renovadas, convictos do compromisso de cada um/a e de todos nós, os participantes. Marcou-nos muito a doação de tantos voluntários e voluntárias que não mediram esforços para viabilizar todos os trabalhos, a comida na hora certa. Impossível esquecer a acolhida das famílias que abriram suas casas e corações, fraternalmente, para receber-nos. Valeu tudo! O nosso show vai continuar pela vida e já com data marcada para o próximo encontro! Ou, no som da voz de Elis Regina: A esperança... dança... / Na corda bamba de sombrinha / Em cada passo desta linha / Pode se machucar / Azar... a esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista tem que continuar. (Música O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc).
Frei Gilvander Luís Moreira
Email: gilvander@igrejadocarmo.com.br